Santa Casa
Tomás estava sentado à mesa com Verônica em um antigo café e lancheria de Porto Alegre chamado Haiti. Ao lado esquerdo da guria está sua mochila, sobre a cadeira. Verônica mexe no celular, lendo de forma concentrada as instruções do trabalho.
— Sabe, Verônica, eu estava pensando em uma coisa. Como a Camoatim tem ferrões saindo do braço? Os camoatins e as vespas no geral não tem isso não.
— Ah, a Cosfagro-RS tem muito conhecimento em biogenética e conseguiram manipular o XPTO Avançado para dar os poderes como queriam. Falando nisso, Tomás, tu sabe como essa merda aí funciona? Sei que tu não teve muita escolha sobre usar ou não, mas imagino que a Srta. Rosa te explicou o básico.
— Ela falou algo sobre cogumelos espaciais. Não prestei muita atenção.
— Não prestou mesmo. Não é bem isso. Saca só, Tomás, sabe que uma vez a Nasa lançou uns foguetes em Rio Grande, né?
— Meu pai era de lá. Ele disse que viu vários OVNIs esse dia.
— Viagem dele, não tinha nenhum, mas tinha outra coisa interessante. Quando um dos foguetes voltou, — Enquanto falava, Verônica simulou com o copo um foguete aterrissando — tinha um fungo metálico acoplado nas placas externas. Ele tinha absorvido o metal para o próprio metabolismo.
— Isso é muito doido.
— De fato. Chamaram de Eclipsis cassinus a espécie. E descobriram que ela tinha a capacidade de se alimentar de qualquer coisa e absorver para própria estrutura a nível molecular.
— Ok, e como isso virou uma fonte de super poderes?
— Agora vamos a um pouco de biologia. Pega esta lógica: as mitocôndrias eram seres vivos à parte, mas foram absorvidas por algum ser unicelular há muito tempo na árvore taxonômica e que agora fazem parte das células de animais, plantas etc. Tá acompanhando?
— Acho que sim, continua. — Tomás faz um joinha com a mão.
— O XPTO e, principalmente, o XPTO Avançado, segue essa lógica. A gente alimenta o fungo com o tipo de propriedades que queremos dar para a pessoa que usará, mistura com um composto de suplementos para aumentar capacidades físicas, e uma substância que permitem o fungo ser absorvido pelo metabolismo e ser parte de ti.
— Peraí, então eu to com um parasita, tipo a formiga aquela e o fungo no cérebro?
— Nah, pode ficar bem tranquilo.O fungo morre nesse processo, teu corpo quem absorve e toma tudo para si. Inclusive, aquelas linhas que aparecem no teu corpo, brilhando, podem ser as hifas. Só é louco como essa criatura conseguiu comer eletricidade. Mas isso é discussão para outro dia, temos o que fazer agora.
— Qual o trabalho? — Pergunta Tomás.
— Roubar túmulos.
— Tipo Angelina Jolie?
— Menos aventuresco. Vamos ao cemitério, desenterramos uns caixões de corpos de recém-morridos e pegamos algumas partes.
— Parece trabalhoso e nojento até.
— Exatamente por isso que tu vem junto. — Verônica levanta os olhos para Tomás. — Vamos bota esses músculos novos para funcionar. — Ela guarda o celular no bolso, pega a mochila e os dois saem em direção ao caixa.
— Pode ser qualquer um?
— Seria dois cafés e uma torrada? — Pergunta a moça do caixa.
— Isso, no crédito. — Verônica, então, passa o cartão. Depois, olha para Tomás. — Não… Eu tenho três nomes aqui. — Uma montanhista, um drogadito e um açougueiro. — Os dois saem pela escuridão da noite.
— Completamente aleatórios…
— Não tanto quanto parece. Na verdade, a Luciferina pediu por três partes de defuntos que morreram por congelamento. Quanto mais fresco, melhor, e esses foram os mais recentes a morrerem dessa forma.
— Luciferina não é a Sabrina, a moça daquele dia?
— Exatamente. Quase sempre que ela pede uma pelúcia, ela também faz um pedido desses.
— Por que não estou surpreso de que esses proto-humanos esquisitos tenham hobbies e fetiches esquisitos?
