
ROMULUS
CAPÍTULO IX - REVELAÇÕES
Octavius levantou-se de seu trono e caminhou em direção à Romulus, mesmo sem a pompa de um Legionário da Primeira, o homem conseguia transmitir imponência enquanto andava. Romulus engoliu em seco e evitou contato direto com ele.
— Romulus de Aurora Cor, você andou pesquisando sobre mim. — Octavius disse em tom leve
— S-Sim, majestade… — Romulus pigarreou — Faz parte do meu treinamento…
— Ah, é? — Octavius sorriu — E qual a finalidade de seu treinamento?
— Eu preciso aprender a controlar meu poder e também…
— A Marca. — Octavius o interrompeu
Romulus encarou Octavius nos olhos ao ouvir sobre a Marca, o elo divino que conectava dois homens completamente diferentes. O Imperator então levantou sua manga e, no braço esquerdo, a mesma Marca do Sol que Romulus recebera.
— Uma bênção, mas ao mesmo tempo um fardo. — Octavius
— Eu quase fui executado por causa dela…— Romulus
— Eu sei o que aconteceu, rapaz — Octavius pôs as mãos na cintura e respirou fundo — No topo do Campo Dourado, nós podemos ver tudo.
— “Nós” quem? — Romulus
— Você saberá, se procurar. Continue forjando o aço, mas também os pergaminhos. Se te manteres no ritmo atual, finalmente conhecerás a ti mesmo. — Octavius
— Conhecer a mim mesmo… O que…
Romulus, porém, fora interrompido por Octavius:
— O intuito do nosso encontro é mostrar algo de suma importância, meu jovem. Esta noite verás como me tornei o primeiro Imperator de Potestas.
O fundador estalou os dedos e, no mesmo instante, tudo ficou escuro. Romulus estava no meio de uma praça familiar, porém diferente de qualquer outra que tinha visto. Os paralelepípedos do chão eram de pedra de má qualidade e não preenchiam todo o passeio, além de serem de formatos diferentes, como se tivessem sido feitos em nenhum esmero.
As casas eram todas de madeira apodrecida e dezenas de mendigos e prostitutas transitavam pelas ruas.
Romulus aproximou-se de uma cortesã e perguntou:
— Com licença, onde estamos?
A dama da noite não o respondeu, como se nem tivesse escutado. Ele tentou tocar seu ombro, só para ver sua mão atravessando-a, como um espectro.
Romulus entendeu, estava em uma visão de algo que já acontecera. Neste momento ele era apenas espectador e não agente.
Ele viu o mesmo Octavius andando entre os miseráveis, mas ao invés do imperador ele viu um homem comum vinte anos mais jovem carregando nas costas um enorme jarro de barro e trajando uma túnica mais remendada que a dele próprio.
O jovem Octavius cambaleava sob o peso do jarro. Suas mãos estavam calejadas, sujas de terra e cal, muito parecidas com as mãos de Romulus quando moldava suas esculturas. Aquela não era a capital de um império glorioso; era um antro de lama e desespero que já carregava o nome de Aurora Cor, embora estivesse longe de fazer jus a ele.
Romulus o seguiu. Durante a caminhada, ele via cada vez mais mendigos e famélicos pelas ruas e vielas da cidade. Pequenos comerciantes com barracas de madeira apodrecida eram assediados por guardas reais, cobrando impostos abusivos.
Octavius desviou-se da via principal e entrou em um quarteirão destruído. Romulus sentiu o estômago revirar ao ver o cenário: uma oficina de ferreiro completamente carbonizada, reduzida a cinzas e vigas retorcidas. O cheiro de queimado ainda era forte. Octavius parou por um segundo, encarando os escombros onde seu amigo e a família haviam morrido queimados pelos cobradores de impostos do Rei de Solisutios. Seus punhos se fecharam com tanta força que os nós dos dedos ficaram whites, mas ele engoliu a dor. Ele tinha um objetivo naquela noite. Como um dos líderes da resistência local, ele havia agendado uma reunião de emergência com os outros clãs revoltados nos fundos de uma taverna decrépita. O jarro de barro em suas costas era o disfarce perfeito para cruzar as patrulhas da guarda real sem levantar suspeitas.
Ao chegar, ele bateu na porta dos fundos de forma codificada e foi puxado para dentro, depositando o pesado jarro no chão com cuidado. Romulus, como um espectro, atravessou a madeira logo atrás.
