ROMULUS
CAPÍTULO VIII - A FORJA INTERIOR
Na noite seguinte, Romulus subiu novamente no terraço do palácio. No centro estava Faruk — sentado de pernas cruzadas e olhos fechados, com as mãos juntas apontadas para cima —, e Romulus, ao vê-lo, interrompeu seus passos.
— Boa noite, Romulus. — disse Faruk ainda sem abrir os olhos
Romulus deu um pequeno salto para trás e arregalou os olhos:
— Como o senhor sabia que era eu? — perguntou, surpreso — É algum tipo de magia de sua terra?
— Não, apenas abri um pouquinho os olhos quando escutei seus passos! — Faruk soltou uma gargalhada curta
Romulus riu junto do mestre, se aproximando mais dele.
— O que o senhor estava fazendo nesta posição?
Faruk levantou-se e inspirou o ar úmido daquela noite, apoiou-se na mureta, observando enquanto Aurora Cor dormia.
— Estava meditando, compreendendo a mim mesmo e o universo. E depois, esvaziando minha mente para expurgar suas impurezas, que corrompem a alma. Em Hikmah, meditar é uma das formas de se conectar com O Sapientíssimo além da oração.
— Faruk, o senhor já mencionou a “Luz Sapiente” e agora fala sobre “O Sapientíssimo”. Do que se trata? É alguma filosofia de Hikmah?
— Sim e não! — Faruk virou-se sorrindo para Romulus — Assim como aqui em Potestas vocês cultuam o Deus-Sol Viramax e em algumas cidades a Deusa lunar Crenura, em Hikmah cultuamos Nur’Aql, o Deus da Sabedoria. Ele ilumina a nós mortais com sua Luz Sapiente, que guia nossos caminhos. O culto Dele, a Luz da Razão, envolve tanto sua adoração direta quanto o estudo e compreensão de toda a Existência!
— Alguns monitores do Acampamento Octavius Primus chamariam vocês de “ratos de biblioteca”. — Romulus
— E você concorda com isso? Qual a sua opinião? — Faruk ainda sorria para o garoto
Romulus sentiu um aperto no peito. Lembrou das esculturas de barro escondidas sob a cama, dos versos rabiscados no couro, das tintas que seus pais vendiam na feira. Tudo o que ele realmente pensava, guardado em silêncio.
— Acho — começou, hesitante — que estudar não é fraqueza.
— Potestas nem sempre foi um Império beligerante. — Faruk encarou o horizonte — Eu já vivi muitas luas, como pode perceber! — o emissário riu com gosto — Houve uma época em que músicos ostentavam canções e versos com suas liras pelas praças, os templos eram pintados com epopéias sobre a vida e o Sol. Depois, a guerra veio.
— Verdade? — Romulus indagou boquiaberto
— Ah, sim. Eram tempos mais… Estáveis. — Faruk encheu os pulmões — Mas conversaremos sobre isso uma outra hora, agora continuaremos seu treinamento.
Faruk estalou os dedos e outro círculo mágico, maior que o da noite anterior, apareceu no chão.
— O último treino foi para ver sua resistência mágica. Da mesma forma que o djinn tentou controlar seu corpo, a Marca também o faz em momentos de urgência. Pelos seus relatos e de outros, ela parece disposta a usar qualquer recurso para mantê-lo vivo. — Faruk dizia enquanto caminhava pelo círculo
— Entendo.
— Hoje, testaremos se você é capaz de convocar a chama, em grande escala, mantendo sua própria consciência. Fiquei sabendo que o príncipe Félix o desafiou para um duelo. — Faruk agora encarava Romulus nos olhos
— Sim, e eu invoquei chamas douradas. — Romulus coçou o braço marcado — Foi a primeira vez que isso aconteceu.
— Na natureza, o fogo muda de cor dependendo das condições da queima, do nível de oxigênio e do material usado como combustível. — Faruk posicionou um pedaço pequeno de madeira no chão e ateou fogo a ele com uma pederneira, o curto tronco começou a ser consumido aos poucos por chamas alaranjadas — Observe.