— Boa pergunta. Quais os teus, Tomás?
— Andar contigo é um hobby esquisito. Olha os rolês aleatórios em que tu me leva.
— Há, agora que tu virou proto-humano, só vai piorar. Falando em rolê aleatório, lembra aquela vez em que a gente pegou uma muda de candombá lá no Museu da PUC?
— Candomblé?
— Candombá. A flor lá do cerrado que pega fogo sozinha. Aquela muda era especial, porque gerava mais calor e chamas do que a variação comum da planta. A COSFRAGO que encomendou aquele trabalho para nós, mas parece que foi roubada. Talvez, a gente seja chamado para recuperar e… chegamos. — Verônica aponta para o outro lado da rua, onde um muro separa a calçada do cemitério.
Os dois olham ao redor e atravessam a rua. Observam que há alguns indivíduos vestidos de preto acendendo velas no portão do cemitério. Os grupos concordam em se ignorar e a dupla segue para mais adiante. Rapidamente, olham para os lados, arremessam a mochila por cima do muro, se dependuram, se puxam e pulam para o outro lado.
Verônica retira seu celular do bolso, mexe um pouco e olha para as câmeras. Uns dois segundos depois, as luzes vermelhas piscantes se apagam. Então, a menina abre sua mochila e pega dois estojos pretos. Um é retangular e o outro em formado de meia-lua. A menina entrega os objetos para Tomás.
Tomás abre o estojo retangular, retira um cilindro de metal lá de dentro e entrega o estojo vazio para Verônica. Em seguida, abre o outro estojo, retira a cabeça de uma pá e entrega este outro estojo vazio. Ele sacode o cilindro para a frente, que projeta outros cilindros menores, todos presos, formando um cabo. Tomás encaixa as peças, sua pá está pronta, e olha para Verônica para que aponte o caminho.
Verônica pega seu celular e abre uma tela onde possui um mapa bem simples do cemitério, sem muita precisão. A menina guarda o celular e começa a caminhar. Ambos olham ao redor, pouco falam, enquanto a brisa e o cheiro de terra passam. Não há mais ninguém, nem ao menos um visitante ou vigia.
Os dois passam por diferentes tipos de lápides e decorações. Anjos, santos, leões e outras figuras de mármore se projetam por cima das flores e túmulos. Muitas dessas estátuas talvez fossem admiráveis quando recém finalizadas. Hoje, no entanto, sujas e desgastadas, não parecem lamentar a perda dos mortos, mas sim projetar a angústia dos vivos.
— Chegamos, acho que é este aqui. Tem terra na volta, foi enterrado recentemente. — Diz Verônica, enquanto veste uma máscara médica e um par de luvas.
— Qual é esse? — Pergunta Tomás, enquanto pega com Verônica uma máscara e um par de luvas.
— Dra. Tamires, médica, naturalista e montanhista. Morreu escalando um morro em São José dos Ausentes. Pegou chuva imprevista, se acidentou e o frio inesperado de uma noite de verão também pegou. Foi encontrada dois ou três dias depois.
— Hoje em dia ainda dá para morrer se perdendo em trilha? Num lugar não tão isolado assim? — Tomás começa a escavar.
— Acidentes podem acontecer em qualquer lugar. Parece que ela não levou eletrônicos também. Queria se desconectar de tudo, acabou conseguindo.
— Falando em desconexão, a equipe de segurança daqui está bem desconectada, hein.
— Pode ser troca de turno, sei lá. — Verônica dá de ombros. — Importante é a gente fazer nosso trabalho rápido de qualquer forma.
— De fato. — E os dois ficam em silêncio profundo.
— Hum… — Verônica murmura para si mesma ao ouvir a voz das pessoas do portão. — Que eco, chega até aqui.
Depois de alguns minutos, Tomás finalmente chega no caixão e abre a metade de baixo da tampa. Verônica joga uma serra e Tomás, fazendo caretas, começa a cortar o pé da defunta. Essa não é a primeira vez que Tomás lida com mortos, ainda mais quando ele mesmo já foi causa de alguns. Lidar com corpos frios, no entanto, sempre será diferente de “casualidades” decorrentes de sua atuação como lutador ou protegendo as meninas do Roseiral. De qualquer forma, trabalho é trabalho.
