Capítulo 10
Despedida de Mira
No dia seguinte, Mira arrumou suas coisas com a ajuda de todos. Era uma situação triste e alegre ao mesmo tempo. Todos da casa estavam com um semblante triste.
Mira preparou um pacote com vários livros e anotações e subiu as escadas.
A carruagem estava chegando quando Mira chamou Randolph na sala de treino.
— Então, meu aprendiz, é aqui que me despeço. Este pacote contém livros e anotações. Quero que estude e treine todos os dias. Foi um grande prazer ensinar alguém com tanta fome de aprender — disse Mira.
— Eu que agradeço todo o conhecimento e paciência, mestra! — respondeu Randolph, com seriedade.
— Esses momentos até parecem que você não tem 5 anos, garoto — disse Mira, fazendo carinho na cabeça de Randolph.
— Bom, se um dia se interessar, você poderia tentar uma bolsa na Universidade Arcana, na cidade voadora de Thorn — falou Mira, indo para a porta.
— É para lá que você vai, mestra?
— Acho que sim. Vendo você melhorar tanto em tão pouco tempo, me deixou mal acostumada. Acho que vou precisar me esforçar também.
Mira se despediu de Sorín, Luna e Mara e agradeceu por cuidarem bem dela.
Todos a ajudaram a levar as coisas para a carruagem. A cocheira agradeceu a ajuda com um sorriso largo.
Ao se colocar a caminho da carruagem, Mira foi surpreendida com um abraço pequeno de Randolph.
Com lágrimas, Randolph dizia:
— Muito obrigado, mestra! Nunca vou te esquecer.
— Espero que sim, garoto — respondeu Mira, enquanto ajudava Randolph a enxugar as lágrimas.
— Continue treinando como te ensinei, e, quando nos encontrarmos novamente, quero ver seu domínio com a magia que te ensinei.
— Sim, mestra! — respondeu Randolph, seriamente, aceitando a última ordem de sua mestra.
— Então, adeus, garoto.
— Adeus, mestra!
Ao olhar para o casal, Mira viu Luna e Sorín abraçados. Luna estava com lágrimas nos olhos.
Subindo na carruagem, Mira agradeceu aos deuses, principalmente a Cicélia, pela oportunidade de conhecê-los, e a Magiana, por ter lhe dado o dom da magia.
Assim, Mira partiu da Vila de Chaj.
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Reflexões de Mara
Me chamo Mara. Nasci em uma vila muito pequena no interior de Amicítia, um lugar bem pacífico, tirando alguns monstros que vêm da floresta esporadicamente.
Tenho uma irmã mais nova. Fomos criadas pela minha mãe, que era a antiga apotecária da vila.
Nunca quis trabalhar como apotecária. Apesar de aprender o ofício com minha mãe, me especializei em partos e cuidados com a casa.
Quando completei a maioridade, coloquei anúncios na guilda de aventureiros para oferecer meus serviços de babá ou cuidados domésticos, mas sem sucesso.
Demorou muito tempo até que um casal vindo da capital se mudasse para a casa grande do velho Gilbert. Um casal formado por um estame e uma pistilo, o que era uma raridade por aqui, e ainda é. Eles precisavam de alguém para ajudar na casa, que soubesse sobre partos e pudesse cuidar da criança. A senhora da casa, Senhora Luna, era linda, uma guerreira forte que aceitou o trabalho de protetora local para lidar com os monstros. Seu marido, Sorín, era maravilhoso. Nunca havia visto um homem mais bonito em toda a minha vida. Ele começou a trabalhar com minha irmã no centro de cuidados da vila. Como mago de cura, era de grande ajuda.
O parto do garoto foi normal e sem dificuldades, o primeiro parto que realizei de um estame.
Uma verdadeira bênção, pois, quando uma mãe tem um filho estame, ela pode pedir algo ao reino, seja terras, dinheiro ou até um título.
O único fato estranho foi que, ao nascer, a criança não chorou. Será que todos os estames são assim?
Achei que havia nascido natimorto até ver seus olhinhos abertos. Ele só foi chorar no colo da mãe, após ser abraçado.
Até parecia que ele tinha se assustado com algo. Juro que o vi corando ao mamar pela primeira vez. Aquela cara não era de uma criança.
Ao crescer um pouco, Randolph era como um fantasma. Sempre tinha um olhar sério e, por vezes, o vi suspirando, como se alguém mais velho estivesse de saco cheio da vida.
Era estranho demais. Achei que a criança estivesse possuída por alguma coisa.
Fiz alguns chás que serviam para expulsar demônios, aprendidos com minha mãe, mas sem efeito algum.
Outra coisa muito difícil de lidar eram as noites nessa casa. O barulho das noites do casal era impressionante, e não demorou muito para que eu começasse a procurar o Senhor Sorín no Jardim da Abundância da vila.
Sei que os jardins não serviam para satisfação, mas quem saberia, afinal?
Na capital, as mulheres usam os jardins para curar o estresse, pelo menos é o que eu sempre ouvia das pessoas que vinham de lá.
Não me sinto nem um pouco culpada, e o Senhor Sorín sabe se portar muito bem com seus deveres.
Deixando isso de lado, parece que, com o tempo, Randolph passou a ser um estame normal. Depois que começou a aprender magia, ficou mais fofo.
Ainda parece um velho enfurnado na biblioteca, mas não tem mais aquele olhar melancólico.
As aulas com a Senhora Mira também o ajudaram bastante.
E, pelo exame que fizemos ontem, a Senhora Luna está grávida novamente. Estou muito feliz por ela.
Ela é muito abençoada, mas não sinto inveja. Pelo pouco que ela compartilhou comigo sobre sua vida, ela batalhou bastante para ter a vida que tem hoje. Penso que as bênçãos que recebeu dos deuses são a recompensa por seu trabalho duro.