THE DAY I WAS REINCARNATED AS A DISTINGUISHED DOCTOR. 1 CAPÍTULO 1 VOLUME O COMEÇO DE MEDICINA O silêncio do necrotério central era quebrado apenas pelo som pesado do plástico reforçado arrastando contra o azulejo gélido.
— Vamos lá, coopera comigo só mais um pouquinho... — resmungava Hapur, ajeitando a máscara cirúrgica com o ombro.
Com apenas 1,60 de altura, ela parecia quase cômica fazendo aquela força toda, empurrando o cadáver com o quadril. Seus longos cabelos amarelos, presos num rabo de cavalo desleixado, balançavam a cada tranco. Por trás dos cílios, suas íris vermelhas brilhavam com uma fixação quase romântica no contorno do saco preto. O casaco marrom com pelugem branca — o seu favorito, mesmo que os chefes reclamassem que "não era vestimenta adequada" — estava aberto, exalando um perfume forte de formol misturado com lavanda barata.
Ela parou diante das grandes gavetas de aço escovado e bateu a mão no painel metálico, onde se lia a etiqueta: H-N210.
— Prontinho, seu lindo. Sua nova acomodação — Hapur sorriu de canto, deslizando a maca com um empurrão certeiro para dentro da gaveta correspondente, marcada como G-N210. O estalo metálico do trancamento ecoou como música para os ouvidos dela.
Ela deu três tapinhas carinhosos na porta de ferro, os olhos vermelhos semicerrados numa empolgação genuína:
— Amanhã... ah, amanhã o dia vai ser perfeito. Eu vou finalmente poder te abrir todinho, sabia? Um espécime tão especial quanto o H-N210 não aparece todo dia. Mal posso esperar para ver o tamanho do estrago que essa infecção rara fez nos seus tecidos internos. Vai ser uma obra-prima de necrópsia!
Ela tirou as luvas de látex com um estalo estrepitoso e limpou o suor da testa.
— É, Hapur, sua linda, agora é só bater o ponto, ignorar as piadinhas do pessoal do turno da noite e tentar dormir.
Hapur caminhou cantarolando até a pesada porta de segurança máxima. Segurou a maçaneta de metal e deu um puxão seco.
Não mexeu.
Ela franziu o cenho. Tentou empurrar, girar, forçar com o ombro, mas o trinco eletrônico estava completamente apagado. De repente, um estalo mecânico e seco ecoou pelo corredor externo: o ferrolho manual de ferro escuro havia sido passado por fora.
— Ei! Que palhaçada é essa?! — O tom descontraído dela sumiu, substituído por uma descarga elétrica de pânico. Ela colou o rosto contra a pequena fresta de vidro reforçado da porta, esmurrando o material com os nós dos dedos. — Alguém aí?! Abre essa merda! Eu ainda estou aqui dentro, seus idiotas! Me tira daqui!
As lágrimas começaram a cortar seu rosto, borrando a maquiagem ao redor de suas íris vermelhas. Não era medo do escuro; era o som sibilante que veio logo em seguida acima de sua cabeça. Os dutos de ar condicionado e exaustão simplesmente pararam de funcionar. O sistema de refrigeração foi cortado.
Em menos de dois minutos, o ar estagnado começou a esquentar. E com o calor, o horror se libertou. As vedações das gavetas antigas eram péssimas. O miasma denso, tóxico e insuportável de dezenas de corpos em decomposição avançada começou a vazar, inundando a sala como uma fumaça invisível e sufocante.
— Não... por favor... — Hapur tossiu violentamente, cobrindo a boca. O odor pútrido e venenoso rasgou os filtros da sua máscara como se fossem feitos de gaze. — Eu preciso... respirar... abre...
Seus pulmões pareciam queimar com puro veneno orgânico. A visão dela começou a pipocar em borrões pretos. Seus joelhos falharam, batendo com força no chão. A última coisa que ela viu antes de apagar completamente foi o reflexo dos seus cabelos amarelos no azulejo, enquanto o cheiro da morte a engolia por inteiro.
Um estalo. Uma luz forte e irritante. O cheiro de podridão sumiu, dando lugar ao aroma doce de leite morno e flores de lavanda.
Hapur abriu os olhos dando um sobressalto mental, tentando gritar por socorro, mas o que saiu de sua garganta foi um choro agudo, fino e completamente ridículo de recém-nascido. Ela tentou se levantar para xingar quem a tinha trancado, mas seus braços e pernas não passaram de quatro toquinhos gordinhos se batendo no ar, sem coordenação nenhuma.
