Experimenta aí
— Esse moletom é bem confortável e flexível. — Diz Tomás mexendo no casaco canguru vermelho. — E esta camiseta, é uma tech t-shirt que fala? — Pergunta enquanto abre a porta do amazém.
— Tenho cara de otária que cai em golpe? Bom, Tomás, são 16h e vamos no Mercado Público agora. Tem um evento para assistirmos e tu entender melhor as lutas entre Proto-Humanos. Vai ser a luta de estreia da Eva, da COSFAGRO-RS, que quer entrar no Circuito de Proto-Humanos também. — Responde Verônica passando atrás. — Ah, e mais tarde tu me ajuda num trabalho…
— Quem são esses? Não lembro de ter lutado contra gente dessa facção antes. — Os dois começam a se arrumar para sair.
— Yep, eles só participam do Circuito de Proto-Humanos mesmo. Cooperativa Sustentável Familiar de Agropecuária do Rio Grande do Sul. Olha só, eles dominam a Zona Rural de Porto Alegre. O 10º Território. Depois posso tentar investigar qual é a da Eva, mas geralmente o perfil do lutador só fica disponível na subnet depois que se entra no circuito.
— Subnet…
— Vivo esquecendo que tu é tão alienado que não usa a internet da superfície nem do submundo. Tem apps para tudo que é conveniência. Contratar serviços, marcar lutas, ver o ranking no torneio. Olha, depois que tu entrar no Circuito, vai ser obrigatório acessar a subnet viu?
— ARREP.. ÇÃO QUE JESUS… MÃOS, PORQUE… — No trajeto, um homem de terno com a Bíblia na mão acerta a proeza de berrar e parecer que murmura ao mesmo tempo. — VOLTARÁ…
— Vamos por aqui, vi o Ulisses lá no fundo. — Tenta falar Tomás no meio daquele gritedo, apontando em uma direção com o rosto perante uma bifurcação.
— …PENDAM-SE!
— Pode crer. Lembro daquela vez que a gente tava fazendo corre, ele te encontrou e ficou alugando. — Verônica pega o celular depois que ouve uma notificação. — Aqui, descobri quem é o outro combatente. Pata Queimada IV.
— Que tipo de criatura é essa?
— Sabe a história do rato que queimou as patinhas lá no Agito Lanches? Toda vez aparece um lutador novo dizendo que era o chapista que estava lá quando isso aconteceu e também dizendo ser o Pata Queimada original, mas como o nome já tá cadastrado, adiciona um número.
— Tu não teve um namorado que trabalhou lá?
— Ficava, mas… o cara não valia uma batata-doce.
— Isso foi bem específico, Verônica.
— Não, olha só. Quando se está tendo os primeiros encontros e formando intimidade, ainda nem namorando, a gente sempre quer causar a melhor impressão ou ao menos um mínimo viável. No primeiro encontro que tivemos, no mesmo dia, eu tinha recebido batata-doce da minha vizinha, uma laranja.
— A vizinha é laranja?
— Não, a batata-doce.
— Ah, bom.
— E, oh, muito boa. Comi depois.
— A batata-doce?
— Também, mas na hora, mesmo com muita vontade, não comi a batata-doce.
— Por?
— Gases, Tomás, gases! Eu deixei de comer batata-doce para encontrar o rapaz e, não foi ruim, foi um encontro sem graça e ponto final.
— Preferia ter ficado em casa se peidando?
— Basicamente. E foi igual nos dates seguintes. O cara não era gente ruim, só era chato mesmo.
— Olha quem tá aqui, o meu vizinho favoritooo!!! FAaaalaaa meu bruuuxo! WWAZAAUUPPP hahahah ahaha. — Ulisses grita e Tomás vira lentamente o rosto para o lado. Os dois amigos estavam na entrada principal do Mercado Público enquanto Ulisses vinha de trás, do Largo Glênio Peres, que dá acesso ao Mercado Público.
— Não, não sou eu não. Tchau. — Disse Tomás após virar o rosto.
— Que isso, Tomás. Estamos indo para o mesmo caminho? É Jah e o destino sorrindo para andarmos juntos. Oi, Vê, como tá? — Ulisses olha vidrado para a guria, com pupila arregalada e cheiro de mato mofado e queimado.
— Não me chame de Vê.
— Claaaro, hhhaha, sim. Vamos passear juntos pelo jeito.
O Mercado Público de Porto Alegre é uma grande estrutura cúbica que possui lojas em seus muros exteriores e, internamente, bancas espalhadas por quatro quadrantes, separadas em um cruzeiro aberto. Entre as lojas dos muros e as bancas, também há corredores. Cabe ainda apontar que o Mercado Público possui dois andares, sendo o segundo compost por lojas nos muros e um mezanino com passarelas.
— Nós estamos indo para o outro lado que não é o teu. — Diz Tomás enquanto ele e Verônica andam ligeiramente apressados, mas de fato Ulisses vai pelo mesmo caminho, em direção ao centro do Mercado Público.
— Não é o que parece, ahaha. — Ao passar pelo centro do Mercado, cada um dos três joga uma moeda e uma bala. Depois, dobram à esquerda e, então, à direita, onde encontram-se as peixarias.
— Ele por acaso…? — Verônica pergunta baixinho para Tomás, querendo saber se Ulisses saiu da Superfície já. A caminhada deles ia em direção a uma porta velha no final do corredor.
— Esperamos que não!
— Eu por acaso o quê? Ahahaha — A porta se abre assim que os três se aproximam. O grupo entra rapidamente e a porta fecha.
— Vocês estão aqui por motivos diferentes. — Diz uma moça de terno, negra, ruiva, de 1,70 e voz grave. Usa luvas brancas, de tecido leve, e uma gravata com enfeite de flor. O material e o recorte da roupa são fundamentais nesse calor de Forno Alegre.
— Cíntia, e o que tu tá fazendo aqui? — Tomás cerra os olhos desconfiado.
— Garantindo que ninguém se perca. — Ela pega um pacote de dentro do terno e entrega para Ulisses. — Para ti, é isso. Depois faz Pix para o número no papel dentro desse pacote, ou eu mesma vou cobrar.
— Hahaha, claro, moça. Fazendo agora mesmo, oh. Tomás, você vai pra república agora? Vamos juntos?
— Claro, vai na frente e em seguida eu vou.
— Ok! — Ulisses abre a porta, sai, e a porta se fecha sozinha. — Ah, é, na verdade, na verdade eu vou para… — Ulisses abre a porta novamente, mas não há ninguém mais lá. — Nossa, bateu forte mesmo, to bem devagar.