Capítulo 4 - Uma Candidata Inesperada
02 de Abril– 15:30
A tarde caiu sobre o Colégio Takemori, mas a energia estava longe de acabar. O pátio principal havia se transformado em um campo de batalha vibrante e barulhento. Estandartes coloridos tremulavam ao vento, cada um proclamando a glória de um clube escolar. Gritos entusiasmados do clube de kendo competiam com a música animada do clube de dança, enquanto o aroma doce do clube de cerimônia do chá tentava, sem sucesso, se destacar em meio ao cheiro de pipoca do comitê do festival.
Em meio a todo esse caos, havia uma pequena ilha de tranquilidade.
A barraca do Clube de Shogi era ridicuramente simples: uma mesa dobrável, duas almofadas no chão e um tabuleiro de shogi posicionado entre elas. Não havia cartazes chamativos, nem gritos para atrair membros. Apenas dois rapazes sentados, completamente absortos em sua partida.
"Cheque", disse Itsuki, deslizando com o dedo um General de Ouro para uma posição ofensiva. Seu rosto era a imagem da concentração relaxada. Para ele, o barulho da feira era apenas um ruído branco distante, menos interessante que o complexo duelo de estratégias à sua frente.
Yutaro, do outro lado do tabuleiro, franziu a testa, seus dedos pairando sobre suas peças, calculando as dezenas de possibilidades que aquele único movimento havia criado. Ele estava tão focado que nem percebeu a mudança sutil na atmosfera ao redor da barraca deles.
Primeiro, foi um murmúrio que começou a se espalhar pela multidão. Depois, as pessoas começaram a parar, os olhares se virando em uma única direção. Um caminho começou a se abrir no mar de estudantes, como se uma celebridade estivesse passando.
E, de fato, para os padrões de uma escola de ensino médio, ela era.
A garota que caminhava com um propósito firme pelo pátio era estonteante. Seu cabelo, preso em um rabo de cavalo alto, era de um tom suave de rosa, como as flores de cerejeira que enfeitavam a entrada da escola na primavera. Seu uniforme estava impecável, e sua postura denunciava um porte atlético; ombros retos, passos firmes e uma confiança que a fazia se destacar naturalmente.
Ela ignorou a barraca barulhenta do clube de futebol, passou direto pelos rapazes bonitos do clube de música e não deu a mínima atenção para o drama que o clube de teatro encenava. Seus olhos estavam fixos em um único ponto: a ilha de tranquilidade no meio do pátio.
Ela parou em frente à mesa do Clube de Shogi.
"Com licença. Este é o Clube de Shogi?"
A voz dela era clara e melódica. Yutaro deu um pulo, quase derrubando o tabuleiro. Ele levantou a cabeça e seus olhos se arregalaram ao ver a garota de cabelo rosa parada ali, olhando diretamente para eles. Ele sentiu o rosto esquentar e imediatamente baixou o olhar para as peças, como se elas contivessem o segredo do universo.
Itsuki, por outro lado, levantou a cabeça lentamente. Seu olhar analítico passou por ela, notando a postura, a determinação em seus olhos, e o fato de que ela estava completamente alheia ao choque que sua presença ali estava causando. Os sussurros ao redor eram quase audíveis.
"É Akari Tsukino, a aluna transferida de outra escola, ela está no 3-C!" "O que ela quer no Clube de Shogi? É o clube mais parado da escola!" "Eu achei que ela entraria para o time de tênis ou de atletismo..."
Itsuki processou as informações. Akari Tsukino. Transferida. Atlética. A equação não batia.
"Sim, é aqui", respondeu Itsuki, sua voz calma cortando os murmúrios. "Mas como pode ver, estamos meio ocupados com o processo seletivo." Ele gesticulou para a partida intensa que apenas ele e Yutaro estavam jogando.
Um sorriso divertido brincou nos lábios de Akari. Ela não se deixou abalar pelo sarcasmo dele.
