Pata Queimada V
— Vem cá, mosca do inferno, que vou te queimar! — Agora, Pata Queimada IV não era mais um homem estranho. Sua pele tinha virado pelo raso, seu rosto virou um focinho, e um longo rabo nojento saía pelas costas. Um homem rato completo. O facão e a espátula estavam vermelhos e incandescentes. Agora, Pata Queimada IV era um rato estranho.
— Como pode? Eu passei anos desenvolvendo esse veneno. — Sobrevoando a arena, uma mulher vespa atirava ferrões dos antebraços, de onde mais e mais ferrões surgiam. A maioria era desviada por Pata Queimada IV, mas mesmos os que pegavam, não pareciam surtir efeito.
— Essa Eva claramente não está dominando a situação, o que tenho a aprender com ela? — Pergunta Tomás.
— Olha, os poderes dela possuem algo em comum com os teus. Vieram de um XPTO avançado, mas no caso dela, desenvolvido minuciosamente para que obtivesse os poderes desejados ao se transformar. Ela tem controle total sobre as próprias habilidades, mesmo que esteja com dificuldades na luta. — Respondeu Verônica.
— Exatamente. Ela também está pagando por subestimar o oponente. Pata Queimada IV é um ser nojento, é verdade, mas isso não faz dele um lutador fraco. Ele está até mesmo invicto. Já teve duas batalhas e venceu as duas, esta é a última para se classificar. — Complementou Cíntia.
— Atira com a bunda também, otária. — Grita Pata Queimada IV para Camoatim, que além dos ferrões nos antebraços, tinha um terceiro, maior, localizado na região traseira.
— BLEH, BLEH! — Eva cospe uma substância pegajosa e grossa, uma mistura de mel com cera, nas mãos de Pata Queimada IV, e consegue acertar a espátula, desarmando o rato parcialmente.
— AHAHAHA! Esse que é teu plano? Vamos ver até onde isso vai, então. — Pata Queimada IV ri vigorosamente.
— Bom, se ela se livrar das armas dele, acabou. — Comenta Tomás.
— BLEH, BLEH, BLEH! — Eva cospe outras e consegue facilmente desarmar seu adversário. Em seguida, Camoatim dá um rasante com o braço estendido para perfurar Pata Queimada IV.
— Ahahaha! — Pata Queimada IV consegue ser mais ágil do que Camoatim e segura seu braço. — Meu nome não é espátula ou facão queimado. É PATA Queimada. — Sua mão começa a gerar um calor intenso, queimando Camoatim.
— AAAAH! — Ela grita de dor e tenta acertar com a outra mão, sendo interrompida no ar novamente. — Caceetee!
— Vou fazer um melado hoj… — UGH! — Pata Queimada IV toma uma ferroada no meio das pernas pelo ferrão traseiro de Camoatim e começa a escorrer sangue da região.
— Também, parou pra fazer piada bosta. — Resmunga Tomás.
O rato solta os braços da vespa e a segura pela cintura, transformando toda dor que sente em calor para queimá-la.
— PORRA, PORRA, PORRA. — Eva consegue acertar um pisão em Pata Queimada IV e jogá-lo para trás. Os dois caem de costas no chão.
— Acha que isso vai me parar? Não serviu nem para me deixar eunuco. — Pata Queimada se levanta e mostra que o jorro de sangue vem, na verdade, da virilha. Ele esquenta sua mão e queima os próprios machucados para cicatrizar.
— Tu estás louco? Vencendo ou perdendo, cauterizar isso daí assim só vai infeccionar. — Grita Eva incrédula enquanto se levanta. — Bom, não dá para esperar inteligência de homem vindo de um rato.
— Se os poderes dela vêm de XPTO Avançado, os dele vêm de onde? — Pergunta Tomás.
— Boa pergunta, mas isso não importa. O que importa é o que tu pode aprender com eles. Sobre o que fazer para não ficar com os braços queimados ou não ter teu estômago perfurado. — Responde Verônica.
— Ah, mas a lição está clara. — Diz Tomás, revirando os olhos. — Seja melhor, lute melhor, bata mais forte, bata mais rápido.
— Vamos ver o que acontece quando fica sem Pata, apenas o Queimada IV. — Eva, que ficou de pé antes, sai correndo mancando, agarra um dos braços do adversário e puxa, enquanto empurra sua cabeça para o outro lado. A Camoatim abre bem a mandíbula de vespa e morde o rato, arrancando seu braço.
— CARALHO! — Pata Queimada IV intensifica ainda mais o calor na mão que sobrou e pega Camoatim pelo pescoço.
— Ela foi meio lenta, na real. — Comenta Tomás.
— AAH, foi! — Camoatim desfere um gancho de direita no queixo de Pata Queimada, mas, por ter um ferrão, perfurou o crânio do rato.
