Capítulo 10 - O Dojo Takeda
04 de Abril – 05:00
O ar antes do amanhecer era frio e cortante. A propriedade da família Takeda, um espaço gigantesco um pouco afastado da cidade, que começava depois de um final de rua, já em estrada de terra, local sem movimento e se estendia até uma mata virgem, onde um riacho cortava o solo. No dojo de madeira escura e tatames gastos pelo tempo, a única luz vinha de uma lanterna de pedra no jardim, que lançava sombras longas e dançantes.
Itsuki estava no centro do tatame, a respiração formava nuvens de vapor. Apesar do cansaço que pesava em seus ossos, seu corpo se movia por instinto, anos de treinamento gravados em seus músculos. À sua frente, seu avô, Genji Takeda, parecia uma rocha. Ele era um homem de estatura mediana, encurvado pela idade, mas quando assumia sua postura de combate, parecia ter a força e o peso de uma montanha.
"Sua mente está em outro lugar, Itsuki", disse Genji, com a voz calma, mas com a nitidez de uma lâmina. "Seus pés estão aqui, mas sua cabeça está a quilômetros de distância. Você está lento."
"Eu estou focado, vovô", respondeu Itsuki, ofegante.
"Não", retrucou Genji. "Você está tentando se focar, o que é o oposto de estar focado."
Sem aviso, o velho mestre avançou. Não foi com a velocidade de um jovem, mas com uma eficiência aterrorizante. Itsuki tentou interceptá-lo com um bloqueio, mas Genji não estava onde ele esperava. O avô fluiu ao redor de seu braço, a mão encontrando o pulso de Itsuki com uma precisão cirúrgica. Um giro rápido, uma pressão no cotovelo, e Itsuki se viu desequilibrado, seu centro de gravidade completamente comprometido. Ele caiu no tatame com um baque surdo, a chave de articulação de seu avô o imobilizando sem esforço.
"Você vê?", disse Genji, aplicando uma pressão suave. "Você reagiu ao movimento que esperava, não ao movimento que eu fiz. Sua mente está barulhenta."
Ele soltou Itsuki, que se sentou, massageando o pulso. Ele estava frustrado, não pela derrota — ser derrotado por seu avô era tão natural quanto respirar —, mas por sua própria falta de clareza.
"Vamos fazer uma pausa", disse o velho, caminhando até a varanda do dojo, onde um bule de chá fumegante os esperava. Ele se sentou e serviu duas xícaras. "Sente-se. Conte-me o que está perturbando o seu fluxo."
Itsuki se juntou a ele, o calor da xícara de chá aquecendo suas mãos. Ele e seu avô sempre tiveram essa relação. Eram mestre e aluno no tatame, mas amigos na varanda.
"É só... o começo do ano letivo", suspirou Itsuki, decidindo desabafar. "Muita coisa acontecendo. Alunos novos, regras novas... uma nova diretora."
"Ah", disse Genji, tomando um gole de chá. "Uma diretora que o coloca de castigo, pelo que ouvi de seu pai."
"Isso também", admitiu Itsuki com um meio-sorriso. "Ela é... um problema. Jovem, estrita, e esconde alguma coisa." Ele fez uma pausa, o nome saindo de seus lábios quase como um pensamento em voz alta. "Reina Kurokawa."
No instante em que o nome foi dito, algo mudou.
A mão de Genji, que estava prestes a levar a xícara aos lábios, parou por uma fração de segundo no ar. Seus olhos, normalmente calmos e enrugados nos cantos, se estreitaram, focando em um ponto distante no jardim escuro. Foi um movimento quase imperceptível, uma mudança tão sutil que um estranho não notaria. Mas Itsuki, treinado para observar, sentiu a mudança na atmosfera.
"Kurokawa...", repetiu Genji, a voz um murmúrio baixo, como o rolar de pedras distantes. O nome parecia ter um gosto estranho em sua boca.
O silêncio se estendeu por um momento. Itsuki esperou, sentindo que havia tocado em algo importante.
Então, com a mesma naturalidade com que havia parado, Genji levou a xícara aos lábios e tomou seu chá. A máscara de avô sereno voltou ao lugar, mas algo em seus olhos havia mudado.
"Não importa o nome ou o rosto da tempestade que se aproxima, Itsuki", disse ele, a voz voltando ao tom de mestre. "O que importa é se suas fundações estão fortes o suficiente para suportá-la. Uma mente barulhenta é como uma casa com rachaduras nas paredes. O primeiro vento forte a levará ao chão."
Ele se levantou, colocando a xícara de lado. "Sua mente está barulhenta por causa dessa garota. E por causa do seu próprio descontrole na escola." Ele olhou para o neto, o olhar afiado.
"Esvazie sua mente. Foque no que está à sua frente." Ele gesticulou para o tatame. "De novo. Desta vez, mostre-me o herdeiro do Clã Takeda, não um garoto do ensino médio distraído."
Itsuki se levantou, a curiosidade sobre a reação de seu avô ainda picando em sua mente. Ele sabia, com certeza, que o nome "Kurokawa" significava algo para o velho mestre.
Mas ele também sabia que não obteria mais nenhuma resposta. Pelo menos, não por enquanto.