João embrenhou-se na vegetação fechada, rasgando o emaranhado de cipós e folhas largas a passos rápidos. À medida que se aprofundava na sombra sufocante da floresta, os gritos iam perdendo a pouca naturalidade que tinham: a voz de Haroldo ressoava em um tom cada vez mais arrastado, metálico e grotescamente distorcido, como uma fita gasta tocando em rotação errada.
Logo, os sinais da passagem do monstro tornaram-se inconfundíveis. O ar ficou carregado por um cheiro acre de ferro e podridão. Galhos grossos estavam partidos, folhagens haviam sido esmagadas e, na lama escura do chão da mata, um rastro largo de sangue e terra revolvida indicava que algo pesado tinha sido arrastado à força. João seguiu o rastro de sangue até uma clareira sombria sob a copa de uma árvore secular. E lá estava ele.
Haroldo estava reclinado contra o tronco mofado da árvore, com as costas apoiadas na casca grossa. Abaixo dele, uma poça escura e densa de sangue acumulava-se sobre as folhas secas. João correu até o homem, caindo de joelhos na lama ao seu lado para analisá-lo. Haroldo ergueu os olhos turvos e pálidos. A pele de seu rosto perdera toda a cor, coberta por um suor frio. Ao ver o Caçador, ele forçou um sorriso fraco.
— Você... demorou, cara... — Haroldo sussurrou, a voz falhando. Ele deu um pigarro doloroso, expelindo um pouco de sangue no canto dos lábios. — Esses gritos... no mato... são daquela coisa, né?
João não respondeu. Seu olhar varreu o corpo do fotógrafo, diagnosticando o estrago com a precisão de quem já vira aquela mesma cena dezenas de vezes. A camisa de Haroldo estava rasgada e ensopada de vermelho. Sua barriga fora grotescamente aberta pelas garras da criatura. O homem havia perdido sangue demais em questão de minutos; sua respiração era superficial, entrecortada, e sua temperatura corporal despencava rapidamente.
João ergueu a mão e deu leves tapinhas no rosto do homem, tentando mantê-lo consciente:
— Ei. Olhe para mim. Fica comigo, não fecha os olhos agora.
Haroldo deu um risinho rouco, piscando devagar enquanto lutava contra o peso das pálpebras:
— Pelo menos... eu consegui... Tirei fotos daquele bicho...
— Você consegue se mexer? — perguntou João, a voz grave, embora no fundo já soubesse a resposta.
— Não... nem sinto minhas pernas — respondeu Haroldo, a cabeça tombando ligeiramente para o lado.
Antes que João pudesse dizer qualquer outra coisa, o som ao redor deles mudou. Ruídos guturais, cliques estalados e um resfolegar pesado começaram a ressoar do meio da escuridão. Vinham de todas as direções. Das copas das árvores acima de suas cabeças, de trás das raízes gigantescas da sumaúma, do emaranhado de espinhos metros à frente. Alguns sons pareciam próximos, quase colados a eles; outros vinham de mais longe, ecoando em uma comunicação desordenada.
Haroldo piscou devagar, o pânico dando lugar a uma aceitação serena e anestesiada pelo choque de quem já estava na fronteira da morte. Ele olhou para João com os olhos marejados:
— A minha esposa... a tonta da minha mulher... ela tá bem?
João sustentou o olhar do homem sem hesitar, dando-lhe a única certeza que ele precisava naquele momento:
— Ela está bem. Ela tá segura, no meio do grupo, com alguém armado cuidando dela.
Um suspiro profundo de alívio escapou do peito de Haroldo, fazendo seus ombros relaxarem contra o tronco da árvore. Com suas últimas forças, ele ergueu os braços trementes e banhados de sangue, desengatando a correia da câmera fotográfica do pescoço. Com os dedos fracos, ele empurrou o aparelho pesado contra o peito de João.
— Leva... entrega pra ela... — murmurei Haroldo, a voz afundando num sussurro rasgado. — Fala pra ela... que eu tirei umas fotos lindas dela hoje... na trilha... Fala que... ela tava bonita...
João mal teve tempo de segurar o câmera, a mão de Haroldo escorregou pelo aparelho e caiu inerte na lama. Os olhos do fotógrafo congelaram, focados no nada, enquanto o seu peito baixava em uma última e vazia exalação. A respiração parou.
João segurou a câmera ensopada de sangue contra o peito, ajoelhado ao lado do cadáver na penumbra da mata. Ele fechou os olhos por um segundo, absorvendo o silêncio daquele último suspiro, antes de colocar a alça do aparelho no próprio pescoço. Ao seu redor, os estalos guturais das criaturas ficaram mais altos. As sombras entre as árvores começaram a se mover.
