Todos os heróis sorriram em silêncio e assentiram diante da decisão de Gabriel em se tornar um aprendiz de aventureiro.
— Muito bem, Gabriel. — Aeron se aproximou e bagunçou levemente seu cabelo. — Mas não pense que vai ser moleza, viu?
— Nós vamos fazer da sua vida uma tortura. — Lilith completou, com um sorriso um tanto malicioso.
Gabriel engoliu seco, mas assentiu com a cabeça.
— E o Riven? — Amara perguntou de repente, olhando ao redor. — Onde ele está?
Alastor cruzou os braços.
— É verdade, onde está o Riven?
— Provavelmente fazendo uma ronda pelos arredores do reino. — Lilith respondeu.
— Ou em algum bar, bebendo. — Aeron corrigiu.
Lilith balançou a cabeça lentamente.
— É... isso também é bem provável, embora ele possa estar descansando naquela árvore do pátio. — Apontou para uma das janelas. — Aquela é a favorita dele.
— Gente... — Kaelis interrompeu, levantando uma das mãos. — Ele provavelmente já terminou a ronda ao redor do castelo, pegou alguns barris de bebida e deve estar descansando justamente naquela árvore.
Aeron e Lilith se entreolharam.
— Faz sentido. — Aeron murmurou.
— Realmente. — Lilith concordou.
Gabriel apenas os observava com uma expressão confusa.
— Quem é Riven?
Todos voltaram a atenção para ele.
— É o herói que trouxe você para cá depois do incidente. — Amara explicou.
— Foi ele quem chegou primeiro ao local. — Aeron continuou. — Ele cuidou dos goblins menores e resgatou você.
Lilith inclinou a cabeça.
— Você não se lembra dele?
Gabriel balançou a cabeça em negação.
— Ele está praticamente no mesmo patamar que a Kaelis. — Alastor completou. — Também é um de nós.
Gabriel apertou levemente a coberta sobre o próprio corpo enquanto pensava naquilo.
"Então esse é o homem que salvou a minha vida..."
Por algum motivo, ele sentiu uma necessidade quase imediata de conhecê-lo.
— Bom... por hoje é só, Gabriel. — Kaelis se levantou da cadeira. — Descanse bem, você ainda terá um longo caminho pela frente.
Os demais heróis acompanharam Kaelis em direção à saída.
— Até mais, garoto. — Aeron acenou.
— Não se esforce demais. — Lilith acrescentou.
— Vamos deixar o garoto descansar. — Alastor completou.
Um a um, todos deixaram o quarto, restando apenas Gabriel, Kalchas e a enfermeira. A mulher aproximou-se novamente de Gabriel e examinou seu braço recém-regenerado, movimentando-o com cuidado antes de assentir.
— A recuperação está indo bem, se continuar assim, dentro de aproximadamente duas semanas você deverá estar praticamente recuperado.
Ela recolheu as faixas utilizadas durante o tratamento, retirando-as de cima do lençol e do chão.
— Ainda assim, não abuse dos movimentos, o braço precisa se acostumar novamente com o próprio corpo.
Gabriel assentiu.
A enfermeira então deixou o quarto para buscar sua refeição.
Quando ficaram sozinhos, Gabriel afundou lentamente a cabeça no travesseiro. Havia recebido informações demais em poucas horas. Aprendiz, aventureiro, a Incisão Solar, a casa de Althar, os Altharions, seu pai, a história de sua família.
Tudo parecia impossível de processar.
— Eu... eu vou realmente ser um herói...
Ele encarou o teto enquanto erguia o braço recém-regenerado, fechando a mão acima de si. O movimento já era mais fácil do que alguns minutos antes.
— Eu vou salvar minha mãe.
Kalchas observava o filho em silêncio. Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto enquanto algumas lágrimas ainda escorriam por suas bochechas.
Ele estendeu a mão e fez um breve cafuné nos cabelos de Gabriel.
— Descanse, meu filho, e coma tudo.
Kalchas então se levantou e começou a caminhar em direção à porta.
— Pai?
— Hm?
— Obrigado.
Kalchas sorriu novamente.
