Introdução.
Muito além do que os nossos meros olhos podem ver e as nossas frágeis mãos podem tatear, há um outro mundo. Pelo comum esforço humano, é impossível alcançá-lo. Todavia, pessoas do nosso planeta podem ser levadas de cá para lá.
Os residentes daquele também não conseguem chegar aqui. A transição entre mundos carrega consigo a consequência do não retorno, o que implica abandonos forçados de estilo de vida e de laços sociais. Seguir em frente e recomeçar do zero, onde tudo é desconhecido, é o rumo consequente.
Café da manhã.
Em um abrir de olhos, mais um dia começa para Leandro Carvalho. Sua vista se depara com o teto do quarto. A preguiça matinal pesa sobre seu corpo. Ao se despir do edredom, o jovem senta-se na cama, fica alguns segundos em silêncio e então boceja.
(Leandro): Bora pra mais um dia…
Logo em seguida, o jovem de 17 anos calça o seu par de chinelos azuis nos pés, se levanta e anda, abrindo a porta, saindo do quarto e se dirigindo ao banheiro do lado. Lá dentro, joga uma água no rosto e escova os dentes.
Seu próximo foco é ir comer. Ao passar pela sala, chega-se à cozinha. Sentadas à mesa, estão duas mulheres conhecidas, conversando e tomando o café da manhã. Uma delas é a mãe dele e a outra é a prima.
Sobre a mesa estão uma jarra de suco de laranja, um pacote aberto com pão de forma semi-integral, um vidro de mel, um pote de creme de amendoim, um pote de manteiga recém comprado, além de copos, pratos e talheres.
(Leandro): Bom dia…
(Maísa): Bom dia, filho.
(Melissa): Bom dia, Lê. Senta aí.
Consentindo em obedecer, ele puxa uma das duas cadeiras restantes e a ocupa. Seu paladar é rápido em desejar degustar da combinação de mel com creme de amendoim. O desejo instiga a concretização do ato e resulta no sentir de um agradável sabor.
(Leandro): Huummmm, muito bom.
A satisfação demonstrada desperta um sorriso de contentamento no rosto da carinhosa mãe e um olhar de discordância na descontraída prima.
(Melissa): O pãozinho com manteiga está tão bom quanto.
(Maísa): Fico feliz que vocês estejam gostando, meus lindos.
O elogio deixa os primos felizes. Por alguns segundos, o silêncio toma conta da mesa. Todos continuam a comer.
(Melissa): É… Lê, não esquece de mais tarde, hein…
Há um compromisso previamente marcado. Leandro está ciente do que é e está atento no dever. Já Maísa não foi informada diretamente, mas imagina bem o que os dois estão tramando. Como mãe e tia, ela conhece bem cada um.
(Leandro): Tá bom…!
(Maísa): Huummm… O que vocês dois vão aprontar, hein?
É então que Melissa cai em si, que se precipitou em meio a própria ansiedade e deu um sinal indevido justamente a quem queria que de nada desconfiasse. E mesmo supondo não ser útil, ela tenta se esquivar da questão.
(Melissa): A gente não pode falar, tia!
(Leandro): Pois é, né…?
Ele a encara com um olhar de desapontamento, como se dissesse: “Eita, boca grande… tu acabou com o suspense e a graça do negócio…”
(Melissa): Será uma surpresa! Então, xiu e xiu…!
(Maísa): Hehehe, então tudo bem. Não se fala nisso…
Independentemente do constrangimento surgido pelo deslize, o trio prossegue desfrutando da refeição matinal. E ao fim, por ser o último a terminar, Leandro acaba assumindo a tarefa de guardar cada coisa em seu lugar.
Compromisso.
Passa-se pouco mais de 1 hora. Enquanto Melissa acompanhou Maísa a assistir televisão na sala, Leandro foi jogar vídeo-game em seu quarto, aproveitando o tempo livre.
Quando Maísa resolve sair para trabalhar e toma distância de casa, Melissa corre até a porta do quarto do primo e bate nela 5 vezes, dando um susto no focado e concentrado jogador.
(Melissa): Leandro, abre aí, por favor…
(Leandro): Tá! Já vou…
Ele pausa o jogo, deixa o controle sobre a cama e se levanta, vai até a porta, a destranca e a abre. A primeira coisa que vê é o semblante desanimado da prima.
