IX.
Anot.: Ul.
Eu parei para pensar melhor e disse à Bianca que ela não deveria vir junto nessa busca. Nem a Verônica devia ir. As duas foram firmes sobre estarem presentes. Bianca, em especial, disse que jamais me deixaria sozinho e que queria usar sua ligação com a coisa para tentar obter pistas.
Saímos da biblioteca e Tomás estava parado na frente com o celular na mão. Parecia impaciente, talvez seu aplicativo estivesse demorando a chegar. Quando fui falar seu nome, ele saiu correndo para o carro que acabara de chegar. A reação foi tão rápida que algumas faíscas… vermelhas? …se formaram quando subitamente se mexeu.
Nosso carro apareceu uns três minutos depois. Eu estava bastante curioso com o que Tomás estava fazendo e onde a investigação dele ia parar. Realmente acho que deveríamos ser os dois, mas Verônica insistiu que ele era mais útil em outro lugar.
Durante o caminho, Bianca começou a gemer de dor. Havíamos trocado o curativo mais uma vez antes de sair da biblioteca, mas o medicamento não estava dando conta. A dor talvez não fosse em seu braço. Eu entendo, estava me sentindo bastante perturbado também. Verônica parecia irritada, nervosa e preocupada. No entanto, não parecia ser uma vítima direta.
Chegamos no estacionamento da Usina do Gasômetro e um carro estava manobrando para sair conforme entrávamos. Reconheci como o mesmo veículo em que Tomás tinha subido. Olhei para a porta da Usina, onde alguém estava passando. Então ele estava indo pela porta da frente? Deveríamos ir pela porta de trás?
Eu começava a sentir pequenas agonias na minha mente, como tentáculos que tentavam abraçar meu cérebro. No entanto, algo os fez recuar e eu não tinha certeza do quê. Descemos do carro.
Comecei a me perguntar: se eu fosse um cultista maluco com um grimório poderoso que acabou de dar uma palestra de tecnologia em uma estrutura grande e antiga, onde eu estaria agora? Talvez teria ido para casa. Não, a lógica sozinha não operava naquele dia. Estava claro que tinha algo escondido ali.
A chaminé da usina fica do lado de fora, não em cima do prédio, e vem desde o chão por motivos óbvios. Os gasodutos passam por baixo da terra até ali, onde as substâncias não utilizadas pela usina, quando era ativa, seriam desprezadas. Há alguns anos, tinha um café que usava aquele espaço.
Também tinham outras portas de entrada atrás e na lateral da Usina. Uma era a entrada para os armazéns, a outra para o que seria o escritório antigamente. A primeira opção pareceu mais certa entre essas duas.
Escutei um trovão e vi uma luz vermelha vindo de dentro da Usina. Eu quis ver o que era, mas Verônica me parou de novo. Ainda escreveu algo no celular enquanto falava “Trovão Vermelho… boa…”. Não entendi, mas compreendi que devia confiar em Tomás e cumprir a minha parte: interromper José Maria de continuar fazendo o que estivesse fazendo.
Verônica disse que não tínhamos mais tempo a perder e correu em direção à base da chaminé. Seguimos. Precisaríamos tentar algo. As portas, no entanto, estavam trancadas com um cadeado eletrônico. Peguei uma pedra para bater e, de novo, fui interrompido.
A ruiva confiantemente pegou um segundo celular na mochila, um grampo e um cartão de banco, mexeu no cadeado e destrancou. Jornalista o cacete. Tem algo de errado nessa mulher e só eu estou reparando. Bianca fica preocupada demais, tremendo e sentindo agonia.
A porta se abre, entramos, Verônica a fecha. As luzes se acendem e em vez de resquícios empoeirados da estrutura de um café, encontramos um alçapão aberto e uma escada de pedra descendente em caracol. Começamos degrau a degrau, comigo na frente, Bianca no meio e Verônica atrás.
As luzes vão se acendendo e isso me dá mais medo do que o escuro. Não devíamos estar ali e isso denunciaria a nossa presença. Após dois metros, chegamos a um espaço circular, mas em vez da continuação das paredes de ferro da chaminé, estávamos perante tijolos de pedra antigos de formas geométricas indescritíveis.
Em vez da luz amarela das lâmpadas, velas com chamas verdes iluminavam o lugar e, em nossa frente, um túnel de pedra. Tenho certeza de que isso não foi construído com a Usina, mas ao mesmo tempo, tudo parecia mais antigo do que a própria cidade… do que o próprio país…
Enquanto andávamos, vimos runas cravadas nas paredes úmidas, de língua que nenhum de nós soube identificar. Não era aramaico, grego, sumério… Mas, por ao menos três vezes, Bianca olhou para uma runa, sussurrou uma palavra cujo som não era identificável, e se esqueceu do que acabara de falar.
