VI.
Anot.: Tom.
Não conseguia parar de beber conforme pensava na história toda. Três canecos de chopp nunca foram um problema para mim. Cada gole de chopp parecia me colocar mais dentro da situação. Talvez tenham sido mais do que três canecos, porque só saí de lá chutado.
Não era para eu estar tão tonto quando saí daquele lugar. Eu sentia que algo estava chamando meu nome de longe, mas eu não sabia a origem. Na verdade, meus passos estão normais, é minha mente que parece estar tropeçando. Conforme me afastava do Centro Histórico, a voz ficava mais distante. Com o fim dos chamados, uma angústia começou a surgir em meu peito.
Uma dor cada vez mais forte batia em meu peito conforme eu caminhava. Algumas imagens em movimento apareceram perante meus olhos. Uma grande árvore avermelhada surgiu em minha frente e quase bati a cabeça.
Suas raízes estavam expostas e destruídas. Metade, cortada em fatias com a seiva escorrendo pela terra. Outra metade, corroída, ao passo que era transplantada por um enxerto que surgia do nada.
Uma buzina me acordou e eu estava no meio da Avenida Érico Veríssimo, onde ficava localizada a biblioteca para a qual me dirigia. Recuperei meus sentidos e voltei a caminhar, apressado. A tontura tinha passado, apenas a confusão pós-experiência permanecia. Quando cheguei na biblioteca, fui recebido por uma bibliotecária de presença firme e olheiras profundas de exaustão. Ela me perguntou se eu estava ali para as sessões de RPG ou troca de livros, mas logo disse que queria ver o acervo de jornais.
Renata, como se apresentou, me levou até uma mesa com uma tela onde é possível passar diversas edições de jornais antigos em papel. Queria chegar em notícias do ano de 1999 e para isso precisei passar edição por edição. Apesar da vontade de passar tudo o mais rápido que dava, aquela agonia interior voltei e passei a folhear devagar edição por edição, dia a dia. Por sorte, só precisava me preocupar com um jornal, o Correio da Hora, apontado pela minha amiga.
Em certo momento, meu dedo travou e me deparei com uma manchete. Não é uma notícia de 1999 ou 2000, mas sim de 2016. Algo recente que contava uma história que, em outro contexto, eu trataria apenas como uma piada.
“‘ET de Passo Fundo’ é preso suspeito de atacar pessoas com ácido para chamar atenção do prefeito” Egeno Vasconcela
Um empresário de 48 anos foi preso em Curitiba suspeito de atacar cinco pessoas com ácido sulfúrico contaminado com sais de cobre e resíduos orgânicos em Porto Alegre, em junho deste ano. Entre as vítimas estão cinco mulheres — prostitutas, uma delas teve queimaduras no rosto — escolhidas de maneira aleatória por ele.
Apelidado de ‘ET de Passo Fundo’, foi detido na última sexta-feira (4) em sua casa. Diz que teria descido dos céus com os foguetes enviados pela Nasa em Rio Grande no passado e queria viver em paz com os humanos. No entanto, após ser ‘descoberto’ no vídeo hoax de suposto ET em Passo Fundo, se disse exposto e resolveu atacar.
O objetivo de Ricardo Flores, como foi identificado pela polícia, era chamar a atenção do Prefeito para autorizar a passagem de poder da cidade para seu nome. Apesar da polícia entender que se trata de alguém sem boas faculdades mentais, o considerou perigoso e está preso de forma preventiva, mesmo sob o protesto de seu advogado, Dr. Andrei Fernandes.”
A princípio parecia só um doido qualquer e, bem, uma vez preso, a história se fechava. Talvez os ataques recentes fossem de outro doido inspirado por ele? Ou talvez ele tenha sido solto e voltou a atacar? Mas… tinha algo que não batia com a história da Bianca e… fui ver as notícias de 1999 como a minha amiga da taverna tinha sugerido. Seria o criminoso original que inspirou todos? Era isso que eu queria descobrir.
Desta vez nada me travava enquanto eu passava as notícias mais rápido. Eu afundei o dedo a quase estragar o botão até que a bibliotecária, que parecia irritada, me mostrou que tinha como passar mês a mês ou ano a ano. Fui até 1999 e, aos poucos, cheguei no que precisava.
“Engenheiro e empresário é preso suspeito de encomendar morte de prostituta
Pedido de prisão temporária foi cumprido contra homem de 20 anos. Caso é investigado pela polícia do Rio Grande do Sul
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul prendeu nesta quarta-feira (29), José Maria, um jovem engenheiro de 20 anos, por suspeita de participar do assassinato de uma prostituta em Porto Alegre.
Segundo investigações, o suspeito, que não teve identidade revelada, teria participação e conhecimento do crime. Ele seria o membro único de um culto que tentara estabelecer em volta de Kaustíōn (Καυστίων), um ser que ele dizia ser de outra existência. As ligações com o ocultismo foram reveladas quando os a Polícia Civil teve acesso aos pertences de José Maria.