(Leandro): Que foi…?
(Melissa): Você sabe… a tia já descobriu que a gente queria fazer uma surpresa de aniversário pra ela…
O Carvalho suspira e por um momento também fica cabisbaixo, mas logo passa a enxergar a situação por uma outra perspectiva.
(Leandro): É… mas pensando bem, isso não nos impede de ir. Perdemos o efeito surpresa, mas ainda podemos dar os presentes.
(Melissa): Claro, a gente vai! Desistir não é uma opção…
A convicção e a perseverança ainda estão ali, ardendo em chama interior. Ao mesmo tempo, os estragos da “tempestade” recente continuam sendo sentidos.
(Melissa): …o problema é justamente que perdemos o efeito surpresa, sabe?
(Leandro): O que está feito, está feito. Mais tarde a gente sai pra comprar as coisas…
A ideia de espera, naquele momento, incomoda-a e irrita. Mesmo que o planejado esteja acompanhado de horário, só o que parece fazer sentido agora é ir, sair, agir em movimento.
(Melissa): Não estou com humor para esperar até “mais tarde”...
(Leandro): Oi?!
Tamanha abruptidão, além de chocá-lo, deixa-o com uma sensação psicológica desconfortável de estar sendo encurralado.
(Melissa): Se apronta aí, que vou lá me aprontar, e nós dois vamos sair já já…
Como que se despedindo momentaneamente, ela dá as costas para ele e se vai, assim constrangendo-o a não criar coragem para tentar contestá-la diretamente; mesmo não tendo ela, conscientemente, esse tipo de intenção.
(Leandro): Ah, sério… Aff… [Murmurando]
Receber ordem desta maneira o aborrece. Mesmo considerando o passeio como sendo de suma importância, aquela manhã deveria ser um período de lazer quase que sagrado, em seu conceito.
Por outro lado, o senso de compromisso e a consideração que tem pela mãe são fatores que lhe trazem consolo, além de auxiliar na aceitação da antecipação. O incômodo o acompanha, mas a obediência acaba prevalecendo.
(Leandro): …e lá se vai o meu momento de jogos…
Presentes.
(Melissa): E VAMOS ÀS COMPRAS!
Já em uma das lojas de roupas e acessórios da cidade, na entrada, Melissa não consegue se segurar de tanta euforia. Leandro, embora mais contido, também está feliz, com um sorriso leve ao rosto. O grito dela, claro, chama a atenção de quem está por perto.
As roupas de ambos foram trocadas. Os pijamas foram deixados em casa. Ele, agora, está com uma regata preta, uma bermuda, um par de tênis preto e meias curtas pretas. Ela está com uma blusa preta sem manga, uma calça preta com cinto roxo, uma corrente de aço acoplada ao cinto, um par de tênis roxo com cadarços pretos, meias pretas, um colar no pescoço, um laço roxo preso à cabeça e uma pulseira de tecido roxo na mão direita.
(Leandro): Bora.
E assim os primos se separam, ali dentro, cada um com um objetivo combinado em mente. Melissa vai para a seção de vestidos e encontra um que chama muito a sua atenção, entre os demais. A cor é marrom, com estampa florida.
(Melissa): É esse…!
Sem pestanejar, a Carvalho segura o cabide com a mão direita e apalpa o vestido com a mão esquerda. A admiração pelo vestido é tamanha que seus olhos chegam até a brilhar.
(Melissa): É a cara dela…! Eu vou levar!
Não muito depois, a jovem de 17 anos chega nas estantes de calçados. Seus olhos passeiam por sandálias, chinelos, tênis e botas, até chegar em um par de botas de couro curta e sem salto, com pequenos detalhes florais.
(Melissa): Não é tão barata, mas a tia merece!
O vestido custa R$59,90 e as botas custam R$149,90. Juntando ambos, o gasto total fica em R$209,80.
E, até então, Leandro ainda não cravou o que escolher. Diante dele estão colares e relógios. Muitas peças lhe chamam a atenção, ocasionando certa indecisão.
(Leandro): Cara, que difícil… são muitas opções…
Eis que, logo atrás, aparece Melissa, surpresa em vê-lo daquela maneira. Em sua mão esquerda, ela carrega uma caixa de sapatos bege. Em sua mão direita, o cabide com o vestido.