Verônica abre uma caixa térmica e Tomás joga o pé serrado lá dentro. Em seguida, fecha o caixão e segura na mão de Verônica, que o puxa para cima. Seus novos poderes talvez permitissem um pulo mais alto, mas melhor não arriscar fazer muito fiasco neste momento. A guria fecha e lacra a caixa, então, confere de novo a lista e diz:
— A próxima figura é Danilo Grah. Um filho de dono de posto que torrou toda a grana do pai com pó e outras coisas até perderem tudo. Foi expulso de casa e morreu durante uma overdose. Mesma frente fria dessa doutora, pelo jeito. Semana passada, isso tudo, Sabrina está com sorte.
— Faz sentido. Uma vez o Ulisses estava em uma overdose e teve uma enorme baixa de temperatura. Ah, que da ora. — Tomás em seguida aponta para um túmulo do lado do que escavou. Na frente da lápide apontada, há um buquê de flores de mármore de cores diferentes. Branco, preto, verde e rosa.
— Verdade. — Verônica tira uma foto com o celular. — Agora, vamos por aqui. — Ela segue caminhada com Tomás indo logo atrás.
— Tu não tem ideia alguma mesmo de por que ela usa algo assim?
— Curiosidade, eu tenho, mas se no submundo já não é bom perguntar sobre tudo, no meu trabalho é mais complicado ainda. Queria muito saber, mas a Sabrina sempre desconversa.
— Pelúcias e defuntos. — Tomás tenta encontrar conexão entre os gostos.
— É, ela faria sucesso no Tumblr.
Um barulho oco e, talvez, um pó branco voando com a brisa chamam a atenção de Tomás, que rapidamente olha para o lado. O anjo que aponta a espada em 85º graus e tem o rosto voltado ligeiramente para a direita parece encará-lo. Ele murmura.
— Essas estátuas parecem vivas. Posso jurar que esse aí estava com a espada apontada mais para cima.
— Neste escuro e neste clima, é fácil de se confundir. — Verônica dá mais alguns passos e aponta para um túmulo. — Próximo.
— Oh, já ouviu falar da roda dos enjeitados? — Pergunta Tomás, enquanto enfia a pá na terra.
— É algum reality show?
— Seria menos triste se fosse o caso. Era uma parada na Santa Casa. Lá no hospital, não aqui no cemitério. Era um mecanismo giratório onde as pessoas colocavam crianças para abandonar e serem adotadas pela igreja e instituições de caridade. — Explica Tomás.
— Acho que eu teria sido colocada em uma se nascesse nessa época, apesar de que eu já tinha uns 10 anos.
— Tua madrinha ter te abandonado num puteiro não faz sentido para mim até hoje, Verônica.
— A Srta. Rosa sempre nega que conhecia meus pais, mas… Tenho achado que ela mente, isso sim.
— Para te proteger, talvez?
— Nunca tem como saber o que tem naquela cabeça. Proteger, interesse próprio, vai saber. — Diz Verônica. Então, a ruiva para e olha ao redor. — Hmm…
— Que foi?
— Acho que ouvi algo, vamos tentar focar em resolver este rápido.
— Eu já resolvi. — Tomás sacode um pé no ar. Verônica abre a caixa e ele joga o pé lá dentro. — O caixão não estava tão fundo e tão pouco bem lacrado. Devem ter dado um foda-se. Aí, os pés cheios de feridas também. Bizarro.
— Nosso último produto foi vítima de assassinato. — Diz Verônica ajudando Tomás a sai do buraco escavado.
— O açougueiro?
— Isso. Congelado no frigorífico. Ainda estão procurando o assassino, mas o chefe e a ex-namorada são os principais suspeitos.
— Muito doido isso. Ah, e vai dizer que morreu na mesma frente fria da semana passada? — Pergunta Tomás, levantando uma sobrancelha.
— Não, esse morreu ontem. Quanto mais fresco, melhor, e a Sabrina paga mais.
— Tu sempre faz esse tipo de busca para ela?
