Tic.
Tic.
Tic.
O som vinha antes da consciência.
Um estalo seco, repetido com precisão irritante, batendo dentro da cabeça como se o tempo estivesse tentando ser ouvido.
Tic.
O ar tinha gosto metálico.
Não era exatamente dor. Era náusea. Um enjoo profundo, pesado, que subia lentamente pelo estômago e parava logo abaixo da garganta, como se o corpo ainda estivesse decidindo se valia a pena continuar acordado.
Ela tentou abrir os olhos.
A luz veio primeiro, branca demais, fria demais, recortada por sombras duras. O teto não tinha detalhes memoráveis. Placas lisas. Linhas retas. Tudo excessivamente limpo para alguém que se sentia tão mal.
Tic.
O som estava mais perto agora.
Virou a cabeça um pouco, o suficiente para que o enjoo protestasse. Um relógio analógico preso à parede, mal alinhado, marcava o tempo com indiferença clínica. O ponteiro dos segundos avançava sem pressa, como se nada ali fosse urgente.
Tic.
O corpo parecia pesado demais para si mesmo.
Os braços não respondiam de imediato. As pernas estavam distantes, como se pertencessem a outra pessoa. Havia tubos — ela sentia isso antes de ver — algo preso ao braço, algo gelado, algo que entrava no corpo sem pedir permissão.
O cheiro confirmou antes que a visão acompanhasse.
Álcool. Plástico. Algo químico, levemente adocicado, que se infiltrava na respiração e deixava um gosto estranho na língua.
Quimioterapia.
A palavra surgiu sem esforço, automática, como um dado já conhecido. Não trouxe pânico. Não trouxe alívio. Apenas contexto.
Tic.
O frio era constante.
Não o frio do ar-condicionado, mas aquele que parecia vir de dentro, como se o corpo estivesse sendo convencido, pouco a pouco, a economizar energia. O cobertor fino não ajudava. Nunca ajudava.
Ela respirou fundo.
Ou tentou.
O peito subiu menos do que deveria. O ar parecia pesado demais para entrar por completo. Cada respiração vinha acompanhada de uma leve tontura, como se o mundo estivesse sempre meio segundo atrasado.
Tic.
Havia vozes em algum lugar.
Baixas. Distantes. Técnicas.
Palavras soltas atravessavam o ar como interferência de rádio: números, horários, nomes que não se fixavam. Nenhuma parecia direcionada a ela. Nenhuma pedia resposta.
Ela piscou.
O teto continuava o mesmo.
O relógio continuava marcando o tempo.
Tic.
Ela tentou se lembrar de quando havia chegado ali.
Não conseguiu.
Tentou lembrar de quanto tempo estava ali.
Também não conseguiu.
O corpo parecia existir em ciclos curtos: enjoo, respiração, frio, tic. Tudo o mais estava fora de foco.
Tic.
Foi então que percebeu algo estranho.
Ninguém havia dito seu nome.
Não agora.
Não antes.
Não desde que acordara.
O pensamento não veio como medo.
Veio como constatação.
Simples.
Ela tentou falar.
A garganta respondeu seca, áspera. Um som fraco escapou, mais ar do que voz. Ninguém virou o rosto. Ninguém interrompeu o que estava fazendo.
Tic.
Ela fechou os olhos.
Por um instante, pensou que talvez ainda estivesse dormindo. Que aquilo fosse apenas mais um intervalo estranho entre um ciclo e outro.
Mas o enjoo permaneceu.
O frio também.
E o relógio não parava.
Tic.
Em algum lugar, um monitor apitou brevemente.
Depois, silêncio.
Ela virou o pulso devagar.
A pulseira hospitalar estava ali, úmida contra a pele, presa com força suficiente para deixar uma marca funda.
Havia um código de barras.
Havia uma data.
Havia um campo para o nome.
Vazio.
Tic.