— Não precisa agradecer.
Quando abriu a porta, deparou-se justamente com a enfermeira retornando com a refeição, ele olhou para ela por um instante e, em seguida, para o que carregava. Depois virou lentamente a cabeça na direção de Gabriel.
— COMA TUDO!
Gabriel se sobressaltou.
— Sim, senhor!
Kalchas então voltou-se para a enfermeira e baixou a voz.
— Garanta que ele coma tudo.
— Pode deixar. — Ela respondeu.
Kalchas partiu, e Gabriel engoliu seco.
— Ah, não... não me diga que...
A enfermeira entrou no quarto empurrando um carro de serviço com rodas, sobre o qual havia uma grande bandeja coberta por uma tampa de metal, ela estacionou o carro ao lado da cama e retirou a tampa.
Gabriel ficou em silêncio.
Havia ovos, pescados, carne magra, frutas, água, e no meio de tudo, legumes, verduras e vegetais, Gabriel os encarou como quem acabara de encontrar um inimigo mortal.
A enfermeira percebeu, e em pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— Seu pai me pediu para garantir que você comesse tudo.
Ela ajustou calmamente as luvas de tecido em suas mãos, e Gabriel engoliu seco.
— Tudo?
— Tudo.
Algumas horas depois, Gabriel já havia terminado a refeição, contra a própria vontade. A enfermeira, porém, havia recomendado que ele caminhasse um pouco pelo pátio para auxiliar na digestão. Assim, Gabriel caminhava lentamente pelos arredores do castelo, completando seus quinze minutos de caminhada.
Foi então que ouviu vozes.
Ao olhar adiante, percebeu o enorme pátio central.
Era amplo o bastante para lembrar um campo de treinamento. O chão era inteiramente revestido por pedras antigas, embora algumas plantas insistissem em nascer entre as frestas. No centro havia uma enorme fonte de pedra, e logo atrás dela se erguia uma árvore gigantesca, cuja copa cobria boa parte daquele espaço.
Alguns bancos de madeira estavam espalhados pelas laterais, foi então que Gabriel então avistou Kaelis.
Ela estava parada no centro do pátio, séria, com a boca levemente entreaberta e os olhos completamente concentrados, ela vestia uma armadura de couro e segurava uma espada de madeira.
Ao seu redor estavam os demais heróis.
Aeron carregava um escudo e um porrete de madeira, Alastor empunhava duas adagas também feitas de madeira, Lilith segurava um bastão e Amara fazia o mesmo, todos vestiam armaduras de couro.
Gabriel arregalou os olhos.
Ele imediatamente se escondeu atrás de uma das pilastras próximas ao corredor e passou a observar.
— Desta vez, vocês duas podem usar Éter para dar suporte. — Kaelis instruiu. — Mas, para me atacar, usem apenas combate corpo a corpo.
Todos assentiram.
— O treino de hoje só termina quando conseguirem me acertar um golpe.
Kaelis mal teve tempo de piscar, quando duas pequenas esferas de luz, surgiram diante de seus olhos e explodiram simultaneamente. Ela levou as mãos aos olhos, momentaneamente cegada.
Amara reagiu no mesmo instante.
— Agora!
Alastor disparou para frente, seu corpo permaneceu baixo, quase rente ao chão, enquanto avançava em direção a Kaelis, ao perceber que ela ainda tentava recuperar a visão, ele calculou rapidamente a aproximação. Uma adaga para o ataque. A outra, para o caso de ela tentar contra-atacar.
"Basta eu tocá-la para vencer." — Alastor insinuou.
Ele saltou, as duas adagas subiram simultaneamente, porém, Kaelis mesmo sem a visão conseguiu reagir, ela ergueu a espada, e em um único movimento limpo, a lâmina de madeira atingiu Alastor em cheio no peito, o fazendo colidir contra as paredes.
— AL!
Amara gritou, preocupada.
Alastor foi lançado para longe e caiu incosciente, Kaelis abriu completamente os olhos recuperando sua visão, e foi então que percebeu que estava presa.
Correntes luminosas envolviam seus braços e pernas.
