ATO 1 — A CALMARIA ANTES DO RASGO
Porto de Solarion — 22:10
Naquela noite, algo já havia começado a morrer na cidade — só elas ainda não sabiam.
A chuva em Solarion transformava a poeira de carvão do porto em uma lama negra grudada nas botas reforçadas de Maira. Sentada no topo de um contêiner, a RB dos Defensores da Luz observava o horizonte com instinto predatório.
— Mais um turno jogado no lixo — rosnou Maira, limpando uma gota de água que escorria pelo nariz. — Eu odeio esse cheiro. Cheira a carniça e cidade morrendo.
— Você reclama demais, Mai. É só água — a voz de Lyra subiu do solo, cortando o véu da chuva. Lyra girava o cajado entre os dedos, faíscas dançando na madeira. — Pelo menos aqui é calmo. Ou prefere ficar no QG preenchendo relatórios?
— Eu só queria uma luta decente — murmurou Maira, a mão fechando-se em um punho que vibrava com a densidade da terra. — Uma que não termine em papelada. Algo que importe mais que o campeonato.
Nami surgiu entre os caixotes de carga, a QB e SS do grupo mantendo os olhos fixos no terminal holográfico em seu pulso, a luz azul refletindo nas lentes de seus óculos táticos.
— Vocês duas têm conceitos perigosamente diferentes de descanso — disse Nami, sua voz soando rápida, técnica, desprovida da leveza que suas companheiras tentavam forçar.
— E você, Nami? — Maira arqueou a sobrancelha, saltando do contêiner e aterrissando na lama sem fazer barulho. — Vai passar a folga calibrando sensores de novo?
Nami hesitou por meio segundo. O brilho do terminal oscilou.
— Se eu não fizer, alguém morre porque um alerta de ruptura atrasou três segundos — disse, como quem já tinha contado os corpos.
— Às vezes eu esqueço... — começou Lyra, mas o resto da frase morreu em sua garganta.
O terminal de Nami explodiu em uma pulsação de luz escarlate. O riso morreu naquele instante.
Maira pousou a palma da mão no asfalto molhado. Seus olhos se estreitaram.
— Tem algo vindo — ela sussurrou, a voz carregada de uma gravidade súbita. — Algo pesado... Como se o chão prendesse a respiração.
— Não é só vibração, Maira. O sensor da Fortaleza acabou de registrar uma ruptura de Nível Crítico no Museu — Nami falou, os dedos dançando sobre o holograma. — Alguém não só entrou; alguém apagou a existência das travas de segurança de titânio. Elias está na linha tática. Quer status agora.
O porto pareceu ficar mais silencioso, como se a própria tempestade estivesse aguardando o primeiro grito.
— Diga ao Capitão que as Defensoras estão prontas — Maira estalou o pescoço, o som lembrando o de pedras se chocando em um desmoronamento. — Deixe que venha.
— Se esse "buraco no mundo" chegar aqui — Nami ajustou as luvas, a água ao redor de seus pés começando a girar em um sentido anti-horário, desafiando a gravidade e as leis da física —, nós vamos fechá-lo com sangue.
Elas não sabiam, mas o "buraco" tinha nome: Korran. E ele já havia deixado trinta homens para trás na Cúpula de Prata. E ele estava a caminho.
ATO 2 — O RASTRO DO EXECUTOR
A Cúpula de Prata — 22:14
O silêncio no museu não foi quebrado; ele foi devorado por uma pressão que fazia os tímpanos dos seguranças sangrarem antes mesmo do primeiro tiro.
Korran atravessou a entrada principal. Ele caminhou contra a porta de titânio. Sob seu toque, o metal se estilhaçou em fragmentos que zuniram pelo saguão.
O primeiro guarda não teve tempo de gritar. Um pedaço de titânio do tamanho de um prato cortou seu torso ao meio, fixando as duas metades na parede de mármore branco.
— CONTATO! — gritou o líder do esquadrão, disparando uma rajada de fuzil de pulso.
Korran não desviou. O braço esquerdo dele ergueu-se, um ímã para o metal ao redor. Placas metálicas deslizaram sobre seu antebraço, formando um escudo. As balas de pulso ricochetearam inutilmente, estilhaçando vitrines de vidro temperado e relíquias milenares.
O Executor cruzou o saguão como se o espaço tivesse encolhido sob seus pés. Quando os guardas perceberam a proximidade, o ar já cheirava a ozônio e morte.
— Atrás de você! — um atirador de elite gritou do balcão superior, disparando uma lança de energia térmica.
O raio perfurou o flanco direito de Korran, derretendo a armadura tática e fazendo o odor acre de carne queimada subir instantaneamente. Korran sequer soltou um gemido. Ele arrancou a haste de energia com a mão nua e a arremessou de volta.
A lança atravessou a luneta do atirador, saindo pela nuca dele e prendendo o cadáver ao teto, onde o sangue pingou no mármore.
Korran chegou ao centro da sala, onde a Obsidiana de Acesso flutuava em um campo de contenção magnética. Sem hesitar, ele mergulhou a mão no campo. A eletricidade azulada começou a cozinhar sua pele, a luva tática evaporando em cinzas. Sua carne fundiu-se ao artefato.
O sistema de segurança finalmente reagiu, liberando um gás paralisante. Korran inspirou o gás e o expeliu como fumaça negra.
— INTRUSO! PARE! — O último guarda, um jovem que mal conseguia segurar a pistola, bloqueava a saída.
Korran não parou. Ele apenas estendeu o braço transformado. O metal se dobrou, alongando-se em uma lâmina serrilhada. Com um movimento horizontal seco, ele cortou não só o guarda, mas as três colunas de mármore de sustentação atrás dele.