Faruk enfiou a mão na manga longa da túnica e lançou um pó branco nas chamas, que se tornaram amareladas.
— O que o senhor jogou no fogo? — Romulus quase saltou do lugar
— Apenas uma pitada de sal! — Faruk respondeu vivamente — O mesmo ocorre com o fogo mágico. Piromantes de nível baixo ou mediano controlam chamas alaranjadas ou vermelhas, e quando aperfeiçoam sua técnica com treino e estudos geralmente começam a manipular chamas azuis e verdes.
— Eu sempre fui bem medíocre com magia… — Romulus disse cabisbaixo — E meu fogo sempre foi avermelhado, antes da Marca.
— O que é natural. — Faruk respondeu sem rodeios — O fogo dourado ocorre quando um nível absurdamente alto de magia é utilizado para convocá-lo. Somente um deus teria tamanha quantidade de poder. Se o próprio Viramax te abençoou com esta Marca, é uma extensão da vontade divina.
— Mas se era o fogo do próprio Viramax, como o príncipe Félix conseguiu apagar as chamas douradas com sua magia de vento? — Romulus perguntou
— De nada adianta ter uma espada com lâmina de diamante e um cabo de papel! — Faruk abriu os braços — Era a chama de Viramax, mas Ele ainda estava agindo através de você! — a última palavra foi um golpe de chicote — Tu ainda és jovem, Romulus, e tens muito tempo pela frente! Podes até ser considerado uma peça quebrada na máquina imperial. — Faruk pegou o tronco queimado e, com um esfregar de mãos, transformou-o numa pequena escultura de madeira de uma coruja — Mas tudo que está quebrado pode ser consertado.
O sábio ofereceu a escultura a Romulus. O jovem a recebeu com um sorriso tímido e guardou-a na dobra da túnica.
— Estou pronto para o treino de hoje, Faruk.
— Ótimo. Vamos começar. — Faruk fechou os olhos e recitou palavras desconhecidas em um murmúrio quase inaudível
Ele levou a mão direita ao peito e a outra ao céu, deu três voltas, fazendo esvoaçar as barras da capa. O braço até então erguido foi baixado em direção ao chão, onde dois espíritos translúcidos azuis surgiram.
O primeiro tinha a forma de uma pantera, com três olhos amarelos vibrantes e duas caudas. O segundo era uma grande tartaruga com espinhos espalhados pelo corpo.
— São djinns? — indagou Romulus
— Quase. — Faruk pigarreou — São daimons, espíritos nativos de Potestas. Enquanto os djinns são espíritos conscientes e ancestrais, quase tão antigos quanto os próprios deuses, os daimons são expressões espirituais menores. Sacerdotes antigos de tua terra o invocavam para tarefas mais monótonas, são como criados ascéticos. Os djinns não obedecem cegamente. Eles fazem contratos com os mortais: você dá algo em troca de seus serviços.
— E por que o senhor os invocou hoje? — Romulus
— Os daimons também conseguem possuir corpos de mortais, muitas vezes para fazer travessuras ou apenas para se alimentar de sua energia vital. — Faruk acariciou o daimon pantera na cabeça — Você será possuído por estes dois e tentará usar a energia deles, ao mesmo tempo tentará impedir a Marca de te proteger ou amplificar seu poder, você deve invocar chamas apenas com a energia dos daimons.
— Certo… Vou tentar. — Romulus
Com um estalo de dedos de Faruk, os espíritos avançaram em Romulus e penetraram em seu corpo. Por um instante, nada aconteceu, até que o jovem começou a tremer e caiu de joelhos no chão, levando as mãos ao abdômen.
— Resista, Romulus, você já fez isso antes. — Faruk
A Marca começou a brilhar e Romulus suava frio, ele então fechou os olhos e respirou fundo. Levantou-se com dificuldade e, tentando não perder o equilíbrio, concentrou-se.
