CAPÍTULO 2: A SOMBRA SOBRE A AREIA
A atmosfera ao redor pareceu estagnar instantaneamente. Arthur e a máquina permaneceram imóveis, com os olhares cravados na figura imponente que dominava a estrutura acima deles. O silêncio do deserto parecia pesar sobre os escombros, interrompido apenas pelo chiado sutil de poeira soprada pelo vento frio.
De repente, o silêncio foi quebrado. Um riso abafado e cavernoso ecoou de trás da estrutura rígida da máscara amarela. Era uma gargalhada carregada de desdém e zombaria, um tom tão cortante que, mesmo com os feitiços de tecido e metal cobrindo o rosto do mercenário, a expressão de superioridade se fazia perfeitamente palpável no ar.
— Vocês dois sonham alto demais — afirmou Sandman, desferindo as palavras como quem desdenha da ingenuidade alheia. — Deveriam ser mais pé no chão se pretendem continuar respirando por aqui.
A máquina de aço inclinou a estrutura pesada da cabeça, emitindo um estalo metálico de suas engrenagens internas antes de direcionar suas ópticas âmbar para o homem no alto do poste.
— O senhor seria um novo aliado? — questionou Mark, com a voz plana e desprovida de qualquer malícia.
— Uma dica valiosa para o seu sistema, Mark: neste lugar, não confie em absolutamente ninguém — atalhou Arthur rapidamente, mantendo os olhos fixos no invasor.
— Isso significa que eu não deveria confiar no senhor também? — replicou o robô, buscando precisão em seus arquivos de lógica.
— Claro que deve, eu sou seu parceiro! — exclamou o jovem, sem desviar a atenção do mercenário, enquanto sua mente já trabalhava em velocidade máxima.
A engenharia do pensamento de Arthur calculava cada variável do cenário. Só existia uma única razão lógica para um sujeito daquele calibre surgir do nada, gastando tempo com conversas vazias em meio às ruínas: ele queria a máquina. Não havia dúvidas. Por mais que ambos se referissem a Mark como um monte de sucata antiquada, aquele chassi carregava um valor inestimável. Ele abrigava dados puros, mapas e registros intactos de um mundo antigo — o "mundo vivo" antes do colapso.
O que o mercenário ignorava, contudo, era o conhecimento prático que Arthur adquirira ao reanimar o robô. Quando disparou a descarga elétrica para trazer o chassi de volta à vida, precisara abrir a blindagem primária e mapear os componentes internos. Identificara, no coração da máquina, um núcleo de energia de tecnologia tão refinada que seria insanidade tentar replicá-lo com as ferramentas do submundo. Mas a carcaça em si? A carcaça era apenas metal articulado. Se Arthur conseguisse extrair aquele núcleo crucial e substituí-lo por uma das fontes improvisadas que carregava na mochila, poderia entregar uma casca inútil e enganar o lendário perseguidor.
— Imagino que já tenha raciocinado o motivo da minha visita, não é, “Arthur”? — a voz de Sandman voltou a ressoar, grave e impositiva. — Eu quero a unidade. Não entenda como algo pessoal, mas você não tem o conhecimento necessário para extrair o verdadeiro potencial dela. Eu também tenho o objetivo de ver o Tribunal ruir, com a única diferença de que eu possuo os meios para fazer isso acontecer. Você realmente acredita que até mesmo os privilégios da cúpula do poder estão a salvo nesta terra?
— Como você sabe quem eu sou?! — exigiu Arthur, com o peito ofegante e o tom carregado de defensiva.
A figura no topo do poste alterou o centro de gravidade. Com um movimento fluido e calculado, colocou-se totalmente em pé sobre a estrutura de ferro retorcido, ajustando a postura como um predador prestes a saltar sobre a presa.
— Eu sei de muitas coisas neste setor, rapaz. Agora, vamos facilitar as coisas: entregue o robô sem resistências.
— E se eu me recusar? — encarou Arthur, fincando os pés no solo poeirento.
— Eu o tomarei pela força — decretou o mercenário, sem qualquer alteração na voz.
Um silêncio denso e sepulcral voltou a dominar o ambiente por longos e intermináveis segundos. O ar parecia faiscar.
Em um impulso de pura adrenalina, o braço de Arthur moveu-se com rapidez, sacando a pistola presa à sua cintura e alinhando a mira na direção da máscara amarela. Contudo, a reação no topo do poste ocorreu em um piscar de olhos. Antes mesmo que o gatilho fosse pressionado até o fim, a lâmina longa de Sandman já deslizara para fora da bainha. Com um movimento milimétrico e reflexos sobre-humanos, o mercenário posicionou o plano de aço polido da espada diretamente à frente do rosto.
