“A noite estava apenas começando.”
O vento seco do deserto soprava pelas ruelas estreitas da cidade de Santa Esperança, levantando pequenas nuvens de poeira que dançavam sob a luz trêmula dos lampiões. Era o tipo de noite em que algo grande, decisivo e irremediável estava prestes a acontecer — e todos os poucos cidadãos que ainda circulavam pela rua principal pareciam sentir isso na pele. As portas dos estabelecimentos se fechavam com pressa, os cavalos eram recolhidos aos estábulos, e um silêncio tenso dominava cada centímetro daquela cidade adormecida.
Zach Griff já estava à espera. Postado no centro da rua principal, mantinha os pés firmes sobre o chão arenoso, a postura séria e a mão sempre próxima ao cabo do seu revólver calibre .38, como quem espera um terremoto prestes a começar. Seu sobretudo escuro balançava com a brisa, revelando o brilho frio de duas escopetas presas às costas. O rosto pálido, marcado por uma cicatriz fina e levemente mais escura que sua pele, expressava apenas concentração — mas por trás daquele olhar castanho havia tensão acumulada, uma mistura de medo e determinação que queimava como pólvora pronta para acender.
No alto do prédio mais imponente da cidade — o antigo banco, agora abandonado — Silas se encontrava imóvel, apoiado sobre o telhado com um rifle longo e bem cuidado. Sua silhueta se confundia com a escuridão da estrutura, posicionada estrategicamente como um predador à espreita. Dali ele tinha visão de toda a rua, e principalmente do ponto exato onde o homem mais temido da região deveria aparecer.
E então apareceu.
Primeiro foi o som — metálico, ritmado, inconfundível.
As esporas.
Cada passo ecoava pela rua como se fosse acompanhado por trovões distantes. O som cortava o silêncio como lâminas afiadas, e até o vento parecia diminuir sua força para ouvir melhor a aproximação dele.
Dom Fogo Santo.
A figura emergiu de uma esquina envolta na penumbra, caminhando com a tranquilidade de quem não temia absolutamente nada. Suas botas brancas — impecáveis, quase reluzentes — eram adornadas com detalhes dourados que brilhavam a cada movimento. A calça preta, ajustada, sustentava um cinto com uma enorme fivela dourada: nela, um desenho de uma serpente entrelaçada a um bastão de dinamite. A camisa branca que ele usava parecia recém passada, sem um único vinco. Sobre ela, um longo sobretudo branco com discretos detalhes em prata balançava com o vento. E no topo da cabeça, o chapéu branco de abas largas exibia costuras douradas tão precisas que pareciam ter sido feitas por um ourives.
Ele caminhava como um rei atravessando seu reino.
Zach avançou alguns passos, até que ambos ficassem frente a frente — duas forças opostas prestes a colidir de maneira inevitável.
— Dom Fogo Santo? — perguntou Zach, sua voz firme, porém carregada de ódio contido.
Dom ergueu levemente o queixo, olhando-o de cima a baixo com desdém.
— E isso te interessa por quê? — respondeu com um tom de superioridade tão natural que quase parecia arrogância treinada.
Foi o suficiente.
Zach sacou seu revólver calibre .38 com velocidade impressionante, apontando diretamente para a cabeça de Dom.
— Porque eu sou seu pior pesadelo. — Declarou, engatilhando a arma com precisão.
Dom, no entanto, sequer pareceu se abalar. Com extrema calma, retirou apenas sua mão esquerda do bolso do sobretudo, expondo-a ao ar. Depois, com a mesma mão, tirou o chapéu e o lançou para longe, como quem dispensa algo que não fará falta.
Zach estreitou os olhos.
— Não vai pegar sua arma?
Um sorriso torto surgiu no canto da boca de Dom.
— Eu não preciso dela. Eu me viro muito bem sem brinquedos.
Zach não esperou outra provocação. Puxou o gatilho.
O estampido ecoou pela rua, e a bala cortou o ar com precisão mortal. Porém, no exato instante em que o projétil deveria atingir o rosto de Dom, ele simplesmente estalou os dedos.
A bala desapareceu.
Não desviou. Não ricocheteou. Não mudou de direção.
Sumiu.
— Mas que... porra? — murmurou Zach, incrédulo.
Ele engatilhou novamente e disparou. Outro estalo de dedos. Outra bala desaparecida no ar como se jamais tivesse existido.
— Isso é impossível... — Zach sussurrou, suando frio. — Eu mirei direto na cabeça dele...
Dom, com um sorriso sarcástico, virou casualmente o rosto para o lado — e foi então que avistou Silas, posicionado no telhado do banco com o rifle apontado para ele.
— Te achei, desgraçado... — murmurou Dom, ainda sorrindo.
Silas percebeu que fora descoberto e, em ato desesperado, puxou o gatilho. A bala voou certeira em direção à cabeça de Dom. Mais um estalo de dedos. E mais uma vez, a bala desapareceu no ar.
