IV.
Anot.: Tom.
Estávamos no meio da manhã e o sol quente que fazia Porto Alegre ser chamada de Forno Alegre por seus habitantes torava nas costas de quem ousasse colocar o pé na rua. Eu já tinha fugido desse calor e estava sob o ar condicionado da Rosa Branca, a “casa noturna” do Roseiral localizada na Cidade Baixa, nossa principal “loja”.
No entanto, por mais que a temperatura elevada lá fora machucasse, havia uma dor maior dentro do local. A voz de Dalila parecia se perder em escuridão e vazio de um abismo oceânico, submersos em medo e agonia. As feridas maiores eram na sua mente e não no corpo.
A criatura que a atingiu não acertou muito de sua pele. Acontece que, no momento do ataque, ela havia colocado a mão na frente para tentar bloquear o ácido atirado. Algumas gotas caíram sobre a roupa, deixando apenas poucas marcas diretamente no busto e no antebraço, enquanto outras menores foram na testa e no queixo.
Dalila disse que estava em uma parada de ônibus da Avenida Ipiranga, perto do shopping que tinha o mesmo nome do logradouro, à noite, e uma das luzes do poste tinha começado a falhar. Ela tinha acabado de sair da casa de um cliente e só percebeu que estava sem bateria para chamar uma carona de aplicativo quando saiu de lá. Não conseguiu falar com ele novamente e decidiu pegar um ônibus.
Há pouco, tinha passado uma dupla de brigadianos que estava fazendo ronda e, quando estes já estavam na esquina, aconteceu a situação. O poste terminou de falhar, a lâmpada estourou e um fusca preto apareceu de repente. O carro parou, abriu a janela e ela avistou um humanóide esquisito com uma pele viscosa de cor acinzentada. Ele esticou a mão e jorrou um líquido ácido em Dalila, que logo colocou o braço no rosto e gritou. Antes dele tentar um segundo jorro, os brigadianos vieram correndo. O fusca partiu e correu mesmo recebendo tiros.
Dalila é uma garota nova de idade e nova no Roseiral. Disse que tinha medo de se tratar de uma vingança de algum dos seus clientes após ela rejeitar apaixonados e certos fetiches. Eu não posso descartar a possibilidade, claro, mas em toda minha vida como combatente e guarda-costas deste lugar vi mais ameaças dessas do que ataques. A violência, quando era para ser, era na hora — e poucos se atreviam a machucar uma pétala da Srta. Rosa.
Naquele momento, outra menina se manifestou. Ela havia chegado há pouco e esperou Dalila terminar de contar a história para falar. Segundo ela, uma amiga sua, Rosana, tinha passado por uma situação parecida na noite anterior, mas estava hospitalizada. O ácido atingiu seu rosto inteiro, inclusive os olhos, e a cegueira seria definitiva.
Não seria conveniente conversar com Rosana, mas com seu namorado, que estava junto, talvez fosse. Segui imediatamente para o hospital onde ela estava internada, ali no bairro Menino Deus, a fim de começar as buscas a partir dali, já que a pétala não tinha o contato do namorado de Rosana e eu sou um analfabeto digital, daí não dava para chamar nas redes sociais. Por sorte, o responsável pela emergência naquele turno era um conhecido meu. O Dr. Rodolfo era pai de uma menina menor que havia sido sequestrada e tentaram “vender” para o Roseiral alguns meses atrás.
Localizei o namorado, que tinha acabado de trocar o posto de acompanhante com o irmão de Rosana e fora almoçar. O segui sorrateiramente até o restaurante da esquina e sentei à sua frente. Ele estava tremendo em ódio e tristeza, mas quando me viu, o caos ficou maior. Parecia uma chaleira fumegante que acabara de ser tapada e começara a tremer no lugar sem saber se explodia ou não.
Logo, me apresentei — ao menos no que importa a alguém da Superfície — e expliquei que estava atrás de quem fez aquilo com Dalila e, também, Rosana. Anderson parecia desconfiado, mas, ao mesmo tempo, aliviado de poder falar sobre isso com alguém. Então, ele me contou seu relato.
Os dois, Anderson e Rosana, estavam saindo de uma consulta com sua nutricionista, coincidentemente também na Avenida Ipiranga, na frente do conjunto de prédios comerciais que tinha por lá. O último horário que viu, ainda no elevador, foi 22:25, pouco antes de Dalila ter sido atacada.