(Melissa): 2 a 0 pra mim…
(Leandro): O que?!
Tal fala quebra sua esfera de foco, sendo inesperada o suficiente para lhe provocar um mínimo susto; mas, assim que a vê com as peças em mãos, logo acaba compreendendo o recado.
(Melissa): Eu ganhei, você perdeu. Simples assim…
(Leandro): Estamos competindo, é?!
(Melissa): Não estamos, mas fato é fato. Fui pelo menos duas vezes mais rápida do que você, Lê.
Ela se aproxima e olha com veloz atenção, tanto os colares, quanto os relógios. Logo, chamam a sua atenção um colar dourado com um pingente de folha, bem como um relógio de couro com detalhes roxos florais.
(Leandro): Eu não tenho culpa se não sou tão rápido que nem você…
(Melissa): Se for relógio, esse aqui. Se for colar, esse aqui.
(Leandro): Huuum…
O apontar de dedo para ambos produtos conduzem o olhar dele, não só para ver quais são as sugestões, mas também para os preços que as acompanham. O dito relógio custa R$119,49. O colar custa R$79,90. Somando, o total é R$199,39.
O valor elevado de ambos traz ao seu rosto uma careta de angústia. Em sua carteira há exatos R$200. Comprar ambos produtos resultaria em gastar praticamente tudo o que tem.
(Leandro): Rapaz! Os valores não estão muito simpáticos, mas… pela minha mãe, vale a pena o gasto!
Em um impulso dificultoso, com olhos quase fechados e mãos trementes, ele pega ambos objetos. No caixa, se despede do dinheiro quase que querendo cair em lágrimas. Meros R$0,60 é tudo que lhe sobrou.
(Melissa): Agora é aguardarmos mais dois dias, até a hora de entregar os presentes.
(Leandro): Sim…
Logo ao lado, ela está. Mesmo gastando mais do que ele, ainda lhe restou R$290,20 de mesada.
Círculos.
No trajeto de volta para casa, tal como na ida, os primos passam por uma estrada de terra, curta de percurso e pouco frequentada, mas considerada segura de dia e até de noite. Com calma e sozinhos, caminham com naturalidade e conversam.
(Melissa): E amanhã é segunda-feira já, hein! Esse fim de semana está passando até que rápido…
(Leandro): Até demais. Preciso passar a tarde em casa, jogando…
(Melissa): Você devia é estudar, já que amanhã a gente tem prova de matemática…
A simples hipótese de ter que estudar, em pleno domingo, soa como algo intragável para o rapaz. Fins de semana, dentro da sua ótica, devem ser desfrutados na plenitude do que é considerado hobby.
(Leandro): Eu estudo correndo, de manhã. O que vai cair, pra mim, é de boa…
Por alguns segundos, a moça o encara com um semblante incrédulo. Os dois continuam andando, sem parar, com as sacolas em mãos. Descontraidamente, ele chuta uma pedrinha laranja, tirando-a do caminho.
(Melissa): É?! Aquela matéria do cão é de boa?! Que horror…!
É neste instante, quase como em um piscar de olhos, que surge, perante os primos, entre os solados dos calçados e o solo, um círculo azul brilhante em posição horizontal. Seu diâmetro é de 5 metros e seu centro situa-se entre os dois.
(Leandro): Hã…?!
A sensação de confusão vem acompanhada de susto. Os batimentos cardíacos sobem subitamente. Os cérebros procuram, com desespero, compreender o que está acontecendo. O súbito incomum gera insegurança mútua e necessidade de proximidade subconsciente. Os olhares se cruzam e, sem qualquer aviso ou anúncio, a normalidade cotidiana é, tão de repente, rompida.
Quando Leandro se vira de costas e move o pé, o que era chão torna-se um buraco. Aos gritos, os dois caem velozmente. E assim que os corpos passam do ponto considerado solo, o círculo sofre uma imediata diminuição de diâmetro, partindo das extremidades e indo ao centro, até sumir.
A queda, a partir do instante de travessia, sofre uma súbita desaceleração, o que os leva a cair devagar, quase como se estivessem flutuando. Uma experiência que se assemelha à sensação de mergulhar em uma piscina, com a diferença de que não há água ou qualquer umidade.
(Leandro): Ué?!