João levantou-se devagar da lama, os joelhos estalando contra o peso do próprio corpo. A alça da câmera de Haroldo pesava em seu pescoço como um grilhão, e os dedos da sua mão direita se fecharam ao redor do cabo da faca de caça com tanta força que as articulações ficaram esbranquiçadas.
Ereto no meio da penumbra, ele encarou as manchas de sombra que se moviam entre as raízes e as copas das árvores gigantescas. Ergueu a cabeça e desafiou a mata a plenos pulmões, a voz grave e cortante ecoando como o rosnado de uma fera ferida:
— VEM, CAMBADA DE DESGRAÇADOS! TÔ AQUI! VEM ME PEGAR, PORRA!
A resposta veio imediata. Das sombras, dos galhos altos e do mato rasteiro, um coro de urros guturais, estridentes e desordenados irrompeu ao mesmo tempo, numa cacofonia faminta e caótica. As folhagens estalaram e galhos se partiram quando as criaturas se prepararam para o bote coletivo.
— ISSO, PODEM VIR! CARNE FRESCA E SOZINHA! É SÓ CAIR DENTRO!
Mas, antes que a primeira sombra se projetasse para dentro da clareira, um som diferente cortou a floresta. Foi um urro vindo do fundo da mata fechada. Era um som igualmente grotesco e gutural, porém infinitamente mais denso, grosso e imponente. Um rugido que fez o próprio chão úmido parecer vibrar sob as botas de João. Instantaneamente, todos os rosnados, os cliques e os estalos das feras ao redor cessaram. O silêncio absoluto voltou a cair sobre a floresta. João permaneceu parado na postura de combate, a respiração curta e ruidosa escapando entre os dentes enquanto tentava processar a calmaria repentina. O choque da morte brutal de Haroldo ainda entorpeciam o ritmo do seu raciocínio.
Foi quando o ar da mata vibrou.
BANG!
O estampido seco e cavalar do seu próprio revólver ecoou à distância, vindo exatamente da direção da trilha onde ele havia deixado os visitantes. A ficha de João caiu como uma marretada no peito. Aquele urro não fora um recuo; fora uma ordem de ataque coordenado do líder da matilha. As criaturas não teriam motivo para arriscar uma luta direta quando haviam seis presas fáceis e apavoradas aglomeradas no meio do floresta.
João olhou uma última vez para o corpo inerte de Haroldo, ali encostado na árvore. Ajeitou a correia da câmera firmemente contra o peito, cravando os olhos no rosto pálido do homem:
— Eu vou entregar essa câmera para ela. Eu prometo.
Sem hesitar mais um milésimo de segundo, João girou sobre os calcanhares e arremessou-se contra a vegetação, rasgando cipós, galhos e folhas enquanto disparava em velocidade máxima de volta para a trilha, na direção do som dos tiros.

Victória inclinou-se para a frente, o olhar compenetrado.
— E como a gente luta contra essas coisas? — perguntou ela, apressada. — Como se mata um Abuhukku?
Pai Raoni balançou a cabeça devagar de um lado para o outro, soltando um suspiro amargo e desapontado.
— No final das contas... vocês, Caçadores, são todos exatamente iguais — desabafou o pajé, o tom carregado de uma tristeza antiga.
— O quê?! — soltou Victória, a indignação faiscando instantaneamente em seus olhos.
Raoni nem piscou, mantendo a voz calma e cortante enquanto o fogo estalava entre os dois:
— É sempre a mesma história. Vocês não vêm para prevenir o mal, não vêm para entender o equilíbrio da floresta ou cuidar da dor de quem fica. Caçadores só aparecem depois que a tragédia já aconteceu. Vocês são pagos, 'resolvem o problema' e somem na poeira, deixando os escombros e a dor para trás.
A provocação atingiu Victória como uma bofetada. A jovem se levantou num baque súbito do banco de madeira, o impacto fazendo a espingarda balançar em suas costas e a poeira subir do chão de terra.
— O João não é assim! — explodiu Victória, a voz ecoando com força pelas paredes da maloca.
Ela encarou o pajé com o peito arfando de raiva.
— É e sempre será assim, minha filha — disse Pai Raoni, sem alterar o tom de voz grave ou desacelerar o ritmo de suas tragadas no cachimbo. — Enquanto comunidades como a nossa, da Jurema Sagrada, permanecem fincadas na terra, mantendo os rituais e protegendo o território com sangue e fé, os Caçadores serão como os urubus. Vocês apenas seguem o rastro de sangue, alimentam-se do desespero e do luto daqueles que ficaram e vão embora com os bolsos cheios.
— O João não é assim! — insistiu Victória, o peito arfando de raiva e orgulho ferido. — O senhor não conhece o João pra dizer que ele é igual aos outros Caçadores! O senhor não sabe nada sobre ele!
