Quando se deu conta de que não estava mais sendo seguido, o sol já não o encarava e nuvens cinzas se aproximavam pelo horizonte. Os braços trêmulos, as pernas cortadas queriam ceder à exaustão e rumaram junto ao resto do corpo em direção ao chão, mas o perigo ainda espreitava, o medo ainda permanecia em seu corpo, as marcas ali estavam. Aquela sensação repugnante o fez flexionar o joelho e impedir que caísse, levantando logo em seguida e se deparando com o céu nublado. Cinza, o solo ficou cinza, tudo ficou como se preto e branco o mundo fosse e um clarão apareceu, um raio desceu, um estrondo alto se sucedeu, sentindo no rosto um toque úmido.
Em pouco tempo, uma forte pancada de chuva caiu sobre ele, que abriu a boca para o alto. A garotinha que se molhava sentiu mais frio ainda, isso logo preocupou quem a carregava. Apreensivo, correu à procura de um abrigo, mas não viu nada, olhou para os lados, mas não enxergava direito, começou a sentir seus pés afundar, ficou cada vez mais difícil andar, cada passo era uma tortura. A chuva continuava, poças de água se formavam nos buracos deixados por suas pegadas.
Lentamente, a água chegou aos dedos do pé, calcanhar, tornozelo, logo estava em sua cintura e uma forte correnteza começou a puxá-lo para trás, mas se manteve firme perante a natureza, mesmo ela o forçando a ceder.
Segurando a garota em seus braços, nadou contra a correnteza, mas ela se tornou tal que o empurrou, sem mais nem menos, foi arrastado pela enxurrada. Debateu-se de um lado para o outro, desviou-se das pedras pontiagudas que surgiam em seu caminho e rasgavam sua pele.
Tentou, tentou, mas suas forças estavam acabando. Respirar se tornou um sufoco. Seus braços não o seguiam, mas sim a vontade de proteger a garota.
Seus ombros não seguravam mais nada, só eram arrastados para onde os braços levavam. As pernas, bem, elas agora se viam livres do peso de duas pessoas, mas sem forças para nadar contra uma forte correnteza e repletas de hematomas, lesões e cortes.
Aos poucos, cessou os movimentos e afundou. As esperanças se desfizeram entre a atrofia dos músculos das pernas e a água que começou a entrar pela boca. Tentou erguer Mirabelle o máximo que conseguiu para que não se afogasse, mas um impacto abrupto nas costas o fez emergir. Quando emergiu, percebeu estar apoiado em uma grande montanha, agarrou-se nas pedras, cuspiu, gorfou e tentou ao máximo subir, mas os pedaços de pele morta o fizeram escorregar. Em um esforço sem igual, apoiou-se novamente nas pedras e subiu, mas escorregou. Suas mãos ficaram vermelhas com o sangue que escorreu dos cortes que se abriam toda vez que segurava em uma fissura afiada e, com as mãos e o corpo completamente ensanguentados, alcançou um chão plano até onde a água não havia chegado ainda.
Ali, entre fortes chuvas, raios e trovões, desmaiou.
Sentir.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Uma sensação molhada no rosto, uma grande dificuldade para respirar e se mover — Chu-chuva? — Mirabelle abriu os olhos, limitada pelo peso de um braço. — Co-como!? — Olhou para frente com a visão embaçada e viu, quando tirou o braço ensanguentado que estava debaixo, que se tratava de Miguel desmaiado.
— Ei! Garoto! — Levantou-se e o balançou. — Está bem? Garoto! — Sem respostas, demorou a se dar conta de que o sangue em suas mãos e a poça vermelha em que seus pés estavam, pertencia a ele.
— Ei! Vamos! Acorde! — O chacoalhou, porém as coisas só pareciam piorar. — Não! Não! Não faça isso agora! Ei! Eeei! — Sem opções e muito menos tempo para pensar, pôs as mãos embaixo de Miguel e tentou levantá-lo, apoiando-o sobre seus ombros.
— Va-vamos! Não pode acabar assim! — Angustiada, mas ele era muito pesado. O chão molhado fez suas finas pernas balançarem, seus pés deslizarem e os dois caírem sobre o barro.
— Droga! Droga! Droga! — Cuspiu a sujeira que entrou na boca e tirou o barro que grudou no rosto. Espirrou, tossiu e levantou-se cambaleando. — Você– Urgh! Não vai morrer aqui!
Não sentindo muitas forças nas pernas que tremiam junto ao resto do corpo encharcado, colocou os braços entre as axilas de Miguel, cruzando-os de encontro ao tórax, e olhou para os lados.
Em meio à chuva, procurou por um abrigo. Foi um caminhar penoso, se assim podia se chamar, puxar alguém que pesava mais do que si era um esforço imenso. Não só o rastro que o corpo de Miguel causou no barro molhado gerou arrasto, como ainda mais dificuldade no andar, já que os pés dela também se arrastavam, não conseguindo reunir forças para levantá-los.