— Você vai pagar! — Amara rugiu.
Ela absorveu parcialmente a luz a sua volta, e em instantes o seu corpo pareceu desaparecer, Gabriel arregalou os olhos.
"O quê?! Ela estava do outro lado do pátio..."
No instante seguinte, Amara já estava diante de Kaelis.
"...e agora está na frente dela?!"
O bastão de Amara foi revestido por uma intensa luminosidade, ela avançou golpeando, mas Kaelis reuniu força no corpo e gerou uma onda de choque, explodindo a área ao redor dela.
As correntes etéreas se partiram imediatamente, Amara perdeu o equilíbrio e acertou o chão com o bastão.
— Merda... — Murmurou.
Mas antes que pudesse se recompor, Kaelis avançou, e com um movimento simples, chutou seu pé, Amara perdeu o equilíbrio e Kaelis então girou o corpo, golpeando sua barriga com o cabo da espada.
— Gah!
Amara cuspiu saliva e levou as mãos ao abdômen, tentando recuperar o ar, Kaelis ergueu o punho, mas antes que pudesse golpear, Aeron surgiu entre as duas, o escudo recebeu o impacto e rachou levemente. Ao mesmo tempo, tentáculos negros surgiram do chão e avançaram contra Kaelis, Lilith estava dando suporte de longe, Alastor finalmente recobrou os sentidos e se levantou.
Ele sorriu.
— Vamos levar isso a sério um pouquinho.
Uma aura avermelhada começou a envolver suas adagas, Kaelis olhou para ele, e um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— Oooh... é isso que eu queria ver.
Ela estalou o pescoço e no instante seguinte, disparou. Kaelis atravessou o grupo inteiro e foi diretamente em direção a Alastor, Gabriel mal conseguiu acompanhar.
"Como... ela é rápida."
A espada de madeira de Kaelis também passou a emitir uma aura avermelhada, os dois trocaram golpes por alguns segundos. Alastor atacava de forma rápida e precisa, alternando as duas lâminas, enquanto Kaelis desviava, bloqueava e contra-atacava. Então ela encontrou uma abertura, Alastor percebeu tarde demais.
— Droga...
Kaelis ergueu uma perna e golpeou, seu golpe acertou a cabeça dele em cheio e o lançou contra o chão.
As pedras racharam sob o impacto.
— AL! — Amara gritou.
Aeron aproveitou a abertura, ergueu seu porrete e avançou, Kaelis girou o corpo e cortou a arma de madeira ao meio com a espada.
Aeron riu nervosamente.
— Trapaça!
Ele puxou o escudo para trás, e uma aura amarelada envolveu sua superfície.
— Então toma essa.
Aeron avançou, e seu escudo se chocou contra a espada de Kaelis que contra golpeou, uma poderosa onda de choque explodiu entre os dois, até que ambos foram repelidos. O escudo de Aeron se partiu completamente, Kaelis deslizou alguns metros para trás, recuperando a postura.
Lilith aproveitou, tentáculos negros surgiram novamente, avançando em direção a ela, mas Kaelis cortou todos eles com a espada de madeira.
— Tsc... — Lilith estalou a língua.
No instante seguinte, seu corpo desapareceu, Lilith percebeu sua presença tarde demais, Kaelis já havia surgido ao seu lado. Um soco atingiu seu estômago.
— Guh!
Lilith perdeu o ar por um instante, e seu corpo tombou, ela ficou inconsciente antes mesmo de atingir o chão, Amara, ainda se recuperando, ergueu o bastão.
— Lili!
Uma barreira de luz começou a surgir entre as duas, mas antes que pudesse se formar completamente, a estrutura se fragmentou. Kaelis já estava atrás de Amara, e com um golpe certeiro em sua nuca, Amara caiu desacordada.
Kaelis então se virou lentamente para Aeron.
— Eu e você agora, "Muralha".
Aeron levantou o porrete quebrado.
— Pode vir com tudo, "Pilar".
Os dois se prepararam para avançar, mas foi então uma voz ecoou pelo pátio.
— GABRIEL!
