VII.
Anot.: Ul.
Chamamos um carro de aplicativo para ir à biblioteca. Eu queria pegar um ônibus, mas Verônica insistiu em um ar condicionado para enfrentar o Forno Alegre. Eu concordo plenamente, ainda mais se ela estava disposta a pagar.
A viagem foi curta, mas também foi longa. O motorista tentou puxar assunto com Bianca a respeito do braço enfaixado. Perguntou detalhes e pediu para ver o ferimento. Foi bastante desconfortável para ela e ainda mais para mim. Ver minha esposa ferida sem poder fazer nada é humilhante.
O motorista comentou ser enfermeiro e que deveríamos limpar o ferimento, trocar a faixa, conforme nos ensinaram na emergência. Disse que era visível que não tratávamos das feridas há horas. Bom, ninguém nos ensinou nada na emergência, porque não fomos lá e fizemos tudo por conta.
Quem ele era para me ensinar a cuidar da minha mulher? Se não era hora para trocar, não era. No entanto, Verônica disse que não sabia da frequência correta, mas tinha os equipamentos e sabia trocar. Que mulher insistente!
Ao chegarmos no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues, onde fica a biblioteca, vimos Tomás entrando. Eu e Bianca estávamos prontos a chamar nosso amigo e Vê nos interrompeu. Disse que era melhor deixá-lo operando sozinho, pois ele pensa melhor assim. Era o que eu ia dizer. Bianca e Verônica apenas atrapalhariam o seu raciocínio.
As duas, primeiro, se dirigiram ao banheiro. Foram trocar as faixas, aplicar curativo e toda essa frescura. Ouvi uns gemidos. Espero que seja de dor e não de outras coisas. De qualquer forma, eu estava sentindo algo agoniante dentro de mim.
Uma pressão estranha. Como se eu estivesse dentro de uma piscina sem fundo, mergulhando cada vez mais. A água, verde, espessa, viscosa, me engolia cada vez mais. Senti uma irritação física. Meu corpo inteiro começou a arder devagar e aumentou conforme afundo mais nesse líquido. Estou só. Não. Mães-d’água, medusas e outros animais parecidos aparecem à volta, rodeando meu corpo como urubus.
PAH
A batida da porta do banheiro me despertou. Eu descrevo o que tinha acabado de ver para Bianca e ela compara um pouco com o tipo de pressão e energia que sentira antes. Disse que parecia entrar em um líquido viscoso de uma “piscina vertical”. Ela não me escuta, como esperado de sua personalidade. Situações completamente diferentes.
Uma bibliotecária se aproxima. Cansada e agitada ao mesmo tempo. Diz que nos ouviu conversando e que se estamos interessados no RPG de terror era só irmos em uma certa sala da biblioteca. Lá, Madame Marie estaria mestrando Call of Cthulhu.
O timing foi curioso, mas pura coincidência. Dispensamos o jogo, mas aceitamos instruções de onde estão os livros de Lovecraft. Parecia uma boa forma de começar, como eu pensei e como Vê sugeriu logo depois.
Pegamos todas as obras disponíveis na biblioteca e colocamos em uma pilha. Foi difícil me concentrar com tanta gente gritando na sala de RPG, imitando piratas, freiras e guerreiros medievais. Mandei Bianca pedir para baixarem o volume, mesmo com Vê dizendo que nem estavam falando tão alto.
Página por página, lemos os nomes Cthulhu, Dagon, Azathoth… nenhuma dessas criaturas e histórias ressoava com o que estávamos experimentando. Eu sentia um vazio em todas as leituras. O máximo que me cutucou foram as menções ao livro fictício Necronomicon. Tem uma criatura de ácido, mas não se parece nada com o que experienciamos.
Deixamos a literatura de lado e fomos aos livros teóricos. Pessoas discutindo Lovecraft, racismo, xenofobia, arqueologia, teoria literária, horror cósmico, horror, e Conan, o Bárbaro. Tem livros de pessoas tentando colocar todo o imaginário de Lovecraft e seguidores no mesmo universo ficcional. Nada que nos respondesse os anseios.
O que mais me chamou a atenção foi um glossário de Lovecraft. Criaturas, lugares, pessoas e conceitos. No entanto, nada parecia se conectar tão diretamente com o que estávamos buscando. Me sentia perdido e conectado ao mesmo tempo.
