Ressaca
— Mano, vocês tão bem quietos, né? — Ulisses pergunta, enquanto olha para o teto. O ventilador gira em frames lentos, parece uma apresentação de slides. Ao mesmo tempo, as baforadas de Ulisses fazem o ventilador adquirir outras cores. — O gnomo mordeu suas línguas? Ahaha.
— Hahaha… — Bigode dá uma risada abafada que aumenta o tom no meio e se dissipa, como uma música de cinco segundos que entra com fade in e vai embora com fade out.
— HA, HA, HAaaa…!— Maju, ao mesmo tempo, solta uma risada histérica, que morre em um gemido.
— Mano… puta que pariu… — Uma raiva psicodélica toma a garganta de Ulisses. Como se um cogumelo “mágico” estivesse sentindo ódio. Uma ira que não queima, mas invade seus sentidos e fazem os planetas de sua mente colidirem. — Não acredito que de manhã vou ter que encarar aquela puta.
— Arg…
— Huh… — Os dois respondem com gritos abafados de ira, de raiva, de ódio.
— Mas talvez eu só tenha que dar uma dura nela. — Diz Ulisses.
— Eh…
— E ela tende a ser razoável, às vezes. — Ulisses olha para cima, como se estivesse refletindo, para então chegar a uma conclusão que entende ser satisfatória.
— Aahh.
— Haa…— Bigode e Maju concordam em alívio.
— Uma conversinha, acender unzinho, mas não deste, que vou guardar para mim mais tarde… E talvez a gente se entenda e consiga conversar de mais pertinho. — Ulisses baixa a mão pela barriga, até chegar na própria coxa, e dá uma pequena apertada.
— Hahaha. — Maju se empolga junto, Bigode dá apenas um suspiro em sincronia.
— Uma jantinha, uns beijos. — Ulisses passa a mão na virilha.
— Aahmmm… — Bigode solta um pequeno gemido.
— Acender um bongzinho, fazer uma massagem. — Os dois companheiros continuam a soltar gemidos, às vezes mais longos, às vezes mais fortes, intensificando aos poucos. — Quero deslizar a língua por toda aquela ceda até deixá-la pingando. Aceder o seu fogo com as mãos, absorve-la em fumaça em cada centímetro do seu corpo. Depois do teto bater lá em cima, tocar as pétalas com as mãos de forma delicada no começo, mas firme.
— Aaaaaahhhhh… — Maju e Bigode soltam gemidos ainda mais fortes, finalizados com um som oco de batida.
— Mano, nem cheguei na melhor parte, já acabou para vocês? — Ulisses baixa a cabeça em direção aos outros dois. — Cara, por que vocês estão comendo cabelo?
Ulisses ri em tom debochado da cena, apesar de não entender nada do que está acontecendo. Bigode está caído no chão, virado para baixo, e Maju jogada na poltrona, com o olhar paralisado e soltando pequenos gemidos, cada um com uma emoção diferente. Há múltiplos filamentos pela sala, partindo do corpo de Ulisses.
Alguns estão mergulhados nas garrafas de cervejas, outros abraçam pós e pílulas desmanchadas na mesa, vão para várias direções. Parte desses fios chegam nos corpos de seus companheiros e entram por diversos orifícios. Boca, nariz, ouvidos… Todos os filamentos pulsam em ondas que vão até Ulisses provocando risos, prazer, euforia e outras sensações no músico.
— Que teto estranho, cara.