Capítulo 6 - Duas Estrelas Sob o Mesmo Teto
03 de Abril – 08:06
A manhã seguinte chegou com a mesma banalidade de sempre, o que, para Itsuki, era quase uma ofensa. Depois das reviravoltas do dia anterior, ele esperava que o mundo parecesse, no mínimo, um pouco diferente. Mas o sol nasceu, os pássaros cantaram, e sua mãe o mandou levar o lixo para fora como em qualquer outra terça-feira.
Ele saiu de casa, bocejando, e encontrou Yutaro já esperando no portão, como de costume.
"Bom dia, Itsuki-kun", disse Yutaro, ajeitando a alça da mochila. "Dormiu bem?"
"Tive um sonho estranho em que uma nova diretora assumia nosso colégio e que uma aluna veterana entrava para nosso clube de shogi e ainda se mudava para nossa vizinhança", respondeu Itsuki, com o rosto sério. "Ah, espera. Isso não foi um sonho."
Yutaro riu, um pouco nervoso. "Pois é... ainda estou tentando processar."
Eles começaram a caminhar em direção à escola, o ritmo sincronizado de anos de amizade. Mal tinham dado vinte passos quando uma voz animada soou atrás deles.
"Ei! Itsuki-kun! Yutaro-kun! Esperem por mim!"
Os dois se viraram. Correndo na direção deles, com o cabelo rosa balançando e um sorriso radiante no rosto, estava Akari Tsukino. Ela os alcançou, sem parecer nem um pouco ofegante.
"Ufa! Quase perdi vocês", disse ela, ajeitando o uniforme. "Achei que poderíamos ir juntos, já que vamos para o mesmo lugar."
"C-claro, Tsukino-senpai", gaguejou Yutaro, o rosto corando instantaneamente. O fato de ela ser uma veterana do terceiro ano só a tornava mais deslumbrante aos olhos dele.
"Só Akari está bom", ela disse com uma piscadela, antes de se virar para Itsuki, que a observava com uma expressão indecifrável. "E você, presidente? Não vai me dar bom dia?"
"Bom dia", respondeu Itsuki, com o tom neutro. "Achei que os veteranos preferiam ir para a escola mais cedo para suas atividades matinais."
"Eu prefiro dormir um pouco mais", ela retrucou, sem se abalar.
O resto do caminho foi preenchido pela conversa animada de Akari e pelas respostas entusiasmadas de Yutaro sobre o novo anime da temporada. Itsuki permaneceu em silêncio, um passo atrás, observando. Havia algo na naturalidade forçada de Akari que o deixava em alerta.
Ao chegarem ao portão do Colégio Takemori, a cena era inesperada. Parada na entrada, cumprimentando os alunos com um aceno de cabeça formal, estava a Diretora Reina Kurokawa. Sua presença imponente criava uma onda de disciplina; os alunos arrumam suas posturas e diminuíam o tom de voz ao passar por ela.
O olhar de Reina varreu a multidão e, por um instante, encontrou o de Itsuki. Ele sustentou o olhar, um desafio silencioso passando entre eles. Então, os olhos da diretora se moveram e fixaram na garota ao lado dele.
"Tsukino-san", chamou Reina, a voz se destacando em meio ao barulho dos estudantes.
Akari parou, o sorriso desaparecendo e sendo substituído por uma expressão mais neutra e respeitosa. "Sim, Diretora Kurokawa?"
"Por favor, venha à minha sala assim que guardar seus sapatos. Há alguns assuntos que precisamos discutir."
"Entendido", respondeu Akari com uma pequena reverência.
Reina lhe deu um último aceno de cabeça e voltou sua atenção para os outros alunos, como se a interação não tivesse sido nada de especial. Akari se despediu de Itsuki e Yutaro e seguiu para o prédio.
Os dois amigos ficaram parados por um momento, observando-a se afastar.
"Ah, deve ser alguma coisa da transferência dela", disse Yutaro, com a lógica inocente de sempre. "Documentos, histórico escolar... essas coisas burocráticas são um saco."
Itsuki não respondeu. Ele continuou encarando o caminho que Reina e Akari haviam tomado. A diretora não parecia do tipo que cuidava pessoalmente de papelada de alunos. E o jeito como ela chamou Akari... não foi como uma diretora chamando uma aluna qualquer. Poderia haver um tom de familiaridade, de um encontro pré-arranjado talvez.
“Burocracia?” falou Itsuki, um sorriso cético se formando em seu rosto. Ou uma reunião entre duas peças que não se encaixam neste tabuleiro?
