Gabriel se manteve preso nos próprios pensamentos após receber o convite repentino de Kaelis para se juntar ao seu grupo como um aprendiz, refletindo também sobre o seu sonho de infância.
— Ei... — Seu pai interveio. — O que é esse convite repentino? — Questionou.
Kaelis se sentou na maca aos pés de Gabriel.
— Eu sei que é repentino, e até ilógico. — Ela continuou. — Mas nós sentimos algo no Gabriel, um poder que somente pessoas treinadas, e com muitos anos de prática, são capazes de despertar, ele é talentoso e possui um potencial, eu posso sentir, e ele pode vir a ser de grande ajuda para o reino no futuro.
Kalchas divagava com o rosto em negação, discordando com a cabeça , enquanto Gabriel olhava para seu braço que fora arrancado.
— Como eu posso ser um aprendiz sem braço? — Ele perguntou. — Eu sou fraco, não consegui proteger meu pai... — As lágrimas voltaram. — Minha mãe!... COMO!? — Ele perguntou olhando para Kaelis com um olhar quebrado.
Amara se aproximou dele, e estendeu as mãos sobre ele, e uma luz dourada surigu nos ferimentos de Gabriel, fazendo as faixas do corpo de seu corpo se soltarem, suas feridas no peito se cicatrizaram com completo, deixando uma leve marca sobre o que havia acontecido, junto ao seu braço, que se regenerou por completo instantaneamente.
— Pra começar você precisa treinar, e pra isso você precisa estar novo em folha — Respondeu Amara, sorrindo.
Gabriel permaneceu em silêncio encarando seu braço e tocando em seu peito.
— Mas Kaelis, ele vai ter que enfrentar aqueles monstros novamente? — Kalchas questionou ainda relutante.
— Sim. — Ela respondeu sem rodeios. — Mas eu irei o treinar para garantir que ele nunca mais fique nesses estado novamente.
— Não… — Ele rejeitou. — De jeito nenhum, eu não vou mandar meu filho para a morte de novo.
Kaelis e os demais heróis se entreolharam, mas Gabriel interveio.
— Pai eu vou. — Respondeu, com o olhar determinado, cerrando firme o punho.
— Mas Gabriel… — Kalchas tentou o interromper.
— Mesmo tendo sido impulsivo, e desleixado, eu pude enfrentar aqueles goblins, e... — Ele hesitou por um momento. — ...e até mesmo deter um orc, mesmo que um pouco, se eu puder treinar... me tornar um aventureiro capaz de proteger o lugar que amo, as pessoas que amo, e acabar com qualquer mal que possa ser causado em outras pessoas eu aceito! — Afirmou determinado.
Kalchas encarava Gabriel, se lembrando de sua esposa Astradamas no passado, uma mulher forte, determinada, que quando colocava algo em sua cabeça nada a fazia voltar atrás.
— Ora seu… — Ele sorriu limpando as lágrimas de seu rosto rindo. — Tudo bem... — Ele assentiu.
— Ah, eu já ia esquecendo. — Kaelis acenou para Aeron, que se aproximou e entregou algo para ela.
Gabriel ficou encarando o que seria, era comprida, e estava envolto em um pano.
— Estava ao seu lado quando você foi resgatado, e bom... todo aventureiro precisa da sua própria arma não é mesmo?
Gabriel entendeu sobre o que se tratava, e logo estendeu as mãos para a segurar de volta.
— Acredito que essa deva ser a sua espada, não? — Kaelis a entregou.
Gabriel, sentado sobre a maca, a pegou, ela estava em outra caixa, e ao abrir viu a espada, dessa vez em uma bainha, e ele a retirou da caixa, a segurando no colo, e tocar no cabo da espada, ele teve flashes do dia do ataque, o que o fez hesitar por meio segundo, mas logo após ele a desembainhou, erguendo a lâmina, a luz do sol que atravessava a janela refletiu sobre a lâmina escura, a iluminando no mesmo instante, a acendendo.
— Uoou, quem diria em... — Aeron se impressionou.
— Uma espada dessas, escolheu um garoto... — Lilith olhava atentamente para Gabriel.
Kaelis que ainda estava sentada ao pé da maca assistia estática, ao presenciar esse evento.
