Sempre funciona
— UNLIMITED POWAAAAHHHH!!!!!! — Verônica gritou histericamente, apontando uma pena que segurava com a mão direita e a palma da mão esquerda voltadas para garrafas de cerveja vazias em cima de caixas ou dependuradas em correntes. Um pequeno raio é disparado e a pena se desintegra.
Tomás, tirando as mãos dos ouvidos após o grito. — O que era aquela pena?
— Uma penugem do pássaro gigante lendário da cultura nativo-americana dos EUA, o thunderbird.
— E tu gastou de boa assim?
— Era de um filhote rejeitado do ninho, não custa muito caro, nem é muito poderoso. Tenho mais algumas no meu arsenal.
— E precisa gritar para usar?
— Esse é o ponto. Tem que colocar energia quando está usando teus poderes, cara.
— Não viaja. Faz 30 horas que hipoteticamente ganhei algum tipo de habilidade. É impossível tu saber como funciona, se nem eu sei.
— Eu lido diretamente com proto-humanos há mais tempo que tu. Pode crer que geralmente é assim com esse tipo de poder. O cara tem que botar para fora.
— Olha, eu espanquei um contêiner de aço, mas não saiu um raio sequer. Tá toda amassada aquela merda, só não saiu nada.
— Então sobre o contêiner… pelo menos já temos alguma ideia da tua nova força. E em breve, da velocidade. A gente pegou este armazém emprestado para um dia com a Carpe&Die, os contêineres não estavam no empréstimo. — Ela olha para Tomás que responde com uma cara de “Vish, fiz merda”.
O Cais do Porto de Porto Alegre fica na Avenida Mauá, no Centro Histórico, às margens do Rio Guaíba, que não está lá bem muito cuidado. A revitalização do Cais do Porto de Porto Alegre é um projeto antigo de décadas, com muitas opiniões e poderes diferentes disputando a pauta.
Nas últimas gestões, fizeram algumas reformas pensando na Estação do Cais lá do Pará e ficou horrível. Copia, mas não faz igual, um Ctrl+C Ctrl+V com dados corrompidos na área de transferência. E não precisava disso.
As universidades públicas locais já tentaram promover alguns projetos. De fato, não dá para dizer que todos são a melhor ideia do mundo, mas provavelmente seriam melhores do que se encontra atualmente. No meio dessa disputa, chegamos na situação atual: igual ao Guaíba, fede e sem uso.
E, assim como o Guaíba, os armazéns do Cais do Porto foram tomadas pela “sujeira”. A facção que os tiver sob controle acaba tendo uma boa vantagem logística. A conexão com outras cidades pela água permite transporte sem passar por outros territórios, sem esquecer do fato de que são grandes armazéns no centro da cidade.
Além de uso com depósito próprio, o armazém acaba sendo alugado para outras facções e empresas da superfície guardarem coisas e segredos ou ousarem para diversos fins, que incluem o de Tomás e Verônica: usar como um espaço para treino durante o dia sem romper o Véu.
Não é um cenário muito difícil de imaginar. É um espaço amplo, fechado por um teto meio cilíndrico, com contêineres de metal espalhados e, no momento, dois piás e umas garrafas de vidro. Ah, e isolamento acústico por via das dúvidas.
— Moh saco. Nem queria essa merda. Agora vai parecer que só venço todo mundo só porque tenho poder e não me garanto no soco, mesmo que o poder seja um soco reforçado, não é uma boa reputação.
— Há, e quem disse que tu vai ganhar de alguém? Vai tratando de aprender como funciona teus choquinho aí. Tu nunca sabe contra quem vai lutar.
— Eu venci logo na estreia.
— Empatou. E por quase um Deus Ex Machina, porque era pra tu ter morrido, mas não morreu, eu acho. Tua luta com o Ferroada acabou em empate porque os dois ficaram desacordados.
— Mas eu ainda estou invicto.