— EEEEEEEEEEEEEE TEEEEEEEEMOS UMA VENCEDORA! CAMOOOATIIM, DA COSFAGRO-RS. — Grita sabonete, enquanto Camoatim cai sentada, ainda na forma de vespa.
— Pega, pega, pega, pega, pega, pega… — os Urubus, homens com roupa e máscara de médicos da Renascença, vêm correndo recolher o corpo de Pata Queimada IV, colocam em uma maca e saem dali, levando o homem rato.
— Depois dessa vitória, ela deve ficar um bom tempo se recuperando até a próxima luta. — Aponta Tomás.
— A COSFAGRO tem os seus curandeiros que agilizam o processo, mas de fato não deve ser da noite para o dia. — Responde Cíntia. — O importante é: aprendeu a lição?
— Gente morta não fala merda?
— Sério mesmo que foi isso? Cara, os dois lutadores ficaram o tempo todo completamente na ofensiva. Mal tentaram se esquivar ou bloquear ataques, foram arrogantes um com o outro, e se subestimaram. No final das contas, mesmo ganhando a luta, Camoatim pode ficar com sequelas permanentes aqui e não é por falta de força ou agilidade. É por arrogância. — Comenta Cíntia
— Desviar eu sei. Puta discurso chato. Cadê a comida que não passaram para a gente?
Boto fé
— Mano, como teu cabelo cresceu rápido do nada. — Bigode aponta para fios que se espalhavam pelo sofá, vindo de Ulisses. — Acho que não é cabelo, até, é pelo, não tá vindo da tua cabeça. Que doido. É fetiche da tua mulher? — Comenta Bigode.
— Bah, a droga tá passando pra mim, vou precisar de mais. Não to conseguindo te acompanhar, Bigode. — Fala Maju, em seguida olhando para Ulisses. — Mulher? Tu é casado?
— Sou, na Natureza, não fizemos pela igreja nem cartório, uma árvore celebrou.
— Ahahaha tá brincando? — Pergunta a guria.
— Verdade, não ri. A melhor benção é a da Natureza. Ela até nos presenteou com frutas aquele dia.
— E como ela é?
— Uma bergamoteira.
— Tua mulher?
— Não, a Bianca é gata. Olho puxado, meio índia, meio italiana. Cabelo liso. Gentil, carinhosa, meio doidinha, e boa pinta quando entende as coisas.
— E quando não entende?
— Pé no saco, na verdade.
— Cara, acho que os pelos tão se mexendo e crescendo mais. — Bigode vê fios esparramados pelo chão.
— Tá viajando, viaja direito, ahahaha. Para com essa trip doida. — Diz Maju para Bigode. — O que a Bianca faz da vida?
— Ela estuda biologia, licenciatura na PUC, mas é mais voltada pra pesquisa. Ela tá estudando uns bicho estranhos, porque a vó dela acredita que viu um bicho-pau gigante. O inseto aquele. Daí, foi internada pelo vô dela no São Pedro. Fez certo, sabe?
— Mas tu não acredita nessas parada de natureza e pá?
— Ah, não daquela mulher, e a Bianca herdou umas doidice assim, também. Tanto que ninguém a leva a sério na Universidade. Sabe, to tentando fazer melhor que o vô dela e apoiar. Se ela acha que pode encontrar o bicho-pau gigante, eu apoio, mesmo não sabendo que dá.
— Que doida, cara. Mulher assim é complicada. Por que tá com ela? — Pergunta Bigode, que logo volta a observar os fios balançando com o resto do cenário.
— Ela costumava me apoiar, sabe? Na faculdade de teatro, que to largando... ela gosta da minha música, dos meus desenhos. Só ela e, depois, o pessoal da república, me apoiou na arte, entende? Aí, a gente brigou agora.
— O que ela fez? — Perguntou Maju.
— Ah, mano… Eu disse que ia largar a faculdade para começar logo minha companhia de teatro… aqueles professores sabem de nada. Muito atrasados, nada que digo eles consideram. Sempre se acham espertinhos. Aí quero viver o teatro de verdade, da rua. Eu, alunos e a arte.
— Po, mas se a pinta é tua mulher, te ama, tem que te apoiar. Mas vai ver o problema não é tu, nem ela.
— Como assim?
— Ah, tu sabe como a cidade tá atrasada, né. Ninguém apoia o artista, ninguém apoia a arte, ainda mais alguém mais vanguardista e pá. Vai ver ela não duvida de ti, duvida de que vão te entender e tu te frustre, tá ligado? — Diz Maju.
— Tem razão, vou falar com ela.
— Vocês tão num papo muito sério. Bola mais um.
Bigode pega o litrão de cerveja, serve os três copos vazios e entrega dois para seus companheiros. Em seguida, Maju destaca três comprimidos de uma cartela e distribui também. Todos tomam e relaxam nos seus assentos enquanto Ulisses passa um fino que acabou de bolar.