Capítulo 1 - A Calmaria Antes da Tempestade
02 de abril – 08:12
O ar da Sala 2-B vibrava com a energia caótica típica do primeiro dia de aula. O zunido de conversas sobre as férias de verão, o arrastar de cadeiras e o cheiro de livros novos formavam a trilha sonora daquele recomeço.
Encostado em sua cadeira, com os pés apoiados desleixadamente na mesa, Itsuki Takeda observava o ecossistema da classe se restabelecer. Seus olhos afiados captavam tudo: os grupos que se formavam, as novas modas, as velhas hierarquias. Era um passatempo divertido, prever como as peças se moveriam no tabuleiro daquele ano.
Ao seu lado, Yutaro Endou fazia o exato oposto. Encolhido sobre sua mesa, ele tentava se fundir à madeira, seus ombros curvados sobre um livro de programação como se o objeto pudesse torná-lo invisível.
Sempre tão tenso, Yutaro, pensou Itsuki com um suspiro interno. Relaxe um pouco, o ano mal começou.
Como se o destino tivesse um senso de humor cruel, foi nesse exato momento que a pequena paz de Yutaro se desfez. Ao tentar pegar um lápis, seu cotovelo esbarrou no estojo, que caiu no chão com um barulho estrondoso de plástico e metal.
CLAC!
O conteúdo se espalhou pelo piso: canetas, borrachas e um chaveiro de acrílico de uma personagem de anime de edição limitada.
Yutaro mergulhou para recolher seus pertences, o rosto vermelho de vergonha. Foi então que uma sombra o cobriu.
"Olha só o que temos aqui", a voz de Ayaka Amamiya pingava desprezo. Ela parou bem em frente a Yutaro, ladeada por duas amigas que riram como hienas. "O nerd desastrado, começando bem o ano. Deixando seu lixo de otaku cair por todo lado."
Yutaro estremeceu, sem levantar a cabeça. "E-eu... desculpe, Amamiya-san. Já estou recolhendo."
"Não se preocupe, eu te ajudo", disse Ayaka, um sorriso maldoso se formando em seus lábios. Ela ergueu o pé, a sola de seu sapato alinhada perfeitamente para esmagar o chaveiro de acrílico.
Mas o pé nunca desceu.
Uma mão o parou no ar, segurando seu tornozelo com uma firmeza que não deixava espaço para resistência. A mão de Itsuki. Ele nem havia se levantado da cadeira, seu corpo inclinado para o lado em um movimento fluido e preciso.
"Ayaka. Já chega", disse ele, a voz calma, mas carregada de um peso que fez o riso das amigas dela morrer na garganta.
Ayaka puxou o pé, com o rosto corado de raiva e, talvez, de um pingo de humilhação por ter sido parada na frente de todos — e principalmente, na frente dele.
"O-o que foi, Takeda?! Eu só estava brincando!", ela gaguejou, tentando recuperar a compostura.
Itsuki finalmente se endireitou na cadeira, seus olhos fixos nos dela, sem um pingo de humor. "Seu 'brincar' é patético. Deixe-o em paz."
As palavras a atingiram como um tapa. "Patético". Ayaka ficou sem resposta. Com um "Hmph!" indignada, ela se virou e marchou de volta para seu lugar, arrastando suas seguidoras.
O silêncio tomou conta da sala por um instante. Yutaro rapidamente recolheu a última de suas coisas, abraçando o chaveiro salvo contra o peito.
"...Obrigado, Itsuki-kun", ele murmurou, a voz quase inaudível.
Itsuki apenas deu um aceno de cabeça, prestes a dizer algo para quebrar a tensão, quando a porta da sala deslizou para o lado com um som seco.
GRRRRREEEEEK!
Todos os olhares se viraram para a entrada.
Parada ali estava uma garota que não parecia ter muito mais idade do que eles. Seus olhos violeta, seu longo cabelo preto estava perfeitamente liso, emoldurando um rosto de uma beleza quase irreal. Ela vestia um terninho elegante que, de alguma forma, não parecia formal demais para sua figura esguia.
Mas não foi sua beleza que fez um calafrio percorrer a espinha de Itsuki. Foi sua postura. Perfeitamente ereta, sem um único movimento desperdiçado. Seus passos, ao entrar na sala, eram completamente silenciosos. E seus olhos, o tom da noite profunda, continham uma frieza calculada que contrastava violentamente com sua aparência jovem.
Essa garota... não é uma aluna, foi o primeiro pensamento de Itsuki. E ela com certeza não é uma professora.
A garota parou na frente da sala, seu olhar varrendo cada estudante com uma intensidade desconcertante. O barulho cessou completamente. Diante daquela presença avassaladora, até Ayaka parecia uma criança comportada.
Então, ela falou, a voz clara e firme, preenchendo o silêncio.
"Bom dia. Eu sou Reina Kurokawa." Ela fez uma pequena pausa, deixando o nome assentar no ar antes de soltar a bomba. "A nova diretora desta escola."
Um segundo de silêncio absoluto foi seguido por uma explosão de descrença.
"O QUÊÊÊÊ?!"
A exclamação coletiva da classe ecoou pelas paredes, mas a expressão de Reina não mudou um milímetro. Os olhos de Itsuki, no entanto, se estreitaram.
Diretora? Essa garota...? Quem diabos é você? ele pensou, um sorriso intrigado se formando em seus lábios. Algo está muito errado aqui.