Sentindo dores nas pernas e nos braços que volta e meia fraquejavam e quase os faziam escorregar, os dois caíram novamente. Ela cerrou os dentes e duvidou do que estava passando, mas entre o desespero e a ansiedade causados pelos clarões dos raios, um vão escuro entrou em seu campo de visão. Era uma caverna, uma pequena esperança que quebrou sua frustração e a fez rapidamente ir de encontro a um abrigo contra a tempestade.
Era fria, escura, a água pingava entre as poucas estalactites que existiam dentro. Havia também algumas pedras que emanavam partículas de uma energia estranha, a qual Mirabelle não se atreveu a curiar. Importando-se com o estado de quem carregava nos ombros, apoiou-o de imediato em uma pequena parede do vão menos inclinado que achou.
— Vamos! Vamos! — Ela entrelaçou as mãos sobre o peito dele, fechou os olhos, mas nada aconteceu.
— O– O que? O que está acontecendo!? — Desfez a posição, olhando aturdida para os lados e para as palmas das próprias mãos. — Minha Vistria– Na-não responde? — Espantada, levou um susto quando trovões intensos começaram a cair.
— Como?! — Colocou as mãos sobre o cabelo encharcado, os puxou, não havia nada em sua mente, as opções pareciam ter acabado, mas uma pequena e sutil luz emitida por uma das estranhas pedras ao lado de Miguel, passou em sua frente. — Tena? Tena!
Esticando os braços para ambos os lados, fechou os olhos e partículas daquela energia estranha começaram a surgir. Elas saíam das pedras e da água que escorria pela caverna. Algumas vinham de rachaduras no chão e outras simplesmente apareciam no ar; elas rodearam Mirabelle, que as uniu com o entrelaçar das mãos e a sinergia daquelas distintas energias em espiral formou uma espécie de funil que crescia as laterais para cima. Assim como uma enorme onda de calor que não só secou os corpos e os cabelos deles, como também uma parte da água que estava escorrendo ali dentro.
— Você não vai morrer, garoto! Não enquanto eu estiver aqui! — Aquela força que controlava ficou grande demais e começou a colapsar. Raios da junção daquelas partículas estilhaçaram algumas das pedras das quais haviam vindo e rachavam o chão nos arredores. Mirabelle gritou pelas dores causadas.
As veias pulsavam por todo o corpo enquanto pressionava ambas as mãos sobre o peito de Miguel, impulsionando aquelas partículas como uma agulha gigante em direção ao coração dele.
Um sorriso apareceu-lhe no rosto, mantendo a estabilidade da energia. Observando a luz penetrar por entre os machucados, até que houve um ricochete e ela foi arremessada tão longe que bateu na parede do outro lado da caverna junto a Tena que se dispersou.
— O– O que?! — Mirabelle tossiu e cuspiu um pouco de sangue, logo em seguida escarrou e ficou novamente com o rosto molhado, já que havia caído embaixo de uma das goteiras da caverna pela qual a água escorria.
— M-Merda! — Deu um soco na parede. — Como isto é possível? O que fiz de errado? — Cerrou os dentes com olhos apreensivos e se levantou custosamente e logo caminhou aos trancos até Miguel.
— Garoto? Garoto! — Mal se sentou e já foi com o ouvido de encontro ao tórax dele, onde só pôde respirar aliviada quando ouviu seus batimentos cardíacos, pôs as mãos sobre as feridas que ao menos não sangravam mais e deslizou-as por todo o corpo e sentiu cada corte e perfuração que tinha. — O que é isso?! O que foi que aconteceu?
— Eu– Eu– O-o que faço? — Trêmula, quando se sentou em uma posição melhor, olhou para si sem compreender o que acontecia. — Tena não funciona, não consigo utilizar Vistria, O que ma–
— Santria? Santria resolveria? — Cogitou com incerteza no olhar, um estranho sentimento veio ao olhar para o rosto de Miguel, uma mistura de repulsa e nojo, seguida de desconforto, que a fez morder os lábios e pôr-se em silêncio sobre ele.
Ela se sentou sobre sua barriga, aproximou-lhe o rosto, abriu sua boca e parou por um momento. — Não tenho muitas opções... — Fechou os olhos, em seguida pôs saliva dentro da boca do garoto, fechou-a, erguendo-lhe um pouco a cabeça para engolir. No mesmo instante em que a saliva desceu-lhe pela garganta, ele convulsionou. — Deus! O que está acontecendo? — Mirabelle não soube como reagir e só pôde segurá-lo, mas assim como se iniciou repentinamente, o garoto parou de se mexer. — O que–
Sem dar tempo para que raciocinasse, uma esfera de luz tão pura e límpida, dona de um brilho destoante, formou-se sobre o tórax de Miguel. — Não pode ser! Is-isto é V-Vistria?! — Involuntariamente, o soltou e se arrastou para trás com os olhos tremendo.
— Ma– Mas ?! Co– Como?! — Colocou as mãos sobre a cabeça.
