Capítulo 3 - Movimentos e Perguntas
02 de Abril – 13:07
O almoço terminou, e os corredores, antes vazios, voltaram a se encher com o fluxo de alunos retornando para suas salas. Itsuki e Yutaro caminhavam sem pressa, a conversa leve sobre o clube de shogi sendo interrompida pelo sinal que anunciava o fim do intervalo.
"Vamos Itsuki", disse Yutaro, virando-se para entrar na 2-B.
Itsuki estava prestes a segui-lo quando uma voz clara e firme o chamou, cortando o barulho do corredor.
"Takeda-san."
Ele se virou. Parada a alguns metros de distância estava a Diretora Reina Kurokawa. Sua presença parecia criar uma aura de silêncio ao seu redor; os alunos que passavam apressavam o passo, como se instintivamente sentissem a autoridade que emanava dela.
"Poderia me acompanhar até a minha sala por um momento?", ela disse. Não era um pedido.
Itsuki ergueu uma sobrancelha, curioso. "Claro, Diretora Kurokawa."
Ele a seguiu em silêncio pelos corredores até a diretoria. A sala era espaçosa e impecavelmente organizada. Os móveis eram modernos e minimalistas, e a grande janela atrás da mesa de carvalho estava aberta, deixando uma brisa suave entrar e balançar as persianas. O único toque de desordem era um pequeno quadro, ainda embalado, apoiado na parede.
"Preciso de um favor", disse Reina, apontando para o quadro. "O zelador está ocupado, e eu gostaria de pendurar isto. Você se importaria em segurá-lo para que eu possa ver se a altura está correta?"
Um pretexto bem fraco, pensou Itsuki, mas manteve a expressão neutra. "Sem problemas."
Ele pegou o quadro — uma pintura simples de uma paisagem noturna — e o segurou contra a parede. Reina ficou para trás, os braços cruzados, a cabeça inclinada como se estivesse analisando o alinhamento.
"Você parece desleixado, Takeda-san", ela comentou de repente, a voz casual, mas os olhos fixos nele. "No entanto, sua ficha diz que você é o segundo melhor aluno de toda a escola, com notas quase perfeitas.”
Itsuki deu um meio-sorriso. "Eu presto atenção nas aulas. Geralmente é o suficiente."
"Entendo", ela murmurou, dando um passo para o lado. "Sua ficha também menciona que você é o herdeiro do Clã Takeda, conhecido por sua longa linhagem de guerreiros."
A pergunta pairou no ar, muito mais pesada que a anterior. Itsuki sentiu o peso daquele olhar analítico sobre ele. Então é isso. Ela está me sondando.
"Minha linhagem familiar interfere nas minhas notas, Diretora Kurokawa?", ele respondeu, a pergunta respeitosa na forma, mas um claro desafio no conteúdo.
Um brilho de surpresa — ou talvez admiração — passou pelos olhos dela, mas foi tão rápido que ele quase duvidou de ter visto.
"Não, claro que não. Apenas curiosidade", ela disse, a voz voltando ao tom profissional. "Um pouco mais para a esquer..."
Nesse instante, uma rajada de vento mais forte entrou pela janela, varrendo a sala. Uma pilha de papéis que estava na beira da mesa de Reina foi pega pela corrente de ar, as folhas se espalhando como um bando de pássaros assustados.
Antes que Itsuki pudesse sequer pensar em se mover para ajudar, Reina agiu.
Foi um borrão de movimento.
Ela girou o corpo e estendeu a mão em um gesto único, fluido e incrivelmente rápido. Seus dedos se abriram em leque e, de alguma forma, ela conseguiu interceptar e juntar todas as folhas no ar, antes que a primeira tocasse o chão. Tudo isso em segundos. A pilha de papéis repousou perfeitamente em sua mão, como se nunca tivesse saído da mesa.
Itsuki congelou, o quadro ainda em suas mãos. Seus olhos se arregalaram por uma fração de segundo. Aquilo não foi normal. Não foi a agilidade de uma pessoa atlética. Foi algo mais. Um movimento preciso, eficiente e rápido demais para um olho não treinado sequer registrar. Mas o olho de Itsuki era treinado.
Ele lentamente virou a cabeça e olhou diretamente para Reina.
Ele não disse nada. Não perguntou "Como você fez isso?". Ele apenas a encarou, o olhar intenso, analítico, o cérebro processando a impossibilidade do que acabara de testemunhar.
Reina sentiu o peso daquele olhar. Ela viu a percepção nos olhos dele. Por um instante, a máscara de diretora calma e controlada vacilou. Um desconforto visível passou por seu rosto, seus lábios se apertaram levemente. Ela percebeu que havia mostrado demais.
O silêncio se estendeu por um, dois, três segundos.
"O quadro... está bom assim", disse ela abruptamente, a voz um pouco mais tensa do que antes. Ela se virou e colocou os papéis de volta na mesa, de costas para ele. "Obrigada pela ajuda, Takeda-san. Pode voltar para a sua sala agora."
Itsuki soltou do quadro gentilmente, sem tirar os olhos dela.
"Como quiser, Diretora."
Ele se virou e saiu da sala, fechando a porta suavemente atrás de si. Enquanto caminhava pelo corredor, um sorriso lento e genuinamente animado se espalhou por seu rosto.
Aquele movimento... com certeza não foi normal.
Este ano, ele concluiu, definitivamente não seria entediante.