Os corpos logo sentem que estão em uma atmosfera diferente da conhecida. Uma mudança de cenário, de fato, acontece. Seus olhares contemplam uma espécie de espaço dimensional com diversos tons de azul, espalhados por toda parte.
(Melissa): Mas que merda que está acontecendo?!
O som de sua fala, mesmo em tal ambiente, se mantém audível. A única alteração notável é a existência de um leve eco. A temperatura, por mais estranho que possa parecer, é de frescos 20 °C.
As sacolas de compras continuam com eles, firmemente seguradas e preservadas. Nem a surpresa e nem o medo foram suficientes para fazê-los afrouxar os dedos.
(Leandro): Eu não sei… mas esse lugar é incrível…!
Presenciar os movimentos azuis ondulantes o fascina, deixando uma marca inestimável e sobrenatural na memória, e impressionando-o a ponto de retardar a sua reflexão sobre a situação atual.
(Melissa): Incrível?! Bem… [Observando de novo] …de fato é bonito sim, mas esse não é o ponto agora…! Para e PENSA…!
O grito, além de o constranger a ficar cabisbaixo, o força a abrir o leque de atenção e a analisar com mais consciência pelo que estão passando.
(Leandro): É… algo aconteceu e talvez estejamos ferrados…!
Surge outro círculo azul diante deles, com as mesmas medidas e aspectos, mas desta vez em posição vertical. Apreensivos e temerosos, os jovens seguram as mãos um do outro e torcem para saírem dali vivos.
(Leandro): Uh!
(Melissa): Não!
Como num piscar de olhos, o círculo vai de encontro a eles e os atravessa, conduzindo-os a um novo cenário.
Contato.
Leandro e Melissa passam por uma pequena queda de aterrissagem, partindo do ponto aéreo em que são projetados até o solo, numa distância de 30 centímetros. Ele perde o equilíbrio, quase indo de joelhos na areia. Ela não tem dificuldade em ajustar a postura, ficando ereta facilmente.
(Leandro): Estamos bem, de algum jeito…
(Melissa): Eu não teria tanta certeza assim, considerando esse lugar…
É então que ele passa a observar, com maior amplitude, o que está ao redor. À sua frente, há uma floresta que pode ser adentrada. Logo atrás, estão as águas cristalinas do mar. E entre ambos, a areia que interliga os ambientes. Esta é uma praia paradisíaca.
(Leandro): Uma… ilha?!
(Melissa): É o que parece…!
Ela deixa as sacolas do vestido e das botas na areia, curvando a coluna para soltá-las suavemente. Em seguida, tira o celular do bolso esquerdo e aperta o botão de ligar, ativando o aparelho.
(Melissa): Deixa eu ver se tem sinal aqui! Precisamos entrar em contato com os nossos pais, urgentemente! Com certeza, eles vão se preocupar, mas pelo menos precisam saber que estamos vivos!
(Leandro): Sim, com certeza!
Indo no embalo, ele também deixa uma sacola na areia, a qual contém tanto o colar, quanto o relógio. A atitude dela o impele a, de semelhante forma, ligar o celular para verificar o próprio caso.
(Leandro): Vamos lá…!
Por alguns segundos, os dois ficam em silêncio, em meio à própria ansiedade, esperando a resposta aparecer diante dos olhos.
(Melissa): Droga! Tá sem a porra do sinal…!
(Leandro): Idem…! Agora ferrou de vez…!
Em cada semblante, é possível notar o choque, acompanhado de desespero. O que consideravam como esperança ruiu e se esvaiu, como cinzas levadas ao vento.
(Melissa): Meu Deus! E agora, pra gente sair daqui?! Eles, real, vão pensar que a gente morreu…!
O celular escapa da mão trêmula de Leandro, caindo em pé na areia e sendo coberto na parte inferior. Com olhos lacrimejantes, o jovem passeia duas vezes com a vista entre as sacolas, partindo daquela que ele mesmo carregou.
(Leandro): E a gente vai perder o aniversário…!
Tal possibilidade o angustia, além de revoltá-la. Se conformar em postura de inércia, na forma dela de considerar, é uma opção inadmissível e incabível.
(Melissa): Não podemos deixar isso acontecer, de jeito nenhum…! Precisamos agir!
Ela não só guarda o próprio celular no bolso, como também pega o celular e a sacola do primo, e entrega ambos em mãos. Seguidamente, retoma as duas próprias. Quietamente e com atenção, ele observa-a fazendo tudo isso.
