Bonsoir
Verônica foi a primeira a sair do barco e deu a mão para Luciferina. Ambas estavam com dificuldades para se mexer e caminhar até o carro, ainda com muitas dores e machucados sob os curativos. Ao parar na porta do veículo, a ruiva perguntou.
— Aliás, onde ficaram as chaves?
— Botei junto com os celulares dentro daquele porta-luvas no Cisne e ainda estavam lá antes de partirmos. Não esqueci de pegar. — Luciferina entregou o aparelho de Verônica, que, ao ligar seu 4G, começou a receber trilhões de mensagens de Tomás perguntando onde ela estava.
— Meu irmão vai surtar quando vir essas faixas todas. — A ruiva encarou o celular enquanto caminhavam em direção ao carro. — Vish, posso te pedir uma carona? Tenho mais uma última parada antes de ir para casa.
— Sem problemas, seria contra minha noblesse oblige deixar minha suivante sozinha a esta hora, mas toda quebrada assim tu vais onde? — Luciferina entrou no carro.
— O… Professor… — Verônica revirou os olhos. — Hemerson… o velho broxa, disse que se eu entregasse a caixa logo que voltasse, pagaria um bônus.
— Essa caixinha não pode dar mais dinheiro e menos cansaço mental em outro lugar, não? Tu já venderás o resto, vende tudo junto. — Luciferina acelerou pelas ruas de Porto Alegre. — Aliás, a gente vai encontrar ele no Museu mesmo?
— Ah, missão dada é missão cumprida. A receita vou entregar amanhã de manhã já para me livrar. E, não, o Professor pediu para encontrar ele no campo de futebol da faculdade. — Responde Verônica enquanto o carro dobrava na avenida que as levaria ao destino.
— Sabe, ma chèrie, eventualmente nossas facções podem entrar em conflito, posso até mesmo ter que lutar contra o Tomás. Inclusive, não pegarei leve por ser teu irmão, mas isso é trabalho. Fora isso, nossa amizade pode perdurar.
— Sabrina, eu e Tomás estaremos sempre aqui para ti quando precisar. Ele vai estar disposto a te ajudar se souber o que fez por mim. — Verônica respondeu.
— Tomás… Ele ainda não tem um título, um epíteto, um apelido? É importante para uma marca como Proto-Humano. — Luciferina entrou no estacionamento da faculdade e começou a procurar uma vaga próxima ao campo de futebol, mas ficou frustrada ao ver que teriam que caminhar ainda. Não aguentava mais de dor.
— Eu ofereci Trovão Vermelho, criei esses dias, mas ele ainda não tem certeza. Acho que é mais sobre momentum. Quando chegar a hora, ele vai abraçar.
— Não combina com Luciferina, mas tudo bem, manter individualidade é importante. — Disse a loira fechando a porta.
— Quê?! — O estalo da porta fechando deixa Verônica confusa sobre ter ouvido ou não o que acha que ouviu.
— Eu disse que to vendo de longe aquele plebeu que passou da idade. — Luciferina apontou para o campo de futebol onde, no meio, encontra-se Hemerson e uma figura baixinha, magra, ao seu lado. — Fiquem no carro, crianças. — Disse a Princesa às pelúcias.
As duas já caminhavam melhor do que quando saíram da ilha por estarem se acostumando com as dores, mas ainda possuíam muita dificuldade na locomoção. Conforme chegavam perto do campo, enxergavam melhor a segunda figura. Um menino bem jovem usando roupas um pouco formais e um par de óculos de fundo de garrafa. Ele vestia camisa polo com estampas de pinheiros e presentes, bermuda marrom e tênis verde-musgo.
O vento que passava parecia soprar uma mensagem. Os ritmos de respiração dos dois indivíduos, suas posturas e expressões, e uma tensão em suas presenças denunciavam que algo estava errado. A pequena e intensa aventura havia aguçado o instinto de Verônica e Luciferina.
Com um sexto sentido das duas apitando e uma energia que Luciferina percebia, decidiram parar a alguns metros de distância do cliente e do seu acompanhante. A gótica lamentou ter deixado seus cavaleiros e a Cascavel no carro. Verônica levou as mãos discretamente à guaiaca.
— Boa noite, senhoritas. — Disse o professor, enquanto o menino ao seu lado também as cumprimentava, em tom bem gentil e baixinho, quase inaudível. — A encomenda pode ser entregue ao meu bolsista aqui.
— Bonsoir.
— Boa noite, professor. Aqui está a caixa, como prometido. — Verônica jogou a caixinha nas mãos do piá. — Agora, o pagamento.
— Pagamento? Claro, pode dar o resto dos achados da expedição. A receita pode ficar contigo.
— Ha, ha, ha. Muito engraçado. Isso não é uma doação para o museu. É um trabalho, paga logo. — Disse Verônica, levemente irritada.
— Verônica… assim, a informação que te dei era bastante cara, meu tempo profissional também. Só de falar comigo e receber meu conhecimento de forma exclusiva já merecia uma cobrança, todavia tem outro adicional. Faz algum tempo que minha coleção tem sido subtraída e ainda não sei se sempre pela mesma pessoa, mas o roubo de uma certa planta… Tenho fortes testemunhas de que foi assinado pela senhorita com a ajuda do troglodita de Tomás Vachet. Dito isso, os itens que estão aí nessa mochila podem começar a pagar os danos causados.
— Ah, mas daí tu reclama com o cliente, meu velho, porque eu só fiz meu trabalho e Submundo não tem Código Criminal. Agora, se não vai pagar, dá a caixinha de volta e eu arranjo outro cliente. — Depois de ter enfrentado um touro-das-neves e uma onça gigantes, não ia ser esse cara que ia intimidá-la, mesmo que ainda estivesse ferida.
— Attention, ma chère! — Luciferina avança um passo e coloca uma mão na frente de Verônica quando o guri mirrado abriu a caixinha e retirou os objetos que estavam lá de dentro. A afinidade com magia da necromante permitiu identificar que não era algo comum.
— Tua ignorância não é surpresa, Verônica, e não percebes o risco que enfrentas. Este artefato ancestral faz parte da coleção de Ecos. Objetos raríssimos que manifestam o poder convergente de partes do imaginário e da cultura humana. A força do usuário importa tanto quanto sua afinidade com a ideia. — O Professor não tira o sorriso e o olhar satisfeito do rosto, ainda que a expressão estivesse dissonante com a enrugada que fazia em resposta a um barulho irritante de moto.
— Luciferina, tu tá tão quebrada quanto eu, sem tua arma e sem teus bicho. Eu ainda consigo me virar com o que tem aqui. E isso não tem nada a ver contigo.
— Verônica, ma chère, eu sou a Proto-Humana aqui, e é meu noblesse oblige proteger minha suivante.
— Vamos parar de palhaçada. Gustavo, mostre a…