— Há, tá bom. Aliás, por ser um empate, não contou ponto a favor, nem contra. Inclusive, me parece um bom momento para te explicar como funciona o Circuito de Proto-Humanos e como eles afetam a disputa de territórios entre as facções. Nunca tivemos poder para disputar um território antes, mas agora isso pode mudar. — Verônica pega seu celular e abre um arquivo na tela. — Montei uma apresentação de slides para ver se tu consegue acompanhar:

Verônica continua a explicação:

— A cidade de Porto Alegre é dividida em 10 territórios, cada uma pertencendo a uma facção diferente. Por exemplo, o 1º território pega bairros como Centro e Cidade Baixa, onde fica o Roseiral, e pertence à Carpe&Die. O 2º território pega Moinhos e tal, é da GoWeb New Age. Podem ter outras facções agindo no território, como nós.
— Certo. E a velha paga umas taxas para a Carpe&Die, não é?
— Exato. Ter um território significa receber taxas, ter influência, se apossar de propriedades como esta aqui etc. Também significa algumas responsabilidades, como pagar os Homens de Preto para limpar tudo, organizar lutas ocorridas no local, e até mesmo organizar o torneio de disputa do próprio território.
— É agora que tu me explica o que importa. Vai lá.
— O Circuito de Proto-Humanos é dividido em duas etapas, cada uma em um semestre, além de lutas para resolver outros interesses. Assim:
— Luta várias vezes até ter 3 vitórias ou 3 derrotas. Venceu, tá dentro, perdeu, volta ano que vem. Quem tá dentro participa de disputa, mostra poder da facção, permite negociações de trabalhos…
— De quantas disputas de território eu posso participar?
— Geralmente ocorrem em datas próximas ou até junto. É um acordo velado para dificultar as coisas. Se alguém ainda estiver de pé e quiser, dá para arriscar em mais de uma, mas dificilmente é o caso. No máximo duas, com bom espaço de tempo.
— Entendi… E a minha luta terminou como empate, então… não valeu nada?
— Nada, não. Eliminou um concorrente. Mesmo que fosse a primeira luta dele também, o dano no Ferroada foi forte.
— O que aconteceu?
— Ah, a energia aumentou a temperatura e derreteu partes dos implantes de metal dele, além dos efeitos diretos da eletricidade no corpo. Se sair do coma e tratar as infecções, tá de pé já, já.
— Eu venço até quando eu não venço.
— Tomás, foi sorte. Sério. Ao menos uma vez na tua vida, tenta me ouvir e fazer o que eu estou sugerindo. A partir de agora, tenta pensar nesse poder como forma de extravasar emoções fortes. — Verônica guarda o celular no bolso e, em seguida, murmura. — Depois explico o resto…
— Bah, isso tá chato já, Verônica. Mas vamos lá, vou tentar do teu jeito.
Verônica vai até a frente de Tomás, abre as mãos dele e mira as palmas para as garrafas. Ela se posiciona atrás de Tomás e puxa uma das pernas dele para trás.
— Beleza, o que tu quer que eu faça agora? — Pergunta Tomás, bufando e revirando os olhos.
— Primeiro, me trata com respeito. Segundo, pensa em algo que te dá raiva.
— Descobrir maçã na salada de maionese.
— Ok, pior do que isso.
— Gente andando devagar nas ruas do Centro em horário de pico.
— Terrível, mas vamos além.
— Empresa de cobranças ligando SÁBADO DE MANHÃ há anos atrás da mesma pessoa QUE NÃO TENHO IDEIA DE QUEM SEJA! — O corpo de Tomás emite alguns raios, as lâmpadas piscam e as garrafas dependuradas balançam um pouco.
— Quase lá!
— O ASSASSINO DO MEU PAI! — Raios aparecem e desaparecem contornando o corpo de Tomás, seu cabelo fica um tanto espetado, algumas lâmpadas estouram e as garrafas balançam mais.
— Ok, escalou rápido, AGORA SOLTA!
— HAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! — O corpo de Tomás brilha intensamente, seus olhos ficam vermelhos, o resto das lâmpadas estoura e objetos de metal são atraídos e depois repelidos quando uma esfera de energia vermelha se forma na palma da mão e é disparada em um feixe de luz vermelha. — AE, CARALHO, FOI.
— Muito bem, agora só troca de roupa, tu queimou tudo. Vamos precisar de algum tipo de uniforme para treino e combate, ou vai virar um lutador pelado.
