Foram muitos passos, estar acompanhado somente de uma visão e do som de seu corpo cansado era um pesadelo inevitável que o acompanhou no amanhecer de um novo dia, mas, em algum momento, tudo ficou diferente.
Pela primeira vez, não havia acordado desprotegido entre a areia escaldante e nem seu corpo se deu aos préstimos de derrubá-lo para que pudesse dormir e o fazer acordar em terreno molhado.
Não foi tão ruim a sensação de levantar-se acompanhado do esticar de seus braços e de um sorriso, dentro de uma pequena cobertura pedregosa. Ainda estava rodeado de areia, mas dessa vez somente daquela que se acumulou dentro do pequeno declive da caverna onde se encontrava.
Uma sensação estranha e incômoda tomou conta de sua boca. Após abri-la algumas vezes e sentir a pele seca tocar uma a outra, uma dor terrível tomou conta de si e o fez se debater no chão, mas logo a ardência passou e em pouco tempo se levantou.
Ele olhou ao redor e viu a garota com as vestes desbotadas e encardidas, os cabelos opacos, embaraçados e com a pele suja e ferida, estirada no chão. Aproximou-se, pegou-a e colocou-a em um pequeno vão entre um amontoado de rochas onde a areia tinha se acumulado e que, após cobrir com o resto de sua camisa rasgada, parecia mais confortável, sentando-se bem ao lado.
Ele olhou para o teto escuro, depois para a iluminada entrada da caverna e não demorou muito, suspirou e levantou, saindo daquela cobertura que tinha o abrigado da terrível ventania do dia anterior.
Medo.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Um labirinto de rochas e montes de areia se viu, não estava mais em um ambiente plano repleto de nada. Onde se encontrava havia relevo, desníveis, pedras e essas tinham formas. As quais brincavam com sua imaginação e criavam desenhos com a luz do luar, assim, sua mente, antes focada somente em comida, não estava mais presa a isso. Observar a paisagem amenizou até a sede, mas não fez parar a dor que sentia por todo o corpo. Volta e meia, entre os sorrisos bobos de uma mente cansada, os grunhidos de dor saíam, olhando para as paredes que o cercavam. Mas a alegria de pobre dura pouco e, assim como o local foi um bom abrigo contra as ventanias e o frio da noite, era um refúgio de outros seres aos raios do sol.
Barulhos ecoaram, pedras caíram. Não muito distante dali, o som de passos podia ser escutado. A curiosidade de qualquer um diria para seguir aquele barulho ou perguntaria “o que será que tem ali?”, até mesmo duvidaria sobre que tipo de criatura se escondia entre esses caminhos de pedra, mas a mente de Miguel clamava às pernas “para que te quero?”, quase que instantaneamente obedecendo a ele que fugiu instintivamente.
Uma perseguição iniciou-se. Uma corrida entre o pobre garoto fugindo do assustador desconhecido e o próprio que aumentava a intensidade e força nos passos, seguindo os rastros de sua presa desesperada. A cada parede que esbarrava se cortava, machucava. Nesse meio tempo em que tentava achar uma saída daquele lugar, tentou evitar um canto pontiagudo de uma caverna, tropeçou em uma pedra, caindo rolando em uma clareira do que pareceu ser o centro do labirinto.
Respirando com dificuldade, cuspiu a areia que havia engolido, olhou para todos os cantos tentando achar de qual havia saído, porém mesmo virando para a caverna que acabara de evitar, não sabia ao certo por onde tinha vindo, pois existia uma igual atrás dele e outras duas ao seu lado.
A única coisa na qual podia se guiar era o som dos passos que o perseguiam, mas mesmo esse som o enganava, pois começou a vir de todas as direções para onde seus ouvidos se direcionavam.
Suas pernas pararam de responder, seus pés não tinham forças para se impulsionar, sobrou para os braços a difícil tarefa de jogar o corpo de um lado para o outro, tentando em alguma coisa se apoiar para levantar, mas falhou miseravelmente, arrastando-se até que um pé apareceu em sua frente.
Entre o pavor de encarar tal criatura escamada e a descabida curiosidade de olhar para o alto. Jogou-se para o lado e tentou virar-se, juntando o que lhe restava de coragem para pôr força nas pernas, mas a criatura foi mais rápida. Agarrando os trapos que lhe restavam entre as pernas, ela o arremessou longe, falhando em prender as unhas na carne, ficando somente com os trapos dos shorts presos em suas garras.
O garoto arremessado bateu com força em uma quina, a dor era tremenda, mas seus olhos trêmulos não o deixaram desmaiar. Ele se arrastou assim que deu de cara com o chão. Tentou fugir, mas quando se apoiou em uma pedra, as pernas ensanguentadas não o permitiram andar. Golpeado novamente nas costas, caiu no chão, tendo a terrível visão da criatura que o caçava. Alta, andando sobre os dois pés repletos de escamas amarelas e esverdeadas cobrindo todo seu corpo até a cabeça, que era deformada e reptiliana. Tinha uma cauda tão grande que era maior que as pernas, estando flexionada, se arrastando no chão a cada balançada enquanto se aproximava de sua presa.