Ele olhou para Yutaro, que já estava falando sobre como era legal ter uma veterana como vizinha, e decidiu guardar suas suspeitas para si mesmo. Por enquanto.
Itsuki e Yutaro guardaram seus sapatos nos armários e estavam prestes a subir para a sala de aula, ainda digerindo a suspeita interação entre a diretora e a nova vizinha deles. A mente de Itsuki já estava traçando conexões e teorias, mas seu processo foi abruptamente interrompido por uma voz furiosa.
"Itsuki Takeda!"
Ayaka Amamiya estava parada no meio do corredor, com as mãos nos quadris e uma expressão assassina no rosto. Ou pelo menos, ela tentava que assim fosse. A verdade é que ela parecia, acima de tudo, exausta. Havia leves olheiras sob seus olhos, e seu cabelo, normalmente impecável, tinha um fio ou dois teimosamente fora do lugar.
Yutaro instintivamente deu um passo para trás, escondendo-se atrás de Itsuki.
"Bom dia para você também, Amamiya", disse Itsuki, o tom de voz perfeitamente calmo.
"Não me venha com 'bom dia'!", ela sibilou, aproximando-se e falando em um sussurro agressivo para não chamar a atenção de todos. "Por sua causa, eu não consegui pregar o olho a noite inteira! Fiquei rolando na cama, pensando..."
"Eu não sabia que tinha controle sobre seus padrões de sono", interrompeu Itsuki, com uma curiosidade fingida. "É uma habilidade nova que eu desenvolvi? Preciso testar isso depois."
"P-pare de brincadeira!", Ayaka gaguejou, o rosto corando violentamente. "O assunto é sério! Você... você não pode sair por aí falando... falando aquelas coisas na frente de todo mundo!"
Itsuki inclinou a cabeça, a expressão de pura confusão. "Quais coisas, especificamente? A parte em que eu disse que suas piadas eram patéticas? Porque eu mantenho essa afirmação. Elas são bem ruins."
"NÃO! A outra coisa!", ela quase gritou, antes de se controlar e voltar a sussurrar. "A coisa... vergonhosa!"
Itsuki fingiu pensar por um momento, estalando os dedos no ar. "Ah! Agora eu lembro. Você quer dizer a parte em que eu perguntei, de forma direta e objetiva, se você por acaso gostava de mim e queria ser minha namorada."
Ele disse a frase inteira em um tom de voz normal, sem malícia, como se estivesse recitando uma fórmula de matemática.
O rosto de Ayaka atingiu um tom de vermelho que rivalizaria com um tomate maduro. Ela olhou para os lados, em pânico, para ver se alguém tinha ouvido.
"S-SEU IDIOTA! NÃO FALE ISSO ALTO!", ela chiou, gesticulando freneticamente. "É EXATAMENTE DISSO QUE EU ESTOU FALANDO! VOCÊ NÃO TEM FILTRO, NÃO? TEM NOÇÃO DO QUÃO CONSTRANGEDOR FOI AQUILO?!"
"Tecnicamente", começou Itsuki, ignorando completamente o pânico dela, "o constrangimento foi gerado pela sua reação, não pela minha pergunta. Uma simples resposta 'Não, obrigado' teria encerrado o assunto em três segundos. Mas sua reação exagerada, combinada com o fato de que você perdeu uma noite de sono pensando nisso e veio me confrontar logo de manhã... estatisticamente, isso aumenta a probabilidade de a resposta ser 'sim' em cerca de 85%."
Yutaro, atrás de Itsuki, teve que cobrir a boca com as duas mãos para abafar uma risada nervosa.
Ayaka ficou completamente sem palavras. Sua boca abria e fechava, mas nenhum som saía. Ela estava sendo derrotada por lógica pura.
Itsuki deu um passo para o lado, preparando-se para subir as escadas.
"Um conselho para o futuro, Amamiya", disse ele, olhando por cima do ombro. "Se você não quer que eu fale coisas 'vergonhosas' em público, talvez a melhor estratégia não seja começar uma cena em público para me repreender por falar coisas em público. É meio contraproducente, não acha?"
Com isso, ele se virou e começou a subir as escadas, deixando Ayaka Amamiya parada no meio do corredor, congelada, o cérebro em curto-circuito e o rosto em chamas, completamente derrotada antes mesmo da primeira aula do dia. Yutaro deu uma pequena e rápida reverência na direção dela e correu para alcançar o amigo.
Yutaro seguiu Itsuki escada acima, ainda tentando esconder o riso atrás da mão. "Isso foi cruel, Itsuki-kun."