Ele ouvia risadas dentro de sua mente, sentia a energia percorrendo seu corpo, como se os espíritos estivessem brincando dentro de sua alma. Romulus inspirava fundo repetidamente, até que após alguns minutos a Marca apagou. Ele parou de tremer e de suar. As vozes em sua mente cessaram. Romulus abriu os olhos, agora brilhando com seu próprio fulgor, e ergueu os braços ao céu. Abriu as mãos e disparou uma labareda de chamas laranjas e azuis que queimou por quase um minuto.
Após a queima da chama, duas finas linhas de fumaça azul-clara saíram de seus palmos semi-abertos e desapareceram no ar.
— Muito bom, rapaz! — disse Faruk com seu sorriso acolhedor — Você usou toda a energia espiritual dos daimons! E não usou energia da marca.
— Eu me sinto ótimo! — Romulus sorriu e encarou o punho agora fechado — Qual a próxima lição?
— Dormir bem e descansar! — com uma batida de palma de Faruk, o círculo mágico desapareceu — Amanhã é Requies, a folga semanal da I Legião. Pensei em aproveitarmos para visitar a biblioteca central de Aurora Cor.
— Eu visitei ela quando era muito pequeno, com meu avô, bem antes de entrar para a Academia. — Romulus cruzou os braços e encarou o céu, nostálgico — Vai ser bom voltar lá depois de tanto tempo.
— Perfeito! — Faruk abriu os braços e sorriu — Te busco amanhã em teu dormitório, de manhã cedinho, esteja pronto!
— Combinado! — mestre e pupilo apertaram as mãos — Até amanhã, Faruk!
Romulus voltou para seus aposentos com um sorriso no rosto. Faruk não era apenas um professor, era algo mais. Alguém que o via como pessoa, não como arma. Ao adentrar seu quarto, preparou seu banho e, na água, fechou os olhos e relaxou como não relaxava há muito tempo.
Ao sair, secou-se e vestiu sua túnica de dormir. Na sua mesa, algum servo já havia disposto frutas secas, mel e peixe salgado fermentado em óleo de oliva. Após comer, deitou-se e adormeceu rapidamente.
Durante o sono, veio mais uma visão: ele estava em um campo de trigo no auge do crepúsculo. O céu alaranjado com o frescor do fim da tarde traziam-lhe o mesmo conforto do colo de sua mãe. O aroma era de pão recém-saído de um forno à lenha e, à sua frente, uma figura peculiar.
Um homem velho e corcunda, vestindo uma surrada túnica verde cheia de remendos e um chapéu de couro largo e redondo. Ele usava uma longa foice de bronze na plantação e despejava a colheita em uma pequena carroça presa a um burro.
— Você parece perdido, rapaz. — disse o velho
— Onde estamos? — Romulus olhou ao redor, tentando reconhecer o local
— No meu lar. — o velho virou-se para Romulus, sua barba branca era rala, seu olho esquerdo era cego e lhe faltavam vários dentes na boca — Muito longe de tudo que você conhece.
— Quem é o senhor? — Romulus indagou encarando a pequena cabana de madeira e palha há alguns metros da plantação
O velho apenas sorriu e voltou a colher o trigo, conforme a luz do Sol ia diminuindo, uma pesada nuvem negra vinha com o vento forte. O estrondo dos trovões e os relâmpagos não pareciam incomodar o velho.
— Senhor, uma chuva forte está chegando, é melhor entrar. — Romulus alertou o camponês idoso
— Ainda bem que está vindo a chuva! — o velho soltou uma risada rouca — Sem a água da chuva, as plantações não vivem!
— Parece ser uma tempestade brava, senhor. — Romulus disse apreensivo — Olhe os raios e os trovões.
— Depois de toda a tormenta, vem o Sol novamente. — o velho respondeu calmamente — Amanhã de manhã, o Sol nos abraça com seu calor. — ele então guardou a foice na carroça e pegou o burro pelo arreio — E não é com a tormenta que você deve se preocupar, meu filho.