Aos poucos, me vi imerso novamente naquele líquido viscoso e, da superfície, vejo uma sombra se aproximando. Várias, na verdade. Filamentos pretos, hifas com aspecto sanguinoso, descendiam e começavam a me abraçar. Algumas delas se espalhavam e começavam a estrangular as mães d'água devagar, ao mesmo tempo que as hifas eram corroídas pelo ácido do qual esses animais eram feitos.
Anot.: Ver + perto.
Conforme eu me aproximava do sol da superfície, eu voltava aos meus sentidos e um insight ocorreu. Despertei, levantei e fui até as pessoas jogando RPG. Um deles me perguntou se eu tinha ido ali gritar e fazer barulho com eles, mas ignorei. Olhei para Madame Marie, título que Samanta usava para mestrar RPG, e perguntei o quanto ela conhecia aquele universo de Lovecraft.
Todos riram em tons diferentes e em deboche, com Madame Marie soltando um pequeno sorriso. Eu comecei a descrever os fenômenos que estavam ocorrendo comigo e com Bianca. Nas primeiras palavras, permaneceram as gargalhadas, mas nas seguintes, o clima começou a pesar.
Madame Marie disse que o que eu procurava não tinha ido para a ficção porque o Necronomicon era poderoso e vasto demais para uma pessoa cobrir em toda sua vida. Seu olhar era sério. Necronomicon não é um livro fictício? Ela, então, diz que suas representações sim, mas é um grimório legítimo.
Anot.: Invest. Mme. Marie/Samanta
Assustado, mas achando estranho, interrompi um riso pela metade quando vi que todos estavam sérios na mesa. Espanto, medo, olhares de reprovação e de curiosidade. É como se sugerissem que eu estava indo longe demais.
Madame Marie respondeu a questionamentos diretos de seus jogadores. Disse que era tarde demais e que já que estávamos tão envolvidos, que era melhor dar uma chance de saber o que estava ocorrendo. Me contou que o que eu descrevi soava com a criatura Kaustíōn, uma mãe d'água cujo corpo seria feito de ácido e que possuía uma mandíbula.
Ao absorver criaturas, Kaustíōn consegue obter memórias, informações, histórias e sentimentos experimentados por elas. Por ser uma mãe d'água, não é capaz de sentir ou pensar de forma complexa — por isso, sente fome e devora tudo o que permite compensar essas falhas. Opera atraindo mentes curiosas e ambiciosas, oferecendo conhecimento em troca de sacrifícios. Quanto mais inteligente ou traumatizada for uma criatura, mais apetitosa ela é para Kaustíōn.
Perguntei como ela sabia de tudo isso e como enfrentar a criatura. A resposta foi objetiva. Não sabe, provavelmente não tem como. Se tiver, a informação está no Necronomicon, que inclusive tem uma edição na mesma biblioteca, doação de Marie para o acervo especial.
Anot.: Informação oculta msm da minha rede.
Ouvi um resmungo vindo de trás. Era Verônica com olhar de raiva e preocupação ao mesmo tempo. Fitava Madame Marie, que parecia confusa sem saber de onde vinha essa raiva. Ao mesmo tempo, ela enviava mensagens pelo celular sem olhar para a tela.
Anot.: Por isso tanto erro de digitação…
Eu agradeci a Madame Marie e disse que ia falar com a bibliotecária, mas a mulher me parou. Avisou que eu deveria usar outro termo em vez de Necronomicon e me falou uma palavra difícil de pronunciar, quanto mais de escrever. Repeti umas três vezes e ainda não cheguei lá, mas ela disse ser suficiente.
Saí da sala do RPG após Verônica, que logo foi confrontada pela Bianca que pediu que ela não fizesse nada comigo sem avisar antes, porque é nosso combinado. Agradeço pela confiança e admiração de minha mulher de que sou atraente, mas Vê claramente não tem o mesmo bom gosto que ela. De qualquer forma, fomos até a bibliotecária Flávia, que tinha nos recebido, para quem citei o livro do qual eu estava atrás.