No porão abafado, iluminado por velas baratas, um grupo de quase vinte plebeus e trabalhadores locais debatia fervorosamente ao redor de uma mesa. Havia foices, machados de lenhador e espadas velhas empilhadas no canto. Perto da escuridão, afastado dos plebeus, um homem alto de postura impecável observava o mapa de Aurora Cor. Ele vestia uma armadura de ferro gasta, mas o brasão de oficial da guarda real havia sido raspado do peito. Era o jovem Adventus.
— Você atrasou, Octavius! — sussurrou um homem robusto na mesa. — Os guardas do rei estão patrulhando a ala leste. O plano está pronto. Entraremos pelo palácio ao amanhecer e decapitaremos o tirano. Mas precisamos de alguém que o povo siga quando o portão cair. Alguém que assuma o comando desta terra. Você deve liderar a nova nação, Octavius! Você é o único que todos respeitam.
Octavius, porém, recuou um passo. Olhou para as próprias mãos sujas de cal e balançou a cabeça, os olhos cheios de uma convicta recusa.
— Não. Vocês enlouqueceram — Octavius disse, a voz firme, embora baixa. — Eu sou um oleiro, minhas mãos servem para moldar o barro, não para governar homens. Eu quero justiça pela oficina do meu amigo, mas não serei o vosso rei. Se usarmos as mesmas armas do tirano, seremos apenas novos monstros na cadeira de ouro. Eu recuso o comando.
— Mas se você não liderar, o povo não se unirá! — o homem robusto esmurrou a mesa. — O que vai fazer então? Ficar escondido?
— Vou fazer o que deveria ter feito há anos — Octavius respondeu, endireitando as costas. — Vou até a praça central. De mãos vazias. E vou falar a verdade para o povo. Se eles nos ouvirem, o rei cairá sem que precisemos nos tornar assassinos.
Um murmúrio de incredulidade correu entre os rebeldes, chamando o plano de suicídio. Foi quando Adventus deu um passo à frente, saindo das sombras. O bater de suas botas de metal fez o porão silenciar. Ele encarou Octavius nos olhos.
— Ir até a praça de mãos vazias contra as lanças do rei é loucura, oleiro — a voz de Adventus era profunda, carregada da fadiga de quem já vira sangue demais. — Mas governantes ambiciosos eu encontro em cada esquina do palácio. Um homem que recusa uma coroa por integridade... isso eu nunca vi. Se você tiver a coragem de subir naquele palanque desarmado, eu terei a coragem de garantir que sua voz seja ouvida. Minha espada é sua, Octavius.
Adventus bateu o punho no peito, curvando a cabeça em um juramento que ecoaria por gerações. Romulus assistia a tudo paralisado. Estava presenciando o nascimento da Primeira Legião, a união entre a Ordem e a Espada.
Sem mais palavras, Octavius assentiu, e os dois saíram do porão, marchando direto para o destino que Romulus já conhecia.
A visão mudou num piscar de olhos, avançando no tempo. Romulus agora estava na praça central de Aurora Cor. Uma multidão de famélicos cercava o jovem Octavius, que subira no pedestal de uma antiga estátua. Ele falava com uma paixão que ecoava nas paredes de pedra, denunciando a podridão do reino. Ao seu lado, na base do palanque, Adventus mantinha a mão no pomo da espada, os olhos vigilantes.
De repente, o som de ferro contra ferro anunciou a chegada da guarda real. Dezenas de soldados leais ao rei cercaram o palanque, erguendo lanças. Vendo a desvantagem numérica, Adventus desembainhou sua lâmina, posicionando-se à frente de Octavius, pronto para morrer defendendo o homem que mal conhecia.
Octavius, porém, tocou o ombro do general. Pediu que ele abaixasse a arma. Em vez de recuar, o oleiro estendeu os braços abertos, oferecendo-se ao sacrifício em nome da justiça.
Foi nesse exato momento de bravura desarmada e lealdade pura que o milagre aconteceu.
Um calor avassalador rompeu o chão da praça. Da carne do braço direito de Octavius, uma chama dourada e pura brotou, rasgando o tecido de sua túnica remendada. Não era um fogo que destruía; era uma luz tão intensa que cegou os soldados do rei e envolveu Adventus em um escudo de calor protetor. A Marca do Sol se esculpia a fogo em sua pele pela primeira vez na história. Ao verem a teofania, os soldados deixaram cair suas lanças e os miseráveis caíram de joelhos. O Deus-Sol fizera sua escolha.