Um silêncio pesado voltou a se instalar na maloca. As brasas da fogueira estalaram suavemente entre os dois. Pai Raoni levou o cachimbo à boca novamente, soltando uma nuvem espessa de fumaça. Sua expressão permanecia serena, mas totalmente impassível, deixando que a fúria da garota se dissipasse sozinha no ar.
Victória percebeu que havia se exaltado. Sentindo as bochechas queimarem de vergonha pela reação desmedida, ela soltou o ar devagar, respirou fundo e voltou a se sentar no banco de madeira, ajustando com cuidado a alça da espingarda nas costas. Ela baixou os olhos para as chamas que dançavam na terra batida e começou a falar, com a voz num tom muito mais baixo e confessional:
— Eu não era uma Caçadora... Eu era o que o pessoal chamava de "caçadora de tesouros". Eu tinha um pequeno grupo e a gente rodava por aí, explorando lugares abandonados, velhas propriedades e ruínas. A gente pegava até a última coisa de valor que encontrasse para vender e seguir viagem para o próximo destino.
Victória fez uma breve pausa, encarando as brasas como se assistisse às memórias tomarem forma no fogo.
— Até que um dia ficamos sabendo da lenda de um antigo barão que tinha sido enterrado em um cemitério que hoje está abandonado, e junto com ele sua fortuna em joias e ouro. A gente nem pensou duas vezes. Pegamos nossos detectores de metal, pás e marretas e fomos direto para lá. Passamos o dia inteiro debaixo do sol, vasculhando o mato e revirando túmulo atrás de túmulo sem achar nada.
Ela deu um sorriso fraco e amargo.
— A noite já tinha caído e a gente estava quase desistindo, quando o detector de metais apitou alto. Os olhos de todo mundo no grupo brilharam. Achamos que tínhamos tirado a sorte grande. Meu parceiro nem esperou: ergueu a marreta e deu a primeira pancada no concreto do túmulo. Mas, no mesmo segundo em que o baque ecoou, a gente ouviu um uivo muito, muito próximo.
Victória estremeceu levemente com a lembrança.
— A gente era ganancioso e estúpido demais pra parar. Ignoramos o aviso e continuamos tentando quebrar a estrutura. Foi aí que os rosnados começaram... baixos, guturais, vindo de um ponto específico entre as sepulturas. Quando viramos as lanternas na direção do som... a gente viu. Era gigantesco, o corpo inteiro coberto por uma pelagem negra e densa. O rosto dele era distorcido em um focinho de lobo, e a boca estava escancarada, cheia de dentes afiados babando uma saliva espessa sobre a grama seca.
Victória parou de falar, encarando fixamente as chamas da fogueira enquanto o silêncio denso e doloroso da memória pesava sobre seus ombros. Pai Raoni levou o cachimbo à boca, soltando uma nuvem serena de fumaça que subiu em espirais em direção ao teto de palha. Sem alterar o tom calmo e profundo de sua voz grave, a incentivou a prosseguir:
— Continue, minha filha... O que aconteceu quando a criatura rugiu?
Victória engoliu em seco, piscando os olhos para afastar a névoa da lembrança e balançando a cabeça devagar. Ela respirou fundo e continuou:
— O bicho urrou e avançou sobre a gente como uma tempestade. Um dos meus colegas... ele achou que aquilo era só uma brincadeira de mau gosto, um cara fantasiado tentando pregar um susto na gente. Ele ergueu a marreta e tentou acertar a criatura, gritando pra ela parar. Mas a fera... ela simplesmente segurou o cabo de madeira da marreta no ar como se fosse um graveto e cravou as presas no pescoço dele num piscar de olhos.
Victória soltou um suspiro pesado e trêmulo. Ela cobriu o rosto com a mão por um segundo, recordando o jorro de sangue sob as mandíbulas da fera.
— Eu travei por meio segundo. Depois... não pensei em mais nada. Não tentei ajudar, não tentei lutar. Eu só larguei a minha lanterna, virei as costas e corri como nunca tinha corrido na vida.
Pai Raoni deu mais uma tragada pausada em seu cachimbo, o olhar fixo no fogo.
— Você fez o que precisava ser feito — comentou o velho de forma simples.
— Mas será que foi o certo? — Victória questionou a si mesma, a voz falhando de culpa. — Eu saí disparada por entre as sepulturas no escuro. Enquanto corria, eu podia ouvir os gritos aterrorizados do nosso outro amigo lá atrás. No começo eram gritos de dor, depois foram ficando cada vez mais fracos e desesperados... até que pararam completamente. Ficou tudo em silêncio.
Ela abraçou os próprios joelhos no banco de madeira, encolhendo-se levemente.