A onda de choque que varreu a Sala 2-B foi quase palpável. "Diretora"? Aquela garota? A palavra ecoava em murmúrios confusos e olhares trocados entre os alunos. Alguns achavam que era uma pegadinha. Outros, que ela era talvez filha do verdadeiro diretor. Ninguém conseguia processar a informação.
Reina Kurokawa, no entanto, permaneceu impassível diante do caos. Ela esperou com uma paciência glacial até que o ruído começasse a diminuir, sua presença silenciosa mais eficaz do que qualquer grito para impor ordem.
"Entendo a surpresa de vocês", ela disse, a voz ainda perfeitamente controlada. "No entanto, a situação é exatamente como eu descrevi. A partir de hoje, eu sou a responsável por esta instituição. Para que possamos nos conhecer melhor, gostaria que cada um se apresentasse brevemente. Nome e o que esperam deste ano letivo. Vamos começar pela primeira fileira."
Seu comando era absoluto. Um a um, os alunos se levantaram, ainda meio atordoados, e se apresentaram. Quando chegou a vez da fileira de Yutaro, ele se levantou de forma tão rígida que parecia uma estátua.
"E-eu... meu n-nome é Yu-Yutaro Endou", ele gaguejou, a voz falhando sob a pressão de todos os olhares, especialmente o da nova e intimidadora diretora. "E-este ano, eu... eu espero... uhm..."
Ele travou. As palavras simplesmente não saíam. Sua cabeça baixou, e o silêncio na sala tornou-se pesado e constrangedor.
Foi a oportunidade perfeita que Ayaka Amamiya esperava.
"Ele espera conseguir falar uma frase completa sem gaguejar!", ela zombou em voz alta, arrancando risadinhas de suas amigas. "Talvez devesse entrar para o clube de debate, Endou. Ah, não, espera... você precisaria falar para isso."
A humilhação atingiu Yutaro como um soco. Ele encolheu-se ainda mais, desejando que o chão se abrisse e o engolisse.
Antes que a risada pudesse se espalhar, uma voz calma, mas cortante, atravessou a sala.
"E você, Ayaka? O que espera deste ano? Aprender novas formas de ser cruel ou apenas reciclar as piadas sem graça do ano passado?"
Todos os olhares se viraram para Itsuki Takeda. Ele não havia se levantado. Continuava sentado, com uma das mãos apoiando o queixo, mas seu olhar estava fixo em Ayaka, afiado como uma faca. Não havia raiva em sua expressão, apenas um desdém tranquilo que era mil vezes mais devastador.
"O-o quê?!", Ayaka se engasgou, pega de surpresa. "Eu não estava falando com você, Takeda!"
"Mas eu estou falando com você", ele retrucou, sem desviar o olhar. "Yutaro é meu amigo. Zombar da dificuldade dele não te torna superior, apenas revela toda sua insegurança. Agora, peça desculpas."
O queixo de Ayaka caiu. Pedir desculpas? Para o Yutaro? Na frente da classe inteira e da nova diretora?
Na frente da sala, Reina Kurokawa observava a troca em silêncio. Seus olhos violeta, antes frios e analíticos, agora continham uma centelha de genuíno interesse. Ela analisou o garoto, Itsuki Takeda. Sua aparência era desleixada — o cabelo espetado, a postura relaxada —, mas sua atitude era o oposto. Ele não demonstrou medo, hesitação ou sequer um pingo de nervosismo ao confrontar a garota e defender seu amigo. Havia uma força calma e uma confiança inabalável nele que não condizia com sua aparência.
Interessante, pensou Reina. Ele não é um aluno comum.
Sua atenção então voltou para Ayaka, que ainda fuzilava Itsuki com o olhar, o rosto vermelho de fúria. A paciência de Reina havia acabado.
"Amamiya-san", a voz da diretora soou fria como gelo.
Ayaka se sobressaltou, como se tivesse levado um choque.
"Sim, Diretora Kurokawa?", ela respondeu, tentando parecer respeitosa.
"O senhor Takeda está correto. Seu comportamento foi inadequado e desrespeitoso, não apenas com seu colega, mas com a autoridade presente nesta sala", disse Reina, cada palavra caindo como uma pequena pedra de granizo. "Você não está apenas zombando de um colega; você está minando o ambiente de aprendizado que eu, como diretora, sou responsável por proteger. Você pedirá desculpas ao senhor Endou agora. E depois da aula, você virá à minha sala para discutirmos as consequências de suas ações."
A ordem não era um pedido. Era um decreto. A humilhação de Ayaka foi completa. Ser repreendida em público por Itsuki era uma coisa, mas ser desmoralizada e punida pela nova e estonteante diretora na frente de todos? Era um pesadelo.
Com o rosto queimando em um tom profundo de escarlate, Ayaka se virou para Yutaro, que a olhava com os olhos arregalados.
"...Des-desculpe", ela murmurou, as palavras quase inaudíveis, antes de se sentar abruptamente em sua cadeira, o olhar fixo na madeira de sua mesa.
Reina então se virou para Itsuki, um brilho quase imperceptível em seus olhos.
"Obrigada por sua intervenção, Takeda-san. A lealdade é uma qualidade admirável." Ela fez uma pausa. "Agora, por favor, sua apresentação."
Itsuki a encarou por um momento, com um rosto inexpressivo. Ele se levantou, sua presença preenchendo o espaço.
"Itsuki Takeda. E o que eu espero deste ano... é que ele não seja entediante."