"Ótimo", disse ela, pegando uma ficha de inscrição em branco de uma pilha esquecida na ponta da mesa. "Eu quero me inscrever."
Yutaro engasgou-se. Os alunos ao redor ficaram boquiabertos. Uma garota bonita e popular como ela, querendo se juntar a um clube com apenas dois membros nerds? Era impensável.
Itsuki a encarou, o tédio em seus olhos finalmente sendo substituído por uma genuína centelha de intriga. Era a segunda vez naquele dia que algo — ou alguém — conseguia quebrar sua monotonia. Ele apoiou o queixo na mão, um sorriso enigmático se formando em seu rosto.
"De todos os clubes barulhentos e populares desta feira", ele perguntou, a voz baixa, quase um desafio. "Por que este?"
Akari Tsukino o encarou de volta, seu sorriso se alargando, mas sem revelar nada.
"Porque", ela respondeu, a voz cheia de uma confiança misteriosa. "Me parece o mais interessante de todos."
A confiança na voz de Akari Tsukino pairou sobre a pequena barraca do Clube de Shogi, carregada de um peso que não passou despercebido por Itsuki. Os murmúrios da multidão ao redor aumentaram, todos curiosos para ver o que aconteceria a seguir.
Itsuki se recostou, o sorriso enigmático ainda em seus lábios. Ele era, sem dúvida, o melhor jogador de shogi da escola. Yutaro era seu único parceiro de treino regular e, embora fosse um estrategista talentoso, ainda não estava no mesmo nível. Se essa garota estava falando sério, ela teria que provar.
Uma jogadora atlética e popular que aparece do nada? Difícil de engolir, pensou Itsuki. Provavelmente é só um capricho ou algum tipo de aposta.
"Interessante, você diz", falou Itsuki em voz alta, seu tom se tornando um pouco mais sério. "Este clube não é para quem busca apenas 'interesse'. Nós levamos o jogo a sério." Ele gesticulou para Yutaro, que ainda parecia intimidado pela presença de Akari. "Yutaro aqui é nosso vice-presidente. Se você quer entrar, precisa provar que tem o mínimo de habilidade. Uma partida contra ele. Se você ganhar, está dentro."
Era um teste claro. Uma forma de expor o blefe dela na frente de todos. Yutaro olhou para Itsuki com os olhos arregalados, surpreso por ter sido colocado no centro da situação.
Akari, no entanto, não demonstrou qualquer hesitação. Seu sorriso apenas se alargou. "É só isso? Sem problemas."
Com uma graça que contrastava com a tensão do momento, ela se ajoelhou na almofada vazia, de frente para Yutaro. "Conto com você para a partida, vice-presidente-san."
Yutaro engoliu em seco, ajeitando as peças no tabuleiro com as mãos um pouco trêmulas. "C-certo."
A partida começou. Itsuki observava em silêncio, de braços cruzados, esperando a farsa terminar rapidamente. Os primeiros movimentos foram padrão. Yutaro, apesar do nervosismo, jogou de forma sólida, estabelecendo uma defesa firme. Akari respondia a cada movimento com uma velocidade e confiança desconcertantes.
Então, no oitavo movimento, algo mudou.
Akari sacrificou um kaku em uma jogada que, à primeira vista, parecia um erro de principiante. Yutaro franziu a testa, confuso com a abertura.
Itsuki, no entanto, se inclinou para a frente. O sorriso havia desaparecido de seu rosto. Aquilo não foi um erro.
Foi uma armadilha. Uma isca perfeitamente posicionada.
Yutaro, vendo uma oportunidade, avançou suas peças, capturando o Bispo e abrindo uma linha de ataque. Era exatamente o que Akari queria. Nos três movimentos seguintes, ela executou uma série de jogadas tão rápidas e brutais que Yutaro mal teve tempo de entender o que estava acontecendo. Sua defesa, antes sólida, foi completamente desmantelada. O sacrifício do kaku havia criado um caminho oculto direto para o Rei dele.