— Eu me escondi atrás de uma capela antiga em ruínas, encolhida no chão de terra e mato alto. Eu podia ouvir a respiração do monstro... aquele rosnado baixo, pesado, farejando o ar bem do outro lado da parede de pedra. Eu fechei os olhos e tapei a boca, convicta de que aquele era o meu fim. Que eu ia morrer ali, aos dezenove anos, por ganância.
Ela fez uma pausa dramática, e até as brasas da fogueira pareceram diminuir o ritmo.
— E então, quando eu já tinha aceitado que ia ser devorada, um tiro seco cortou a noite.
Victória fez um gesto com as mãos simulando o disparo.
— O monstro urrou de dor. Logo em seguida veio um segundo tiro. Ouvi o som pesado das garras da criatura arranhando as pedras e disparando pra longe na escuridão da mata. Mas eu não tive coragem de sair. Fiquei ali paralisa, apavorada, abraçada às minhas pernas no escuro. Foi quando ouvi uma voz arrastada e rouca ecoar pelo cemitério: "Tem mais alguém vivo nessa porra?"
Pai Raoni mantinha o olhar atento sobre ela, absorvendo cada palavra da Caçadora.
— Eu saí do esconderijo com as pernas bambas, me arrastando pelas ruínas até encontrar o dono daquela voz — prosseguiu Victória, e um leve sorriso de admiração surgiu no canto de seus lábios. — Demorou um pouco até eu ver um homem em pé no meio das sepulturas, parado bem em frente ao túmulo depredado que a gente tinha começado a arrombar. Eu corri na direção dele no desespero. E a primeira coisa que ele fez quando me viu foi me encarar de cima a baixo com cara de tédio e perguntar se eu estava bem. Era o João.
Ela respirou fundo, revivendo exatamente aquela cena em sua mente.
— Ele não me deu bronca, não me julgou e nem perguntou o que a gente estava fazendo ali. Ele só se abaixou sobre o corpo do outro rapaz que tinha sido atacado primeiro. O coitado estava estirado na grama, com o pescoço rasgado pelas presas da criatura e respirando fraco. Eu entrei em pânico, caí de joelhos do lado deles e só consegui perguntar, chorando: "Ele vai morrer? Pelo amor de Deus, ele vai morrer?"
Victória encarou Pai Raoni bem nos olhos, a firmeza e o orgulho retornando inteiramente à sua voz:
— E o João olhou no fundo dos meus olhos, com aquela cara de quem carrega o mundo nas costas, e disse: "Não. Ele não vai morrer esta noite." E não morreu. O João estancou o sangramento, carregou o garoto nas costas por dois quilômetros até o caminhão guincho dele e dirigiu feito um louco até o hospital mais próximo. Ele salvou a vida do meu amigo e a minha.
O silêncio seguiu por alguns segundos dentro da maloca, quebrado apenas pelo estalar contínuo da fogueira e pelo vento suave que agitava as folhas de coqueiro na entrada. Pai Raoni parecia refletir profundamente sobre a história que a garota acabara de contar, acompanhando com o olhar a fumaça de seu cachimbo subir lentamente em direção ao teto. Victória respirava profundamente, piscando rápido para conter as lágrimas de angústia e saudade que ameaçavam transbordar.
O ancião levou o cachimbo aos lábios uma última vez e, encarando a jovem através das chamas com seu olhar sereno e penetrante, perguntou:
— Como você enxerga esse homem, Victória?
Victória engoliu o nó na garganta e respondeu sem vacilar:
— Ele é meu herói.
Pai Raoni balançou a cabeça devagar, compadecido.
— Ele não é herói, minha filha. Ele é apenas um homem. Assim como eu, como Jurandir e como qualquer um de nós...
Antes que ele pudesse concluir a frase, Victória o cortou. Não havia raiva ou desrespeito em seu gesto desta vez, mas sim um olhar brilhante, transbordando de pura e genuína admiração.
— Ele aceita ganhar quase nada por missões só para não deixar Caçadores novatos se arriscarem no escuro — enumerou ela, a voz trêmula, mas carregada de convicção. — Aceitou um contrato miserável por troco de pão só para não ver garotos tontos virarem cadáver na floresta. Ele passa noites e madrugadas inteiras sem dormir, dirigindo até a exaustão e se arrastando na lama para concluir o mais rápido possível um caso antes que mais pessoas se firam.
Victória fez uma pausa, o peito subindo e descendo enquanto encarava a fogueira, a vulnerabilidade tomando conta de sua feição.
— E, neste exato momento, ele está em algum lugar da mata, sozinho, enfrentando esses Abuhukkus…
A voz dela fraquejou, reduzindo-se a um murmúrio doloroso no final:
— E eu nem sei o que fazer caso ele morra.