Mas que diabo... Que palhaçada é essa com o meu corpo?!
Quando sua visão finalmente focou, uma mulher gigante surgiu acima dela. Ela tinha longos e radiantes cabelos laranja e íris verdes que pareciam irradiar uma calma quase irritante. Tinha cerca de 1,70 de altura, uma postura impecável, elegante, e um sorriso doce que parecia saído de um comercial de margarina.
A mulher inclinou-se sobre o berço, fazendo um carinho leve na bochecha de Hapur, e começou a falar numa língua bizarra. As palavras eram nitidamente inglês, mas o começo de absolutamente tudo tinha um sotaque com "Hu".
— Hulove, Humy Hubaby... — a mulher cantarolou, a voz aveludada e mansa. — Huare Huyou Huhungry, Humy Hulittle Huhapur?
Hapur parou de berrar por um segundo, piscando em choque. Espera aí... Essa gigante é a minha mãe? Eu... eu virei a porra de um bebê de Isekai?!
O choque durou pouco, pois a mente analítica dela deu um estalo doloroso. Ela levou as mãozinhas trêmulas às próprias bochechas gordas. Não, não, não! Se eu estou aqui... o que aqueles desgraçados estão fazendo com o meu corpo original agora?! Eles me acharam? Estão limpando a sala? Ou será que... eles estão me dissecando?! Não vale, eu que sou a dissecadora aqui!
A angústia da dúvida misturada com o orgulho ferido fez seus olhos de bebê transbordarem de novo. Ela começou a berrar com raiva, frustrada por só conseguir produzir sons de mola velha.
A mãe, achando que era apenas cólica, estendeu a mão com uma paciência angelical e ofereceu o dedo indicador para a filha segurar.
Hapur olhou para aquele dedo comprido sob a luz do quarto. A estrutura óssea perfeita, a textura da epiderme, os tendões flexores se movendo sob a pele... Naquele milésimo de segundo, os olhos de bebê da Hapur brilharam. Calma... Se eu reencarnei nessa joia de mundo, eu não preciso chorar pelo leite derramado. Eu posso começar do zero! Eu vou ser a maior dissecadora que essa terra já viu!
Com um plano de carreira já traçado na mente de dois dias de vida, Hapur agarrou o dedo da mãe com as duas mãos, puxou-o com força e enfiou a boca inteira nele, babando o indicador da mulher todinho, testando a resistência da pele com as gengivas. Hum, boa densidade muscular...
A mãe soltou uma risada leve, achando a atitude a coisa mais fofa do universo. Ela limpou a baba do dedo na fralda com toda a elegância do mundo e declarou cheia de orgulho:
— Huhapur... Huyou Huwill Hube Hua Hugreat Humedical Hudoctor Huwhen Huyou Hugrow Huup.
Hapur parou de morder e semicerrou os olhinhos. Médica? É... quase isso, "mamãe". Quase isso.
Seis anos depois...
Hapur agora ostentava orgulhosamente seus 1,30 de altura. Ela havia herdado os cabelos laranja vibrantes da mãe, mas tinha passado a tesoura sem dó, deixando-os bem curtos para não atrapalharem sua visão na hora de mexer com coisas gosmentas. Suas íris eram verdes e expressivas, mas o olhar... o olhar guardava a mesma obsessão de sempre. Ela andava pela casa usando um casaco marrom que era uma cópia quase idêntica ao da sua vida passada.
— Vamos... sobe... sua... infeliz... — resmungava Hapur, arrastando uma cadeira de madeira pesada escada acima, degrau por degrau.
Ela parou no corredor superior, bufando, e empurrou a cadeira até o centro. Subiu nela, esticou os bracinhos e puxou com força o trinco de ferro no teto. A porta do porão superior — o sótão da mansão — cedeu, e a escada retrátil desceu de uma vez, dando um belo de um cascudo bem no meio da testa da menina.
— Ai! Porra! — Hapur xingou alto, esfregando o galo que começava a subir enquanto descia da cadeira com agilidade. — Escada maldita... engenharia de bosta desse mundo...
Ela olhou para cima, ajeitando o casaco marrom. De acordo com o que sua mãe havia comentado com as criadas na semana passada, o grimório avançado de medicina da família estava mofando ali em cima.
Hapur subiu os degraus de madeira, os olhos verdes varrendo a penumbra cheia de poeira até focar em um baú. Lá dentro, repousava um livro verde de capa de couro grossa.