— Se fizesse, teria te chamado antes, meu profissional escavador. Não sou a única marmota do submundo, muito menos do Roseiral, apenas a melhor. Antes eu terceirizava essa parte, mas contigo aqui, vai ser mais rápido e mais lucrativo.
— Lucrativo diz não me pagar.
— Irmãos são para isso! — Diz Verônica com um sorriso debochado.
Os dois continuam a caminhada em busca do último túmulo. No caminho, notam que as luzes das câmeras ligam novamente. Verônica usa o celular para desativar os equipamentos e voltam a caminhar. Aproveita para dar uma olhada na foto das flores de mármore, mas está um pouco desfocada.
Ao passar na frente de uma estátua de leão, Verônica acha curioso como seus dentes parecem afiados e a criatura tem um olhar tão vivo, mesmo tendo mais de um século. O mármore envelhecido, no entanto, denuncia a sua antiguidade.
— Nos perdemos? — Perguntou Tomás.
— Não, não, já vamos chegar lá. Esse mapa é meio estranho.
— Foi tu quem fez ele.
— Não sou cartógrafa, nem designer. Fiz o que deu com base no que peguei de informações. — Verônica dá de ombros.
— Sabe, espero conseguir passar logo por esse período de pré-ingresso no Circuito de Proto-Humanos. Posso demorar para dominar essas habilidades, mas vou conseguir e vai render uma boa grana.
— Dinheiro e socar pessoas. Essas são as tuas únicas motivações, Tomás? Tenta sonhar com algo, ter objetivos melhores. Fazer amigos, para variar.
— Eu tenho amigos.
— Não, eu sei que tu não considera teus vizinhos amigos. Fora eu, tem ninguém.
— Tem o Roseiral…
— Também, não. Tu tem proteção mútua por ser teu trabalho e por sermos da mesma facção. Tomás, nem com as putas daquele lugar que deram por e de graça para ti tu conseguiu criar vínculos.
— Eu não preciso disso, Verônica.
— Todo mundo precisa, Tomás, e, com o passar do tempo, amizades ficam mais difíceis de conseguir. Vamos desenterrar um amiguinho para ti, encontramos o túmulo certo.
Desta vez, sem muito assuntos, Tomás vai cavando. Verônica olha ao redor, mas após ter a impressão de algo se mexendo, prefere ignorar e pegar o celular para ficar scrollando na subnet.
Verônica fica completamente entretida com os vídeos de gatinhos e, distraidamente, senta no túmulo ao lado. O algoritmo vai entregando mais bichinhos em seguida. Animais supostamente extintos, um filhote de mamute encontrado no Pólo Norte, e algumas criaturas esquisitas que ninguém sabe a origem, mas são extremamente fofas.
Outro barulho se faz e Verônica sente um calafrio na espinha. Ela insiste em tentar ignorar. As brisas frescas e os cheiros estranhos, no entanto, não permitem. O silêncio ensurdecedor é interrompido apenas pelas folhas das árvores, possíveis ratos pelos cantos, e ruídos não identificáveis. Aí que ela percebe a falta de um som: o das escavadas.
Verônica levanta os olhos, guarda o celular no bolso estica um pouco a cabeça e, com o coração batendo forte, começa a murmurar o nome do amigo quando uma mão gelada é colocada no seu ombro ao mesmo tempo em que uma voz estridente sussurra “Não senta em mim!”
— AH! — Verônica dá um salto e fica pálida enquanto se vira e se depara com Tomás. — FILHO DA PUTA.
— AHAHAHAHAHAHAHAHA. Muito bom, muito bom.
— Tu pegou a mão do defunto só para isso? — Pergunta Verônica, extremamente irritada, enquanto coleta a parte do morto e coloca na última caixa.
— Não, porra. O cara não tinha pés e um pedaço da perna não ia dar certo, eu acho. Sei lá como funciona isso. Daí peguei a mão. Tapei a cara dele com terra enquanto isso, ficar encarando foi estranho.
— Essa vai ter volta. — Diz Verônica, guardando a caixa na mochila.
— Tinha que ver a tua cara! Foi mais ou menos assim… — Tomás começa a fazer careta, que é brutalmente interrompida por uma lápide de mármore arremessada em sua boca que o joga para longe junto com sangue e, se não fosse o XPTO, com alguns dentes arrancados também.