— O que o senhor quer dizer? — Romulus coçou a cabeça
— Há uma sombra que desliza ao seu redor como uma víbora banguela, e eventualmente ela mostrará suas presas. Sua maior virtude, Romulus, pode também vir a ser a sua sina.
Antes mesmo de Romulus abrir a boca para fazer mais perguntas, o velho subiu no burro e partiu. Com o berro do trovão nos céus, ele viu novamente as cenas do seu sonho na tenda dos curandeiros, mas agora com mais detalhes:
A silhueta do guerreiro trançado lutava contra uma serpente alada e uma bola de fogo percorria o céu de Aurora Cor, que ardia em chamas. Hordas de monstros desconhecidos saqueavam a cidade e, no ponto central, a estátua de Viramax caía em pedaços.
Romulus tentou gritar, mas o som não saiu. E no mesmo instante, ele despertou.
Devido ao treino com Faruk, ele dormia mais tarde que o normal e tinha poucas horas de sono por dia. Contudo, acordara antes do Sol aparecer, completamente revigorado e descansado como no dia de seu Inquérito.
O garoto então repetiu seu ritual terapêutico de todas as manhãs e preparou seu banho, relaxando o corpo e esvaziando a mente. A dica de Faruk realmente funcionava, espantar os pensamentos tinha um poder purificador.
Após banhar-se, ele vestiu uma túnica branca simples, com poucos detalhes em amarelo, e saiu de seu dormitório. Do lado de fora, um servo que cuidava da limpeza urbana avistou Romulus e correu desajeitado em sua direção.
— Senhor soldado, não sabia que irias acordar mais cedo hoje! — ele gaguejou — Geralmente os legionários da Primeira acordam mais tarde no Requies… Providenciarei seu desjejum imediatamente!
Romulus sorriu para o servo e pôs a mão suavemente sobre seu ombro:
— Acalme-se, senhor. Não é necessário, acordei mais cedo pois tenho um lugar especial para visitar e irei comer fora.
O servo relaxou os ombros e respirou aliviado, disse coçando a careca:
— Ah, que bom! — ele riu — Bom passeio, senhor!
Romulus se despediu, o servo voltou a cuidar da limpeza enquanto o jovem caminhava em direção à praça central. Quando ele passou pela estátua de Viramax, tremeu. Lembrou-se do sonho e do monumento desabando.
— Bom dia, Romulus!
Ele se virou e viu Faruk, usava vestes tradicionais de Hikmah em cores cinza e branco. Seu turbante ostentava a mesma safira azul brilhante.
— Bom dia, Faruk. — Romulus sorriu para o mestre
— Eu estou faminto! — Faruk esfregou as mãos — Você já desjejuou?
— Ainda não. — Romulus coçou a barriga — Vamos comer antes de ir à biblioteca?
— Ah, com certeza! Eu conheço uma ótima taverna que está aberta a este horário, e eles servem comida tradicional hikmare! — Faruk caminhava animado
— Como o senhor conhece tanto de Potestas, Faruk? — Romulus indagou com interesse genuíno
— Quando eu tinha vinte e poucos anos, há muitos e muitos anos, eu conheci uma bela moça de Tzerakh, que hoje é uma província potestiana. Eu era Ministro do Comércio à época e estava em período de recesso; quando andava pelas ruas de Fzeton, capital da província, conheci minha amada Fátima. — Faruk sorriu, mas com olhos marejados
— Não precisa contar mais se não quiser, Faruk. — Romulus tentava confortar o mestre
— Está tudo bem, meu jovem. — Faruk olhou para o céu — São lágrimas de alegria, pois são as boas memórias que ficam após a partida de quem amamos. Fátima era filha única, ambos tínhamos a mesma idade e naquela época ela já estava “atrasada” para casar. Quando a vi pela primeira vez foi como se tivesse recebido um coice, fiquei atordoado de amor! — o mestre riu com gosto
— E vocês se casaram assim, de repente? — Romulus estranhou
— Era comum naquele tempo. — Faruk alisou a barba com a mão — Jovens de dezesseis anos já se casavam e começavam a formar família, muitas vezes por interesse econômico é claro. Mas em menor instância, como foi comigo e Fátima, a paixão foi mútua e instantânea.
