I.
(Texto escrito à mão, encontrado em uma bola de papel jogado na porta do Departamento de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, recolhido ao escritório de Srta. Rosa)
Título: “E vocês todos deveriam se curvar!”
Obra escrita e narrada pelo roteirista Fernando Ulisses
(Aos cuidados do Prof. Pletskaya, de teatro, para avaliar a execução da obra abaixo)
Escrevo este relato tão fantástico que poderia estar saindo de minha mente criativa. No entanto, os horrores que vivi e dos quais eu e minha amada ainda nos recuperamos só poderiam ser gerados por mentes doentias e perturbadas. Talvez a minha seja uma delas.
Escrevo este texto à caneta em um bloco de notas que sempre carrego comigo para minhas ideias. Ainda, a escrita que uso é, sim, de minha notoriedade artística e merece atenção — no entanto, não sei mais o valor disso agora que Bianca está deitada nesta cama de hospital ao meu lado.
Seu corpo está totalmente coberto por faixas e unguentos cuja natureza desconheço e só me falta permitir que os “médicos” cuidem de minha amada (como se a “medicina” fosse capaz de algo). Os horrores que fragmentaram sua mente e destruíram parte de sua carne não podem ser encontrados em qualquer manual de medicina. Como se o próprio ar que passa por nós fosse a extensão da boca de um ser invisível e onipresente, vi o “nada” salivar um ácido gosmento e voraz sobre seu corpo.
A cor, verde como um musgo do abismo oceânico, era contornada apenas pelo vermelho do sangue e da pele irritada de Bianca, com seu branco quase de papel sendo corroído lentamente em tom descompassado aos seus gritos de horror que eram respostas não à dor física, mas à penetração mental de uma criatura cuja própria existência perturbava o suficiente a ponto de ser um sedativo perante a qualquer sensação corpórea.
Ainda que minha namorada tenha sofrido a corrosão física e mental das enzimas digestivas de uma criatura cujas presas foram capazes de penetrar o tecido da nossa realidade, meu sofrimento também é altamente notável — se não maior. Ainda que sua dor a consumisse fisicamente de fora para dentro e mentalmente de dentro para fora, seu sofrimento há de ser comparado ao meu. Minhas criaturas também são internas e externas. Diferente do algoz de minha amada, que também enfrentei e que graças a mim não a assola mais, ao menos pelo momento, minhas criaturas continuam existindo.
Eu estou vivo, ela nem tanto, mas no final da semana, a realidade pode se inverter. Sou um ótimo namorado e estou feliz com isso. Sentimos muito, nos perdoamos, nos amamos, somos gratos.
Foi por sorte — ou seria um chamado cósmico? — que fui capaz de encontrar um livro mais antigo do que o papel na biblioteca mais macabra em que já estive, mas que também traria a resposta para nosso dilema. Esse e outros volumes foram encontrados por mim, seguido por Bianca, minha amada, e Vê, a irmã de criação de meu melhor amigo Tomás. Estávamos investigando o primeiro ataque dessa criatura sobre minha esposa e outras vítimas espalhadas quando descobrimos um pequeno culto de grandes horrores sob o asfalto quente da praça frente à Usina do Gasômetro em Porto Alegre.
O horror, no entanto, já havia começado mais cedo naquele dia…
Anot.: lado a lado, bate com o rel. do Tom.? Vou botar trechos intercalados para comparar. Vou pular o que está igual.
II.
(Arquivo digitalizado, impresso e entregue no escritório de Srta. Rosa)
Título: “E vocês todos deveriam se curvar!”
Relatório de investigação e autoanálise de desempenho de Tomás Vachet, revisado por Verônica Rocha
Eu, Tomás, sou bobão, não sei escrever, só sei bater em pessoas. Sou um troglodita. Por isso, vou relatar tudo para a Verônica e ela vai fazer o trabalho de revisar o que escrevi depois. Também estou devendo um engradado de cerveja para ela.
Era o início da manhã de um sábado ensolarado, de um dia bonito que faria o verão de Porto Alegre perfeito se o acesso às praias da capital fosse facilitado. No entanto, a sensação em meu quarto é de que estávamos todos em uma noite de sexta-feira fria, chuvosa, e com neblinas, como se ainda estivéssemos presos no dia anterior. O clima meteorológico e o clima psicológico não estavam combinando.