— Gabriel, você nem faz ideia do que acabou de acontecer não é? — Ela perguntou com um sorriso no rosto.
Ele abaixou a espada, passando os dedos pela lâmina.
— Não, o que aconteceu?
Aeron riu alto.
— Ora ora seu moleque. — Ele caminhou ao lado dele, apontando para a espada. — Essa, é uma lâmina extremamente rara. — Ele afirmou.
— Rara? — Gabriel indagou, olhando para ela, e logo após para o seu pai.
Kalchas se manteve em silêncio de imediato.
— Essa, Gabriel... — Kaelis começou. — É uma das Doze Armas Celestes. A Incisão Solar.
Gabriel permaneceu alguns segundos em silêncio, observando a espada em seu colo. A luz que atravessava a janela ainda refletia sobre a lâmina escura, fazendo-a parecer quase viva.
— Doze...? — Ele repetiu.
— Exatamente. — Kaelis assentiu. — Existem registros muito antigos sobre elas, embora nem todos sejam completos, cada uma está associada a um dos grandes Astros conhecidos e, ao longo da história, diferentes povos tentaram encontrá-las, estudá-las ou até mesmo descobrir sua origem.
Aeron se aproximou, cruzando os braços.
— E, antes que pergunte, não, não são simplesmente espadas. — Ele apontou para a Incisão Solar. — Algumas possuem formas completamente diferentes, lança, arco, martelo, cajado... cada uma possui uma natureza própria, há relatos que dizem até que ela pode mudar de forma para atender as necessidades de seu portador. — Completou.
— E todas escolhem seus portadores? — Gabriel perguntou.
Kaelis inclinou levemente a cabeça.
— Segundo os registros, sim, mas ninguém sabe exatamente como ou por quê, algumas armas permaneceram desaparecidas por séculos, enquanto outras foram encontradas por pessoas que sequer sabiam o que tinham em mãos.
Lilith apoiou o queixo sobre a mão, observando a espada com interesse.
— Existem histórias de reis que passaram a vida procurando uma delas e morreram sem sequer encontrar um vestígio. — Ela sorriu de canto. — E também existem aqueles que encontraram uma e não conseguiram sequer erguê-la.
Gabriel voltou a olhar para a lâmina.
— Então... quais são as outras?
Kaelis sorriu.
— Bom, os registros mais antigos mencionam a Incisão Solar, obviamente, ela representa o Sol e é associada à luz, ao calor e à energia.
Ela ergueu um dedo.
— Depois temos a Aegis Celestis, associada ao astro da proteção. Um escudo capaz de criar barreiras extremamente resistentes. Seu paradeiro é desconhecido.
Outro dedo.
— A Lúmina Caelestis, uma arma de luz, descrita como capaz de atravessar grandes distâncias em um único disparo. Também desaparecida.
Gabriel arregalou levemente os olhos.
— Existem mesmo tantas?
— Sim. — Aeron respondeu. — E algumas são ainda mais estranhas.
Kaelis continuou:
— A Gravitas, relacionada ao astro da força. Os registros dizem que seu portador poderia alterar o peso de tudo ao seu redor.
Kaelis fez uma breve pausa.
— A Fulgor, associada às tempestades celestes. A Ferrum Astra, ligada ao metal. A Nereida, relacionada aos grandes mares. A Umbra, cuja natureza é pouco compreendida...
Lilith interrompeu:
— E a Eterna, que dizem estar relacionada aos ciclos.
Gabriel tentava acompanhar os nomes, contando mentalmente.
— Espera... quantas já foram?
Aeron começou a contar nos dedos.
— Uma... duas... três...
— Sete. — Gabriel respondeu.
— Isso! Sete.
Kaelis assentiu.
— Existem registros de outras cinco, mas são muito mais antigos e fragmentados. Seus nomes aparecem em documentos diferentes, às vezes escritos de maneiras completamente distintas, então nem sequer existe certeza sobre como eram chamadas originalmente.
Gabriel ficou pensativo.
— E a Lua?
O grupo permaneceu em silêncio por um instante.
Gabriel levantou o olhar.
— Se existem armas relacionadas aos Astros... existe alguma relacionada à Lua?