— Os pais dela aceitaram… Você sabe, ela se casar com um estrangeiro? — Romulus perguntou cada vez mais interessado
— De início, não gostaram muito da ideia! — o emissário riu — Mas depois que viram que minhas intenções eram puras e sinceras, eles deram sua bênção! E nossa Lua de Mel foi aqui em Aurora Cor.
— Então é por isso que o senhor conhece tanto o país. — os olhos de Romulus brilharam
Enquanto divagavam sobre a vida e o passado, Faruk e Romulus chegaram no centro comercial da cidade. Pelo horário, poucos comerciantes montavam suas barracas nas praças e becos, mas as tavernas e Casas de Prazeres estavam funcionando normalmente.
Faruk parou em frente à uma taverna de pedra branca, retangular com quatro torres octogonais com domos semi-esféricos. Na placa, estava escrito “Nakhar”. Romulus nunca vira este estabelecimento em todos os dezessete anos que vivera na cidade.
— É aqui! — Faruk esfegou as mãos — Prepare para encantar seu paladar!
Quando adentraram o local, Romulus surpreendeu-se pela pouca quantidade de frequentadores. Podia contar nos dedos quantas pessoas estavam naquela taverna, todos trabalhadores noturnos (soldados da Patrulha, construtores, padeiros e prostitutas).
Ele e Faruk sentaram-se em uma mesa próxima do balcão, após poucos minutos um homem de meia-idade se aproximou da mesa, afoito. Ele usava ao mesmo tempo uma túnica potestiana simples e um turbante igual ao de Faruk.
— C-Como posso servi-los, senhores? — disse o homem, ofegante
— Traga dois ashunas fortes com pães tostados, pasta de Castanhas-de-Tahramash e bolinhos de berinjela! — Faruk pediu sem nem mesmo olhar o cardápio
— É para já, senhor! — o taverneiro anotou tudo em um pedaço de pergaminho e correu para a cozinha
— O senhor vinha muito nesta taverna na juventude, Faruk? — indagou Romulus
— Em minha viagem nupcial com Fátima, tínhamos o desjejum aqui todos os dias. Depois que tivemos nossos filhos, vínhamos aqui pelo menos uma vez por ano durante suas infâncias. — respondeu o mestre
— O senhor pediu dois “ashunas”, o que é isso? — Romulus
— Uma bebida estimulante que é servida quente, similar ao chá preto. Mas ao invés de ser feita de folhas é feita com o pó dos grãos moídos da fruta de Ashuna, uma cidade de Hikmah. — respondeu Faruk
Enquanto Faruk contava sobre sua juventude e vida de casado à Romulus, a refeição chegou. O taverneiro, enrolando os dedos no avental, tomou coragem e perguntou:
— O senhor é Faruk al-Murshid, certo?
— Em carne e osso! — respondeu Faruk com um sorriso
— Ah, o que a Luz quis! — o taverneiro bateu palmas contidas — Faz muitas luas que vossa excelência não aparece aqui!
— Depois que meus filhos cresceram e a idade chegou, o ímpeto aventureiro também diminuiu. — Faruk riu — Após a partida de Fátima para o Jardim Luminoso, que a Paz de Nur’Aql esteja com ela, eu decidi parar de viajar por um tempo.
— A Paz Dele está com ela, meu Irmão de Luz. — o taverneiro fechou os olhos e pôs a mão direita sobre o peito — E o que te traz de volta a Potestas?