(Leandro): Eu concordo, não podemos…!
A determinação o comove, levando-o a encarar as árvores e os arbustos à frente com a perspectiva e a disposição de enfrentar desafios, se preciso for.
(Leandro): Talvez devêssemos entrar ali naquela floresta! Quem sabe encontremos algo que possa nos ajudar.
(Melissa): Até podemos, mas se tiver uma onça ou outro bicho perigoso, eu vou ter que te largar e sair correndo! Preservo minha segurança e você que se vire…!
Tamanha declaração o surpreende, consideravelmente. O posicionamento hipotético dela o desaponta, graças à inesperada quebra de confiança. O imaginar-se diante de tamanho felino feroz abala sua coragem desbravadora.
(Leandro): Nossa, que horror! Cadê o senso de união de primos? Você me deixaria morrer nas vésperas do aniversário da minha mãe?!
(Melissa): Pensando bem, eu não suportaria carregar esse peso…!
O questionamento a constrange, trazendo um pouco de peso à consciência e um suave quedar de semblante.
(Leandro): Que bom, né…? E se você corresse, a onça iria atrás de você, sua besta. Acho que o melhor é ficar parado e tentar demonstrar imponência, e também altura.
(Melissa): Sério mesmo?! Agora eu me senti tipo aqueles personagens burros de filmes de terror que morrem por gafes toscas…
Tomando a dianteira, ela vira para a esquerda e anda. Mesmo com uma sacola em cada mão, ela consegue usar a direita para chamá-lo gestualmente. E sem demora, ele a atende.
(Melissa): Vamos andando pela areia da praia. Deve ser mais seguro…
(Leandro): Tá okay…
A dura realidade.
(Melissa): Lê, ali!
(Leandro): Sim!
Após andarem um pouco, a dupla Carvalho nota, não tão distante dali, alguém deitado sobre uma toalha de praia na areia. Fato que é acompanhado de consolo e de insegurança, simultaneamente.
(Leandro): Será que ele está dormindo?
(Melissa): É o provável.
Os passos cessam. A hesitação, vestida com o traje da dúvida, pulsa com uma suavidade incômoda.
(Melissa): E agora, acordamos ele? O que você acha?
(Leandro): Válido. Vai que ele sabe de um barco pra gente vazar daqui, né?
(Melissa): Ir embora de… barco?!
Comparável à sensação de ter um disco de vinil parando de funcionar de repente, em meio ao toque de uma música, eis que o ambiente ao redor dela parece perder a cor, de tão irritante e ridícula que a opção de velejar lhe parece.
(Leandro): É um meio. Uma alternativa…
(Melissa): Seria melhor um avião ou helicóptero, pra gente chegar mais rápido…
(Leandro): E quem iria pilotar essas coisas? Nem eu nem você sabemos…
Na perspectiva dele, o barco é muito mais plausível do que as sugestões dela, justamente pela tangibilidade e pela praticidade. Alternativas que fogem dos limites de suas habilidades são enxergadas como meros absurdos inúteis.
(Melissa): A gente pode estar do outro lado do mundo! Como que voltaremos em dois dias com um barco? UM BARCO!
O acalorar da conversa desperta o rapaz loiro de seu sono, deixando-o em um estado mental de confusão momentânea.
(???): {Hã…?}
(Leandro): Eu concordo que essa não é a melhor das ideias, mas pensando com os pés no chão, é o que nós poderíamos dar conta…
(Melissa): E se vier uma tempestade marítima contra esse barco? E aí, senhor Pés no chão? Hein? Tu quer morrer afogado e me levar junto, é?!
Os olhos do jovem de bermuda bege e regata vinho vão se desembaçando e, em seu campo de visão, aparecem os dois desconhecidos. Seus ouvidos vão captando as informações ditas e, aos poucos, seu cérebro compreende o que está acontecendo.
(???): {Tem duas pessoas ali… será que são…}
(Leandro): [Suspiro] Eu só quero voltar pra casa, assim como você, Melissa. E eu estou sendo mais lógico do que você. Ou você acredita mesmo que haja um helicóptero ou um heliponto nesse lugar?