Kaelis franziu levemente a testa.
— À Lua?
— Sim. — Gabriel apontou para a janela. — Ela também está no céu, então pensei que...
Aeron coçou a nuca.
— Nunca ouvi falar de uma arma celestial da Lua.
Lilith balançou a cabeça.
— Nem eu.
Kaelis permaneceu pensativa por alguns segundos antes de responder.
— Não existem registros confiáveis sobre uma arma relacionada à Lua.
Gabriel pareceu surpreso.
— Nenhum?
— Nenhum. — Kaelis confirmou. — Pelo menos, não entre os registros conhecidos.
— Talvez ela simplesmente tenha desaparecido. — Aeron comentou.
— É possível. — Kaelis concordou. — Mas, se algum dia existiu uma arma assim, não há qualquer registro sobre onde estaria, quem a portou ou sequer qual seria sua natureza.
Gabriel olhou novamente para a janela, a Lua ainda podia ser vista, pálida no céu diurno, quase escondida pela claridade do Sol.
— Estranho...
— O que foi? — Lilith perguntou.
Gabriel permaneceu olhando para ela por mais alguns segundos.
— Nada.
Ele voltou os olhos para a espada em seu colo.
— Então essa é uma das Doze Armas Celestes...
Kaelis sorriu.
— Não apenas uma delas.
Ela apontou para a lâmina.
— Você foi escolhido pela Incisão Solar, Gabriel.
O garoto apertou levemente o cabo, e por um instante, a lâmina pareceu emitir um brilho quase imperceptível, mesmo que Gabriel não tenha percebido, Kaelis sim, e seu sorriso desapareceu lentamente.
— ...e alguma coisa me diz que ainda vamos descobrir por quê. — Ela murmurou, mais para si mesma.
— Mas espera. — Gabriel interrompeu o momento, se voltando para seu pai. — Onde o senhor conseguiu uma espada dessas? — Perguntou.
— Verdade... uma arma dessas é praticamente uma lenda. — Amara respondeu inclinando a cabeça para o lado.
Os demais heróis presentes voltaram suas atenções para Kalchas, que não pode mais se manter apenas em silêncio.
— Ahhh... — Ele bufou. — Tá bem, mas não é uma história linda, viu.
Kalchas respirou fundo, desviando o olhar por alguns segundos.
— A princípio... nós nunca fomos de Aethernys, viemos de um reino muito distante, localizado a leste daqui, um lugar chamado Althar.
Gabriel ergueu levemente as sobrancelhas.
— Althar?
— Sim. — Kalchas assentiu. — Durante muito tempo, Althar foi conhecido como o berço da clarividência, era o reino dos videntes e, principalmente, a Casa dos Altharion.
Ele então voltou os olhos para Gabriel.
— Nós somos Altharions, filho, você também é.
Gabriel permaneceu imóvel.
Por algum motivo, aquelas palavras fizeram algo dentro dele estremecer.
Por um breve instante, voltou a enxergar aquele vazio negro de seu sonho. As sombras envolvendo seu corpo. A figura distante lutando contra aquela escuridão. O brilho de um sol sendo consumido.
Gabriel piscou, afastando a lembrança.
— Eu... sou um Altharion?
— É. — Kalchas respondeu. — E isso costumava significar muita coisa.
Ele apoiou as mãos sobre as próprias pernas.
— Os Altharions eram tratados como nobres, não apenas por causa de nossa linhagem, mas porque nossos Éteres eram considerados extremamente valiosos, cada Altharion possuía uma forma diferente de enxergar o futuro, não era simplesmente... prever qualquer coisa que quiséssemos.
— Então vocês não conseguiam ver tudo? — Gabriel perguntou.
— Não. — Kalchas soltou uma pequena risada. — Se conseguíssemos, provavelmente teríamos evitado metade das guerras que aconteceram no mundo.
Aeron riu pelo nariz.
— Faz sentido.
— Alguns conseguiam enxergar o futuro de qualquer pessoa cujas mãos segurassem, outros podiam prever acontecimentos envolvendo indivíduos específicos, havia aqueles capazes de enxergar apenas determinados eventos... e outros cuja visão estava ligada a lugares, objetos ou situações.
Kalchas fez uma breve pausa.