Sentada na cama, estava Bianca, com olhos cabisbaixos e tremores nas pálpebras. Seu antebraço esquerdo estava fechado com curativos e a mão direita sobre os mesmos. A guria, que sempre fora branca, combinava com o pálido dos meus lençóis. Sentado em minha mesa de cabeceira estava um jovem magrelo, com rosto enrugado e dreads que caiam também sobre pele branca. Ulisses, com olhar em chamas de fúria acendidas pela faísca do caos presente no combustível de angústia que já o permeava há alguns dias.
Ao fundo, abafada pela barreira da porta fechada, a voz de Dona Amélia podia ser escutada: “Verônica, há quanto tempo! Pode entrar, Tomás está no quarto dele”. Passos firmes, suaves e ágeis flecharam pelo corredor e, em poucos segundos, a porta se abriu sem muitas cerimônias. “Tomás, nós precisamos converss..r” — e a Verônica se interrompeu ao perceber pessoas e um clima que não esperava.
Eu estava sentado em uma cadeira de praia, com olhar impaciente e tenso — não como os demais, mas com os demais. Após os cumprimentos, ofereci a ponta da cama para minha amiga sentar e sinalizei para que Bianca recomeçasse seu relato. Aqui, gostaria de trazer o relato ipsis litteris.
— Estávamos em um boteco da Cidade Baixa ontem e — Bianca foi interrompida por Ulisses.
— Conta direito, amor. Deixa comigo. Estava tudo meio vazio na CB… Ainda que no verão Porto Alegre tenha altos e baixos no movimento pelas pessoas que vão para o litoral, a densidade de pessoas estava menor do que o comum. Em compensação, tinha uma neblina forte e densa, que podíamos sentir com os dedos ao erguer as mãos.
— E, também, tinha um cheiro indescritível… azedo… — Bianca complementa.
— Azedo, haha, e tu disse que era indescritível. Ok, amor, deixa que eu continuo. O cheiro era azedo mesmo, podre, e, ao mesmo tempo, adocicado. Lembrava o cheiro de carne humana queimada, misturada com peixe podre e limão. Difícil descrever. — Disse Ulisses.
— Nesse momento, já não tinha mais ninguém, mesmo. Estávamos a sós. Nem o garçom que viria nos trazer a próxima cerveja enquanto estávamos sentados nas cadeiras de plástico da calçada do boteco estava lá. Ulisses sugeriu aproveitarmos para ir embora…
— Não que eu fuja sem pagar, apenas o ambiente que estava perigoso.
— É, amor, sabemos que tu tem boa índole.
— Sim, agora, deixa eu concluir para eles entenderem melhor. — Disse Ulisses. — O ar foi ficando cada vez mais denso, até que a Bianca começou a relatar algumas visões. Algumas mães d’água verdes que flutuavam e desapareciam. Achei que ela estava ficando doida.
— Haha, tu sempre acha, amor.
Anot.: Mãe d’água = água-viva ou sereia?
— Claro, vida. Fico de olho em ti, tem histórico na tua família. Tenho que cuidar de ti. Enfim, eu comecei a ver essas mesmas mães d’água e seus tentáculos curtos, mas elas apareciam perante a Bianca. Era como um convite.
Anot.: Ok, o animal.
— Naturalmente, vocês não aceitaram esse convite. — Disse Verônica, que por ser uma pessoa bondosa, confiou no bom senso daqueles dois.
— Claro que aceitamos, Vê. — Disse Bianca, não entendendo a cara de surpresa pelo “aceitamos” e a bufada pelo “Vê” da amizade claramente forçada. — Quando o universo te envia um convite, tu deve aceitar. — Ulisses acenou em concordância com a namorada, que falava em tons dissonantes de esperança de uma menina empolgada com a perturbação de um transtorno pós-traumático.
— Eu segui as mães d’água e Bianca me acompanhou. Fomos pelas curvas e esquinas, mas a caminhada estava um tanto difícil.
— Era como se estivéssemos caminhando em um rio viscoso e sem correntezas, mas não tocamos em uma gota d'água sequer, e daí... — Complementou Bianca.
— A gente foi chegando mais perto da Orla do Guaíba — interrompeu Ulisses — e o ar foi ficando mais denso. Os bichos não apontavam apenas direções, mas sim o trajeto. Onde dobrar, aonde ir reto, onde atravessar, com a maior eficiência possível para nos levar ao destino. Quando chegamos de fato na Orla, as coisas ficaram mais esquisitas. As mães d'água pareciam nos levar em direção à Usina do Gasômetro, mas não conseguimos dar mais nenhum passo, porque a Bianca interrompeu a caminhada.