No milissegundo seguinte, o disparo ecoou pelo local, rompendo a quietude com um estalo ensurdecedor — apenas para a bala colidir brutalmente contra a superfície metálica da lâmina, ricocheteando em uma faísca brilhante antes de se perder na poeira.
Sandman projetou o corpo para a frente, saltando da estrutura com uma agilidade assustadora e descendo como uma rocha em direção ao solo. No instante em que os pés tocaram a poeira, ele disparou em uma corrida frenética contra Arthur, cortando o espaço entre eles em piscar de olhos.
Antecipando o avanço mortal, o jovem mecânico firmou os pés no chão. No momento exato do impacto, sacou o facão com toda a força que tinha, direcionando um golpe firme que buscava a clavícula e o pescoço do assassino. No entanto, o mercenário moveu o corpo com uma facilidade desconcertante, alterando a rota no último milissegundo. O alvo de Sandman nunca fora o garoto, mas sim a máquina.
A lâmina desceu em um arco veloz contra o robô, mas Mark-187 ergueu o braço esquerdo em tempo recorde, bloqueando o impacto direto do aço contra sua carcaça com um estalo metálico ensurdecedor.
— Bons reflexos para um modelo antiquado — debochou Sandman. Com um impulso rápido, ele executou três piruetas para trás, criando distância com extrema precisão antes de puxar um fuzil que trazia oculto sob a dobra do casaco pesado.
Sem perder um segundo, Arthur puxou o robô pelo chassi e ambos se projetaram para trás de uma grande rocha desgastada que sobressaía nos escombros. O som de rajadas cortou o ar acima da pedra, espalhando poeira e farpas de rocha por todos os lados.
— Você tem alguma função de combate, Mark? Precisa pegar ele desprevenido! — sussurrou Arthur, arqueando com as costas coladas na pedra.
— Minha diretriz primária e programação base me impedem estritamente de causar danos a qualquer ser humano — declarou a máquina em tom neutro.
— Certo, então me diz: você consegue desarmar o fuzil dele sem machucar o cara? — questionou o jovem, buscando uma saída enquanto o tiroteio cessava por um instante.
— Posso implantar o apêndice retrátil de contenção — explicou Mark. — Possuo uma cauda secundária com garras acoplada na parte inferior do meu corpo, capaz de se estender por alguns metros para manipulação de cargas.
— Usa isso agora! Tira a arma dele! — ordenou Arthur, sem hesitar.
Movendo-se com cautela e sagacidade, a dupla contornou a cobertura da rocha tentando surpreender o mercenário pelas costas. Contudo, os sentidos de Sandman eram afiados demais. Ao notar a aproximação, o homem girou o corpo e efetuou um disparo rápido que atingiu o ombro de Arthur. A dor aguda e escaldante fez o jovem cambalear, mas ele segurou o grito na garganta e berrou a ordem final:
— Mark, agora! Pega a arma!
O mecanismo da parte de trás do quadril do robô se abriu com um estalo pneumático. A cauda metálica estendeu-se como um chicote de aço, projetando as garras na direção do fuzil e arrancando o armamento das mãos de Sandman antes que ele pudesse reajustar a mira. O mercenário ainda tentou desferir um corte rápido com a lâmina para decepar o cabo retrátil, mas a estrutura pesada da máquina resistiu ao golpe. O fuzil foi arremessado para longe, perdido entre os destroços.
— Merda! — vociferou Sandman.
Sem a arma de fogo, o mercenário avançou novamente, empunhando a espada com as duas mãos e investindo direto contra o garoto.
O metal do facão de Arthur colidiu brutalmente contra a lâmina longa de Sandman. Mesmo com o ombro sangrando e a dor queimando cada fibra do braço, Arthur usou toda a força que lhe restava para aparar a sequência rápida de golpes, retaliando cada investida com o que tinha à disposição. Porém, a diferença de equipamento e força cobrou seu preço: sob a pressão contínua do aço temperado do mercenário, a lâmina improvisada do facão de Arthur não resistiu e se despedaçou em vários cacos.
Com a guarda do jovem completamente aberta e a defesa destruída, Sandman iniciou o movimento fluido de um corte descendente em direção ao peito de Arthur.