— TOMÁS! — Verônica olha para seu amigo, depois se vira para a origem daquela lápide arremessada, mas não consegue enxergar sua origem, porque uma segunda vem em sua direção.
A guria consegue se desviar rapidamente e acompanha a lápide arremessada como um frisbee bater na árvore ao seu lado e cair no chão. No mármore, está escrito seu nome e a data atual. Verônica fica catatônica.
— NÃO BAIXA A GUARDA! — Tomás, que já havia se levantado, puxa Verônica, tirando-a do caminho de outra lápide.
— Teus poderes seriam bem vindos agora, viu?
— Não sei se tu sabe, mas eletricidade não funciona com mármore. Além disso, tentei interceptar uma com um soco e… — Tomás mostra o punho machucado. Longe de uma fratura, mas definitivamente não daria certo com mais algumas.
— SE ABAIXA! — Verônica puxa Tomás para baixo e outra lápide passa por suas cabeças.
— Caralho, de onde está vindo?
— De todo lugar. Ainda não identifiquei a origem.
— Verônica…
— Que foi?
— Eu falei que aquele anjo tinha algo errado! — Tomás aponta para atrás de Verônica, de onde uma estátua de mármore de um anjo vem flutuando, brandando sua espada.
Tomás e Verônica se preparam para a chegada do golem angelical enquanto olham a volta para ver se não há mais lápides sendo arremessadas. Como não há, cada um se joga para um lado quando o anjo desfere seu golpe.
Verônica corre até sua mochila e começa a abrir desesperadamente, sem qualquer precisão, mas o anjo a alcança antes que ela saque qualquer objeto. Se uma espada de mármore pode ser afiada a ponto de cortar carne humana, Verônica não descobrirá desta vez, mas descobrirá que uma porrada de espada de mármore dói.
Um pouco antes da arma pegar em seu ombro, Tomás dá um encontrão no anjo de mármore, que é arremessado apenas alguns centímetros e até que cai no chão. Nesse momento, a espada acabou batendo com a folha no pescoço de Verônica, a deixando sem ar por alguns segundos e cuspindo sangue em seguida.
Tomás corre até a estátua e dá um pisão em sua espada, conseguindo quebrá-la, mas sentindo a dor em sua perna. O guri dá um pulo para trás enquanto o anjo se levanta rapidamente, com seus membros se mexendo contra qualquer lei de física ou regra de anatomia.
Ao se virar para correr, Tomás é pego pelo pescoço e levantado no ar. O anjo pega a espada quebrada para enfiar nas costas de Tomás, mas o braço que o segura é quebrado por uma bola de ferro eletrificada. A criatura olha para o lado, para a garota, virando a cabeça em 90 graus sem o pescoço acompanhar.
— CHUMBO TROCADO NÃO DÓI! — Verônica aponta para a bola e grita para Tomás, que está se levantando após cair no chão. — EU USEI A PENA PARA CARREGAR AQUELA BOLA E JOGAR. FAZ O MESMO COM TEUS PODERES!
— EU NÃO ACHO QUE DEU CERTO, NÃO!
O anjo abaixa o corpo, pega o braço caído e conecta novamente ao corpo, mas agora o braço está mais curto, pois os estilhaços continuam no chão. A criatura parte em direção a Verônica, que continua tentando catar algo para se defender.
Tomás corre novamente e tenta dar uma voadora na estátua. O lutador é o único a sentir o golpe dessa vez. Ele tenta desferir socos e chutes, mas o anjo apenas o ignora e continua se movendo. Rápido o suficiente para pegar quem correr, lento o suficiente para assustar quem ficar.
— SEU MERDA, TU SÓ SABE SOCAR E CHUTAR? Se tu acha que dar choque em mármore não vai dar certo, capoeira também não vai dar muito certo!
A estátua baixa a mão para pegar Verônica, que finalmente consegue sacar algo útil da mochila. A garota apara o braço de mármore com uma adaga de lâmina verde, feita de jadeíta. O anjo usa a outra mão para socar Verônica, que novamente apara o golpe.
