Esse é um mundo sobre pessoas quebradas.
No auge dos meus 18 anos eu terminei o ensino médio e entrei pra faculdade.
Nunca fui do tipo estudioso, mas me esforcei um pouco pra passar no vestibular porque meus pais queriam. A sociedade tem esse costume de impor as coisas sobre os outros e isso definitivamente me irrita. Não que eu quisesse ser um qualquer pro resto da vida ou algo assim, mas eu queria ficar de folga por um tempo.
Agora eu estou aqui.
No meio da rua.
Perdido.
Perdido não, desencontrado. É, acho que essa palavra se encaixa melhor.
Talvez você se pergunte o que diabos eu queira dizer com algo do tipo e quem sou eu. Acredite, eu não sou ninguém tão interessante assim, mas acho que você iria se divertir mais vendo essa história do meu ponto de vista.
Ah, e explicando melhor o que eu quis dizer com desencontrado. O caminho de volta mudou. Simples assim. Da forma mais simples e pura e normal o caminho que eu fazia para voltar da faculdade pra minha atual, e simplória, residência mudou.
Como? Você deve se perguntar.
Não sei, o mundo é assim.
Quebrado.
Enquanto estava apresentando brevemente o eu e o mundo avistei um carro. Parece um carro bem caro, faróis brilhantes e vidro fumê, que chique. Melhor eu acenar pra ele logo e pedir carona pra casa, já são quase dezenove horas, quero deitar na cama e ficar lá, pra sempre, se possível.
— Eeei, aqui! — exclamei enquanto estendia o braço e apontava o polegar para cima .
O carro parou.
O vidro se abaixa e um velho com muitas, e quando digo muitas quero dizer mais do que é permitido em um carro, garotas jovens aparecem. O que é isso?
— O que foi? Quer carona moleque?
— Se couber nesse carro eu aceito, sim — disse de forma contrariada.
O velho fez um sinal e uma das trocentas garotas abriu a porta de trás do passageiro. De alguma forma eu me espremi e consegui entrar no carro, ufa, ainda bem que vou chegar rapidinho em casa. Aliás, não entre em carros de estranhos.
— Pra onde você vai garotão?
Não sei se é seguro apenas dar meu endereço pra um velho aleatório então…
— Pra padaria Rainha, gosto do café de lá — Fica a duas quadras de casa e é melhor do que falar meu endereço.
— Ah claro, o café de lá é realmente bem gostoso. Qual teu nome?
— Lucas
Farei igual faço com motoristas de aplicativo, vou responder apenas o necessário e sem puxar assunto de volta.
— Sou Roberto, prazer — Ele olha pra mim pelo retrovisor.
Assenti com a cabeça.
— E aí, tu tá na faculdade daqui? Que curso você faz?
— Engenharia Mecânica, e você?
Droga, saiu automático da minha boca, e agora? Que vergonha, por isso prefiro ficar quieto!
— Ha ha ha, não estudo faz tempo, mas que bom que percebeu meu espírito jovem!
— É…
Estou começando a ficar desesperado e essas moças estão rindo de mim, por favor apareça logo, padaria.
— Você já é daqui ou veio morar agora por causa da faculdade?
— To morando aqui agora só, entrei esse ano.
— Agora entendi o porquê você parecia perdido, faz só dois meses que as aulas começaram né?
—É.
Quase sem esperanças de continuar o diálogo, vejo a logo da padaria assim que viramos à esquerda. Minha salvação atual é uma grande baguete sorridente, em que ponto cheguei.
— Chegamos, tudo certinho. Valeu garoto! Boa sorte com a faculdade — o velho de espírito jovem acenou, enquanto algumas garotas jovens voltavam a entrar no carro.
Agora é hora de realmente voltar pra casa… Mas acho que vou comprar alguma coisa pra comer, já que estou aqui na padaria.
Entrando nesse ambiente fresco, que contracena com o calor que tá fazendo hoje, pego um daqueles cartões para marcar a comanda, e sigo até o balcão.
Nossa, tem muitas coisas bem gostosas aqui. Croissants, pães de queijo, esfiha aberta, esfiha fechada, coxinha, empada, torta de frango, torta de atum, quibe… Isso tudo só da parte de salgados.
— Boa noite, o que o senhor gostaria?
Fiquei tão fissurado nos salgados que nem percebi a balconista.
E agora? São muitas opções interessantes.
— Hum…me vê uma esfiha fechada. — falei com certa dúvida da escolha.
— Queijo ou pizza? — devolveu a balconista, no automático.
— Pizza.
É o melhor sabor, sem dúvidas.
— Só isso?
— Erm, vou querer essa bomba de chocolate também…não, espera. A torta de morango. É, vou querer a torta de morango.
— Certo, ficou… — digitando rapidamente na máquina registradora, a balconista diz — R$21,98.
Essas coisas ficam cada vez mais caras a cada momento que se passa por aqui.
Tirando minha carteira do bolso, peguei uma nota de vinte reais, uma de dois e a entreguei à moça… Não acho que receberei dois centavos de troco.
— Obrigado, boa noite e bom trabalho.
Me despedi e fui embora da padaria.
Certo agora é uma pequena caminhada até em casa…
Pensando bem, o velho que me deu carona foi uma mão na roda. Me pergunto o que ele estava fazendo com tantas garotas?
Seria ele um cafetão? Um homem rico com desejos esquisitos? Alguém famoso?
— Ah, espero que ele não seja nenhum famoso.
Sinal fechado.
Quase que atravesso no meio da avenida. Que perigo
Hora do Rush, um momento em que milhares de pessoas saem de seus trabalhos e fazem o possível pra voltar para casa depois de um dia cansativo de trabalho. Será que um dia irei me igualar à essas pessoas?
Espero que seja mais como Hora do Rush o filme. É, seria bem legal ser um policial maneiro e parar a máfia chinesa… Será que era isso mesmo? Preciso reassistir a trilogia.
Abriu.
Assim que começo dar o primeiro passo sinto o mar de gente me levando até o outro lado. Pessoas, pessoas e mais pessoas. Muita gente sai do trabalho e volta à pé para casa.
E antes que eu percebesse eu cheguei finalmente.
Minha casa é simples
Giro a maçaneta para entrar.
Não tem tanta coisa.
Geladeira, fogão, microondas, computador, namorada bonita, armário, cama, banheiro e…
NAMORADA BONITA?!
— Ah, você finalmente chegou! E vejo que trouxe comida, eu estava morrendo de fome!
— …
Eu nunca tive nenhuma namorada.