"Ela começou", respondeu Itsuki, com um dar de ombros. "Eu apenas terminei de forma lógica." Ele parou no topo da escada. "Vou passar no banheiro antes da aula. Pode ir na frente, guarde meu lugar."
"Certo", disse Yutaro, seguindo pelo corredor em direção à sala 2-B.
Yutaro seguiu pelo corredor e Itsuki virou na direção oposta. O banheiro ficava convenientemente próximo à área administrativa da escola, incluindo a sala da diretoria. Enquanto se aproximava, ele notou que a porta do escritório de Reina Kurokawa, normalmente fechada com uma precisão hermética, estava entreaberta. Apenas uma fresta.
Ele sabia que Akari estava lá dentro. A curiosidade, uma força quase tão poderosa quanto a gravidade, o puxou naquela direção. Ele diminuiu o passo, tentando ser o mais silencioso possível, com os olhos fixos na pequena abertura. O que será que uma diretora e uma aluna transferida poderiam estar discutindo logo no início da manhã?
Ele se aproximou da porta, inclinando-se um pouco para tentar ter uma visão melhor, talvez ouvir um fragmento de conversa...
CLAC!
A porta se abriu de repente, com um movimento rápido e silencioso.
Parada no umbral, bloqueando completamente a visão do interior, estava a Diretora Reina Kurokawa. Seus olhos violeta o fuzilaram, frios e afiados. Ela não parecia surpresa, mas sim... expectante.
"Takeda-san", disse ela, a voz perigosamente calma. "Está procurando alguma coisa?"
O coração de Itsuki deu um salto, mas sua expressão não mudou um milímetro. Anos de prática em jogos de estratégia como o shogi o ensinaram a nunca deixar que o pânico transparecesse em seu rosto. Em uma fração de segundo, sua mente calculou a melhor jogada de defesa. A melhor defesa, como sempre, era o ataque.
Ele se endireitou, assumindo uma postura séria e formal, como se a sua presença ali fosse a coisa mais natural do mundo.
"Ah, Diretora Kurokawa. Que coincidência providencial", disse ele, o tom de voz perfeitamente respeitoso. "Eu estava justamente vindo falar com a senhora."
Um brilho de desconfiança passou pelos olhos dela, mas ela permaneceu em silêncio, esperando que ele continuasse. Por cima do ombro dela, Itsuki pôde ver Akari sentada em uma das cadeiras dentro da sala, observando a cena com uma curiosidade intensa.
"Como a senhora mesma observou ontem", continuou Itsuki, "o Clube de Shogi agora cumpre o requerimento de três membros para ser considerado oficial." Ele fez uma pausa, o olhar sério. "Sendo assim, como presidente do clube, eu gostaria de solicitar formalmente um aumento em nosso orçamento para as atividades."
Reina piscou, pega de surpresa pela audácia e pela rapidez do raciocínio dele. Ela sabia que ele estava a espionando. Ele sabia que ela sabia. Mas o pretexto dele era impecável.
"Precisamos de um novo tabuleiro de qualidade, já que o nosso está gasto", explicou Itsuki, o tom de voz razoável e burocrático. "E talvez alguns livros de estratégia para ajudar a nivelar nossa nova e talentosa membra." Ele deu um leve aceno de cabeça na direção de Akari, que ergueu uma sobrancelha, surpresa e talvez um pouco divertida.
Reina o encarou por um longo momento, o silêncio se estendendo. Era um duelo de vontades. Finalmente, a expressão dela se tornou puramente profissional, embora um pouco mais rígida.
"Entendo", disse ela, a voz cortante. "Por favor, preencha o formulário de requisição de verba, disponível no conselho estudantil, e o submeta pelos canais apropriados. Ele será avaliado." Ela fez um gesto de dispensa. "Agora, se me der licença, estou em uma reunião importante. Com licença, Takeda-san."
Com isso, ela fechou a porta na cara dele, o clique da fechadura soando definitivo.
Itsuki ficou parado por um segundo, encarando a porta de madeira. Ele se virou e seguiu seu caminho para o banheiro, um sorriso lento se formando em seu rosto.
Ele não tinha ouvido nada. Não tinha nenhuma prova.
Mas a cena que encontrou era prova mais do que suficiente. A porta entreaberta. A forma como Reina o confrontou. Akari lá dentro, claramente não falando sobre assuntos escolares. E a "reunião importante" que foi interrompida.
Definitivamente, ele pensou, não era apenas burocracia escolar.
Itsuki subiu o resto das escadas, a mente fervilhando. Algumas peças que não se encaixavam em um quebra-cabeça que ele ainda não conseguia ver por completo, mas cuja imagem geral era, no mínimo, alarmante.