— Alguns meses após o falecimento de Fátima, eu me tornei Grão-Vizir de Hikmah. E devido a… Acontecimentos geopolíticos maiores… Foi-me oferecido o cargo de Conselheiro do Imperator. — Faruk
— Parabéns pelo novo cargo e meus sentimentos por Fátima! — o taverneiro fez uma reverência e foi atender outros clientes
Faruk pegou sua xícara, cheia até a borda com o líquido preto fumegante, assoprou por alguns segundos e disse para Romulus:
— Às boas memórias!
— Às boas memórias! — respondeu o discípulo
Ambos beberam o ashuna, Faruk suspirou com o sabor e a sensação de energia percorrendo seu corpo. Romulus, por outro lado, fez uma careta após beber.
— O que foi, Romulus, não gostou? — Faruk indagou
— É amargo. — respondeu o garoto
Faruk gargalhou com deleite, lembrou-se de quando seus filhos eram pequenos e tiveram a mesma reação provando da mesma bebida.
— Você pode adoçar à gosto se quiser! — Faruk despejou duas colheres de mel no ashuna de Romulus e mexeu bem — Experimente agora!
Romulus assoprou o líquido e provou novamente, desta vez sentiu o agridoce abraçando sua língua. Ele arregalou os olhos e disse, estupefato:
— É muito bom! — Bebeu mais — E tira completamente o sono!
— Que bom que gostou! Outros emissários de Hikmah provavelmente chegarão na próxima semana à Capital Imperial, e eles trarão mudas de Fruto de Ashuna, à meu pedido. Sempre que quiser provar novamente, é só pedir!
Mestre e discípulo conversaram e comeram, Romulus maravilhou-se com a culinária hikmare e, após ambos estarem satisfeitos, pagaram a conta e deixaram o local.
A caminhada até a Biblioteca Central foi curta, Faruk não deixava faltar assunto. O edifício era enorme, as colunas de mármore branco permaneciam imponentes desde que foi fundada há anos.
A Biblioteca Central de Aurora Cor era um dos poucos lugares em Potestas onde o silêncio valia mais que ouro. Colunas de mármore branco sustentavam um teto retangular onde pinturas desbotadas contavam histórias de uma era anterior às grandes guerras. A luz entrava por vitrais altos, tingindo o chão de pedra com manchas azuis e douradas. O ar cheirava a pergaminho envelhecido, couro e cera de abelha. Nas prateleiras de madeira escura, que subiam até a altura de dois homens, rolos de papiro e códices de couro repousavam empoeirados, muitos deles intactos há gerações.
Poucas pessoas circulavam. Monges estudiosos caminhavam em silêncio, arrastando sandálias. No fundo da sala principal, uma mesa comprida de carvalho estava cercada por pilhas de manuscritos. E ali, curvado sobre um pergaminho, estava o Irmão Aquilius.
Os dois se aproximaram do clérigo que, antes mesmo de levantar os olhos, disse sem pestanejar:
— Conselheiro Faruk al-Murshid e cadete Romulus de Aurora Cor, bom dia.
— Bom dia, Irmão Aquilius! — Faruk respondeu alegremente — Que a Luz Sapiente nos cubra!
— E ela nos cobre. — respondeu Aquilius afavelmente — O que os traz aqui?
— Estou em excursão com meu pupilo! — Faruk sorria com gosto — Um bom treino não exercita apenas o corpo, mas também a mente!
— Concordo plenamente, Conselheiro. — Aquilius não sorria, mas sua voz não demonstrava desagrado — Estão procurando por algo específico?
— Eu gostaria de mostrar ao jovem Romulus escritos sobre a fundação de Potestas. Sabe nos indicar os melhores pergaminhos? — Faruk
— Estava justamente relendo os Anais de Octavius. O primeiro. O oleiro. — Aquilius sorriu sem mostrar os dentes, apenas rugas se aprofundando
— Oleiro? — Romulus estranhou — Na Academia me ensinaram que ele foi um general invicto e um militar disciplinado.