O garoto saiu do transe, ele piscou algumas vezes, a enfermeira estava parada mais atrás, procurando por ele, quando Gabriel olhou novamente para o pátio Kaelis e Aeron agora o encaravam, Aeron apoiou o que restava do porrete sobre o ombro.
— Ora, ora... o que temos por aqui?
Kaelis guardou a espada de madeira na cintura, a enfermeira se aproximou.
— Ele está apenas fazendo sua caminhada depois da refeição, eu recomendei quinze minutos para ajudar na digestão.
Gabriel coçou a nuca.
— Eu... não queria atrapalhar o treino de vocês, nem queria que me notassem e acabassem se distraindo, então achei melhor assistir de longe.
Kaelis sorriu.
— Sem problemas, garoto.
Aeron assentiu.
— Pode assistir quando quiser.
A enfermeira, porém, olhou para os três caídos no chão.
— Senhorita Kaelis... — Ela suspirou. — Você realmente não pega leve.
A enfermeira se aproximou primeiro de Alastor, e uma luz esverdeada envolveu seu corpo, depois Lilith, e por fim Amara, m por um, os três começaram a recuperar a consciência e poucos minutos depois, estavam novamente de pé.
Kaelis cruzou os braços.
— Bom... podemos concluir que eu venci de novo, não?
— Ai, droga... — Amara resmungou. — Só porque o Riven não estava aqui.
— Sem mimimi, Amara. — Kaelis respondeu.
Amara estreitou os olhos.
— Na próxima eu vou mesmo cegar você!
— Aham.
— E vou chutar sua bunda na velocidade da luz!
— Se for chorar manda uma carta. — Kaelis riu debochando.
Amara avançou.
— EU VOU ACABAR COM VOCÊ!
Alastor a segurou pela parte de trás da armadura.
— Amara, calma.
— EU ESTOU CALMA!
— Você vai cair.
— NÃO VOU!
— Vai sim.
— ME SOLTAAA!
Gabriel observava a cena completamente perplexo, aqueles eram os mesmos heróis que haviam exterminado dezenas de monstros horas antes, e agora pareciam crianças brigando no pátio.
Aeron soltou uma risada.
Ele se sentou em um dos bancos próximos e pegou alguns odres de água, os lançando para os demais.
— E então, Gabriel? O que achou do nosso treino?
Gabriel se sentou em outro banco.
— Foi lindo.
Todos olharam para ele.
— Mesmo eu não entendendo direito as técnicas que vocês usaram... foi tudo tão fluido, tão rápido, e a Kaelis... — Ele se virou para ela. — Você venceu os quatro praticamente sem esforço.
Kaelis corou levemente.
— Ah, deixa disso. — Ela desviou o olhar. — Foram anos e anos de prática e treinamento para chegar onde cheguei.
— Eeeeei! — Amara reclamou.
Ela se aproximou e deu um leve cascudo em Gabriel.
— Sem esforço nada! A gente fez ela suar!
Gabriel levou as duas mãos à cabeça.
— Ai!
A enfermeira imediatamente olhou para Amara.
— Cuidado, senhorita Amara, ele ainda pode sofrer algum mal na cabeça.
Amara congelou.
— Ah... — Ela imediatamente se curvou. — Desculpa!
Gabriel ficou olhando para ela.
— Tá tudo bem...
Lilith se aproximou.
— E quando ele terá alta?
A enfermeira olhou para Gabriel.
— Aproximadamente duas semanas, desde que continue repousando e seguindo as recomendações.
Kaelis sorriu.
— Então você tem duas semanas para se preparar para isso aqui, Gabriel.
Os olhos do garoto brilharam, e ele assentiu imediatamente.
— Sim!
A enfermeira, porém, colocou a mão sobre o ombro de Gabriel.
— Agora chega de caminhada. Você precisa repousar.
Gabriel olhou para o pátio, claramente querendo permanecer ali.
— Mas...
— Repouso!
Ele suspirou.
— Tá bom...
Ao entardecer, Gabriel já estava novamente deitado na maca, o quarto estava silencioso. Ele encarava o teto enquanto repetia mentalmente tudo o que havia visto naquele dia.