Ela o puxou com as duas mãos e o abriu com pressa, soprando as páginas. Uma nuvem espessa de poeira voou na cara dela, fazendo-a espirrar.
— Cof, cof! Que nojo... Mas vamos ao que interessa. — Seus olhos correram ávidos pelos escritos na língua "Hu" que ela já dominava perfeitamente. Ela achou a seção de feitiços práticos de cura e começou a ler em voz alta, imitando o tom entediado dos professores da sua antiga faculdade:
— "A magia de cura consiste em injetar mana nas células de forma estritamente individual. O conjurador deve ordenar conscientemente que as células negativas se transformem em células positivas..." — Hapur parou, piscando duas vezes. Ela releu o parágrafo. — "...manipulando cada unidade celular para gerar uma pequena bola de carne até formar o braço inteiro."
Um silêncio pesado tomou conta do sótão. Hapur fechou o livro devagar, botou a mão no queixo e franziu o rosto numa careta de profundo nojo e decepção.
— Mas que... que porcaria mais preguiçosa é essa?! — ela quase gritou, jogando as mãos para o alto. — Injetar mana e deixar a célula fazer o trabalho sozinha?! Cadê o estudo da anatomia? Cadê o prazer de isolar uma artéria, limpar o coágulo com uma pinça e dar um ponto cirúrgico perfeito? Isso não é medicina, isso é trapaça de videogame! É um tédio! Uma bosta!
Irritada, ela começou a folhear o livro com força, quase rasgando o papel. Para a sua sorte, a segunda metade do grimório era puramente descritiva: ilustrações incrivelmente detalhadas da anatomia de monstros e animais locais.
Os olhos verdes dela dilataram. Aquelas criaturas tinham sistemas circulatórios triplos, ossos ocos e órgãos exócrinos que ela nunca tinha visto na vida.
— Ah... agora sim estamos conversando... — Um sorriso sádico e fascinado brotou em seus lábios infantis. — Esquece essa cura de preguiçoso. Eu não quero saber de curar ninguém com feitiço estúpido. Eu quero abrir cada uma dessas coisinhas.
Um ruído de garras arrastando na madeira ecoou atrás de uma pilha de caixas velhas.
Hapur virou a cabeça milimetricamente. De trás de um baú, surgiu um rato imenso. Mas não era um rato comum: ele tinha dentes vermelhos como lâminas enferrujadas e olhos vermelhos que brilhavam na escuridão como duas brasas.
O roedor soltou um guincho agressivo, mostrando os dentes. Hapur, em vez de recuar ou gritar como uma criança de seis anos normal, sentiu o coração disparar de pura alegria. As pupilas dela dilataram.
— Olha só para você... — ela sussurrou, a voz adocicada e assustadora, começando a engatinhar lentamente na direção do bicho, os dedos esticados como garras. — Esses dentes vermelhos... você deve ter glândulas de veneno incrivelmente desenvolvidas na mandíbula, não é? Como será que é o seu fígado para processar tanto elemento tóxico? Deixa a titia ver... Vem cá, deixa eu te dissecar rapidinho, juro que não vai doer quase nada...
O rato, percebendo que aquela mini-humana era uma psicopata completa, entrou em modo de defesa total. Ele saltou para a frente em um borrão cinzento, rápido demais para o corpo de seis anos de Hapur reagir.
— Hã?!
Crau!
Os dentes vermelhos rasgaram a calça de Hapur e cravaram fundo na panturrilha dela.
— Desgraçado! — ela berrou, tentando agarrar o bicho, mas o rato soltou a perna dela imediatamente e sumiu como uma fumaça entre as caixas escuras.
No segundo seguinte, Hapur sentiu um frio violento e paralisante subir pela sua perna. O veneno era uma neurotoxina brutal de ação rápida. Seu equilíbrio sumiu, o teto do sótão pareceu girar de ponta-cabeça e suas forças evaporaram. Ela desabou de lado, batendo com a bochecha na poeira, o livro verde caindo aberto bem na sua frente.
Não... logo agora que eu achei um modelo de testes... — ela pensou, a frustração queimando mais que o próprio veneno.
Enquanto a escuridão puxava seus olhos para fechar contra a sua vontade, a audição da Hapur, já meio distorcida, captou o som ecoante de passos pesados e apressados subindo a escada de madeira do porão.
(Capítulo ainda não terminado)