Chegamos em uma câmara onde havia várias estátuas de mães d’água e de pessoas em túnicas. Outros túneis partiam dali. Algumas mesas de escritório com computadores, apetrechos tecnológicos modernos, equipamentos de EPI. No centro, uma mesa de pedra com algemas nas quatro pontas e grandes manchas de sangue cobrindo o móvel.
Verônica pegou um papel e começou a ler. “Ecolocalizador para mineradores. Ainda não conseguimos regular a potência com precisão. Vamos substituir parte das cordas vocais do Avatar por este aparelho”. Outros papéis com escritos e desenhos orientavam cirurgias e implantes em um homem. “Eu queria ter a honra de ser o Avatar, mas depois do que fizemos aqui com o Escolhido, entendi que só Ele poderia passar por isso.” dizia um e-mail que ainda tentava ser enviado.
Foi aí que vi que os computadores estavam sem internet. Todos olhamos os celulares e eles estavam sem rede. O relógio também estava descompassado tanto entre si quanto em comparação aos relógios dos monitores. Por fim, notamos que os computadores não estavam ligados em nenhuma tomada.
Continuamos nossa caminhada pelo túnel maior e chegamos a outra câmara, agora retangular, e já não estávamos mais sozinhos. Quatro homens usando túnicas estavam ajoelhados rezando para quatro estátuas na parede. Cada imagem representava uma sequência de uma mãe d’água recebendo pessoas como oferendas, devorando, absorvendo suas mentes e devolvendo parte aos seus cultistas.
Suas rezas eram na língua que não entendíamos bulhufas. No final do corredor, havia duas estantes de livros e um púlpito. A nossa presença não parecia incomodar aqueles homens, pelo contrário. Rápidos olhares eram feitos em direção de Bianca, seguidos de risadas.
Bianca não estava mais afundada em um mar de ácido e agonia — pelo contrário, disse que se sentia abraçada por ele. Que o calor em sua pele agora a confortava e estava começando ter prazer de estar ali. Ok, deu. Ela tinha que ir embora. No entanto, ficou muito enfurecida quando eu sugeri essa possibilidade.
Fomos até os livros… Evangelho de São Cipriano, Arquitetura de Espaços Liminares (Backrooms), assim como outros livros e objetos que me causaram mais terror do que os museus do holocausto e do ocultismo nazista. As obras eram um desafio à humanidade desde sua composição física. As páginas dos diversos livros não estavam escritas apenas em papel ou materiais pouco convencionais, como algas, plástico e até metal, mas também peles de animais e humanos, assim como outros que não parecem de origem terrestre.
Identifiquei o Necronomicon e coloquei no púlpito. Estranhamente, a capa estava escrita com runas, mas eu consegui ler sem dificuldades. Verônica estava a dois metros de mim, disse que algo a incomodava só de estar perto do livro. Não senti nada, deve ser medo.
Ao abrir o livro, as pessoas encapuzadas riram e Verônica me pediu para fechar novamente e pensarmos antes de continuar. Bianca me olhava com pavor e excitação ao mesmo tempo, pedia que eu prosseguisse. Eu estava no automático, meu corpo se mexia sozinho e nas duas direções. As pernas me fincavam, as mãos folheavam e os olhos procuravam algo, mas o coração, o pulmão e a garganta queriam interromper imediatamente.
Cheguei na página cuja capa estava Kaustíōn ilustrada. Seu nome estava escrito nas runas indecifráveis, tal como o subtítulo que dizia “e todos vocês deveriam se curvar” e o texto do capítulo em seguida. Comecei a ler de forma clara e ágil, mas meu cérebro não processava o que estava escrito. A cada palavra, as pessoas na minha frente repetiam suas reações em looping.
Os encapuzados riam e rezavam, Verônica gritava desesperada e jogava objetos em mim, Bianca fazia os dois — ria e gritava em desespero — e meu interior se retorcia. O ar começou a ficar mais denso e as pequenas correntes de vento, esverdeadas.
Bianca começava a ficar cada vez mais histérica, gotículas verdes de ácido viscoso se formavam no ar e caíam sobre sua pele. A saliva daquela criatura estava escorrendo cada vez mais e em seguida já não eram mais gotas, mas fios inteiros despejados. Bianca gritava em confusão e dor, sua roupa e sua carne sendo corroídas e não mais apenas superficialmente. Eu não conseguia parar, mesmo que meu próprio corpo estivesse querendo me parar.