"Tsumi. Cheque-mate."
A voz de Akari foi calma, quase um sussurro, mas ecoou como um trovão na pequena barraca.
Yutaro olhou para o tabuleiro, incrédulo. Seu Rei estava encurralado, sem escapatória. Ele havia perdido. E não apenas perdido; ele havia sido completamente aniquilado em menos de quinze movimentos.
O silêncio ao redor da barraca era total. Itsuki não se mexia. Seu olhar estava fixo no tabuleiro, repassando a partida em sua mente. A estratégia dela... não era de uma amadora. Era agressiva, implacável e brilhantemente disfarçada. Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele nível de jogo não era normal.
Lentamente, ele levantou os olhos e encarou Akari. A garota de cabelo rosa o olhava de volta, o sorriso divertido ainda presente, mas agora havia um brilho desafiador em seus olhos.
"Então, presidente", disse ela, a voz soando vitoriosa. "Acho que passei no teste. Agora, que tal uma partida com você?"
A multidão prendeu a respiração. O desafio estava lançado.
Itsuki a encarou por um longo momento. A curiosidade inicial havia se transformado em um alerta. Aquela garota não estava ali por acaso. Havia um propósito, uma habilidade oculta que não fazia sentido. Jogar contra ela agora seria revelar muito sobre seu próprio estilo.
Ele se recostou novamente, e o sorriso enigmático retornou ao seu rosto, desta vez servindo como uma máscara para esconder seus pensamentos.
"Não há necessidade", ele disse, sua voz soando descontraída, quebrando a tensão. "O teste era apenas para a admissão." Ele se levantou e estendeu a mão para ela. "Eu sou Itsuki Takeda, presidente do clube. A partir de hoje, você é oficialmente o terceiro membro do Clube de Shogi. Bem-vinda, Tsukino-san."
Akari piscou, pega de surpresa pela mudança de atitude dele. Ela esperava uma aceitação do desafio, não uma recepção formal.
Ela apertou a mão dele, um olhar de leve decepção e crescente curiosidade em seu rosto.
Ele está me evitando, ela percebeu.
Quem diabos é você? Itsuki ele pensou.
A mão de Akari ainda estava no aperto de mão de Itsuki quando uma nova sombra caiu sobre a barraca, silenciando os murmúrios que haviam recomeçado. A multidão, que já estava focada neles, pareceu prender a respiração coletivamente.
Itsuki ergueu os olhos. Parada ali, com a mesma postura impecável de mais cedo, estava a Diretora Reina Kurokawa. Sua expressão era neutra, mas seus olhos pareciam analisar a cena com uma precisão cirúrgica, passando por Yutaro, por Akari e, finalmente, pousando em Itsuki.
"Takeda-san", disse ela, a voz calma, mas projetada para ser ouvida claramente acima do barulho da feira. "Fico feliz em ver que seu clube conseguiu uma nova integrante."
Ela fez uma pausa, deixando as palavras no ar. "Eu estava justamente revisando as regras de atividades extracurriculares. A partir deste semestre, para que um clube seja considerado oficial e continue a receber uma sala e um orçamento, ele precisará ter um mínimo de três membros ativos."
O queixo de Yutaro caiu. Ele olhou para Itsuki em pânico. O clube deles sempre fora apenas os dois. A regra os teria dissolvido.
Akari Tsukino, por outro lado, abriu um sorriso radiante e vitorioso. Ela soltou a mão de Itsuki e colocou as mãos na cintura, se gabando.
"Ora, ora, parece que eu cheguei bem na hora, não é?", disse ela, olhando de Itsuki para Yutaro com um ar de superioridade divertida. "Vocês deveriam me agradecer. Eu acabei de salvar o seu precioso clube da extinção."
Itsuki a encarou, seu rosto completamente inexpressivo. Ele deu um bocejo contido, como se estivesse ouvindo a previsão do tempo.
