Capítulo 12 - O Café e o Álibi
04 de Abril – 19:15
O fim da tarde chegou, trazendo consigo o fim do segundo dia de castigo de Itsuki. Ele guardou os materiais de limpeza no depósito do ginásio, os músculos já se acostumando com a rotina. O colégio estava mergulhado no mesmo silêncio profundo da noite anterior.
Ao sair do ginásio, ele ergueu os olhos para o prédio principal por puro hábito. E lá estava. A mesma janela no segundo andar, a única acesa em todo o colégio, brilhando na escuridão como um olho vigilante.
De novo? pensou Itsuki, um sorriso cético se formando em seus lábios. Será que ela foi "preparar um café" outra vez?
Ele desceu os degraus da entrada do ginásio, a mente já trabalhando nas possibilidades, quando uma voz o fez parar.
"Takeda-san."
Ele se virou. Parada sob a luz fraca de um dos postes do pátio, estava a Diretora Reina Kurokawa. Em suas mãos, ela segurava dois copos de papel fumegantes.
A surpresa de Itsuki foi genuína, mas ele a escondeu atrás de sua máscara de indiferença. Ele não foi até ela desta vez. Ela veio até ele.
Reina se aproximou, um sorriso educado no rosto. "Eu estava terminando alguns relatórios e vi a luz do ginásio acesa", disse ela, a voz soando casual e atenciosa. "Lembrei que você estava aqui por causa do castigo. Achei que talvez quisesse algo quente para beber antes de ir para casa."
Ela estendeu um dos copos para ele. "É só café da máquina, mas está quente."
Itsuki a encarou por um momento antes de pegar o copo. O calor se espalhou por seus dedos. Por fora, ele era a imagem de um aluno recebendo uma gentileza inesperada de sua diretora.
"Obrigado, Diretora", disse ele, a voz neutra.
Mas por dentro, seu cérebro estava em alerta máximo.
Ela não se lembrou de mim por acaso, ele analisou, enquanto soprava o vapor do café. Ela estava me esperando. O café...
Então, a peça se encaixou. A desculpa dela da manhã. "Eu tinha ido preparar um café."
Isso não é um gesto de gentileza, concluiu Itsuki. É uma performance. Ela está reforçando o álibi dela. Ela está tentando me convencer de que a razão pela qual ela anda pela escola tarde da noite é por causa do trabalho e de pausas para o café.
Ele tomou um gole. O café era amargo.
"A senhora não precisa se preocupar comigo, Diretora", disse ele, olhando-a por cima da borda do copo. "Eu sei me cuidar."
"Eu não tenho dúvidas", respondeu Reina, o sorriso dela não alcançando os olhos. "Mas como diretora, o bem-estar dos meus alunos é minha responsabilidade, mesmo daqueles que estão de castigo."
Era a resposta perfeita. Irrefutável. Ela estava jogando o papel de diretora dedicada de forma brilhante. Mas a própria performance era a maior prova de que havia algo a ser escondido. Uma pessoa inocente não se esforçaria tanto para parecer inocente.
"Bom, não vou mais tomar o seu tempo", disse ela, terminando seu próprio café em um gole. "Tenha uma boa noite, Takeda-san. E, por favor, tente não arrumar mais problemas que o mantenham aqui até tarde."
Com um último aceno, ela se virou e caminhou de volta para o prédio principal, desaparecendo na escuridão.
Itsuki ficou parado no pátio, segurando o copo de café que de repente parecia pesar uma tonelada. Ele a observou ir, o olhar afiado e calculista.
A tentativa dela de apagar suas suspeitas havia feito exatamente o contrário. Havia jogado um galão de gasolina na pequena chama de dúvida, transformando-a em uma fogueira.
Ele tomou mais um gole do café.
O jogo está ficando interessante, Diretora Kurokawa.
Itsuki jogou o copo de café agora vazio em uma lixeira perto do portão da escola. A noite estava agradável, e a caminhada para casa lhe daria tempo para organizar a avalanche de novas informações em sua cabeça.
Reina e Akari. Estavam as duas conectadas? Akari, transferida, fazia o que ali? E Reina, com sua performance exagerada de "diretora dedicada", estava claramente nervosa com a possibilidade de ele descobrir algo. O jogo era mais complexo do que ele imaginava.