No exato milissegundo em que o aço temperado da lâmina descia em um arco mortal rumo ao peito de Arthur, a massa de metal de Mark-187 projetou-se para a frente. O impacto do golpe colidiu contra a blindagem do braço da máquina com um estalo ensurdecedor, gerando faíscas que iluminaram o ambiente cinzento. Sandman, ajustando o centro de gravidade sem perder o ritmo, reorientou a empunhadura da espada para desferir um corte decapitador direto no pescoço do robô.
Contudo, antes que o golpe se concretizasse, o eco pesado de coturnos marchando sobre o concreto e o cascalho ressoou no final de suas vistas. A autoridade local se aproximava, atraída pelo ruído dos disparos e pelas dezenas de ecos do confronto.
Percebendo a desvantagem tática de um combate em dois fronts, o mercenário cancelou o ataque no meio do movimento. Com um salto acrobático para trás, amorteceu a queda, girou sobre os calcanhares e disparou em retirada, desaparecendo entre as sombras e as ruínas sem produzir um único ruído. Ele não podia correr o risco de ser capturado.
Gravemente ferido, Arthur foi puxado por Mark para trás do que restava de uma árvore.
— Por qual razão não solicitamos auxílio à patrulha? — indagou a máquina, ajustando os sensores ópticos.
— Ficou maluco? — murmurou Arthur, arfando e pressionando a mão contra a ferida. — Se eles encontrarem você, vão desmantelar seu sistema para extrair dados ou te confiscar para te levar à sociedade de robôs. Precisamos sair daqui agora. O problema é que... eu perdi sangue demais.
Com diagnósticos precisos de sua programação, Mark atuou rapidamente. Usando as garras com surpreendente precisão, rasgou uma faixa do tecido grosso do casaco do garoto, aplicando uma compressão direta sobre a perfuração para conter a hemorragia. Em seguida, ergueu o jovem nos braços pesados e disparou em velocidade pela zona de escombros, executando passos largos e saltos calculados sobre os obstáculos até alcançar uma estrutura residencial de madeira escura abandonada a quilômetros dali.
No interior do refúgio improvisado, a unidade de reativação de Mark executou os procedimentos de emergência. Utilizando ferramentas de sua estrutura e componentes metálicos sanitizados pelo calor de uma chama improvisada, a máquina realizou a extração do projétil alojado e aplicou uma placa de contenção metálica no osso atingido, selando o ferimento antes de acomodar o rapaz sobre um leito de mantas velhas.
Assim, uma noite se passava enquanto Mark ficava de vigia.
Oito de Junho de 2090.
No dia seguinte, a luz fraca do amanhecer atravessou as frestas da madeira. Arthur despertou com a visão turva, sentindo uma dor localizada e pulsante na região clavicular. Ao tatear o local, percebeu o remendo de metal selando a pele.
— Mark... — chamou com a voz rouca.
— Sistema operacional ativo. Pode falar — respondeu o robô, aproximando-se com passos abafados.
— Obrigado, eu acho... Só que da próxima vez, tente não consertar meu corpo como se estivesse parafusando o motor de um carro — soltou uma risada fraca, que logo se converteu em um pigarro.
— Agradecimento registrado — emitiu a máquina, com a modulação de voz simulando o entusiasmo padrão de fábrica. — Confirmação do seu registro nominal como Arthur efetuada. Criei um novo diretório de armazenamento denominado "Amigos", no qual seu perfil foi inserido.
Enquanto observava a luz âmbar no peito do robô, a mente do jovem mecânico já operava em meio a cálculos frios:
O robô trouxa me manteve vivo... ótimo. Mas a prioridade continua sendo a utilidade prática. Ele é uma ferramenta de tecnologia avançada e, assim que cumprir seu papel na mineração de dados e na proteção, posso simplesmente descartá-lo para não deixar rastro algum.
Não há motivo para retornar à base do bando agora. Posso traçar um caminho independente a partir deste novo ponto de vista. A prioridade imediata é contornar a ameaça representada por Sandman. Se eu conseguir arregimentar outros otários como aliados úteis para formar um grupo coeso sob minha liderança, poderei finalmente mover as peças para os meus objetivos reais. Até lá, manter a fachada de bom moço é a melhor estratégia…
Terminando seu monólogo, Arthur levanta e vai em direção para ver o horizonte do novo dia.
CONTINUA...
(Notas do autor: os próximos capítulos daqui para frente terão linguagem mais simplória. A linguagem rebuscada dos dois primeiros capítulos serviram para apresentar o mundo.)