Quando na calçada, estavam sob uma iluminação já fraca e notei que ele não mencionou o fenômeno de lâmpada estourando não aconteceu. Um fusca preto se aproximou e parou. Saíram do carro duas figuras. A primeira, a princípio uma pessoa, usando uma túnica verde-musgo e que parecia com pressa, a ponto de deixar cair uns papéis que estavam no veículo. A segunda, um humanoide esquisito, de pele viscosa cinza, e umas antenas penduradas na cabeça. A figura, por si só, talvez fosse ridícula em outra situação, mas o clima pouco colabora para gozar do mesmo.
Ao ver que o homem da túnica veio em sua direção, Anderson conseguiu golpeá-lo na boca do estômago e o empurrá-lo para o lado. A criatura humanóide estava lentamente, mas a passos duros e longos, se aproximando de Rosana, que, com medo, gritava e se afastava. A guria se virou para correr, mas a criatura não a permitiu ir longe.
O ser estranho abriu a boca, proferiu palavras indecifráveis com um tom de voz horrendo que acertaram os ouvidos de Rosana como uma sniper de som, e ela caiu no chão. Anderson tentou agarrar a criatura, mas este desviou e o olhou sem qualquer expressão. O humanoide não fazia outros sons, não falava, não parecia nem mesmo respirar. Se mexia com assertividade e dureza, indiferente a qualquer obstáculo, e socou o estômago de Anderson, repetindo o golpe que seu motorista tinha recebido.
Anderson se levantou com esforço e agilidade que conseguia, mas não a tempo de impedir o humanoide de agarrar Rosana no chão e jorrar ácido sobre seu rosto. Algo pior ainda parecia que ia ocorrer quando o barulho do tecido da blusa de Rosana rompeu os gemidos dela e de seu marido. O ser, no entanto, foi interrompido quando um grupo de três pessoas usando terno preto e óculos escuros, no calor e escuro da noite de verão, apareceu no horizonte. Em seguida, Anderson desmaiou e acordou na emergência com Rosana.
Me levantei, paguei o almoço de Anderson e fui embora. Notei alguns padrões nas histórias, mas queria confirmar antes de tirar conclusões. Algo me dizia que Bianca, Dalila e Rosana não teriam sido as últimas vítimas.
Fui até o Centro Histórico que estava com o baixo movimento do sábado à tarde tradicional de Porto Alegre. Entre as ruas e becos com maior fedor de mijo, a pior esquina da Avenida Farrapos tinha um bar que estava sempre aberto para quem soubesse onde ficava sua entrada. Como um dos clientes mais frequentes, não precisava nem girar a maçaneta. A porta se abriu para mim.
Por dentro, a situação era outra. Carpete vermelho, paredes cobertas de garrafas, móveis de ébano e cerejeira, sofás de couro autêntico, barris de carvalho que pareciam fontes infinitas de cerveja. Não existia martelada na cabeça que não tivesse remédio em um martelinho daquele bar.
O dono, Capeletti, era a marmota mais eficiente e famosa do estado quando o assunto era bebidas alcoólicas. Não arriava para nenhuma entrega, não importasse a dificuldade. Fazia negócios com pessoas da Superfície sem qualquer medo do Véu da Ignorância, pois seu trabalho era tão sigiloso que nem mesmo os maiores conhecedores do Submundo sabiam de onde vinham seus pedidos.
A garçonete, uma antiga… amiga… minha já estava servindo o chopp de sempre enquanto eu me dirigia ao balcão. Ela falou algo do chopp estar quase tão gelado quanto eu, mas não entendi muito bem. De qualquer forma, após cumprimentar os poucos presentes, me pus a beber enquanto pensava nas histórias.
Peguei uns rabiscos do bolso. Eu tinha pedido para Dalila e Anderson tentarem desenhar a figura. Naquele momento, senti uma batida no ombro. Um outro cliente recorrente do bar disse que reconhecia a criatura. Sua irmã tinha sido atacada, mas conseguiu fugir a tempo. O horário? 23:40. Local? Perto das Rótulas das Cuias, a “obra de arte” apelidada de “Politeta” pelos porto-alegrenses e que, coincidentemente, ficava na continuação da Ipiranga.
Minha amiga se aproximou com expressões confusas. Ela parecia satisfeita que um hiperfoco seu, casos obscuros, virou pauta de discussão. Só que também estava horrorizada com o motivo disso acontecer.
Me indicou ir até o acervo da Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, lá no Menino Deus, e ler sobre os casos do ano de 1999, quando pessoas teriam morrido por ácido derramado em seus corpos. Ao terminar meu caneco, decidi que seguiria o conselho, mas pedi mais um chopp antes de ir andando para a biblioteca.