O touro-das-neves virou rapidamente para as meninas enquanto bufava e as ventas das suas narinas causaram geladuras em tudo que tocou. O material das roupas das meninas protegeram-as de danos significativos, mas estalactites formaram em seus braços quando elas taparam o rosto. A distância também ajudou a evitar problemas maiores.
Verônica sacou seu sabre e Luciferina preparou sua Cascavel. Sem árvores e galhos para escapar, estavam enjauladas com aquela besta, que estava enfurecida após ouvir o último grito de um ser de sua espécie. O touro esfregou as patas no chão e correu em disparada para acertar as duas.
As gurias saltaram cada uma para um lado e evitaram, por pouco, o atropelamento do corpo do touro e o empalamento por seus chifres. O computador e as demais máquinas viraram migalhas com o impacto do bovino. Incomodado com o entulho que prendeu em sua cabeça, o bicho sacudiu o emaranhado de metal e fios de um lado para o outro.
Verônica e Luciferina, que já estavam cansadas de antes, assim como com mãos e pés ralados das árvores, agora também tinham corte e concussões de terem rolado e deslizado pelo chão de pedra. A situação piorou com os pedaços de metal e eletrônicos que acertaram seus corpos e rostos após serem jogados para todos os lados.
O cheiro do vestido de Luciferina naturalmente já exalava morte, mas ter dado o coup de grâce na vaca-das-neves mais cedo fez respingar sangue na roupa e terminar de denunciá-la como o alvo do touro-das-neves. O bovino se virou para acertá-la e quase pisou em Verônica com os cascos traseiros ao se virar, acertando apenas sua jaqueta, que agora estava rasgada. A ruiva colocou a mochila em um canto com a viola machado, se levantou e correu para acertar a coxa da criatura que tentava acertar Luciferina enquanto esta fugia entre os tanques de metal.
O sabre, fincado na perna do bicho, não atravessou nem até a metade e quebrou sem causar nada além de mais irritação. Um coice da criatura acertou no peito de Verônica, jogada de costas nas pedras da parede do salão e cuspindo sangue sobre o bonsai de morangos gigantes. Ao menos, foi o suficiente para o touro girar sua cabeça e bufar, permitindo que Luciferina agisse.
A princesa atirou a cabeça da Cascavel para enrolar a arma no chifre da criatura e pular em seu pescoço. Montada, Luciferina tentou pegar no pelo, mas o frio machucou suas mãos. Jogou a Cascavel por debaixo do pescoço do bicho e tentou enforcá-lo ou domá-lo, o que acontecesse primeiro.
O que aconteceu primeiro foi o touro começar a pular e balançar, irritado e de orgulho ferido, enquanto Verônica se recuperou e partiu para atacar também. A ruiva sacou os facões e, em um momento de pausa do bicho, jogou as lâminas como dardos nas bolas do touro, que sentiu todas as dores dos filhos que não teria mais. No momento que o touro empinou com as patas dianteiras no ar para mugir de dor, Verônica pegou sua viola machado, correu por baixo do animal e tentou rasga-lhe a barriga, mas acertando na altura da costela.
O resultado obtido foi melhor do que o esperado, considerando a arma usada e o animal atingido. Isso não muda o fato de não ter causado danos consideráveis. Quando o touro caiu com as patas dianteiras no chão, estalagmites de gelo se formaram a partir de sua pisada, atravessando parte do corpo de Verônica como uma lança e a jogando em direção à porta da sala do cofre para ser “apanhada” pelo batente de pedra da porta.
A pele sob o pelo branco do focinho do touro-das-neves foi ficando roxa quando o estrangulamento finalmente começou a fazer efeito, mas a criatura se livrou da vaqueira, jogando-a no ar em direção a uma das janelas. A queda daquela altura poderia ser fatal, mas Luciferina foi pega no ar pela garra de uma pequena harpia de pelúcia que entrava na fábrica naquele momento. Harperino carregava Purserino em suas costas, com este se lambuzando em mel de um pedaço gigante de uma colmeia.