Verônica jogou objetos pesados e senti minha cabeça sofrendo batidas que deveriam ser capazes de me desmaiar. Eu não parava de ler, não tinha mais controle algum. Alguma coisa dentro de mim se mexia enfurecida e pareceu ganhar mais força. Senti minha garganta e cordas vocais sendo trancadas por dentro enquanto filamentos pretos saíam pela minha boca e seguravam minha língua e lábios.
A câmara começou a ser inundada com um líquido verde, como se o próprio Rio Guaíba estivesse transbordando e vazando água para aqueles túneis. Enquanto o líquido escorria, eu fiquei calado à força, Bianca se retorcia no chão, Verônica suspirava pela pausa e os homens em túnica se mostraram descontentes. Esporos.
Antes da água estranha subir o nível, aqueles fios que saíam de minha boca cobriram parte do meu rosto, geraram pequenos cogumelos vermelhos e soltaram esporos. Esses esporos deixaram todos sedados por alguns segundos antes de voltar às reações anteriores. Com exceção de mim, que tive uma ideia do que fazer.
Folheei rapidamente o capítulo de Kaustíōn até o final, virei o livro de cabeça para baixo e comecei a ler em voz alta — algo que aquele ser dentro de mim permitiu. Entendi que estava dando certo quando o ácido sobre Bianca acelerou, mas diminuiu o fluxo, como se correndo para terminar o trabalho. Ao mesmo tempo que a água começou a vir com mais força.
Os homens ficaram irritados e vieram em nossa direção segurando adagas e proferindo palavras estranhas. A câmara concluiu a inundação com aquele ácido viscoso que queimava nossas peles. Eu não podia parar a leitura, porque se Aquilo estava irritado, é porque eu estava na direção certa.
Verônica pegou um martelo em sua mochila e começou a trocar golpes com aqueles homens. Ela não parecia ser uma grande artista marcial, mas mesmo com aquele objeto pesado, tinha mais finesse do que aqueles homens. A ruiva tentava gritar algo para mim, mas estava difícil escutá-la.
Os inimigos presentes, no entanto, aumentaram de número. Mães d'água surgiram e atacavam a nós dois. Verônica estava já com dificuldades de lutar contra quatro humanos, as criaturas dificultavam mais. Da minha parte, aquele micélio começou a sair, timidamente, de outros poros, e atacar as mães d’água ao meu redor. Não eram ataques efetivos, visto que as hifas eram frágeis e a condição piorava com o ácido, mas conseguiram evitar que eu sofresse mais ferimentos do que estava sofrendo.
As queimaduras estavam doloridas, mas o alívio de saber que finalmente estava fazendo algo de bom pela mulher que amo e nunca mereceu ser o alvo do meu ressentimento me fazia continuar. Só eu poderia salvar Bianca de seu sofrimento perante esse ser. Eu queria fazer Kaustíōn e seus seguidores se curvar perante mim.
Só não conseguiria fazer isso ainda, pois à medida que lia, entendi que para Kaustíōn, não éramos mais do que uma pequena migalha tentando engasgá-lo em um banquete. A partir do momento que ela pigarreasse, já não existiríamos mais. Eu li, até o fim, e a raiva, o medo, o desespero, e as energias interdimensionais que nos permeavam pareceram acelerar o crescimento dessa coisa dentro de mim.
Quando finalmente li a última palavra, sumiu.
As mães d’água, o mar de ácido e a energia que mantinha aqueles homens em pé. Verônica caiu cansada, os quatro caíram mortos, Bianca já estava no chão, e eu não sabia o que tinha acontecido comigo e por que aquelas hifas e cogumelos ainda estavam sobre meu corpo, ainda que recuando aos poucos.
Fui embora.
Salvar a alma, a mente e o corpo de Bianca me custou a minha própria integridade física e mental. Os monstros externos dela só puderam ser combatidos porque aceitei meus monstros internos. Quando li aquele maldito livro e citei sua poesia abissal, as perturbações mudaram de vítima e algoz.
Neste momento, escrevo tudo isso diretamente da poltrona do lado de Bianca no hospital. Só consegui entrar aqui usando os “backrooms” que conheci do livro que peguei. Não podia deixar que ela visse o monstro que eu havia me tornado tentando protegê-la. Já não sei mais se sou um grande herói ou um grande vilão. Enfiem o teatro no cu.