O tempo pareceu acelerar dentro do sonho de Romulus. As imagens saltavam como pergaminhos borrados pelo vento. Ele viu os soldados do tirano debandarem, apavorados pelo poder divino. Viu a multidão enfurecida, agora guiada pela luz de Octavius, marchar até os portões do palácio. O rei tirano foi capturado pelo povo de Aurora Cor enquanto tentava fugir disfarçado. Dias depois, Romulus testemunhou o desfecho definitivo daquele reinado sombrio: no centro da mesma praça onde a luz brotara, diante de milhares de cidadãos, o tirano foi executado na guilhotina, pagando com sangue por cada família que condenara à fome. O Reino de Solisutios deixava oficialmente de existir.
A cena final da visão estabilizou-se. Romulus encontrava-se no grande salão de pedra que vira no início do sonho, mas agora ele estava cheio. Milhares de cidadãos e os rebeldes do porão preenchiam o espaço. No centro, o jovem Octavius permanecia de pé diante do trono de ébano vazio. Seu braço direito ainda exibia a Marca do Sol, curada e imponente.
Adventus adiantou-se na frente da multidão, segurando uma coroa feita de ramos de louros moldados em ouro puro. O general ajoelhou-se diante do oleiro.
— Solisutios ruiu em sua própria podridão — anunciou Adventus, sua voz ecoando por todo o salão. — Mas o povo necessita de um novo pilar. Um governo forjado não pela ambição dinástica, mas pela força de seus cidadãos.
Octavius olhou para as pessoas, depois para a coroa nas mãos do general. Ele inspirou profundamente e deu um passo à frente, sua voz projetando-se com a autoridade de um verdadeiro líder:
— Não seremos mais um reino governado por linhagens egoístas. Esta terra agora pertence aos homens e mulheres que sangraram por ela. Chamar-se-á Potestas, pois este é o Poder do Povo reivindicando o que é seu por direito. E governarei não como vosso rei, mas como o primeiro protetor de nossa ordem. O primeiro Imperator.
Toda a multidão caiu de joelhos no salão de pedra, repetindo o novo nome da nação em um uníssono que fez as paredes tremerem. Compreendendo que seu desejo por uma vida simples havia morrido, Octavius aceitou o fardo, sentando-se no trono enquanto Adventus coroava sua cabeça. Naquele instante, o Império de Potestas havia nascido.
A imagem de Octavius no trono começou a se dissolver em partículas de luz dourada tão intensas que feriram os olhos espirituais de Romulus.
O sonho se desfez. Mais um enigma noturno, e mais uma vez o imperativo de conhecer a si mesmo. Ele lavou o rosto e olhou para o lado de fora, a clepsidra central do quarteirão marcava que ainda estava no início da noite do Requies.
Romulus decidiu sair para respirar e espairecer seus pensamentos, enquanto caminhava pelas ruas de paralelepípedos que refletiam o brilho da lua cheia, ele viu Tullia sentada em um banco de pedra no meio de um gramado florido. Seus olhos cor de mel estavam fixos em um pergaminho, e seus longos cabelos castanhos ondulados estavam soltos, caindo sobre os ombros. Romulus tomou coragem e aproximou-se, reparou pela primeira vez no rosto da moça: seu nariz era fino, os contornos eram delicados e pequenas sardas escuras contrastavam com sua pele branca, típica dos nortenhos.
— Boa noite, Tullia. Posso... sentar?
Tullia deu um pequeno salto no banco e fechou o pergaminho rapidamente.
— Senhor Romulus! — Ela levou a mão ao peito — Que susto!
Romulus hesitou e coçou a nuca.
— Desculpe! Não era minha intenção, eu…
Ele foi interrompido pelo riso da garota:
— Tudo bem, eu estava distraída! Boa noite pra você também! — ela mudou de posição, cedendo um espaço do banco à Romulus — Por favor, sente-se!
Romulus sentou-se, sentiu o frio da pedra e um suave cheiro de flores que o acalmou.
— Você não precisa me chamar de “senhor”. — Romulus sorria sem saber por quê — Desde que cheguei à Primeira todos me chamam de senhor.
— É costume, quando se trabalha como serviçal à tanto tempo, todos são senhores. — Tullia levou uma mecha de cabelo atrás da orelha — Também veio espairecer?
— Sim, não consigo dormir… Acho que bebi muito ashuna durante o dia. — Romulus
— Ashuna? O que é isso? — Tullia franziu a testa
— Ah, é uma bebida quente hikmare que também serve para dar energia! É como chá preto, mas é feito de grão moído ao invés de ervas. — Romulus empolgou-se — Mas pode dar insônia se beber demais.