A harpia pousa Luciferina e Purserino no chão e os três celebram o reencontro. A loira pela primeira vez nota que o ursinho de pelúcia possui algumas gosmas e outras coisas nojentas sujas no seu corpo. Irritado com a inimiga e com a indiferença, o touro muge tão grave que quase todos os seres vivos em um raio de um quilômetro da fábrica desmaiam ou se retraiam de medo.
Luciferina, que teria desmaiado junto se estivesse sozinha, estava com seu poder atual completo e, em vez de se intimidar, se irritou perante a petulância do touro. Três pares de olhos golpearam o touro-das-neves. O olhar da menina acertou-lhe com menosprezo e humilhação. O olhar do urso acertou-lhe com desafio e intimidação. O olhar da harpia acertou-lhe com cortes que atravessaram da alma até a matéria, rasgando o focinho do touro-das-neves.
Rapidamente, Luciferina ficou de pé e, elegantemente, começou a girar a Cascavel no ar. Purserino se posicionou à frente, à direita, rugindo como um urso de verdade e batendo as mãos no peito. Harperino fez seus piados enquanto batia as asas e voava em círculos em volta do seu grupo. O touro, de frente para eles, os encarou com raiva para além da vingança. Seu orgulho foi desafiado por três criaturas minúsculas.
Enquanto isso, ao fundo, nas costas do animal, Verônica se levantou com bastante dificuldade, sangrando e sentindo a dor de ossos quebrados. Naquele momento, entendeu que não era mais uma batalha da qual poderia participar e fez o que só ela podia fazer. Mexendo-se e caminhando com cuidado, a ruiva ajeitou a viola machado nas costas e foi até uma escada de ferro na lateral do salão.
Com gemidos de dor intercalados com o barulho do metal, escalou e chegou em uma plataforma de ferro que ficava um pouco abaixo do teto, construída para oferecer uma visão completa sobre a fábrica. Sacou de volta a viola, respirou fundo e, com dor, mas usando toda energia restante, começou uma versão de “Through the Fire and Flames” em milonga, oferecendo a trilha sonora para esta peleia épica.
Por fim, antes do confronto começar, uma furiosa vespa do tamanho da cabeça do touro entrou pela janela. O inseto identificou a colmeia perto de Purserino e investiu como uma lança com seu ferrão para acertá-lo. O urso, de forma seca e rápida, pulou, pegou a vespa com uma mão e arrancou o ferrão com a outra. Ao cair no chão novamente, apontou sua lança improvisada para o touro.
O bovino mugiu com seu bafo de gelo, mas Purserino arremessou o ferrão que estava em sua mão pela abertura da boca do monstro, cravando a ponta no céu da boca. Luciferina pegou Purserino usando a Cascavel e o jogou para dar um murro no focinho do animal. Na paulada, o urso fez o ferrão atravessar mais ainda a boca do touro. Sem ficar para trás, Harperino cravou as garras no olho do adversário e puxou até arrancar um pedaço.
Irritado e cheio de dor, o touro correu até uma máquina, bateu com a própria boca no ferro e fez o ferrão terminar de atravessar para sair de vez do outro lado. Caolho, bateu com as patas dianteiras na frente dos inimigos, formando estalagmites das quais Purserino desviou, mas perfuraram e jogaram Luciferina no ar para, em seguida, ser pega por uma cabeçada do touro que errou a tentativa de empalar a menina com os chifres, mas ainda assim a arremessou longe.
Purserino corre em direção do touro enquanto formou e jogou bolas de mel quente em várias parte do bicho, ferindo tanto com os impactos quanto com queimaduras. Em seguida, o urso acertou cinco socos onde Verônica já havia feito um corte usando o machado e cada golpe arrancou mais pelo, pele e carne conforme o mel quente grudava e soltava. A sequência de craques revelou as costelas quebradas, mas o touro se virou e pegou o urso pela boca, mastigou e cospiu em direção de Luciferina. Mesmo sendo de pelúcia, Purserino sangrou e sentiu dor.
