Capítulo 9
O velório do antigo amado!
Yonara estava com o corpo coberto de suor por estar fazendo um trabalho pesado. Afinal, cavar uma cova funda o bastante havia sido um grande esforço, mesmo com anos de prática em escavação. O chão da montanha escondia uma rocha realmente dura, e a picareta improvisada que Eyrwen criara quase não deu conta. Era bem mais resistente do que as pedras a que Yonara estava acostumada na pedreira.
Ela aproveitou para testar as magias novas que aprendera com o grimório e se surpreendeu com o quanto eram úteis: usou feitiços de energização para reduzir a fadiga e outros para aumentar força e velocidade, tornando o trabalho mais rápido.
Eyrwen comentou que ela agora era uma fusão de maga branca, vermelha e azul, já que podia curar, dar buffs e aplicar debuffs.
— Ei, já acabou o descanso? Perguntou Eyrwen, impaciente. A maga antiga achava que Yonara estava enrolando demais para cavar uma simples cova, mas ela mesma havia se esquecido convenientemente de que demorara mais de uma hora escolhendo o lugar ideal para o descanso eterno de seu amado.
Yonara entendia a dor da mestra e continuou compreensiva. Não era sacrifício algum. Na verdade, achava reconfortante ver Eyrwen voltando a agir como sempre, em vez de ficar mergulhada na melancolia que tomara conta dela ao encontrar Methius sem vida na masmorra.
Voltou ao trabalho. Já havia tirado as pedras maiores; agora bastava colocar o corpo e cobrir.
Não demorou muito para que Methius estivesse deitado na cova. Yonara se esforçou para arrumar os ossos no formato correto, mas, sem conhecimento de anatomia, tinha certeza de que errara em algo. Eyrwen não comentou nada.
Depois de pular do buraco, ficou em silêncio, esperando a mestra dizer alguma coisa.
— E aí, não vai cobrir não? Perguntou Eyrwen.
— Geralmente, pelo menos no meu antigo mundo, a gente diz alguma coisa nesse momento… pelo menos quando se tem algum apego pelo falecido.
— Ah, isso… Não sei o que dizer.
— Pode ser qualquer coisa. Você vai se sentir melhor, tenho certeza.
— Ele era um idiota. Não preciso dizer nada; ele já ouviu tudo o que eu tinha pra dizer em vida, disso eu tenho certeza.
— Então tá bom!
Yonara começou a empurrar as pedras uma a uma.
— Espera. Pediu Eyrwen, hesitante.
— Ele era um idiota, com mania de heroísmo, sempre querendo salvar todo mundo. Chegava a ser irritante como ele se colocava em perigo o tempo todo, como se os deuses o tivessem feito exatamente pra isso. Eu o odiava por isso… e o amava por isso! Pode continuar.
Yonara voltou a cobrir.
— Espera! Aquela vez em Zain, quando você disse que queria ficar mais um pouco antes de nos reunirmos com o exército do Lorde dos Monstros… você estava certo e eu fui teimosa! Pode continuar.
Yonara nem tentou prosseguir. Eyrwen continuou falando, falando, falando. Foi uma longa despedida, e a aprendiz esperou com paciência.
Quando terminaram de cobrir a cova, colocaram a capa dele presa numa cruz improvisada e rezaram, cada uma para o deus em que acreditava. Foi uma prece rápida e despretensiosa, só para marcar o momento. O lugar era realmente bonito: de frente para a serra, com um horizonte de tirar o fôlego. Yonara pensou que nem alguns reis tinham um túmulo tão estiloso.
Ficou em silêncio enquanto desciam a montanha, achando que a mestra ainda remoía o luto. Mas Eyrwen já estava em outro clima.
— Precisamos arrumar roupas novas pra você, e nada de peles de bicho! Do jeito que você luta, precisa de roupas com costura reforçada. Roupas feitas para humanos seriam o ideal.
— Acho que nem sei mais vestir uma roupa normal!
— Acho que você nem sabe vestir roupa direito, ponto final. Vive balançando esses peitos por aí. Já falei pra usar pelo menos faixas pra segurar!
— Ãh? Mas é tão desconfortável… Você usava isso quando tinha corpo?
— Eu usava só alta costura, meu amor! E sempre tive classe, viu.
— Eu nunca usei roupa de mulher na vida passada, então me dá um desconto.
— Que seja, mas pelo menos aprenda a usar roupa de baixo, prender os seios e sentar direito!
— Até sentar? Que diabos, vamos voltar pra floresta!
— Você prefere viver no meio de monstros a aprender a se vestir como gente?
— Odeio fazer coisas para agradar os outros.
— Te entendo, mas você tem o quê, cinco anos? Porque, que eu saiba, hoje você já passou dos cem!
— Não vai me convencer a usar sutiã de jeito nenhum!