Daniela R., de 19 anos, foi encontrada desfigurada e aos pedaços na trajetória de saída de seu local de trabalho (não revelado). Seu 90% do seu corpo tinha sumido e havia uma substância ácida derramada pelo chão e pelas partes que sobraram. Ao menos, segundo relato, pois a polícia não conseguiu fotografar ou coletar o material, que evaporava até sumir conforme coletavam.
A suspeita caiu sobre o engenheiro, pois um dia antes da morte Daniela havia registrado um Boletim de Ocorrência por perseguição. A jovem reportou que José Maria tinha sido seu cliente um ano e meio antes, se apaixonou e não aceitou quando ela saiu da prostituição para iniciar um relacionamento.
José Maria teria se distanciado depois de um tempo, mas dois meses após ela ter dado à luz e voltado a trabalhar (permaneceu na casa noturna como atendente), voltou a aparecer e ameaçá-la.
No quarto de José Maria, foram encontrados convites para pessoas integrarem seu culto e uma estatueta à mão de uma mãe d’água verde cujo corpo parecia ser feito de líquido, além de uma boca com presas, algo não existente em mães d’água.
O advogado de José Maria, Dr. Andrei Fernandes, alegou que seu cliente passara sim do ponto com as ameaças e era excêntrico, mas se fosse por isso, teria que ser preso por assassinato todo mundo que ‘já rezou para alguém morrer’. José Maria foi liberado.”
Essa segunda notícia estava me deixando ainda mais incomodado com o que aconteceu e nada me tirava da cabeça que tinha ligação direta com as visões que tive mais tarde naquele dia, conforme relatarei mais à frente.
Uma angústia me passou a cada palavra, letra e pontuação dessa notícia. Algo muito errado estava naquelas linhas e eu não sabia o que era. Não a morte de origem desconhecida, não a maluquice do fanático. Havia algo me afetando pessoalmente e a agonia, a raiva, o ódio subiam. Precisei respirar fundo, pois eu sentia a eletricidade começar a percorrer meu corpo e afetar os equipamentos à volta, chamuscar livros, como se filamentos de eletricidade se espalhassem em choques estáticos pelo ar.
Puxei a racionalidade para pensar. Eu não sabia se o advogado ser o mesmo era uma coincidência maior do que os ataques a mulheres usando ácido. Quando decidi sair para pensar, a bibliotecária veio com olhar estranho e pediu num tom que misturava ordem e súplica para “rebobinar” as notícias para as mais atuais.
Foi nesse momento que me deparei com uma terceira notícia impactante. Desta vez, de pouco tempo atrás. Dezembro de 2019, final do ano passado. O tal do ET de Passo Fundo que estava preso de forma definitiva tinha conseguido fugir da cadeia, com as grades e outras passagens corroídas por um ácido não identificado que sumia no ar quando alguém tocava.
Como se não bastasse tudo isso, cheguei na agenda cultural do jornal impressa para este final de semana. Uma Feira de Tecnologia e Inovação que estava ocorrendo na Usina do Gasômetro desde o dia anterior, promovida pela EPI-Mago. Essa empresa não era estranha e lembrei rapidamente.
É uma facção do submundo com quem já lidamos antes. Muito inovadores para promover equipamentos de EPI para trabalhadores do submundo. No entanto, suas invenções sempre apresentavam alguma falha grave que impedia a suposta genialidade se concretizar. A Feira fazia sentido, parecem manjar de teoria, mas na prática, venderiam apenas cursos e mentoria.
O release com o convite, no entanto, tinha um tom estranho que parecia tentar persuadir, conquistar pessoas para além de relações comerciais. Tons de repetição, palavras sem sentido misturadas nas frases em português e que faziam minha mente ficar vidrada no texto que estava lendo. Havia até esquecido da agonia e raiva de minutos atrás, mas a ira voltou no final. Um convite para a palestra do CEO e Engenheiro José Maria.
Quase quebrei meu celular quando recebi o teu SMS sem sentido, Srta. Rosa. Me pareceu bem sem noção tu me informar que tinha marcado uma luta para mim no pré-ingresso do Circuito Proto-Humano. Querer me desviar do caminho agora mesmo? De qualquer forma, me acalmei quando vi informações sobre a luta.
Usina do Gasômetro, à noite, contra o “ET de Passo Fundo” da EPI-Mago.
Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo. Eu só sabia que queria bater em alguém. E apareceu alguém para eu bater. Coincidentemente, aquele que representava a origem do meu ódio. Na saída, avistei, por meio das estantes, Ulisses, Bianca e Verônica, que tinham acabado de chegar na biblioteca. Desviei deles enquanto estavam distraídos falando alto sobre magias, criaturas e coisas que, porra, Verônica, não era para falar em voz alta. Obs.: E era o que eu tava tentando fazer, cacete!
Saí e fui em direção à Usina do Gasômetro.