Ao mesmo tempo, Harperino dava rasantes cortando vários pedaços do couro do touro. No início, superficiais, mas, com a insistência, os cortes foram ficando mais profundos. Ao ver que o urso abriu um buraco na carne do touro, Harperino voou em circulos para pegar velocidade e acertar uma bicada em cheio na costela. Em seguida, a ave bica e arranca um pedaço do figado do bovino, respingando sangue quase congelado por conta da temperatura interna do animal.
Luciferina, depois de se levantar cuspindo sangue, correu e acertou a cabeça da Cascavel no mesmo buraco criado pelos seus companheiros. A Princesa Necromante injetou veneno na corrente sanguínea e puxou o resto do fígado junto com outros órgãos internos, todos semicongelados e que se quebram ao bater no chão e nas máquinas. Com um mugido forte, o touro congelou parte da sua circulação e fechou a abertura, mas a perda de sangue e a peçonha tinham sido demais. O momento foi a oportunidade para Harperino arrancar o outro olho e Purserino enfiar os punhos cobertos de mel quente nas narinas do touro, queimando tudo por dentro.
Irritado e sem orientação alguma, o touro começou a mugir, sacudir e dar coice em tudo até acertar sua última batida: o grande estrondo do corpo encontrando o chão.
O tremor que percorreu por todo o castelo derrubou aqueles que ainda estavam de pé. O gosto de ferro nas bocas de Luciferina e Verônica, causado pelos sangramentos, foi embora conforme o cansaço e a dor devoravam os sentidos. No céu, a bola de fogo enfim cruzava a linha do meio e mirava seu percurso até o outro lado. O frio aumenta conforme a capacidade de regular a própria temperatura é perdida.
A perda de consciência gerou um sono profundo com pouco ou nenhum sonho para as meninas. As únicas imagens que vieram à mente de Verônica foi de estar sendo carregada por um triceratops pesado e ágil. Logo, sente-se abraçada por algo fofo. Grama? Sorvete? Terra? Colchão? Sua mente misturou tudo isso.
A morte acariciou o interior do nariz de Verônica com a carbonização de carne que invadia os seus sentidos misturada com o odor enjoado de pus coberto pelo perfume azedo de unguentos vegetais espalhados pelos seus corpos. A ruiva abriu os olhos e se viu em uma cama rústica, mas extremamente confortável. Uma espiada através da janela do galpão revelou uma grande costela de boi fincada em uma lança.
Verônica lentamente se sentou, cuidando para não cair seus curativos e bandagens, e se levantou. Apoiando-se nos móveis, foi até a saída do galpão e enxergou a mesma cena convidativa que a recebeu na ilha, mas com algumas mudanças.
Luciferina, também cheia de curativos, estava sentada comendo partes do touro-das-neves que ela mesma matou. Ao seu lado, Harperino estava de olhos fechados, dormindo, enquanto Purserino se lambuzava com mel, como sempre, e ambos possuiam costuras pelo corpo. Anita usava o chifre do touro como copo para tomar cachaça de butiá com goles alternados a elogios à proeza das meninas. Conrado também fez comentários, mas dividia a atenção com cuidar da carne e jogar pedaços do bicho para quem ele chama de cusco: um lobo-terrível.
Todos saudaram Verônica conforme ela descia da escada. O casal prontamente a serviu de cachaça, água, cerveja, carne, e doces, como abóbora caramelizada e ambrosia. Celebravam a vitória daquelas que chamaram de a Campeã Luciferina, a Princesa Necromante, e a Caçadora de Tesouros Verônica, a Astuta.
A ruiva reparou, em um canto, sua nova sacola de couro de tigre de dentes de sabre, ainda bem recheada com os tesouros obtidos. A sua tradicional mochila velha de guerra também estava lá, mas não vazia. Verônica foi até lá e se surpreendeu ao ver suas armas novas, inclusive uma reposição ao sabre quebrado, bem empacotados, junto com a Cascavel, as roupas com que chegaram na ilha.
