Ok, nos vemos depois, eu acho
— Não entendi nada, mas foda-se. — Ulisses dá de ombros, se vira e sai… — Hmm, agora, antes de ir lá pra casa do meu amigão, preciso comprar uma bebidinha para levar. Só pra garganta não ficar seca.
— E o licor que o senhor precisa é o de manga. — Diz a atendente da pequena taverna de bebidas assim que Ulisses chega perto. O cheiro de mato exalado na sua presença consegue ser forte e chamativo mesmo no meio de todo o fedor de peixe e todo o perfume dos temperos do Mercado Público. — O mirceno da manga interage com a substância de... plantas medicinais e tornam seus efeitos mais fortes.
— Entendi, maconha faz manga bater mais forte. E funciona com licor também? — Ulisses aponta para uma garrafa na mão da moça.
— Claro, senhor, claro. Não há dúvidas sobre isso. Se quiser, ainda leve essa cachaça de manga. — Diz a moça, mostrando uma garrafa de 1 litro.
— Quanto dá tudo?
— 50 a cachaça, 70 o licor. É importado.
— Vou querer só a aguardente. — Ulisses coloca a nota no balcão. Pega a garrafa de aguardente e a de licor. Esta última, de forma discreta, e ainda pega um martelinho da degustação. A bebida desce quente.
Se descer mais, chega no inferno
— Se descer mais, chega no inferno. — Responde Verônica, quando Tomás pergunta se tem mais andares no subterrâneo do que aquele em que chegaram. Estão em um elevador.
— Pelo calor, podemos dizer que inferno é onde estávamos. Aqui tem ar condicionado pelo menos. — Diz Cíntia liderando os dois na saída do elevador e, então, descendo a escada de uma arquibancada.
— Está cheio hoje. Nunca vi uma luta com tanta plateia. — Diz Verônica.
— Bom, a COSFAGRO não costuma lançar lutadores sem saber exatamente o que está fazendo. Não é à toa que, mesmo tendo parte dos melhores cientistas do país, estão a recém no terceiro Proto-Humano. Eles tomam muito cuidado para garantir que saiam apenas lutadores habilidosos e tudo seja seguro para os mesmos. — Responde Cíntia.
— É um cuidado muito diferente de outras facções pelo jeito. São famílias mesmo. — Comenta Verônica.
— Além disso, eles recebem bons salários, têm plano de saúde, alimentação saudável garantida por serem os próprios produtores, além de diversos outros benefícios, é uma facção bem diferente. — Continua Cíntia.
Os três se olham e baixam a cabeça frustrados. — É, bem diferente mesmo — Comenta Verônica.
— ELE PASSA DE MÃO EM MÃO, É SEU APRESENTADOR MAIS ESCORREGADIO, CHEIROSO E LINDOOOOOOSOO! AAAQUII ESTOU, SA-BO-NE-TE! — A arquibancada estava ao redor de uma arena em gaiola, quadrada e, no meio, um homem gritava. Dessa vez, não era Bombcorn, mas sim Sabonete. Um rapaz cheiroso que soltava bolhas pelas mãos.
— A Carpe&Die é dona do território, mas não consegue ter mãos para cuidar diretamente de todos os eventos. Hoje, só estão oferecendo a casa, a música e a limpeza. Aqui embaixo não tem necessidade de Homens de Preto, mesmo sendo durante o dia. A gravação, a transmissão e o Mestre de Cerimônias são da GoWeb New Age. — Explica Cíntia.
— E a segurança? — Perguntou Verônica.
— Roseiral.
— Mas não vi ning-... ok, entendi. Não sabia que estávamos a trabalho hoje.
— Como se tivéssemos folga.
— E, DO MEU LADO DIREITO, EM SUA ESTREIA, REPRESENTANDO A COSFAGRO, QUE TROUXE UNS LANCHINHOS PARA NOSSOS ESPECTADORES PRESENCIAIS: EEEEEEEEEVAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, CONHECIDA TAMBÉM COMO CAMOATIIIM. ELA, QUE É BIÓLOGA, ENGENHEIRA GENÉTICA E APICULTORA. COMO PODE ISSO?
— O melhor mel está sempre atrás do pior veneno. Hoje eu to doce, mas não sou pro teu bico. — A moça de sardas, olhos castanhos e cabelo com base V bem pontudo dá um pequeno sorriso ao adversário. Ela usa um jaleco macacão amarelo queimado, um chapéu de palha e sapatos de bico fino.