Silas se acuou, escondendo-se atrás da borda do telhado.
— Não adianta se esconder... agora eu sei exatamente onde você está. — Sussurrou Dom com uma frieza assustadora.
Mas antes que pudesse agir contra o atirador, um estampido ecoou.
Zach aproveitara a distração e disparou novamente.
A bala atingiu a mão esquerda de Dom, fazendo-o urrar de dor e pressionar o ferimento, sangue escorrendo entre seus dedos.
— Seu filho da p#ta! — rosnou Dom, furioso.
Zach deu um meio sorriso, mesmo ofegante.
— Eu ainda não sei o que você faz, nem como faz..., mas sei que tem a ver com esses estalos de dedo. Só fiz um favor pra humanidade tirando esse seu truque.
Dom estreitou os olhos, furioso.
— Seu filho da p#ta.
E estalou os dedos com a outra mão.
Desapareceu.
Zach arregalou os olhos. Girou o corpo rapidamente, procurando por qualquer sinal do oponente. O ar pareceu ficar mais pesado. Um som suave ecoou atrás dele:
— Surpresa.
Dom surgiu do nada e desferiu um soco direto no rosto de Zach.
Mas quando o punho o atravessou, a imagem do caçador se dissolveu como fumaça: era apenas uma ilusão.
— Aqui atrás, bastardo. — disse a voz real de Zach, já empunhando uma de suas escopetas.
Dom se virou lentamente, encarando-o.
— Atire, se tiver coragem.
Zach puxou o gatilho.
Dom estalou os dedos.
E então, um grito de dor ecoou ao longe.
Silas.
Antes que Zach pudesse reagir, Dom lhe atingiu um golpe brutal com o cotovelo na lateral da cabeça, fazendo-o cair no chão completamente atordoado.
O brutal agressor se aproximou.
— É melhor ficar esperto comigo, moleque.
Outro soco, desta vez no rosto. Zach caiu de bruços, tentando respirar.
— Fique aí, verme. — Dom desferiu um chute violento nas costelas dele.
Zach gemeu, cuspindo sangue.
Dom então chutou seu rosto, tirando dele qualquer resistência. Em seguida, arrancou a bandana com desenho de caveira que Zach usava como máscara e a enrolou na mão ensanguentada.
— Agora eu ganhei uma cicatriz enorme por sua culpa. Muito obrigado, imbecil.
Virou-se e caminhou, deixando Zach jogado na poeira.
No alto do banco, Silas se arrastava, com a perna coberta de sangue. A bala — ou o que quer que fosse que Dom fizera — o atingira quando Zach disparou com a escopeta.
Dom apareceu bem diante dele.
— Ora, ora, ora... o que temos aqui?
Silas arfou, lutando contra a dor.
— Desgraçado... eu e o Zach vamos...
Dom o interrompeu agarrando seu pescoço e o levantando do chão.
— Vão o quê, hein? Me enfrentar? Me derrotar? Vocês são uns vermes. Eu sou Dom Fogo Santo — um dos homens mais perigosos do mundo. E só porque derrotaram meia dúzia de capangas acham que podem me peitar? Se coloquem nos seus lugares.
Silas começava a perder a consciência pela falta de ar.
Então, algo o salvou.
Zach apareceu atrás de Dom, lançando-se sobre suas costas e travando um mata-leão.
— Larga ele, maldito! — bradou Zach.
Dom soltou Silas, que caiu no chão arfando, tentando recuperar o fôlego.
Dom agarrou o braço de Zach, retirou-o das costas com violência sobre-humana e o arremessou contra o chão, fazendo-o bater com brutalidade.
— Vocês são como chiclete grudado na sola do meu sapato... e eu vou pisar até arrancar.
Pisou no rosto de Zach com força.
— Ei, filho da puta! Surpresa! — gritou Silas, já com o rifle em mãos.
Ele disparou.
A bala atingiu Dom na lateral do abdômen, abaixo das costelas. O bandido caiu de joelhos, pressionando o ferimento, rangendo os dentes.
— Seus... desgraçados...
E estalou os dedos.
Desapareceu.
Silas deixou o rifle cair e desmaiou pelo sangramento na perna.
Zach também caiu desacordado logo depois.
*Algumas horas se passaram. *
Zach despertou com o forte cheiro de álcool — como se alguém tivesse derramado uma garrafa inteira de uísque sobre ele. Abriu os olhos e percebeu que estava em um catre improvisado, coberto por um lençol áspero que arranhava sua pele.
— Onde... onde eu estou? Cadê o Silas?
Um senhor de idade entrou no cômodo com alguns curativos nas mãos.
— Não se preocupe, jovem. Seu amigo está no quarto ao lado. Está vivo... por pouco, mas está.
Continua...