— Suti o quê? Isso nem existe, vai!
A discussão foi interrompida quando Yonara avistou o gigante que caminhava ao longe no horizonte, a cabeça quase sumindo entre as nuvens.
— Aquele troço ali nunca atacou ninguém? Nunca causou nada?
— Aquela é Ymir, a mãe dos gigantes. Não, ela nunca fez nada violento. Nem mesmo quando Balorath a atacou várias vezes ela reagiu com violência.
— Ele a atacou? Como se ataca um ser desse tamanho? Deuses são impressionantes mesmo…
— De fato, mas só sei disso por livros antigos. Dizem que Balorath queria que Ymir lutasse ao seu lado contra as deusas. Como ela se recusou, ele a feriu diversas vezes e até arrancou um dos braços dela.
— Bom, parece que não adiantou muito. Disse Yonara, notando que a gigante estava intacta, com os dois braços no lugar.
— Muito perspicaz, minha aprendiz. Dos ferimentos que Balorath causou nasceram gigantes menores, porém ainda poderosos. Ao contrário da mãe, eles tinham fúria e um apetite enorme por batalha. E do braço decepado nasceu Surtr, um gigante flamejante que queimou a maior parte do exército demoníaco de Balorath. Assim terminou a primeira incursão do deus demônio: com uma retirada humilhante.
— Patético, no mínimo.
Yonara não estava tão interessada na história, pois a descida exigia atenção, mas fazia comentários monossilábicos de vez em quando. Eyrwen não se importou e continuou contando sobre a mãe dos gigantes.
Ao pé da montanha, já quase noite, avistaram uma vila pequena de casas de madeira. Decidiram fazer uma fogueira para se aquecer e se aproximar só pela manhã: se fosse uma vila humana, passariam reto; se fosse uma vila de monstros, poderiam comprar roupas, equipamentos e — um sonho antigo — dormir numa cama de verdade.
Enquanto contemplava as brasas, Yonara conferiu seus status pela primeira vez desde a dungeon. A lista de magias era enorme; levou um tempo só para ler tudo e mais ainda para imaginar combinações.
Como Antônio nunca fora um cara dos videogames, Yonara penou um pouco para entender tudo. A própria Eyrwen lhe deu a sugestão de deixar isso quieto, já que sua aprendiz nunca precisara disso.
Sua magia agora alcançava até 10 metros sem o cajado e 30 metros com ele, mas ainda só um alvo por vez.
Sentiu vontade de checar as quests e lá estava uma nova mensagem:
“Quest secreta (Thotus/Thatis) ativada somente no momento oportuno. (Aguardando)”
— Mas que desgraça é essa? Resmungou. Vai saber do que se trata…
Achando que não valia a pena ficar quebrando a cabeça, deitou-se para descansar os olhos.
Antes do amanhecer, pôde ouvir um som muito estranho, um tipo de som que ouvira antes do ataque dos monstros na pedreira.
Era o som de gritos em desespero.
Yonara acordou Eyrwen aos gritos. A antiga maga rolou até perto da fogueira e se encheu de cinzas.
Yonara usou a magia de cura de surdez para aumentar sua audição.
E pôde ouvir os gritos de socorro e gemidos de agonia. A vila estava sendo atacada. Se estivessem em um lugar alto, poderiam ver a fumaça vinda das casas incendiadas e um exército invadindo a pequena vila.
Eyrwen pulou até seus ombros antes de Yonara saltar. Usando diversas magias, como leveza, aumento de velocidade e força, ela parecia levitar pelas copas das árvores.
Assim que viu as armaduras brancas e douradas, Eyrwen alertou sua aluna.
— Pare! É o exército da igreja sagrada das deusas trinas!
— Mas estão atacando pessoas inocentes, não vamos fazer nada?
— Não podemos proteger nada se você estiver morta. Se houver um capitão sagrado ou, deuses me livrem, alguém de algum cargo maior, não poderemos fazer nada.
Um grupo de mulheres e crianças pôde ser visto por elas, fugindo pela floresta. Duas guerreiras ajudavam, derrubando alguns soldados no caminho.
Yonara não deixou de notar que eram todos não humanos, o que era bem triste, pois queria aproveitar a hospitalidade da vila.
Mas agora não era hora de pensar nisso. Crianças estavam gritando de pavor naquele momento, e isso nunca deveria acontecer.
Eyrwen indicou um caminho entre as árvores para que Yonara pudesse bloquear o trajeto dos soldados, mas suplicou para que sua aprendiz não entrasse em combate contra soldados treinados.
A bela maga de cabelos castanhos correu pela floresta e saltou na copa da árvore mais alta, de onde podia ver os soldados em perseguição às crianças e mulheres demi-humanas. Yonara se esforçou para lembrar da lista interminável de magias que recebera.