— Há, há, há. Veneno? De tudo que já comi nos lugares que trabalhei, meu corpo aguenta qualquer coisa. Tu quem não vai nem ver quando te acertar a pica dura, ahaahah — Um homem de barba ralada, bermuda, tênis, camiseta branca, boné e avental dá uns passos à frente. Em uma mão, ele segura um facão, em outra, uma espátual.
— E COM OS COMENTÁRIOS UM TANTO DESNECESSÁRIOS, PAAAAAAAATA QUEIMAAAADA IV. REPRESENTANDO A AGITO LANCHES E PATROCINADO PELO SERVIÇO DE APOIO AO PEQUENO SUBMUNDO DO RIO GRANDE DO SUL, DO SISTEMA S, E QUE TAMBÉM PATROCINA A LUTA DE HOJE! — Diz Sabonete, enquanto a banda No, Sir! começava seus riffs de guitarra.
Esmurra, embola e joga fogo
— Cara, assim, só pega uma poltrona e fica de boa. — Com a mão enfaixada, o rapaz careca conhecido como Bigode aponta para Ulisses onde ele poderia sentar. — Daqui a pouco tá chegando a Maju e depois vou pedir uma pizza.
— Pode crer. Eu trouxe uma bebida, a erva, a seda.
— Que seda, vamo de vape, depois dá pra pegar a erva vaporizada e fazer negrinho, fazer brisadeiro. Tem umas parada na mesa aí também, tu pode pegá o que quiser. Tem refri também.
— Mano, e tu acha que não vai dar um esse cheirão no condomínio?
— O que mais tem é ladaia aqui no Jardim Américo.
— Boto fé. Pronto, só botar no vape. Cadê?
— Aqui, mas já vamo começá? A mina tá vindo ainda.
— Tem bastante, ué, até chegar, até ir embora.
— Há, tá certo. — Bigode coloca a erva no vape e se senta na poltrona. — Mano, por que tuas veias tão estranhas? Parecem se mexer de vez em quando.
— Sei lá. Peguei uma coisinha nova dum amigo meu, usei e, me dá uns troço esquisito.
— O Tomás, aquele?
— É.
— Não gosto. Moh vibe agressiva o rapaz. Meio energia ruim.
— Deixa, o cara é firmeza. Perdeu pai cedo na frente dele, não sei da mãe, mas é firmeza. É pedir e ele tá ali pra ti.
— Tem certeza?
— Ah, acho que sim. — Ulisses dá uma baforada. — Bah, agora tu veio. Esse troço é bom mesmo.
— Falei. Falei. Nunca tinha provado, mas a Ana sempre sabe e indicou isso daí. Que teto foi aquele com o cachorro?
— O cachorro? O Pablo, mano?
— Pablo?
— Sim, mano, eu vi esse cachorro de novo outro dia. O nome dele é Pablo, mano, vi o dono falar, mas ele mesmo já tinha me dito ment — — men — — men — — mental — — mentalmente
— Travou legal aí.
— Tá batendo forte.
— Tá, termina de contar do cachorro. — Uma voz feminina vindo de outra poltrona falou com Ulisses.
— Ué, quem é tu? — Perguntou Ulisses.
— Como assim, mano? kk Já tô aqui há meia hora, pelo menos. — Respondeu a Maju.
— Bah, tá forte mesmo, achei que tu tinha acabado de chegar. — Falou Bigode.
— Passa o vape pra cá então que eu termino. — Ulisses bota no prato à sua frente a fatia de pizza que está na sua mão, pega o vape de Maju e dá mais uma baforada. — Cara, coloca a música indiana aquela e a tua luminária de estrela.
— Tá, rapidinho. — Bigode arma o cenário. Músicas indianas, luz apagada e uma luminária de estrelas girando. Tudo isso em um minuto, ou uma hora.
— Então, tinha o cachorro, o Pablo. Ele quem falou o próprio nome, depois vi chamarem ele assim, confirmou. Cara, moh engraçado. Tava na feira da Epatur outro dia roubando tomate e as bolitas da gurizada, correndo atrás de bike.
— Acho que sei, um preto, com mancha branca? Orelha pela metade, manco? — Perguntou Maju.
— É. E, cara, grande, alto, um e trinta. — Tá trovando. — Duvida Bigode. — Mano, pior que parece um cavalo o bicho.
— Confirma Maju.
— Aí, botaram ele pra trabalhar e cuidar o portão da entrada da igreja outro dia. E aí tinha um poodle.
— Poodle?
— Poodle.