No entanto, a cada aparada, Verônica vai cansando de usar a arma, bastante pesada, e que começa a soltar lascas junto com o mármore do anjo.
— Concentra tua raiva, teu medo, tudo o que está sentindo! — Grita Verônica.
— Dar choque em mármore não vai adiantar nada! Só golpes físi… — Tomás para um pouco. — Já sei!
— Se tu teve uma ideia, faz logo! AI…! — Um fragmento da pedra voa na pálpebra de Verônica, ferindo.
A guria começa a fraquejar e tomar alguns golpes. Manter o olho fechado dificultava para desviar dos golpes, ainda mais com o braço cansando. Tomás coloca o braço esquerdo à frente do corpo e puxa o direito para trás, enquanto fecha a mão em punho.
Tomás ajeita as pernas para correr a qualquer momento. Em vez de fechar os olhos e meditar sua ira, começa a alimentar mais e mais sua cólera. Uma energia vermelha começa a passar levemente pelo seu corpo.
— MAIS RÁPIDO! — Grita Verônica, desesperada.
Finalmente, Tomás começa a correr, com seu corpo envolto em uma energia vermelha. Seus passos deixam faíscas para trás. Uma esfera envolve seu punho direito e Tomás salta, com seus pés disparando plasma para o outro lado, propulsionando seu pulo. O soco acerta o meio da lombar do anjo e, carregado em eletricidade vermelha, superaquece o mármore, e a temperatura, seguida do impacto, estilhaça a estátua.
Os fragmentos são disparados para todos os lados, ferindo Verônica e Tomás. Uma névoa branca se levanta do anjo caído e segue em nuvem em direção diferente à da brisa que passa. Tomás, extremamente cansado, ajuda Verônica a se levantar.
— Cacete, não sei o que acabou de acontecer, mas já fizemos o que tínhamos que fazer aqui. — Diz Verônica, limpando o sangue do rosto com um lenço do bolso.
— Sim. Vamos pegar nossas coisas e ir embora. — Tomás dá uma batida na roupa. — Usar esses poderes me exauriu mais até mesmo do que trocar soco com esse anjo do inferno. — Tomás anda lentamente procurando pela pá.
— Ok, aqui tá a mochila. Cara, essa adaga era muito boa, não queria ter usado. Ia ficar na entrada da parte de armas da minha coleção. — Verônica vai arrumando a bagagem. — Viu a pá?
— Tá aqui. — Tomás, uns metros à frente, tenta levantar a pá no ar, mas o braço cai de exaustão.
— Eu sei, Tomás, que não sou uma lutadora, mas justamente por isso já vi muita coisa. Eu ando pelo submundo sem necessidade de confrontos diretos, então, confia em mim, eu sempre sei do que tô falando.
— Ah, é? E a senhora experiente já lutou contra um leão antes?
— Já fugi de uma onça, mas o que tem a ver?
Tomás, com pouca energia, corre em direção a Verônica, a joga para o lado e enfia a ponta da pá na boca de um leão de mármore que havia pulado na direção da garota. Ele joga o leão para o lado com a pá e uma disparada de energia, para a seguir cair no chão.
— Puta que pariu, não acaba nunca! — Verônica começa a tremer. Ela olha para Tomás caído, olha para o leão de mármore, olha para as próprias pernas e braços, machucados e tremendo.
— ROAR! — O leão solta um rugido forte, mas metálico, com ruídos. — ROARR, ROARR! — A cada roar, alguns sons de chiado, que apenas Verônica nota, pois Tomás está preocupado demais tentando se levantar. — ROA…— PFFT! Uma meleca, aparentemente marrom pela pouca luz que há, é jogada na boca do leão, interrompendo seu som enquanto gruda a mandíbula de mármore.
A estátua tenta balançar sua cabeça para retirar a gosma, mas seus movimentos são muito vagarosos, então não funciona muito bem. Ele levanta a pata esquerda para tentar raspar o focinho, mas logo tem que coloca-la no chão novamente para não cair quando outra meleca é jogada na pata direita, a prendendo no piso de pedra em que se apoia.
— Ruaahh! — Um rugido fraco, infantil, pode ser ouvido.
