Chac.
Chac.
Chac.
O som vinha depois da dor.
Um estalo úmido, repetido sem pressa, marcando o tempo de alguém que não tinha urgência alguma. Diferente do tic, ele não cortava — mastigava.
Chac.
Havia alívio.
Não o tipo bom. Não o que vem com esperança. Era apenas a sensação de que, por ora, aquilo havia terminado. A agulha fora retirada. O frio químico já não avançava. O corpo ainda tremia, mas pelo menos não estava mais sendo invadido.
Ela respirou fundo.
Dessa vez, o ar entrou inteiro. Pesado, sim — mas completo. O enjoo permanecia como um resíduo, algo que demoraria a ir embora, mas que já não exigia toda a atenção do corpo.
Chac.
A cadeira rangia levemente quando ela se mexia. O plástico colava na pele. O cobertor havia sido dobrado e deixado de lado, como algo que já tinha cumprido sua função.
— Próxima.
A palavra não foi dita para ela.
Foi dita para o sistema.
Ela se levantou devagar. As pernas obedeceram com atraso, mas obedeceram. Isso já era o suficiente.
Chac.
O balcão era baixo demais. Branco demais. Limpo demais. Um monitor ligado exibia campos vazios, linhas esperando ser preenchidas.
A atendente não levantou o olhar.
Os dedos se moviam rápido no teclado. Automáticos. Seguros. O chiclete continuava sendo mastigado com tédio calculado.
Chac.
— Documento.
Não houve por favor.
Ela entregou o que tinha.
O cartão foi deslizado. Um bip curto respondeu. Algo foi aceito.
Chac.
— Nome completo.
Ela disse.
O som do teclado respondeu primeiro.
Depois, o chiclete.
Chac.
— Data de nascimento.
Ela respondeu.
Mais teclas.
Mais mastigar.
Chac.
Os campos iam sendo preenchidos. Não havia reação. Não havia confirmação visível. Apenas o avanço silencioso de um processo que não precisava dela — apenas dos dados.
Ela sentiu algo próximo de gratidão.
Não por estar sendo bem tratada.
Mas por, ao menos, estar sendo registrada.
Chac.
— Aguarde.
A palavra caiu como ponto final.
Ela se sentou na cadeira de plástico ao lado. O corpo reclamou, mas cedeu. Tudo cedia, eventualmente.
Na tela, o cursor piscava.
Esperando.
Chac.
Ela percebeu então que ninguém havia olhado para ela em nenhum momento.
Não o rosto.
Não os olhos.
Apenas os campos.
Chac.
O processo seguiu.
O sistema agora tinha algo dela.
Dados.
Entrada válida.
Input recebido.
Sem resposta.
Chac.
Em algum lugar, uma impressora começou a funcionar.
Depois, parou.
A atendente arrancou a folha e olhou para o papel pela primeira vez.
Não para ela.
Para o papel.
O chiclete parou por meio segundo.
— Seu cadastro saiu sem nome.
Na tela, o cursor continuava piscando.
Esperando.
Chac.