"Ágil e sorrateiro como Alastor... versátil como Lilith... confiante como Amara... uma muralha como Aeron..." — Ele se lembrava das palavras de seus amigos, ditas anos atrás.
"Tão forte quanto Kaelis." — Gabriel apertou os lençóis.
— Como eu posso superar eles? — Seu olhar ficou determinado. — Ou pelo menos chegar ao nível deles? — Ele fechou a mão. — Eu preciso ficar forte. — Forte o bastante para resgatar minha mãe. — Gabriel respirou fundo.
— Mãe...
Distante do reino de Aethernys, em um lugar escuro e profundo. Em uma enorme caverna havia algo semelhante a uma masmorra. Dezenas de mulheres permaneciam presas às paredes por grilhões e correntes que prendiam seus braços e pernas.
Entre elas estava Astradamas, pálida, desnutrida, seu corpo coberto por ferimentos.
Ela arfava com dificuldade naquele ambiente sufocante enquanto uma figura encapuzada caminhava lentamente entre as prisioneiras.
Sua voz era retorcida.
— Como o ser humano é frágil...
A figura passou lentamente por entre as mulheres.
— Sem água e alimento, seus corpos perecem com uma facilidade impressionante.
Atrás dela, alguns monstros menores surgiram carregando pequenas tigelas de madeira.
Dentro delas havia uma mistura espessa e acinzentada, repleta de pedaços indistinguíveis de vegetais, restos de carne e algum tipo de caldo grosso, o cheiro era forte e desagradável. Aquela comida mal parecia digna de ser chamada de alimento.
Os monstros deixaram as tigelas no chão, uma diante de cada prisioneira, e no mesmo instante, uma das algemas que prendiam cada mulher se soltou.
— Comam. — Ordenou a figura encapuzada. — Não quero que definhem até a morte.
As mulheres que ainda tinham forças agarraram as tigelas, algumas beberam o conteúdo diretamente, a mistura escorria pelos cantos de suas bocas enquanto tentavam engolir desesperadamente.
Astradamas, porém, segurou a tigela diante do rosto e permaneceu imóvel, até que ergueu os olhos.
— Por que não nos mata de uma vez?
As demais mulheres interromperam a refeição.
— O que você quer conosco?
A figura encapuzada parou e então virou lentamente a cabeça em direção a Astradamas, um tentáculo negro surgiu debaixo de sua manta e ele avançou, envolvendo o pescoço de Astradamas a erguendo parcialmente do chão, puxando-a em sua direção.
Os grilhões, porém, limitaram o movimento.
— Matar? — A figura riu.
Aquela risada ecoou pela caverna.
— Se eu quisesse vocês mortas...
Os grilhões e correntes a soltaram, e o tentáculo a levou até uma abertura na masmorra, a figura a segurou próxima à beira do precipício.
— ...eu simplesmente ordenaria que cada um deles... — Ela fez uma pausa.
Um segundo tentáculo retirou uma tocha presa à parede, e a jogou no precipício. Por alguns instantes, a escuridão foi rompida, e a chama iluminou o abismo abaixo, centenas de monstros podiam ser vistos espalhados pela imensidão da caverna.
— ...dizimassem seus reinos, aldeias e vilarejos. — Completou.
Astradamas congelou, seu rosto perdeu completamente a cor, a figura sorriu, e ntão a jogou novamente para dentro da masmorra, os grilhões voltaram a prendê-la imediatamente, a fazendo colidir contra sua tigela, o pouco alimento espalhou-se pelo chão, e a figura desapareceu por entre o abismo.
Uma das mulheres próximas tentou ajudá-la.
— Tome um pouco da minha.
Ela estendeu sua própria tigela, mas Astradamas estava presa longe demais, ela não conseguia alcançá-la, outra mulher olhou para Astradamas.
— O que você viu?
Astradamas continuou imóvel, tremendo.
— Por que está com esse olhar?
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos, e então respirou com dificuldade.
— O... — Sua voz quase não saiu.
Astradamas fechou os olhos.
— ...desespero.