A fonte é um pequeno ursinho de pelúcia na frente do leão que parece testar sua bravura. Ele segura um pote de mel e arremessa algumas bolas a mais no felino de mármore. No entanto, nada acontece para além da estátua demonstrar ainda mais ferocidade. O urso dá um pulo, dá um tapa na boca do leão e quebra o focinho.
O leão consegue desprender a pata grudada e quase acerta o boneco, que é salvo por uma ave que pousa, o agarra e o leva para uma direção atrás de Verônica e Tomás, já de pé, e a dupla de amigos se vira.
Uma menina de pele pálida, vestido negro de renda com olhos e joias verdes que brilham como vaga-lumes, sombra e batom escuros, vem caminhando em sua direção. Seu braço direito tem uma corrente enrolada que na ponta há uma garra de aço em formato daquelas de máquinas de bichinho de pelúcia. A ave deixa o urso ao lado das sapatilhas pretas.
A sensação de encontrar Sabrina dessa forma é descrita no submundo como “Ver um demônio de gelo comendo algodão-doce. A vontade é de rir, mas o instinto de sobrevivência avisa que é melhor não fazer isso. A garota está há apenas um ano agindo como Proto-Humana, mas já possui uma reputação forte.
— Sabrina? — Pergunta Tomás.
— Sim e não. Com essa roupa, seu nome de Proto-Humana é…
— Luciferina. — Apesar do tempo estar apenas fresco, o tom de Luciferina parece invocar o inverno. Uma presença forte, mas, ao mesmo tempo, feminina e delicada. Sua voz é suave. — Mandei mensagem para pedir antecipação da entrega para hoje. Não tive resposta, vim te encontrar aqui.
— Ainda bem. Esse inútil aqui…
— Vai à merda! — Tomás interrompe Verônica.
— ...não sabe usar os próprios poderes. Já derrubamos um anjo e agora apareceu um leão. Inclusive, ele tá parado por quê? — Logo notam que a estátua do felino está com a cabeça baixa, regenerando aos poucos sua boca quebrada.
— Me digam o que vocês ainda conseguem fazer. — Luciferina fala de forma calma, sóbria, conseguindo murmurar e ao mesmo tempo ser ouvida pelos dois.
— Acho que consigo disparar mais um raio, mas ainda não dominei totalmente. — Diz Tomás.
— Esta adaga ainda consegue dar mais uns golpes. — Complementa Verônica.
— Certo, vamos fazer o seguinte… — a gótica chama os dois para mais perto.
Enquanto Luciferina conta seu plano, a estátua de leão termina de se regenerar e parte em disparada em direção da garota gótica. Durante a corrida, Luciferina vai em sua direção. No momento que o leão salta para frente, Luciferina pula por cima e joga sua garra de aço, que segura a estátua com força.
Em seguida, Luciferina segura as correntes com as duas mãos e o arremessa em direção de Tomás. O guri empurra o ar com as mãos abertas, disparando eletricidade enquanto joga o leão em diagonal para cima e para frente, formando um arco na direção de Verônica.
— LEVANTA, E…
— CORTA! — Verônica pula e acerta o leão no ar com a sua adaga, que mais parte a estátua ao meio do que realmente a corta.
A criatura cai no chão em dois pedaços, sem soltar nenhum rugido de dor. Verônica dá um sorriso e levanta o polegar diagonalmente a Luciferina e a Tomás.
— VALEU, TIME! — grita Verônica.
Tomás, mantendo um olhar sério, mas, ao mesmo tempo, abrindo um pequeno sorriso, responde o sinal. Luciferina olha para os dois com olhar enigmático, sem qualquer emoção. Do outro lado, uma voz fraca e infantil dispara um “uhul”. Os dois amigos giram seus braços em direção ao ursinho de pelúcia que, com pose de herói, também levanta o polegar.
— Esse é o Purserino, meu ursinho. A harpia é o Harperino. Meus leais cavaleiros que obedecem aos meus comandos, mas possuem vida própria.
— Oh, ele parece muito gente boa. Toca aqui, carinha! — Verônica chega perto e dá um high-five na pata do urso.
