É exatamente isso….
Eu não tenho… ou melhor, nunca tive uma namorada.
Então quem é essa garota? Ela tem um rosto bonito, seus cabelos bagunçados e ruivos — na verdade são bem vermelhos mesmo, arrisco dizer que foram até pintados — com mechas onduladas. Sua pele é bem branca e parece realmente bem cuidada. Essas roupas são minhas? Há quanto tempo você está aqui?!
— Então… o que você trouxe aí? — com um tom curioso, ela perguntou, me trazendo de volta à realidade.
— Que? Quem é você? Como veio parar na minha casa? Por que está aqui?
Eu sei, eu sei, muitos gostariam de chegar em casa e se deparar com uma garota linda sentada no chão agindo como se fosse uma namorada ou algo assim, mas tente entender o meu lado aqui. Não sei quem é ela, nunca vi seu rosto na minha vida, além disso não é como em historinhas as quais o principal se depara com uma situação extremamente conveniente que muda a vida dele pra sempre.
— Eu não sei.
— Ahn?
— As perguntas que você fez. Eu não sei como vim parar aqui. Só sei que estou com bastante fome, então me responda, o que é que você comprou?
Seu rosto fez uma cara pensativa, talvez ela estivesse tentando imaginar o que está na sacola.
— Vou ligar pra polícia, um momentinho — Rapidamente saco meu celular do bolso.
— QUEEEEEEEEEEEE???? Você não pode fazer isso comigo! Eu sou uma garota e estou claramente perdida aqui.
— Sendo sincero, se uma mulher aparece de repente na sua casa não vem coisa boa. Digo isso por experiência de ver a Supernanny na TV.
— Super quem?
— Supernanny, uma mulher capaz de doutrinar até mesmo a maior das feras infantis. Eu já vi ela realizar alguns milagres.
Na verdade não sei dizer se os demônios eram as crianças que ela “consertava” ou ela mesma. Só de pensar me deu um frio na espinha.
— Não fuja do assunto! Eu estou com fome.
Acho que consigo até ver uma lágrima no olho dela.
— Engraçado que você diz algo assim, mas não respondeu direito minhas perguntas! — gritei — O que você quis dizer com “não sei”?
— Qual parte do “não sei” você não entendeu? Vou soletrar pra você. “E-U-N-Ã-O-S-E-I-C-O-M-O-V-I-M-P-A-R-A-R-A-Q-U-I”.
Ela realmente soletrou a frase completa!
— Já chega de brincadeiras! Me diga pelo menos o seu nome — exclamei enquanto colocava a sacola no balcão.
— Meu nome, né… — Não sei por quê, mas prevejo uma situação meio clássica.
Aí está!
Ela procura rapidamente por objetos pela casa. Você não está enganando ninguém.
— Aira — decretou enquanto se levantava.
Sério? É exatamente o que está escrito na minha camiseta… Aira the Star, uma cantora popular que eu até diria que gosto um pouco… Peço que ignore o pôster dela na minha parede.
— Aira de que?
— Aira de Star?
Ela não está nem se esforçando mais.
Cansado dessa situação, viro meu olhar para meus pés enquanto penso onde errei como ser humano.
— Ohh, então você comprou algo salgado… Hmmmmm! É uma delícia!
— É, esfiha fechada sabor pizza não tem erro… ESPERA UM POUCO AÍ! Quem deixou você surrupiar meu lanche? E já está até comendo!
Ok, ok… Sem pânico. As vezes ela está bêbada e foi deixada aqui por um colega. Tem algumas kitnets aqui do lado então só preciso perguntar se é conhecida de alguém.
— Esse doce é mais delicioso do que o outro! Onde você pegou? Tem mais? Eu quero mais.
Agora ela passou dos limites.
— Você vai embora agora. — disse enquanto agarrava seu cabelo.
Não me entenda errado. Eu adoraria uma garota linda que convenientemente começa a falar comigo e nos aproximamos daí começamos a namorar. Mas, uma garota tão linda assim, dentro da minha casinha simples, e que ainda comeu minha comida, vai me trazer vários problemas, eu posso pressentir o perigo e o caos.
— Ai ai ai, você vai arrancar meu cabelo desse jeito!
— Pare de se debater, se continuar vai machucar mais.
— Mas eu não quero ir embora, eu não tenho pra onde ir, por que você é tão mau comigo?
É verdade, por que será que estou sendo tão maldoso? Desse jeito podem ter uma visão errada de minha pessoa… Não é esse o ponto. Não estou errado aqui, estou? Sou apenas um homem defendendo seu reino de ser invadido por criaturas maléficas e destruidoras de lares, denominadas comumente como: Mulheres.
Exceto a Giulia Novaes. Aquela garota da minha faculdade é uma beldade — não… ela definitivamente não é humana, seria algo mais próximo de um ser angelical.