— O meu Éter era um pouco diferente.
Ele apontou para os próprios pés.
— Eu conseguia enxergar o futuro de tudo aquilo que estivesse abaixo dos meus pés, pessoas, construções, casas... praticamente qualquer coisa.
Gabriel olhou para as pernas do pai, e ele percebeu.
— Pois é. — Ele deu um sorriso amargo. — Um Éter extremamente útil para um vidente que não consegue mais colocar os pés no chão.
O ambiente ficou silencioso.
— Depois do acidente... me Éter se tornou praticamente inútil, eu precisava tocar o solo para enxergar o futuro, sem isso, não havia visão alguma.
Gabriel abaixou o olhar.
— Mas... vocês usavam essas visões para ajudar outras pessoas?
— Para ajudar... e para ganhar dinheiro. — Kalchas respondeu. — Muitos Altharions trabalhavam para reis, nobres e grandes famílias, nossas previsões podiam decidir o resultado de uma guerra antes mesmo que ela começasse.
Ele olhou para os demais.
— Imagine saber que determinado comandante morreria durante uma batalha e conseguir convencê-lo a não participar dela, ou descobrir que um reino seria destruído e alertar seus habitantes antes que isso acontecesse.
— Então vocês mudavam o futuro. — Gabriel concluiu.
Kalchas ficou em silêncio por um instante.
— Sim.
A resposta veio simples.
— E esse foi justamente o nosso maior problema.
Gabriel franziu a testa.
— Quanto mais as pessoas dependiam de nossas previsões, mais alguns de nós começaram a acreditar que estavam acima dos demais, começaram a usar suas visões para manipular reis, conquistar posições, influenciar casamentos, guerras... Até mesmo escolher quem deveria viver ou morrer.
Lilith estreitou os olhos.
— Então começaram a brincar com aquilo que ainda nem havia acontecido.
— Exatamente.
— Brincando com o destino... brincando de ser Deus. — Amara murmurou
Kalchas respirou fundo.
— Mas então algo mudou.
Seu semblante perdeu completamente o pouco humor que ainda carregava.
— Os Altharions começaram a ter visões estranhas.
Gabriel sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
— Uma sombra.
Ele engoliu em seco.
— Uma sombra negra que consumia tudo.
Kaelis permaneceu atenta.
— No começo, eram apenas visões isoladas, depois, aqueles que conseguiam enxergar anos no futuro começaram a perceber algo diferente, eles não conseguiam mais ver além de determinado ponto.
— Quanto tempo? — Aeron perguntou.
— Dependia da pessoa. Alguns perderam a capacidade de enxergar décadas. Outros, anos. Os mais poderosos conseguiam prever acontecimentos que ocorreriam séculos depois... até que nem mesmo eles conseguiam enxergar além daquele limite.
Kalchas apertou as mãos.
— E quanto mais tentávamos compreender aquilo, mais medo tínhamos.
— Vocês avisaram alguém? — Amara perguntou.
— Tentamos.
Ele soltou um suspiro.
— Começamos a procurar reis, nobres e governantes, contamos sobre nossas visões, alertamos que algo estava vindo, que aquela sombra poderia representar uma ameaça jamais vista.
Lilith permaneceu pensativa.
— Eu já li algo sobre isso...
Todos olharam para ela.
— Sobre Althar? — Kaelis perguntou.
Lilith assentiu lentamente.
— Há registros antigos, muito fragmentados, mas... lembro de mencionarem um extermínio.
Kalchas não respondeu.
— Os Altharions foram acusados de traição. — Lilith continuou. — Alguns reinos acreditaram que vocês estavam tentando provocar algum tipo de caos, outros simplesmente culpavam os videntes por tudo aquilo que suas previsões haviam causado no passado.
Seu semblante endureceu.
— E fizeram coisas terríveis para silenciá-los.
O sorriso de Lilith desapareceu.
— Muitos tiveram os olhos arrancados, outros tiveram as línguas cortadas.
O silêncio tomou conta do quarto, e Gabriel abaixou os olhos.
— Então... — Kalchas continuou a história. — Antes do grande massacre, meus pais eram afiliados a um reino que já não existe mais.
Gabriel voltou a encará-lo.