"Salvar o clube?", ele repetiu, o tom de voz beirando o deboche. "Não se iluda, Tsukino-san. O motivo pelo qual não tínhamos mais membros é porque eu nunca julguei necessário procurar por mais ninguém." Ele a mediu de cima a baixo com um olhar. "A qualidade da nossa partida sempre foi mais importante do que a quantidade de pessoas sentadas ao redor do tabuleiro."
A implicação era clara: Nós não precisávamos de você. Nós nem estávamos procurando.
O sorriso de Akari vacilou por um segundo, substituído por um brilho de irritação em seus olhos. Aquele garoto... era incrivelmente arrogante.
Reina observou a troca de farpas em silêncio, um fantasma de um sorriso em seus lábios. A dinâmica ali era, de fato, muito mais interessante do que ela imaginava.
"Seja como for", concluiu a diretora, seu olhar ainda fixo em Itsuki, "a regra está em vigor. Parabéns por cumpri-la."
Com um último aceno de cabeça, ela se virou e se afastou, deixando para trás uma barraca com uma atmosfera completamente transformada: um vice-presidente aliviado e confuso, uma nova membra desafiadora e um presidente que parecia mais entediado e, ao mesmo tempo, mais alerta do que nunca.
Akari fuzilava Itsuki com o olhar, irritada com o desprezo dele, enquanto Itsuki simplesmente começava a arrumar as peças do tabuleiro, como se nada tivesse acontecido.
Foi Yutaro quem quebrou o silêncio constrangedor. Ele se levantou, ajeitando os óculos no rosto e, embora não conseguisse olhar diretamente nos olhos de Akari, sua voz soou surpreendentemente firme.
"Uhm... T-Tsukino-san", ele começou, uma leve vermelhidão tomando conta de suas bochechas. "De qualquer forma... o-obrigado por se juntar a nós. De verdade. Fico feliz em ter um novo membro." Ele fez uma pequena pausa, reunindo coragem. "Nós... uh... nos reunimos na sala de clubes 3-B, depois das aulas, às terças e quintas. S-se você puder..."
Akari virou-se para Yutaro, a irritação em seu rosto suavizando ao ver a sinceridade tímida dele. Era um contraste gritante com a arrogância do presidente do clube. Ela deu a ele um sorriso genuíno e caloroso.
"Estarei lá, vice-presidente. Obrigada pela informação."
Itsuki parou de arrumar as peças e soltou um longo suspiro, como se estivesse cansado do mundo. Ele se virou para Akari, a expressão de deboche finalmente desaparecendo, substituída por algo mais sério e direto.
"Olha", ele disse, e pela primeira vez, não havia sarcasmo em sua voz. "Esqueça o que a diretora disse. A regra dos três membros é só uma coincidência irritante."
Ele a encarou, seus olhos analíticos agora mostrando um brilho de respeito relutante.
"Para ser claro, você não está neste clube porque 'nos salvou'. Você está aqui por um único motivo." Ele fez uma pausa, o olhar fixo no dela. "Você é boa. Surpreendentemente boa. A armadilha que você usou contra o Yutaro foi uma variação ousada da estratégia Nakabisha. Foi arriscada, mas brilhante."
Ele se recostou, cruzando os braços. A máscara de arrogância deu lugar a uma sinceridade desarmante.
"Eu ainda não sei por que você está aqui", ele admitiu. "Mas eu sei que você sabe jogar. E no fim das contas, é a única coisa que importa neste clube. O resto é só ruído."
Akari ficou em silêncio, completamente pega de surpresa. Aquele elogio direto e técnico vindo dele, depois de toda a provocação, a desequilibrou mais do que qualquer insulto. Ela viu ali, pela primeira vez, o verdadeiro Itsuki Takeda — não o preguiçoso entediado, mas o jogador sério que reconhecia a habilidade acima de tudo.
Um pequeno sorriso, desta vez genuíno e intrigado, formou-se em seus lábios.
"Entendido... presidente."