O fato de ele se colocar acima dela, em termos de senso de situação, a incomoda e irrita. O questionamento levantado a deixa desconfortável e confusa, a ponto de querer apresentar uma refutação imediata e não pensar em nada bom o suficiente. O improviso verbal acaba sendo a alternativa escolhida.
(Melissa): Eu… acredito… nos plot-twists da vida!
(???): EI, VOCÊS DOIS. TUDO BEM?
Enquanto fala, o jovem ergue-se com auxílio da mão e do braço esquerdos, sentando-se com as pernas cruzadas. A atenção dos Carvalho é chamada de imediato.
(Leandro): Eita, ele acordou!
(Melissa): OI, TUDO BEM, MOÇO. E VOCÊ?
O primo observa a prima correndo animada, indo em direção ao moço ainda não identificado. Era até seu desejo responder à ilustre frase por ela proferida, mas a interrupção traz consigo o alívio da pausa ou término do debate, o que o satisfaz.
(Leandro): E lá vamos nós… que dê tudo certo!
Por não querer deixá-la sozinha, ele corre ao encontro dos dois, num estado de menor euforia e menor afobação, em comparação. Seu coração sofre de receio. O saber é necessário, todavia, o conteúdo desconhecido do saber causa certo medo.
(???): Estou bem…
Ele movimenta o próprio corpo, a fim de se levantar. Seus pés passam da toalha para um par de chinelos laranja, deixado ali por perto anteriormente.
(???): …A propósito, me chamo Dener, muito prazer.
(Melissa): O meu nome é Melissa… e aquele sem noção é o Leandro, meu primo…
Desejando se defender, Leandro acelera um pouco para alcançá-los. A atitude cobra fôlego, consumindo brevemente uma porção da estamina corporal.
(Leandro): Muito prazer… e eu não sou sem noção…
(Dener): Relaxa, meu amigo… Vocês parecem preocupados. Imagino que tenham chegado aqui através de um tipo de portal azul. Correto?
(Melissa): Como você… sabe?!
O senso de preocupação dispara mutuamente, como um súbito banho de água fria vindo de um balde. Deveria outro alguém estar ciente de algo que, há pouco, aconteceu diretamente com os dois? O sorriso e a simpatia dele perdem brilho e cor diante de quem vê, e sua aparente integridade despenca em pontos de credibilidade.
(Leandro): {É suspeito! Será que ele é mesmo de confiança?!}
Nos poucos segundos de silêncio, Dener observa cada rosto e nota as feições de apreensão, ficando surpreso com uma intensidade que supera o esperado.
(Dener): A maioria das pessoas que moram nesta ilha vieram da mesma maneira. Também estou incluído nessa, hehe.
A justificativa lhes parece fazer sentido. A causa de tal ciência vem, justamente, do compartilhamento da mesma experiência. A partir daí, os primos deixam de ter a sensação de exclusividade perante o fenômeno.
(Melissa): E em que lugar do mundo que esse portal nos deixou?!
(Leandro): Onde estamos, afinal?!
Os batimentos cardíacos disparam. Diante deles, está quem teoricamente pode responder o que tanto anseiam por descobrir. As perguntas são feitas, acompanhadas de mútua coragem impulsiva.
Novos segundos de silêncio aumentam a ansiedade. Para Dener, o simples ato de responder soa como algo delicado, já que um peso de responsabilidade está repousando sobre seus ombros.
(Dener): Então… essa é a parte difícil da conversa…
(Melissa): Difícil?! Por que?! Estamos tão longe assim?! Do outro lado da Terra?!
(Leandro): {Que não estejamos do outro lado do mundo! Que não estejamos…!}
Num suspirar cabisbaixo, Dener busca reforçar o próprio preparo emocional. Num apertar dos dedos das mãos, Dener busca sustentação para falar de cabeça erguida, sem desviar os olhos.
(Dener): Olha… tenho certeza que vocês concordam comigo que a experiência do portal é algo que foge do normal, é sobrenatural… A verdade é que este é um outro mundo, em algum lugar do universo, ou sei lá onde…
Um frio espinhal e um forte tremor de mãos atingem Leandro, como se novamente seus pés não sentissem o chão. A diferença é que, ainda que agora não esteja acontecendo literalmente, o baque sentido é tremendamente maior. Ao seu redor, o cenário muda de tonalidade, como se tudo ficasse cinza e preto.
(Leandro): Estamos em… outro mundo?!