Os três seguimos enquanto ela descia as escadas para o andar debaixo, depois entramos na sala de secretaria e ela fechou a porta. Se dirigiu a uma estante de livros, depois se virou para nós e falou seriamente, com tom professoral, como se lidando com crianças “nem todos aqui são do Submundo e poucos do Submundo sabem sobre isso”. Submundo é gente do RPG? Em seguida, olhou especificamente para Verônica e disse “é melhor que se mantenha assim”.
Esta última fala foi com voz cômica, mas ao mesmo tempo, parecia pesada por trás. Uma ameaça que nenhum de nós queria enfrentar. Decidi que respeitaria a opinião da mulher, como homem que sou.
Anot.: E deixou a informação em um papel jogado…
Flávia se virou para a estante novamente e puxou uma sequência de livros. As estantes se moveram como portas de correr. Uma câmara com poucas obras, mas aparentemente antigas, toda empoeirada e com cadeiras quebradas. Ela foi até a única parte limpa, um pequeno escritório, e abriu o livro de registros.
Um tapa acertou minha mão quando tentei puxar um livro da estante. Era Verônica que disse que era melhor não mexer com o que não conhecia. Achei ousado, até gostei, e talvez essa seja sua forma de cuidado feminino.
A tensão no ar começou. Desta vez, não era eu mergulhando no oceano gelatinoso — era o fluído invadindo a câmara em que estávamos, junto com mães d'água nadando por esse mar de ácido. As gurias se mostraram abismadas. Verônica reclamou de pequenos ferimentos de queimação, enquanto Bianca começava a berrar de dor e desespero. Parecia estar revivendo o trauma, mas precisava tanto? A única indiferente era Flávia, que resmungou algo do tipo “toda hora isso, saco”. No fim, fechou o livro e todos os elementos sobrenaturais sumiram.
Bianca estava no chão, encolhida, enquanto Verônica tentava acalmá-la e, sem seguida, foi surpreendida por ver que não tinha nenhum ferimento em sua pele. Flávia respirou fundo, levantou Bianca e deu um bombom para ela. Disse algo como “pronto, pronto”.
Em seguida, nos informou que o Necronomicon não estava lá e que alguém estava com atraso para devolver. O atrasadinho, como ela falou, era um tal de José Maria, um engenheiro metido que achava que ia tirar do livro a solução para suas invenções mirabolantes. Verônica disse que então era melhor ir embora e aguardar, mas Flávia disse que ia pessoalmente buscar e colocou a mão no cinto, onde um coldre antigo repousava. Eu realmente não sei de onde isso apareceu.
Apareceu outra bibliotecária na porta, uma tal de Renata, falando rápido e em tom de reprovação que não, que a Flávia não ia deixar ela sozinha justamente neste sábado. Discutiram algo sobre chamar profissionais de busca e apreensão. Polícia? Flávia foi até uma gaveta de arquivo na mesa limpa, pegou e abriu uma pasta e retirou uma foto. Mostrou para Vê. Verônica é policial?
Flávia disse que sabe quem ela é e disse que pagaria bem. De qualquer forma, por mais confuso que eu esteja, Verônica ainda é uma mulher e o caso envolve a mim e minha esposa. Preciso estar envolvido e deixei bem claro que seguiria Verônica nessa busca.
Bianca insistiu para ficarmos em casa e eu agradeci a preocupação comigo. Disse que se o trauma dela impedisse de avançar, era válido para não nos seguir, mas que era melhor enfrentar de frente. Bianca quem deveria nos acompanhar.
Renata falou que a busca deveria ser feita o quanto antes e com cobrança de multa pelo atraso da devolução. Já era noite, mas Renata disse que era o melhor horário para encontrar pessoas com livros obscuros e pegá-los de volta. Perguntei o endereço do tal José e recebi, mas Renata disse que sua casa não era o melhor lugar.
A bibliotecária de olhar maciço, que parecia bater com um martelo toda vez que te reprovava, entregou um panfleto. Tratava-se de um evento: uma Feira de Tecnologia e Inovação promovida pela empresa EPI-Mago, cujo CEO era justamente José Maria, que daria a palestra de encerramento do dia. A feira estava ocorrendo na Usina do Gasômetro — e Bianca tremeu só de ouvir — e era para lá que nós íamos.