Aquilius riu:
— Claro que ensinaram. — ele coçou a cabeça e recuperou o fôlego — Antes de ser imperador, antes da Marca, ele moldava o barro. Vendia vasos e panelas na feira. Era pobre, humilde, e ninguém esperava nada dele.
— Então como ele se tornou o primeiro Imperator? Se ele não era soldado, como fundou nossa nação? — Romulus
— Antes do Império de Potestas existir, havia o Reino de Solisutios. O rei que governava estas terras antes de Octavius não era um monstro. Era pior: era um homem comum com poder absoluto. Cobrava impostos que condenavam famílias à fome, prendia quem o criticava, e vendia cargos públicos para os mais corruptos. Não havia glória em seu reinado, apenas... apodrecimento.
— E Octavius Primeiro... o derrubou? — Romulus
— Ele tentou ignorar a injustiça por anos. Até que um dia, soldados do rei incendiaram a oficina de um amigo seu — um ferreiro que não podia pagar os tributos. O homem morreu com a família dentro de casa. Octavius foi até a praça central, de mãos vazias, e começou a falar. Diz a crônica que, enquanto falava, uma chama brotou de seu braço direito. Não para queimar, mas para iluminar. O povo viu aquela luz e entendeu: era a Marca do Sol.
— Então a Marca... Não é uma recompensa por ser forte, é… — disse Romulus encarando o braço enfaixado
— Por ser justo. A Marca de Viramax não aparece em quem busca poder. Aparece em quem sofre com a injustiça e, mesmo assim, não se cala. — Aquilius
— Mas eu não era um agitador como Octavius I, na verdade sempre sofri em silêncio… — Romulus
— Eu aposto que, dentro de si, você questionava e pensava em como mudar o mundo. — Aquilius encarava Romulus seriamente
O jovem nada respondeu.
— Você carrega a mesma luz que Octavius Primus carregou. Mas cuidado, jovem. A mesma chama que aquece também queima. E há quem prefira ver o mundo em chamas a dividir o calor com outros.
Aquilius então mostrou a Romulus e Faruk uma seção da Biblioteca contendo os primeiros pergaminhos escritos sobre as epopeias e crônicas de Potestas, de sua fundação até os dias atuais. Não se sabe quanto tempo ficaram naquele recanto que cheirava a couro envelhecido e madeira mofada, mas a dupla aproveitou e copiou tudo o que puderam das páginas amareladas.
Ao deixarem a Biblioteca, o Sol já estava baixo no céu, os primeiros sinais do alaranjado vespertino começavam a se exibir na abóbada celeste.
— Hoje foi um bom dia, cheio de conhecimento novo! — Faruk sorria satisfeito
— Faruk... o senhor acredita que eu sou como ele? Como Octavius? — Romulus
— Ainda não. — Faruk encarou Romulus — Mas está no caminho.
Eles se despediram e seguiram seus caminhos. Ao chegar no dormitório, Romulus deitou-se na cama e, mesmo sob efeito do ashuna que tomou pela manhã, adormeceu.
Desta vez, não sonhou com a cidade em chamas. Ele estava em uma sala simples de pedra revestida em cal. As colunas que sustentavam o teto não eram como as colunas contemporâneas esbanjadas nos palácios e edifícios potestianos, eram mais simples.
No ponto central da parede em frente à Romulus, uma cadeira de ébano adornada com ramos e pedras douradas e estofado roxo acomodava um homem. Ele vestia uma armadura completa de soldado, mas ao contrário das pomposas armaduras das Legiões, esta era mais “quadrada” e com menos detalhes e, ao invés de um elmo, ele usava uma coroa de louros platinada. Seu rosto era suave, porém não inocente, sem pêlos faciais. Seu cabelo castanho-escuro era cortado na forma de uma tigela invertida.
— Quem é você? — Romulus indagou receoso
A figura encarou Romulus com interesse e afinidade:
— Meu nome é Octavius Iulius Figulus Conditor, primeiro de meu nome. E você deve ser Romulus de Aurora Cor, filho de Marcus e Lívia.
Continua…