— Não estou sendo malvado aqui. Mesmo que realmente de forma misteriosa você tenha aparecido na minha casa e não saiba como, você comeu meu lanche. Consegue perceber o quão grave é isso?
— É por isso que você tá bravo? — “Aira” disse com uma cara de desprezo — É só um lanchinho, cara.
Eu não mereço esse tipo de coisa acontecendo.
— Olha… Eu deixo você ficar aqui por uma noite. Apenas isso. Amanhã quando eu for para a faculdade você vai sair e aí procura um lugar pra te acolher.
— Uau, muito obrigada! Ninguém fez tanto assim por mim antes — “Aira” diz com uma voz chorosa
— Eu achava que você não lembrava seu passado!
— E não lembro, tenho certeza que já discutimos sobre isso, você não é dos mais espertinhos né?
Conversar com essa garota me cansa, sério.
Decidido a não passar fome vou na geladeira conferir o que há pra comer e… Não tem nada!
Um clássico universitário.
E agora? Será que deveria sair de casa novamente? Não, é melhor só pedir algo.
— Erm, então… eu estou pensando em pedir algo pra eu comer, você não se incomoda né?
— Ah claro, claro. Pode pedir algo pra gente, desde que seja tão gostoso quanto os seus lanches.
Então você admite que eram meus!
— Certo, que tal uma pizza então? — perguntei enquanto abria o aplicativo de delivery.
Aira deu de ombros. Ela não parece ter muita noção das coisas pra falar a verdade, apesar dela saber falar direitinho eu não diria que sei o que acontece pra ser sincero.
Oh, achei uma pizza que está valendo à pena. Demora 40 minutos então… 20:20 chega. Pronto, agora só esperar
Durante 40 minutos, ficamos conversando sobre algumas futilidades, nisso expliquei como funcionava algumas coisas básicas, me apresentei melhor, ela foi no banheiro... e foi então que a pizza havia chegado.
— Se lembra do lanche que você comeu? Era sabor pizza e isso aqui é uma pizza. — comentei enquanto abria a caixa na frente dela. Esse cheiro, essa aparência… poderia ficar vislumbrando isso por horas.
— Então eles colocaram tudo isso dentro daquela massa?
— Não é bem assim que funciona, mas é quase isso. Pensa que há um sabor clássico pra pizza. Queijo, tomate e orégano, em alguns casos pode haver presunto aliado a isso. O que fazem é por todos esses ingredientes lá. Apenas experimente e me diga o que achou.
Aira então pega com as mãos um pedaço já cortado e o traz até sua boca.
Então ela morde.
Mastiga.
Saboreia.
E engole.
Seu rosto passou por três expressões faciais diferentes. Da curiosidade ao prazer, passando, claro, pela alegria.
— Eu quero comer isso todos os dias. Para sempre!
— Heh, vamos com calma, não é como se você tivesse dinheiro pra comprar uma todo dia.
— Que maldade. Você sempre pode comprar uma nova pra mim né? — perguntou enquanto pegava outro pedaço.
— Nocha, echa picha tá realmenche boa! — exclamo de boca cheia a fim de trocar subitamente o assunto.
Nós comemos a pizza toda. Ela comeu cinco pedaços e eu três. Não sei como ela viveu antes, mas se continuar assim, com toda certeza vai aparecer rolando por aí.
Espera, por que estou pensando nela assim! Não quero saber mais disso. Amanhã iremos nos despedir e meus dias vão voltar ao normal.
— Ei, Lucas, to com sono. Quero dormir.
— Eu tenho cara de ser seu pai por acaso? Só deita aí no chão e dorme, se fizer muita questão eu pego uma coberta pra você.
— Mas e essa cama aqui? Eu sou visita né, eu quem deveria dormir nela.
— Tá bom, tá bom. Como você é irritante. Pode deitar nela, mas vai escovar os dentes antes, deve ter uma escova nova no armário embaixo da pia.
Acho melhor acompanhar ela pra ter certeza… Na verdade não, estou cansado demais pra isso tudo acho melhor só pegar uma outra coberta pra mim e deitar aqui.
Apaguei a luz do quarto, me deitei no chão com um dos travesseiros e me cobri. Esse amaciante tem um cheiro bom.
Lentamente fecho meus olhos e, entre os bocejos, o sono veio chegando cada vez com mais e mais força até que…
Uma joelhada.
Ao menos é o que pareceu ser.
— Foi maaal, heh, eu escorreguei no tapete e como você tava entre a cama e o corredor eu acabei esbarrando em você…
ESBARRANDO?! Acho que o galo que vai me acordar amanhã vai ser o da minha testa!
— SÓ DEITA LOGO E DORME! — gritei. Gritei alto o suficiente pra escutar batidas no teto, o vizinho de cima provavelmente não gostou do barulho. Desculpa, vizinho.
E assim a noite se passou e eu enfim acordei.
Mas por que ela está deitada em cima de mim?!