O garoto se debateu, arrastou, mas não conseguiu levantar. Sentia as pernas, mas as mesmas não respondiam, paralisadas junto a seus olhos fixos naquela criatura que emitia um som de cobra com o balançar da língua.
Ela avançou, tentou cravar as garras no tornozelo dele, que desviou no último instante. Foi agarrá-lo pelas pernas, o rapaz começou a se debater, conseguiu esquivar, mas diante de tal pavor nem mesmo gritar conseguia, pois já havia esquecido o que era aquilo.
Os ataques continuaram. O garoto eufórico se jogou de um lado para o outro no meio daquele vão escuro, mas mesmo que sua vida estivesse sendo mantida por um triz, o cansaço ainda tinha espaço entre os espasmos forçados dos músculos dilacerados. O Homem é mais instintivo do que racional; muitas das vezes cedemos a ações e prazeres mais animalescos do que de costume, mesmo que não os conheçamos, somente porque antes de nossa mente pensar, nosso corpo sente. Então, provavelmente por isso, o garoto aprendeu novamente a gritar quando aquelas grossas e afiadas garras foram cravadas em seu ombro, estilhaçando os ossos de sua clavícula.
Ele gritou, chorou, a dor só não foi tão grande quanto a do outro ombro sendo perfurado. Estava tudo indo de mal a pior, quando a criatura estava prestes a morder a cabeça dele, um movimento inesperado aconteceu.
Os olhos aturdidos não conseguiram se virar para ver, mas deu para sentir o tremor das garras dela o segurando. As mãos que pressionavam seu corpo contra o chão se soltaram, a dor veio em seguida, quando as removeu, seus dentes trincaram. Algo estava errado, mas entre os próprios gritos e grunhidos, nada podia ser notado. Aquelas mãos firmes, predestinadas a rasgá-lo tremiam, vacilavam. A respiração forte, alta, ficou instável, baixa, começou a farfalhar. A criatura arfou, não conseguiu manter-se em pé, caiu sobre a pélvis dele que não pôde fazer nada mais do que gritar quando sentiu o aperto na cintura pelas contrações das coxas dela. Um toque úmido e quente o envolveu. Uma sensação inusitada tomou conta de si, um choque acompanhado de angústia quanto mais ela cedia. Era tão forte, inusitado, invasivo, quanto desconfortável. Macio, áspero, um abraço apertado que o cortava a cada movimento. Sem espaço para escapar, sem tempo para pensar, tentou afastá-la. Mas suas opções eram poucas, suas mãos, que não eram mais guiadas por uma mente sã, ignorando a dor, seguiram um caminho inusitado, não visto pelos olhos aterrorizados. Ele agarrou-a, que estremeceu, mexeu os quadris, rasgando a pele que restava em suas pernas, enrolando a cauda em uma delas, a pressionando, esmagando. O fazendo agonizar, revirando os olhos de tanta dor. Ela cedeu de vez, o corpo estremeceu de tal forma que o garoto não soube o que estava presenciando, era uma dor inimaginável. Suas pernas não existiam, suas mãos, incapacitadas, agarradas e esmagadas. Seu corpo não lhe pertencia, a força que tomava conta de si era tão avassaladora que até da respiração o tomou o controle. Aproximando-lhe o rosto, invadindo-lhe a boca, tomando sua língua, entrelaçando-as. Imagens começaram a passar em sua mente, sensações que não lhe pertenciam, terror, escuridão, um líquido negro e gosmento carregado da dor de alguém que não tinha liberdade e acabara de tomar a sua. O terror tomou conta de seu corpo como se estivesse revisitando um pesadelo angustiante e um impulso tão intenso preencheu-lhe que não percebeu quando a criatura despencou sobre si.
— Aaaaaaa- aaaa-aaa-aaa- — Entre espasmos e uma respiração instável, Miguel olhava para a pele esverdeada em sua frente. O peso daquele corpo o pressionando no chão, a criatura que subitamente desmaiou em cima de si se contorcendo em prazer. Seus instintos gritaram para correr, sua perna agora livre, mesmo estilhaçada, pareceu responder seus comandos. Ele empurrou a criatura para o lado com a pouca força que restava no braço, se arrastou, tentou levantar, mas a dor, a cãibra, o fez cair. O medo de que a perseguição se iniciasse novamente, a vontade de fugir dali o fizeram aguentar aquele sofrimento excruciante. Ele se levantou, cambaleando, adentrou um dos corredores quais achou que tinha vindo, percorreu o caminho contrário até que caiu na caverna onde havia deixado Mirabelle. A respiração pesada, os músculos gritando para parar, os olhos trêmulos, a visão turva, mesmo assim ele a pegou nos braços, esquecendo os únicos trapos restantes que podia cobrir o corpo nu e saiu dali carregando-a.
O tempo urgiu quando ouviu um barulho, o som de passos, o chiado de algo se aproximando. Sua face consternada era sinônimo de desespero, os tímpanos doíam, ardiam. Ele correu, se esbarrou, tropeçou, caiu e quase não conseguiu sair daquele labirinto, sentindo no último momento as garras tocarem suas costas antes de pular para as areias do deserto escaldante. Em direção ao sol, o qual não deu a ousadia de desviar o olhar para trás enquanto queimava as vistas, ele correu, com aquela visão dele nascendo em sua frente.