— Interessante, vou experimentar! Onde você conseguiu? — Tullia balançava os pés
— Em uma taverna no centro da cidade. — Romulus sorriu — Se eu conseguir um pouco do pó, posso te dar!
— Ou talvez você possa me levar lá algum dia. — Tullia o encarou
Romulus emudeceu, sentiu um calor tomar conta de seu rosto. Não era o mesmo calor da Marca, era algo que nunca sentira. Ele tentou buscar por palavras, mas de sua boca saíam apenas engasgos.
A garota cobriu a boca com a mão e riu novamente, não para caçoar de Romulus, parecia rir mais de si mesma.
— Desculpe, não foi algo muito apropriado se de dizer. — Ela tocou o braço enfaixado de Romulus — Mas se você quiser mesmo me convidar, eu não recusaria…
O toque dela, mesmo leve sobre o linho das faixas, fez o coração de Romulus dar um solavanco. Ele respirou fundo, tentando recuperar a fala. Aquela timidez era algo que os sete anos de rigidez na academia militar nunca conseguiram arrancar dele.
— E-Eu vou... quero dizer, eu com certeza vou te convidar — ele finalmente conseguiu articular, arriscando um sorriso mais firme. — Assim que houver uma brecha nos meus deveres.
— É melhor que seja logo — Tullia comentou, recolhendo os pés para o banco e abraçando os próprios joelhos. Seus olhos cor de mel perderam um pouco do brilho divertido, tornando-se acolhedores e curiosos. — Como dama de companhia da Princesa Felicia, acabo ouvindo muita coisa nos corredores do palácio. O que aconteceu na arena de formatura... todos ainda tentam entender o que você fez ali. Dizem que você é diferente, perigoso. Mas quando olho para você agora, não vejo o monstro que os boatos pintam.
Romulus baixou o olhar para as próprias mãos, sentindo o peso do segredo que carregava sob as faixas.
— Nem eu vejo — confessou ele, a voz num sussurro sincero. — Para ser sincero, eu não queria estar aqui. Eu preferia estar na periferia, ajudando meus pais com as carroças de comércio. Uma vida simples, longe de toda essa pressão militar e desses palácios de mármore. Às vezes sinto que não pertenço a este lugar.
Tullia sorriu de canto, um olhar terno e compreensivo. Ela estendeu a mão e, por um breve segundo, tocou os dedos dele.
— Sei como é a sensação. Deixei o Norte de Potestas para viver nesta capital, cercada pela arrogância da corte. Somos duas pessoas comuns de fora desse mundo, tentando encontrar um rumo no meio de gigantes. Mas você veio da periferia e agora caminha entre a elite, vivo e de cabeça erguida. Isso é admirável, Romulus.
Eles permaneceram em silêncio por um longo tempo, apenas ouvindo o farfalhar das folhas e o som distante das patrulhas noturnas regulares da Primeira Legião nas muralhas externas. Pela primeira vez desde o colapso na arena, o calor no peito de Romulus não parecia uma força destrutiva prestes a explodir; era apenas um acalento.
Quando a lua começou a declinar no horizonte, Tullia se levantou, ajeitando o pergaminho contra o peito com cuidado.
— Preciso voltar para os aposentos reais. Se a princesa acordar e notar minha ausência a esta hora, terei sérios problemas. Boa noite, Romulus. Não se esqueça do ashuna.
— Não vou esquecer. Boa noite, Tullia.
Ele a assistiu caminhar apressada pelo gramado florido até desaparecer sob os arcos de pedra que levavam à ala da realeza. Romulus permaneceu no banco por mais alguns instantes, olhando para o céu noturno.
As palavras do Imperator em seu sonho ainda ecoavam em sua mente com força renovada: "Continue forjando o aço, mas também os pergaminhos. Se te mantiveres no ritmo atual, finalmente conhecerás a ti mesmo."
Ele olhou para o braço oculto pelas faixas. A visão havia lhe mostrado a verdade: Potestas nasceram da promessa de ser o poder do povo, e Octavius havia aceitado o fardo da coroa apenas por justiça, não por ambição. Romulus ainda era uma engrenagem confusa e assustada no meio de uma tempestade política que mal compreendia, mas, ao olhar para a direção onde Tullia sumira, sentiu que finalmente tinha um motivo real para querer sobreviver a tudo aquilo.
Com a mente finalmente em paz, ele se levantou do banco de pedra e caminhou de volta para o dormitório, pronto para o que o amanhã trouxesse.
Continua…