Melhora de Ulisses
A seringa que está vazia, na mão de Ulisses, caído no quarto de Tomás. Ele abre os olhos, parece que ficou dias dormindo, mas pelo relógio, não faz muitas horas nem que saiu de casa. Sua roupa está toda rasgada, seu corpo tem manchas de sangue e algumas cicatrizes, mas nenhum machucado. Há algumas dores, mas não entende do que.
Suas veias parecem se mexer sob a pele, mas talvez esteja delirando do que quer que seja que tenha se injetado com aquela seringa. Estranho, fora isso, está tudo normal. Só não sabe o que faz no quarto de Tomás.
Tateia o chão, o lençol caído ao lado da cama, a escrivaninha. Se apoia, se senta. Há a impressão de novamente ter algo se mexendo, mas deve ser só delírio novamente. O redor está girando um pouco, deve ter bebido. De quem é aquele sangue todo? Não importa… né? O que importa é o que vem à sua memória.
Sua amada Bianca com quem discutiu horas antes de sair de casa. O motivo também não lembra, também não importa. Ela é maravilhosa, ele pode perdoá-la por qualquer coisa. Importante é celebrar seu amor.
Ulisses fica de pé, dá uma ajeitada na bagunça que fez no quarto de Tomás. Sai, fecha a porta, mas queria chavear se pudesse. Aberta assim pode entrar um louco e pegar as coisas dele. Meu irmão, tem que cuidar das tuas coisas.
É noite, não sabe horário, mas as pessoas já devem estar dormindo. Melhor não acordar ninguém. O negócio é ser ágil, mas delicado, para não ranger as madeiras. Agora é descer os dois degraus no final da cozinha, pronto, acesso ao pátio de trás. Segue o caminho de pedras, chega na sua casinha e… está vazia! Bianca, amor, não está. Deve ter saído para refrescar a cabeça também. Hora de preparar uma surpresa.
Ulisses tira toda sua roupa e coloca no tonel de roupa suja para lavar. Bianca não precisa se preocupar com catar cueca pela casa hoje. Ele dá uma varrida onde passa a procissão, pega o telefone e pede um sushi vegano. Entra no banho quente, onde tira as manchas de sangue seco do seu corpo, assim como os cascões de barro. Espera que não tenha machucado ninguém muito. E deve estar com estresse acumulado, suas veias não param de dar tremeliques eventualmente.
Enquanto ele se seca, alguém bate na porta la na frente da República. Dona Amélia, que já tinha chegado em casa, atende e era o sushi. Ela grita para ele pegar na cozinha. O guri se arruma, vai até a mesa do local comunitário, pega, leva para a casinha novamente.
Alguém gira a maçaneta para entrar. Finalmente, chegou sua amada. Ulisses se vira para receber Bianca, que está com a maquiagem manchada de choro, e a beija. Ela não entende nada, mas ambos rolam no chão como se não tivesse amanhã.
Incidente e final do combate
Assim como pode não ter amanhã para Tomás Vachet, que segura a seringa do XPTO e tenta trazer até seu corpo. De barriga pra cima, vê se aproximando, por fora da gaiola, Urubus. Homens de roupa preta e máscaras de bico branco semelhante a pássaros, prontos para tratar mais um paciente. Para a frustração dos pássaros, Tomás tem forças para se injetar o líquido verde.
Enquanto a substância entra pelo seu braço, os pedaços de hinfa se espalham paralelamente às suas veias. Tiras subcutâneas que mostram seu relevo, como se vermes estivessem procurando por algo dentro de seu corpo. Uma dor excruciante começa, um embate entre seu corpo e os restos de um fungo, ambos enfraquecidos, lutando pela dominância.
Enquanto se retorce no chão, Tomás pragueja contra todos. A plateia, Srta. Rosa, Bombcorn e Ferroada observam atentos. Não é a primeira vez de nenhum ali e as chances de alguém perder para o fungo Eclipsis cassinus normalmente já é difícil, em sua forma tão enfraquecida são quase nulas, mas nunca zero.
Tomás começa a sentir a dor indo, passa a mão pelas feridas fechando, mas sente que precisa levantar logo para acabar com tudo. Seu erro está em, no meio do caos, tentar se apoiar na cerca elétrica para se levantar. Uma descarga enorme e a gaiola perde todo o brilho, pois o choque levou toda a energia para passar pelo corpo de Tomás, como se suas veias fossem fiação elétrica.
Suspiros, gritos, choros, vaias na plateia. Após se retorcer e gritar guturalmente, em tom mais grave do que o baixo da banda, que inclusive parara de tocar para entender o que estava acontecendo. Srta. Rosa e Verônica se apertam, Bombcorn sorri empolgado, Ferroada levanta uma sobrancelha.
Uma descarga de energia vermelha e em formato esférico se expande a partir de Tomás, desligando baterias, celulares e carros. Ninguém sofre qualquer choque, mas sim impactos físicos, como se tivessem recebido um grande soco no corpo inteiro. Postes e carros amassaram, vidros de carro quebraram.
Absoluta escuridão. Linhas vermelhas como fios de neon se espalham pelo corpo de Tomás, com formas geométricas retas, losangulares, e geometrias irregulares. As luzes dos postes se acendem novamente.
— TÁ GRAVANDO, TÁ GRAVANDO? — Bombcorn dá tapas na câmera mais próxima.
Tomás sai correndo em direção a Ferroada, que retribui a ação. No caminho, o punho de Tomás, carregado em uma esfera de energia elétrica, encontra a ponta da lâmina de Ferroada. A mão de um é perfurada, o corpo do outro é eletrocutado por inteiro, mas ambos são arremessados para lados opostos com a descarga disparada.