— Ahaha, e esse mel, é de verdade? Posso pegar um pouco? — Tomás pergunta ao urso, que reage com uma expressão que deixa claro que é melhor não chegar perto de seu pote.
— Vocês estão bastante machucados. Estou com meu carro ali na frente, eu deixo vocês em casa e já levo minhas encomendas para a minha.
— Oh, certo, mas no Roseiral, por favor. É onde podemos tratar os ferimentos. — Diz Verônica.
— Hiiiiaa! — O som estridente de um pássaro vem rasgando o ar com a harpia de pelúcia.
— Gente, tem mais vindo! — Luciferina aponta alguns vultos ao longe.
As estátuas ao longe começam a se mexer e o grupo se prepara para correr, mas são interrompidos quando se vêm cercados. As estátuas ao redor também criam vida e caminham de forma bastante lenta e retiforme em suas direções. Os cinco ficam encurralados.
Se forma um perímetro de criaturas, mas nenhuma avança para atacar, até que elas abrem caminho para duas figuras. Uma estátua com movimentos bastante naturais como, de fato, de um ser humano, se aproxima. Ao seu lado, caminha uma mulher de mármore negro extremamente bela, detalhada, brilhante.
— Continuar essa luta por mais tempo só causaria problemas entre nossas facções. — O homem mostra-se, de fato, um humano, mas cuja pele estava coberta por um mármore extremamente branco.
O homem é extremamente belo, assim como a mulher que o acompanha, que, em silêncio, parece participar da conversa com expressões de corpo e rosto. A voz do jovem homem consegue competir nos calafrios com Luciferina.
— Galateu… Eu devia imaginar. — Responde Luciferina e o clima que se forma é como se duas frentes frias se chocassem.
— Esse nem eu conheço. — Comenta Verônica.
— Ele entrou no submundo no ano em que virou Proto-Humano, entrou para o Circuito e passou a trabalhar apenas em missões diretas para o CFO da GoWeb New Age. — Responde Luciferina.
— No teu estado, desmaiaria sozinho com o próximo golpe que desse.— Galateu olha profundamente nos olhos de Tomás, que paralisa. — Espero ao menos que tenham aprendido a lição.
— Lição? Tá viajando? A gente tava só trabalhando, cara. Roubo de túmulo não é atividade para todo dia, mas, né, comum para qualquer marmota. — Retruca Verônica.
De repente, o clima esquenta. O rosto frio, sem emoções, que parece uma estátua mais do que as próprias estátuas do cemitério, dá lugar a uma expressão que levemente sobe a temperatura. O suor derrama por sua máscara de mármore, vindo da margem do seu couro cabeludo. As estátuas começam a se mexer novamente, mas param de repente. Galateu se acalma assim que o golem feminino de mármore negro o abraça.
— Minha noiva não quer ver mais sangue hoje, por isso, vou perdoá-los desta vez. Abrir os caixões não foi o problema. A começo de conversa, ao desenterrar o primeiro, vocês jogaram terra por cima do túmulo e das flores de Amanda. — Galateu olha para a estátua de mármore ao seu lado e, depois, novamente para os interlocutores. — Depois, vocês não fecharam as covas e deixaram uma sujeira enorme por todo o cemitério.
— Vish, isso a gente fez mesmo. — Verônica comenta, baixando a cabeça enquanto Luciferina olha para ela com reprovação.
— Agora, vão embora, eu já arrumei a bagunça de vocês. — Galateu aponta para um espaço que as estátuas abrem em direção ao portão.
— Desculpa, tá? Prometemos não fazer mais isso. Vamos, gente. — Verônica toma a frente, seguida por Luciferina e suas pelúcias, mas percebe que Tomás ficou parado.
Ela olha para o garoto e percebe o campo de eletricidade subindo, de forma fraca, mas ainda presente. Tomás está encarando Galateu com fúria e ódio, que responde com sentimentos parecidos, mas misturados com desprezo. A temperatura começa a subir novamente.
— Tomás! — Diz Verônica rapidamente. Ele olha para ela e seu campo elétrico vermelho se dissipa no ar. — Sei que tu não tá acostumado a perder, mas entende: as coisas mudaram. Tu não está mais no topo da cadeia alimentar, na verdade, está bem longe dela.