— Esta quantidade... É impossível! — Fixou os olhos no rosto dele enquanto a claridade se apagava lentamente junto à energia retornando ao corpo.
— Como seu coração ainda bate? Todas as correntes deveriam estar obstruídas! E– Ele ainda tem órgãos!? — Colocou a outra mão sobre a cabeça e puxou os cabelos. — Droga! — Fechou os punhos, apanhando um pouco de terra com a mão. — O que você quer de mim!? — Jogou a terra que havia apanhado para longe.
— Foram Setecentos anos! Setecentos anos condenada! E agora, tu me permites sair daquele lugar, só para perecer do lado de fora?! Está brincando com a minha cara?! — Mirabelle gritou para o alto, não tinha ninguém para ela gritar com naquela caverna, mesmo assim simplesmente esbravejou para o alto com toda a fúria que tinha em si. — Por quê?! Por que permitiu que me prendessem a alguém que iria matar? O que diabos você quer de mim?! — Sem expressões no rosto e com a respiração inconsistente, lentamente abaixou o rosto coberto pelos cabelos molhados.
— Por favor… Dê-me uma luz. — Cabisbaixa, olhou, com as mãos apoiadas sobre os ombros de Miguel, para seu rosto e suas sobrancelhas cheias de terra, os olhos parcialmente fechados e sem brilho, o cabelo bagunçado e opaco e para seus lábios que cintilavam com as luzes dos raios. — Iss–
Um pensamento lhe veio à mente. Levantou-se com o rosto avermelhado e foi para longe do garoto e, de pouco em pouco, começou a tirar os poucos trapos que tinha cobrindo o corpo, ficando completamente nua.
— Se-se– a Vistria em seu corpo reagiu uma vez... de– deve de novo... — Cruzou os dedos e respirou fundo. — Va– vamos com calma...
— Será só um be-be– beijo. Afinal não há outra forma de– — Ela parou por um segundo com os olhos completamente abertos e rapidamente chacoalhou a cabeça. — Sim… Não há outra forma de se conectar a outro ser que não seja um beijo… — Virou o rosto para Miguel, decidida, porém, voltou-se a si com o mesmo ainda mais vermelho e abaixou a cabeça, cobrindo os seios e outras partes expostas.
— Eu não acredito que estou fazendo isso de novo... — resmungou, mas devagar se aproximou do garoto, parou em sua frente e delicadamente se sentou sobre seu corpo, pondo as mãos em seu ombro, passou aqueles pequenos dedos sobre seus lábios e o beijou.
Uma luz branca então tomou conta da caverna. Intensa, ao redor dela fluía a Vistria que contornou entre as marcas que brilharam em seus corpos, distorcendo a visão com um calor que envolveu Mirabelle junto a imagens desconhecidas que preencheram sua mente. — O QuE!? Mã–!? Em– AA!? AaAa! — Ela levantou e colocou as mãos sobre a cabeça, tonta e com uma dor intensa que acompanhou as lembranças que não lhe pertenciam. — Aaa! Chega! — Em instantes, a dor que a derrubou arfando sobre Miguel cessou e apoiando-se em seus braços, a luz que ligava as marcas em seus corpos, se desfez aos poucos junto à distorção invisível, a qual os envolveu.
— Isso! Isso é? Não... Não é possível! — Um sorriso se estampou de uma ponta a outra de seu rosto enquanto o olhava, mas não era só porque agora ele estava perceptivelmente melhor.
O motivo da alegria veio quando olhou para as próprias mãos e sentiu o fluir da energia, uma força descomunal que lhe preenchia, percorrendo seu corpo, as veias pulsavam dos braços ao tórax e da cintura aos pés junto a espasmos dos músculos de todo o corpo.
— Tão... Tão Pura! — Ela olhou para si própria e tentou acalmar os ânimos, alerta, em meio à dúvida e à incerteza, teve sua atenção atraída para o alto.
Entre sentimentos e sensações que a deixavam perplexa, levantou-se e estendeu os braços para cima e as pedras no chão começaram a levitar enquanto seus olhos dourados brilhavam com as pálpebras semifechadas.
— Co-como!? — Soltou uma pequena gargalhada enquanto olhava para as próprias mãos, fechando e abrindo os punhos. — Como algo tão puro? — Aquele foi um momento inusitado e prazeroso, uma sensação forte que a causou embriaguez de abrir os braços como uma criança e o ar se tornar tão doce quanto arroz doce.
Um sentimento bom que foi interrompido por uma contração no abdômen. — Tch! — Mirabelle caiu pela dor intensa, foi como se milhares de agulhas saíssem pela barriga, a sensação de ser perfurada de dentro para fora de forma tão inesperada quanto os motivos de sua alegria recente.
— O-oque? O quê está acontecen– — Sangue escorreu pela boca e, com os trêmulos olhos dela que azul se tornaram, viu a força que a preencheu repentinamente se dissipar e o corpo ficou pesado, acompanhado da dificuldade para respirar. — Na– não!
Suas forças se esvaíram e as pedras que levitavam caíram junto a ela, desacordada.