O Executor saltou pelo vitral principal. O vitral explodiu enquanto ele caía livre em direção ao asfalto. Ele aterrissou de pé, o impacto criando uma cratera que rachou a rua de ponta a ponta.
No impacto, ele não olhou para trás.
A chuva começou a cair mais forte — como se a cidade soubesse para onde a morte estava caminhando.
ATO 3 — UMA GUERRA NO PORTO
A chuva agora era uma tempestade. A visibilidade era quase nula, exceto pelos relâmpagos verdes que emanavam do cajado de Lyra, iluminando as silhuetas dos contêineres como fantasmas de ferro.
— Ele está aqui — avisou Maira, agachada em posição de combate, as mãos enterradas no asfalto, drenando a força telúrica do solo. — Ele está correndo — quer confronto.
Um som de metal sendo arrastado anunciou a chegada. Korran surgiu da névoa. Sua armadura estava em frangalhos, o olho esquerdo brilhava em um vermelho pulsante e ele carregava o artefato cravado no peito, pulsando como um coração negro.
— Solta isso, lata de lixo! — Maira avançou primeiro.
Ela não deu um soco comum. Ela concentrou a densidade do solo sob seus pés e em seu punho direito. Korran bloqueou com o antebraço metálico. O impacto gerou uma onda de choque que empurrou a chuva para trás. O asfalto sob os pés deles explodiu, transformando-se em poeira.
Korran contra-atacou com uma cabeçada brutal. O capacete reforçado atingiu a testa de Maira, abrindo um corte profundo. O sangue quente escorreu pelos olhos dela, turvando sua visão. Pela primeira vez em sua carreira, a RB sentiu o gosto metálico do medo.
Korran aproveitou a brecha e desferiu uma sequência de três socos no plexo de Maira. Cada golpe soava como martelos batendo em metal, jogando o ar para fora de seus pulmões.
— MAIRA! — Lyra gritou, batendo o cajado no chão.
Raízes monstruosas, reforçadas com runas de endurecimento, irromperam do concreto. Elas agarraram as pernas e o pescoço de Korran, tentando imobilizá-lo. O Executor rugiu, e o metal em seu corpo aqueceu. O calor foi tão intenso que as raízes começaram a carbonizar, mas Lyra não cedeu, queimando sua própria essência espiritual para manter o aperto.
— NAMI, AGORA! — Lyra ordenou, os dentes rangendo enquanto o suor se misturava à chuva.
Nami elevou as mãos. A água do porto convergiu para um único ponto. Ela moldou o líquido em lâminas de alta pressão, finas e letais.
Os fios de água atingiram Korran, cortando as placas restantes de sua armadura e expondo a carne viva por baixo. Em resposta, o Executor concentrou o metal de dois contêineres vizinhos em um único braço massivo.
— PUNHO DE AÇO — a voz de Korran soou como metal sendo triturado.
O disparo não visou as meninas. Visou a torre de controle do porto. A estrutura começou a inclinar perigosamente, ameaçando esmagar dezenas de civis que buscavam abrigo.
— Droga! — Maira limpou o sangue do rosto. — Nami, segura ele! Eu cuido da queda!
Maira saltou, socando a base da torre com um esforço sobre-humano. Pilares de pedra bruta emergiram das profundezas, sustentando as toneladas de aço enquanto os civis fugiam. O esforço fez Maira cair de joelhos, o nariz sangrando pela sobrecarga de mana.
Korran aproveitou a distração. Ele arrancou as raízes de Lyra com força bruta, quebrando os próprios dedos no processo, e avançou. Ele a agarrou pelo pescoço, levantando-a do chão. Os pés de Lyra chutaram o ar inutilmente — e Maira viu o horror nos olhos da companheira.
— Rank... E... — Lyra engasgou. — Você... é Rank E...
— Eu sou o que for necessário para o teste — Korran sibilou.
Nami não hesitou. Ela usou a força do oceano.
— LÁGRIMAS DO ABISMO!
Uma esfera colossal se formou acima dele — e desabou em um feixe devastador. O jato concentrado penetrou pelas brechas da armadura. Ele foi arremessado contra os contêineres, o artefato brilhando uma última vez antes de ser engolido pela névoa.
Algo metálico arranhou o concreto... e então, o silêncio.
Nami caiu exausta. Lyra tossiu, recuperando o ar. Maira aproximou-se, mancando, com o braço esquerdo pendurado inutilmente.
— Ele… caiu? — perguntou Lyra.
— Ele caiu… mas o artefato sumiu — Maira murmurou. — Onde ele caiu… não tem mais nada.
Nenhuma delas percebeu que o silêncio do porto soava como uma armadilha se fechando.
ATO 4 — O RECADO NAS SOMBRAS
Fortaleza dos Defensores — 02:00 AM
Correntes de energia mantinham Korran suspenso no centro da sala de interrogatório, seu peito subindo em respirações lentas e ruidosas.
Elias entrou na sala. O Capitão não gritava; cada passo aumentava a gravidade do ambiente.
— Trinta homens mortos — começou Elias, a voz gélida. — O porto destruído. Minhas iniciadas feridas. Por quê?
Korran levantou a cabeça. O olho cibernético estava apagado, mas o humano brilhava com malícia.
— O artefato está onde deveria estar, Capitão — Korran riu, engasgando sangue. — Eu não fui enviado para roubar a Obsidiana. Eu fui enviado para medir o tempo.
Elias apertou o colarinho de Korran, o ar ao redor começou a estalar.
— Quem te contratou?
— Ele mandou dizer apenas uma coisa — Korran sorriu, expondo dentes quebrados. — "Cedo demais".
Elias soltou-o.
Na enfermaria, Maira tentava esconder o tremor em suas mãos. Ela falhou.
Longe dali, uma presença mudou de direção, atraída pelo pulso do artefato.