Ele deslizou a porta da Sala 2-B, esperando encontrar Yutaro guardando seu lugar e a aula prestes a começar. Em vez disso, encontrou uma cena que fez todo o sangue de seu rosto ferver, apagando instantaneamente qualquer pensamento sobre diretoras e agentes secretas.
Dois alunos do time de basquete, Tanaka e Kudo, haviam encurralado Yutaro em sua própria mesa. Tanaka, o maior dos dois, segurava o caderno de anotações de Yutaro no alto, fora de seu alcance, enquanto Kudo o empurrava de leve pelo ombro, mantendo-o sentado.
"...qual é o problema, Endou? Medo de que a gente descubra seus planos para dominar o mundo com seus robozinhos?", zombava Tanaka, folheando o caderno, que continha anotações complexas de programação.
"P-por favor, me devolva. É importante", pediu Yutaro, a voz trêmula, tentando se levantar, mas sendo impedido por Kudo.
A porta se fechou com um baque surdo. CLAC.
Tanaka e Kudo se viraram. Itsuki estava parado ali, a expressão vazia, mas os olhos brilhando com uma intensidade gélida.
"Vocês têm três segundos", disse Itsuki, a voz baixa e perigosamente calma. "Um... para soltar o caderno dele. Dois... para tirar as mãos dele. Três... para voltarem para os seus lugares e fingirem que nunca nasceram."
Tanaka riu, uma risada arrogante. "Olha só, o guarda-costas chegou. O que vai fazer, Takeda? Você não pode lutar na escola. Vai ser expulso."
"Eu não me importo", respondeu Itsuki, dando um passo à frente. "Mas você deveria se importar com o que vai acontecer com você depois que eu for expulso."
A ameaça velada pairou no ar. Kudo, o seguidor, pareceu hesitar, mas Tanaka era orgulhoso demais para recuar. Ele jogou o caderno de Yutaro no chão com desprezo.
"Oops", disse ele com um sorriso de escárnio. "Vem pegar, Takeda. Se você tem coragem."
Foi o gatilho.
Para Itsuki, ver o trabalho de seu amigo, algo que ele sabia que Yutaro passava noites em claro fazendo, ser desrespeitado daquela forma, foi a última gota. Ele não pensou. Ele apenas agiu.
Em um movimento explosivo, ele avançou. Tanaka, apesar de maior, não teve tempo de reagir. Itsuki agarrou a gola do uniforme dele com uma mão, o rosto a centímetros do dele, a fúria agora visível em seus olhos.
"Você acha isso divertido?", rosnou Itsuki.
"M-me solta!", gaguejou Tanaka, a arrogância desaparecendo ao sentir a força real no aperto de Itsuki.
"Eu te avisei", disse Itsuki, com a outra mão se fechando em um punho cerrado. Ele o ergueu, o movimento rápido e treinado, pronto para acertar o rosto do valentão e acabar com aquilo de uma vez por todas.
"O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!"
Uma voz autoritária e furiosa ecoou pela sala.
O punho de Itsuki parou a um centímetro do nariz de Tanaka. Uma mão firme agarrou seu pulso, impedindo o movimento. Era o professor de história, o senhor Okami, um homem severo cuja chegada silenciou a classe inteira.
O senhor Okami analisou a cena: Itsuki segurando um aluno pela gola com o punho erguido, Yutaro encolhido em sua cadeira e o caderno no chão. A conclusão, para ele, era óbvia.
"Takeda! Solte-o. Agora!", ordenou o professor.
Itsuki soltou Tanaka, que se afastou, tropeçando, com uma mistura de alívio e humilhação no rosto.
O senhor Okami apontou para a porta com um dedo trêmulo de raiva.
"Eu não quero saber quem começou. Eu vi o que você ia fazer, Takeda. Violência nesta escola não será tolerada." Ele respirou fundo. "Vamos para a sala da diretora. Agora!"
Itsuki não disse nada. Ele apenas lançou um último olhar para Tanaka, um olhar que prometia que aquilo não havia acabado. Ele se virou, pegou o caderno de Yutaro do chão, colocou-o gentilmente sobre a mesa do amigo e caminhou para fora da sala sem dizer uma palavra.
Enquanto ele e o senhor Okami andavam pelo corredor silencioso em direção à sala de Reina Kurokawa, um sorriso irônico e sem humor surgiu em seu rosto.
De todas as salas daquela escola, ele tinha que ser mandado justo para aquela. Pela segunda vez naquela manhã.
A ironia, ele pensou, era realmente a maior das piadas.