— É. Eu tive que parar. Algumas vozes, que já tinham começado fracas antes e eu disse para o Ulisses, mas acho que ele não tinha entendido bem...
— É que tu fala baixo, né?
— Verdade, eu tenho que melhorar isso. As vozes começaram a soar mais alto. As falas, eu ouvia, eu entendia as intenções, mas não sabia que língua era. A pronúncia, não consigo nem reproduzir. Sons que talvez não sejam humanos. Mas era uma voz, depois duas e depois três. Elas falavam em cântico e uma quarta voz, baixíssima, mas imponente, parecia murmurar em resposta. Uma criatura das Antigas Eras, eles diziam, e que seu novo sacrifício estava aqui.
— Confuso, né? Ela ouvia e não ouvia. Não dá para saber o que realmente aconteceu e o que foi da cabeça da Bianca.
— Então, a criatura falou algo sobre sentir fome e estar pronta para voltar quando estiver alimentada. Foi aí que as coisas realmente ficaram estranhas.
— Só aí? — Verônica, incrédula.
— Sim! A densidade da atmosfera ficou maior e a viscosidade virou uma gosma verde que caía no chão como se o próprio ar fosse a boca de uma criatura salivando sobre suas presas. Quando algumas gotas dessa saliva caíram sobre o braço de Bianca, a pele dela começou a corroer. — Disse Ulisses.
Continuou: — Senti vontade de correr, mas fiquei bravamente ao seu lado enquanto ela gritava de dor. Após alguns segundos, a névoa gosmenta se dissipou e alguns transeuntes, passeando pela orla, simplesmente apareceram ao nosso olhar, como se sempre estivessem estado ali. — Ele ficou tentando imitar algum tipo de contador de histórias de rua com toda uma teatralidade bosta.
— Aí, apareceu alguém querendo nos levar no posto, mas a gente veio pra cá e fizemos um unguento de cogumelos e óleo de coco, cobrimos com folha de bananeira, mas ardia demais ainda. Tomás quem nos salvou. Com alopatia, ok, mas cuidou do meu braço e nos sugeriu descansar. — Explicou Bianca e tanto ela quanto Ulisses olharam para mim com certa admiração e carinho.
Quando eles registram meus atos como algum tipo de bondade, eu realmente fico em dúvida se estou feliz ou não. O problema é que quando pensam que me importo com eles, se sentem à vontade para se aproximar mais. Eu estava dormindo e ouvi gritos do quarto deles. Cuidei dos ferimentos e mandei dormir para parar de me encher o saco.
— Quando isso começou? — Perguntou Verônica.
— Pelas 22 horas? Acho que foi isso. Hoje, a gente vai lá, durante o dia, tentar entender o que aconteceu. — Ulisses respondeu enquanto Bianca abria a boca.
— Ok, os horários batem. — Verônica me puxou para fora do quarto e fomos até o quintal de trás do condomínio. Após olhar ao redor, para ver se havia ouvidos curiosos, me contou que foi por isso que tinha ido lá.
Então, ela disse que a pétala Dalila tinha sido atacada no dia anterior pelas 22:30. Estava na parada de ônibus, voltando de um “serviço” e o celular estava sem bateria. Um carro preto rapidamente parou na sua frente, abriu a janela e jogou ácido em seu rosto e corpo, para em seguida sair correndo.
Verônica me contou que desta vez o trabalho não seria simples, como ir atrás do culpado e corroer a cara dele na base do soco, mas sim investigar o caso. A ideia até era irmos juntos, conversar com outras vítimas que também passaram pela experiência de Dalila, mas o caso da Bianca era bem peculiar.
Por conta disso, ela decidiu que deveríamos nos separar. Ela acompanharia Bianca e Ulisses, eu iria atrás das outras pétalas e vítimas. Daí, voltamos para o quarto.
Ulisses estava balançando a perna e a Bianca tremeu com a brisa da porta abrindo e fechando. A Verônica disse a eles que era jornalista e os ajudaria com habilidades de investigação. Também contou que uma das… moças… que trabalham na Rosa Branca, uma das casas do Roseiral, e outras mulheres da cidade foram atacadas com ácido e que eu, como segurança dessa “zona”, iria verificar a situação dessas outras vítimas. Ulisses demonstrou algum desconforto por eu escolher trabalho em vez de proteger amigos, se arrumaram e saíram dali.