Também tinham objetos inéditos: compotas com doces e um pote extremamente gélido enrolado em um pano preenchido com uma substância azul e cerosa dentro. Ao seu olhar estranho, Luciferina diz que é a gordura do touro-das-neves que ela usará para fazer sua vela.
— Desculpa não termos nos envolvido antes. — Diz Anita a Verônica. — É da cultura de nosso povo permitir que guerreiros e Campeões sejam forjados em batalha. O tempo e o contato com tantos novatos nos sensibilizou e tentamos ao menos dar algum auxílio, mas não podíamos interferir. A jornada era de vocês.
— Uma coisa que eu não entendi é como que tinha uma… fábrica de sorvetes lá. Digo, por que a ilha permitiu tantas pessoas irem e virem carregando suprimentos, produzindo alimentos, sem interferência? E todos os funcionários eram capazes de cruzar matas, enfrentar criaturas?
— O equilíbrio natural é importante. A presença daqueles homens permitiu a manutenção da existência de espécies como aqueles touros e vacas. Do contrário, teriam sido extintos. Se ao menos uma daquelas pessoas tinha metade das habilidades de vocês, era muito, mas a natureza deu seu jeito.
— É… Tá certo. Vamos se mexer? — Verônica olha para Luciferina, que usa um guardanapo de pano para limpar com pompa sua boca totalmente engordurada. — O Tomás vai enlouquecer se eu continuar sumida por mais tempo. Capaz espancar meio mundo e morrer no caminho de descobrir onde ela estava.
— Ma suivante, o Cine está estragado, mas nossos amigos disseram que tem uma “canoa de ferro” abandonada na praia. Pelo que falaram, é uma lancha. Só espero que esteja funcionando e abastecida.
A lancha estava funcionando e abastecida.
Todas estrupiadas, a loira e a ruiva usaram a embarcação para sair da ilha após se despedirem. Aos poucos, foram vendo a praia se distanciando, assim como a floresta gigante e suas árvores pesadas balançando, suas aves brutais sobrevoando e seus morros altos repletos de ruínas de construções mais antigas do que aquela bolha temporal.
Após uma piscada de cada uma, as meninas entraram em sono profundo por alguns segundos e, ao abrirem os olhos, nada mais estava ao horizonte além da terra firme. Tiveram sorte de evitar pessoas curiosas à volta por já ser noite, mostrando que o tempo havia correspondido ao ciclo do dia da ilha, deixando ainda mais perguntas sobre como esse lugar realmente funcionava.
Linhas de Costura
— Ma chère suivante, amei a aventura grotesca, mas estou imunda. Preciso imediatamente da minha banheira com sais minerais para me reidratar. Vou chegar em casa, trocar os curativos, pedir um sushi, abrir meu champagne, e me afundar na água. — Diz Luciferina fazendo cara de nojo para todas as melecas em seu corpo.
— Bah, com essas moedas de ouro aqui eu também meto uma banheira e uma ceva em casa.
— Consegues muito mais do que isso ao vender o que tem nessa mochila, ma chère…
— Nah, o resto eu vou deixar para mim mesma. — Verônica começa a fantasiar suas novas peças dispostas na sua coleção. — Isto aqui terá posição especial, inclusive. — Ela dá uns tapinhas na viola machado. — Ah, guria, queria aproveitar e te perguntar. Qual é o teu teto?
— Meu teto? — Pergunta Luciferina, confusa.
— É, teu lance, sabe?
— Verônica, ma chère, eu sei o que significa “teto”, sou de Porto Alegre também. Quero saber do que tu estás falando.
— Esse lance de fazer necromancia com bichos de pelúcia, toda essa eloquência e nobreza, de onde tu veio, do que te alimentas?
— Ok. Essa história pode ser um pouco longa, mas a lancha está dando sinais que precisa diminuir a velocidade se quisermos chegar no destino. Só Maria Júlia, la marraine da Carpe&Die, já ouviu de mim com os detalhes que vou te contar agora.