No ano de 2006, Sabrina Apremont, descendente de poloneses, estabeleceu sua primeira conexão real com outras pessoas fora da sua família. Foi seu primeiro dia de aula da primeira série de uma escola privada de rede religiosa do sul da cidade para classe média baixa e, apesar de sempre se dar bem com todas as crianças, ainda não tinha estabelecido uma amizade. Sabrina era uma criança alta, educada, gentil e bastante servil aos outros, e se encontrou em um grupo com mais quatro meninas: Heloísa e sua mania de estar sempre brincando com pedras; Roberta e sua paixão por estampas de flores; Ândria e suas curiosidades aleatórias sobre pássaros; e Ângela que gostava muito de chá.
As cinco podiam quase sempre serem encontradas brincando de contos de fadas e fantasia medieval em um castelinho de plástico que ficava na pracinha da escola. A posição de rainha, no entanto, alternava conforme humor, boa vontade e inspiração das meninas. Podia ser uma, ser outra ou serem todas ao mesmo tempo.
Eram princesas em uma távola redonda destinadas a serem rainhas de um mesmo império, ou ao menos se viam assim. Além disso, sua lealdade real era tão forte que dividiam entre si quase qualquer coisa. Doces, histórias, segredos e até um urso de pelúcia que pegaram juntas em um parque de diversões. Tudo seria delas e de todas elas ao mesmo tempo.
Conforme foram crescendo, por volta da quinta série, entraram para a aula de teatro. Suas histórias favoritas eram as de fantasia e todas criaram um vínculo forte com a professora, que acompanhava o crescimento do grupo, ao mesmo tempo que a preocupava por se fecharem demais para pessoas de fora, podendo até ser ríspidas às vezes. No geral, no entanto, apenas não falavam com as outras crianças por falta de interesse no vínculo.
— Quando chegamos no final da quinta série, nossos pais nos levaram para uma viagem na Suiça e…
— Caralho, Suiça. A melhor viagem que a Srta. Rosa nos levou foi para Santa Catarina, isso que eu e o Tomás eramos as crianças favoritas…
— Favoritas, ma chére?
— A Srta. Rosa costuma cuidar de algumas crianças, a gente não sabe muito de onde todas elas vêm, mas algumas são filhas das prostitutas que ela acolhe. Aí, não sobra tanta grana nem para a gente também.
— Nossos pais… parcelaram em no mínimo 12x… Conseguiram pagar, mas deomorou bastante tempo. Só que eram bem presentes e faziam de tudo para nos manter unidas, entendiam que fazia bem para nós. Alguns deles eram sócios, também entendiam que era network.
— Tá, mas e aí?
— A gente foi correndo para minha casa depois da viagem. Pegamos um filme de terror que encontramos na locadora, que falava sobre bruxaria e velas mágicas. De brincadeira, pegamos um pedaço do doce favorita de cada uma, que trouxemos da viagem, derretemos, misturamos e criamos a Vela do Doce, símbolo da nossa amizade.
— Para iluminar vocês em momentos sombrios? Tem religião que faz isso e tal...
— C'est ça, ma chère! Foi quando começamos a ver filmes de terror e nos aproximarmos do goticismo. Eu nunca tinha usado preto direito até aquele momento. Afundamos no gênero:. filmes, livros, músicas, jogos, peças de teatro. Aí, chegamos na sétima série e demos alguns passos além…
Começaram a pegar livros ditos de magia negra e a estudar. Fazer rituais de proteção ou com objetivos inocentemente pessoais. As regras existiam, claro, e nunca precisaram ser ditas. Nada de fazer mal a ninguém, elas eram meninas boas, e isso inclui não fazer mal a animais e pessoas, muito menos umas às outras.
Com todas as vestes, insetos em vidros (encontrados já mortos) e aranhas de estimação, as meninas se divertiam com essa estética. Já não sabiam se eram rainhas ou bruxas, princesas ou feitceiras das trevas. Na verdade, eram tudo isso junto.
A oitava série foi um pouco mais forte. Faziam pactos de lealdade e confiança, além de magias um pouco mais densas. Se funcionavam, ninguém tinha certeza, mas elas acreditavam que sim. Isso tudo, besuntado com tarot e astrologia, não importava se era real. Era real para elas. Os pais achavam tudo esquisito, mas acompanhavam cada detalhe e sabiam que ninguém estava sendo machucado.
No primeiro ano do ensino médio, a vida fora dos livros e filmes de terror ficou mais pesada do que a ficção que consumiam. As meninas começaram a ter algumas dificuldades comuns de adolescentes. Hormônios em alta, episódios de bullying por colegas, e alguns segredos que tinham compartilhado entre si começaram a vazar. Os conflitos levaram a uma quebra de confiança e afastamento, uma disarmonia que se agravou com o passar do ano.
No segundo ano do ensino médio, foram separadas em escolas diferentes, mas a saudade não resolveu nada. Estavam falando menos entre si e os conflitos ficaram mais fortes, mesmo que ocorrendo à distância. Por fim, uma série de acidentes aconteceu.
— Que tipo de acidentes, guria? —Perguntou Verônica.
— A Ângela foi atropelada por um carro em uma praça que nem deveria ter trânsito. O motorista não estava bêbado nem nada. Só perdeu controle do carro. Foi pesado. Aí, a Ândria perdeu a ponta do dedo fazendo feitiço, mesmo dizendo que não foi para maldade.
— Eita!
— Meu gato caiu do telhado e Roberta ficou com as pernas todas deformadas porque derramou produtos químicos no corpo durante uma aula. A Heloísa foi jantar com a família e caiu um facão no pé dela. Tudo isso no mesmo dia. Discutimos bastante e trocamos acusações. Depois da discussão, começaram a vazar segredos nossos e fotos íntimas.
— Vacilo demais, hein…
— É, só tinha um lugar onde a gente baixava um pouco a bola: o curso de teatro. Não era mais um lugar de coleguismo, no entanto, mas de disputa.
O palco que antes era o império de cinco rainhas virou o campo de guerra pela única coroa no centro de cinco castelos em ruínas. A professora estava apavorada e decidiu que era hora de intervir.
Durante o início do verão do vindouro terceiro ano do ensino médio, foram convencidas pela professora de teatro a se encontrar e colocar as coisas em pratos limpos. Afinal, a amizade das cinco sempre fora tão forte. Valia a oportunidade de esclarecer os desentendimentos.