— Talvez eu ganhe umas gorjetas assim…
— Só se tu cobrar para colocar a roupa de novo, daí vai ficar rico. Mas, por sorte tua, eu sou uma ótima profissional e já me adiantei desde ontem e encomendei um uniforme para ti, feito com material diferenciado e resistente a eletricidade, incluindo teia de aranha e células de enguias elétricas.
— Vish, uniforme?
— Sabia que tu ia torcer o nariz, então… Foi baseado no que tu usa normalmente. Moletom vermelho, camiseta preta, jeans azul, all-star vermelho, mas obviamente com corte e caimentos mais bacanas. Estamos planejando algum emblema para colocar nas costas, mas tu não tem nem um nome de proto-humano ainda.
— Que ágil.
— Claro, quanto mais rápido tu estiver estiloso, mais rápido vende bonequinhos depois no submundo. Ah, e o uniforme deve chegar daqui a pouco.
Quanto custa um músico?
— A chuva cai lá fora, eu espero até agora, por um beijo teu. Um sorriso teu… — Não muito longe da Avenida Mauá se encontra Ulisses. O jovem músico está na Rua da Praia, localizada na Praça da Alfândega, também no Centro Histórico de Porto Alegre.
— Meu jovem, tu costumas ter uma meta financeira quando vens tocar aqui no centro? — Uma senhora de uns 70 anos para na frente de Ulisses e interrompe a sua cantoria. Ela largou sua barraquinha de pipoca ali do lado para ir conversar com o homem.
— Olha, eu tenho uma meta financeira e uma meta moral artística. — Ulisses ficou incomodado de ser interrompido, mas entendeu que se tratava de uma fã e não poderia trata-la mal. Se ajeitou no “colo” de Mário Quintana, no banco onde a estátua do poeta conversa com a estátua de Carlos Drummond de Andrade. — Quando recebo bons e grandiosos elogios, atingi a meta moral artística. Quando recebo por volta de 200 reais, eu atingi a meta financeira. Daí eu paro e troco de ponto para espalhar minha arte por mais lugares.
— Quanto já tens?
— 155 e umas palmas.
— O senhor é um excelente artista! Torço para que lance teu disco de ouro logo! — A senhora pega um pequeno bolo de dinheiro, tira uma nota de 50 e deposita na capa do violão de Ulisses. — Parabéns, atingiu tua meta! — E a senhora voltou a vender pipoca.
— Uau, que ótimo! Já posso sair daqui. Que pena abandonar essa senhora gentil, mas preciso levar minha palavra para mais pessoas. — O celular logo começa a vibrar enquanto Ulisses arruma suas coisas para sair — Alô? Minha orquídea? — Era Bianca.
— Fêfê!
— IIh, usou meu primeiro nome, vai pedir algo, bicho, ahahaha. Que é?
— Pode passar na farmácia antes de vir? Preciso de um polivitamínico, o meu está acabando e estou sem dinheiro.
— Pra que isso? A gente tem comido vegetais e frutas, não precisa desse tipo de veneno da indústria farmacêutica. Como bióloga, deveria saber disso…
— Eu sei, mas eu realmente estou precisando. Fui na gineco e ela disse que nestes meses vou precisar bastante e não tenho como escapar de suplementar.
— Não entendo o porquê, e deve ter algo errado, mas vou tentar. É caro?
— Te mandei a marca por mensagem, é uns vinte pila.
— Bah, mas aí me quebra. Vou tocar mais um pouco e tentar. Agora to indo ali pra Orla.
— Ok, amor, você é sempre atencioso. Até mais tarde.
— Alô? — Outra pessoa ligou
— OH, Ulisses, seu pau no cu. Minha mão tá machucada até agora, seu merda.
— Irmão, já disse que foi mal, eu tava doidão.
— Ok, te perdôo com uma condição. Uma puta me falou outro dia que tá com uma flor boa pra caralho. Só que tá meio cara. Se tu pegar e trouxer pra baia, a gente fica de boa. Me confirma e pega com ela aí no Centro mesmo, no Mercado Público.
— Quanto tá? É pura mesmo? Camarãozão?
— É sim. 10 o grama. Pega 3g pra cada um, tenho mais umas paradas e a gente curte um teto.
— Dá 60, fechou. Onde eu encontro ela lá?