— O Reino do Sol.
A palavra pareceu despertar algo na mente de Gabriel, mas a sensação desapareceu tão rápido quanto surgiu.
— Foi lá que conheci o príncipe do reino, próximo na linhagem de sucessão, e nós acabamos nos tornando amigos.
Kalchas sorriu de leve.
— E, certa vez, minha visão me mostrou algo que aconteceria durante a coroação dele, um enorme disco solar seria erguido acima do salão... e acabaria despencando sobre o príncipe, o matando.
— Você conseguiu impedir? — Gabriel perguntou.
— Consegui.
Kalchas assentiu.
— Depois daquele dia, ele quis me recompensar, e foi então que recebi ela.
Seus olhos se voltaram para a espada.
— A Incisão Solar.
Gabriel apertou levemente a bainha.
— Segundo os ancestrais daquele reino, aquela espada escolhia seu portador, o príncipe tentou empunhá-la... mas não conseguiu.
Aeron ergueu uma sobrancelha.
— Então ele simplesmente entregou uma arma celestial para você?
— Não foi tão simples. — Kalchas riu. — Ele acreditou que, por ter salvado sua vida, talvez eu fosse digno dela e poderia empunha-lá. — Ele fez uma pausa.
— Ele me entregou a caixa e, depois disso, retornei para Althar.
Seu sorriso desapareceu.
— Era noite quando cheguei, todos os Altharions haviam sido convocados de volta à cidade, aqueles que ainda podiam enxergar o futuro estavam tendo as mesmas visões sobre a sombra.
,kalchas encarou Gabriel, que permaneceu em silêncio.
— Sua mãe já estava grávida de você naquela época.
Os olhos de Kalchas se desviaram por um instante.
— Nós conversávamos sobre o que havia acontecido naquele dia, eu contei sobre o príncipe, sobre a espada... até que chegou o momento. — Ele respirou profundamente. — Foi sua mãe quem percebeu primeiro.
Kalchas fechou os olhos.
— Ela estava acariciando a própria barriga quando disse que havia algo errado.
Gabriel sentiu o peito apertar.
— Ela não conseguia mais enxergar.
— Como assim? — Amara perguntou.
— As visões simplesmente desapareceram.
Kalchas apontou para o chão.
— Eu também tentei, peguei um pedaço de comida e o coloquei sob meus pés, normalmente, conseguiria enxergar seu futuro, veria aquilo apodrecendo, se desfazendo com o tempo... — Ele balançou a cabeça. — ...mas não vi nada.
Kalchas fez uma pausa.
— Então saímos de casa. — Seu rosto endureceu. — E encontramos um domo envolvendo Althar.
— Um domo? — Gabriel perguntou.
— Um bloqueio de Éter. — A voz de Kalchas ficou mais baixa. — E então começaram os gritos.
Ninguém interrompeu.
— Um após o outro, os Altharions começaram a ser mortos.
Gabriel apertou os lençóis.
— Eu peguei sua mãe, coloquei-a em uma cadeira de rodas e fugimos da cidade.
Ele respirou fundo.
— Foi difícil. Muitos daqueles que vieram atrás de nós eram nobres, alguns possuíam runas e artefatos capazes de permitir o uso de Éter mesmo dentro da barreira.
Kalchas fechou os olhos.
— Eu só queria levá-la para algum lugar seguro.
Ele abriu os olhos novamente.
— A princípio, pretendíamos seguir para o Reino do Sol, por isso levei a espada conosco, mas, quando já estávamos longe o suficiente de Althar... — Sua voz vacilou. — Eu fui atingido.
Gabriel ficou imóvel.
— Por estar fora do domo, minha visão voltou. — Kalchas olhou para o próprio corpo. — E eu vi o futuro.
Ele demorou alguns segundos para continuar.
— Vi a grama coberta de sangue. — Sua mão apertou o lençol. — — Vi sua mãe sendo atingida por uma flecha.
Gabriel arregalou os olhos.
— Então... — Engoliu seco.
— Eu me coloquei na frente dela.
O quarto permaneceu em absoluto silêncio.
— A flecha atravessou minha coluna. — Kalchas deu um sorriso triste. — E foi assim que eu perdi o uso das minhas pernas.
Gabriel abaixou a cabeça.
— Sua mãe precisou continuar sozinha, ficamos dias naquela estrada, eu permaneci inconsciente durante boa parte da viagem, e o que deveria ter sido um trajeto simples acabou levando meses.
Ele respirou fundo.
— E, durante esse tempo... — Kalchas hesitou. — Eu comecei a acreditar que seria melhor se eu simplesmente não estivesse ali.
Gabriel ergueu os olhos.
— Eu não conseguia andar, não conseguia enxergar um futuro para nós, não conseguia trabalhar, sua mãe estava grávida e precisava cuidar de você, dela e de mim, enquanto tentavamos sobreviver.
Sua voz ficou mais baixa.
— Eu me sentia um peso.
Gabriel apertou os punhos.
— Um estorvo. — Kalchas desviou o olhar. — — Um homem inútil.
Ninguém disse nada.
— Quantas vezes tentei empunhar aquela espada... — Ele soltou uma risada sem humor. — Perdi as contas, eu não conseguia sequer levantá-la.
Ele olhou para a Incisão Solar.
— A arma que deveria representar tudo aquilo que eu havia conseguido... tornou-se mais uma lembrança daquilo que eu não conseguia mais fazer. — Kalchas ficou alguns segundos em silêncio. — Eu me considerava fraco. Covarde. Um fardo para minha esposa e para o filho que ainda nem havia nascido.
Gabriel sentiu os olhos marejarem.
— E assim continuou, até que sua mãe foi raptada.
A expressão de Gabriel mudou.
— E você quase morreu tentando salvá-la. — Kalchas sorriu, embora seus olhos estivessem cheios de lágrimas. — Naquele momento, pela primeira vez em muito tempo... aqueles malditos pensamentos voltaram.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Só pensava em como era frágil, fraco, ainda um fardo, um estorvo. — Ele virou o rosto novamente, as lágrimas escorrendo por seu rosto. — Só pensava em proteger vocês.
O silêncio permaneceu por alguns segundos, até que Kalchas soltou o ar lentamente.
— E essa é a história de como consegui a Incisão Solar.
Gabriel olhou para a espada e depois, para o pai, nenhum dos heróis disse uma palavra até que Amara se aproximou de Kalchas e colocou suavemente uma das mãos sobre seu ombro.
— Você não é inútil.
Kalchas ergueu os olhos, Aeron cruzou os braços.
— Muito pelo contrário.
Lilith assentiu.
— Se você não tivesse colocado sua vida na frente daquela flecha, Gabriel nem estaria aqui.
Kaelis permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de completar.
— E se você não tivesse resistido durante a invasão, talvez nem você, nem sua mulher e o próprio Gabriel estariam aqui hoje.
Gabriel limpou os olhos.
— Pai...
Kalchas o encarou, e Gabriel segurou a mão dele.
— Obrigado.
Kalchas ficou imóvel então sorriu. Um sorriso pequeno, cansado, mas verdadeiro.
— Não precisa agradecer, garoto.
Ele apertou a mão do filho.
— Eu sou seu pai. Isso é o mínimo que eu faria por você.
E, pela primeira vez desde que acordara, Gabriel não olhou para Kalchas como um homem incapaz de protegê-lo. Olhou apenas para o homem que havia colocado o próprio corpo entre ele e a morte.
— Aliás. — Kalchas limpava as lágrimas do rosto. — Ela é o meu presente para você.
Gabriel encarou seu pai, sem entender direito.
— Não pensa que eu esqueci né, do seu aniversário, parabéns meu filho, pelos seus quatorze anos, ele pôs uma mão sobre seu ombro, enquanto fechava a mão de seu filho no cabo da Incisão Solar.
Ele se virou para os demais heróis.
— Sabe... — Ele ergueu o olhar e depois abaixou por um instante, — A escolha é sua filho, seu destino, a sua vida, ela é sua, o que você decidir para si, eu o apoiarei, e eu tenho certeza de que a sua mãe também iria apoiar.
Os olhos de Gabriel brilharam uma vez mais, e dessa vez ele não hesitou na resposta, ele se virou para Kaelis, e respondeu de imediato.
— Eu aceito ser um aprendiz!