ATO 1 — O COLAPSO DA REALIDADE
O silêncio do crepúsculo não apenas cessou; ele foi estilhaçado pelo grito metálico e eletrônico que emanava do bolso de Skam. Ele atendeu antes mesmo que o visor brilhasse por completo.
— Pai?
Do outro lado, o som era uma sinfonia de caos. O uivo de um vento que não deveria existir, o guincho de metal retorcido e um som rítmico, seco, de algo pesado raspando no concreto.
— Filho… a moto… ela parou sozinha. Eu não toquei no freio. O mundo… ele travou.
Skam levantou-se de um salto, o sangue gelando nas veias.
— Do que você está falando? Onde você está?
— Eu bati em algo… algo que não estava lá. O velocímetro zerou sozinho. O GPS perdeu sinal. A rua ficou sem luz por três segundos. O ar ficou denso, Skam. Como se eu tivesse atravessado um muro de vidro invisível. E o cachorro… — a voz dele quebrou, soterrada pelo terror. — Ele foi rasgado ao meio por nada. Não havia ninguém.
O silêncio que se seguiu foi pior que os gritos.
— Pai! Responda!
— Setor industrial. Galpão 12. Vou me esconder. O chão está vibrando, Skam. Como uma máquina enorme ligada debaixo do concreto. O painel da moto apagou sozinho. O relógio travou. Vou trancar a porta do galpão. Tem uma empilhadeira aqui. Se for alguém, eu atropelo.
Um estalo seco ecoou. Metal cedendo como papel. O som de algo imenso sendo arrastado.
— Pai?!
A resposta não foi humana. Foi o som de cristais sendo triturados dentro de um alto-falante em curto-circuito. Um chiado estático que parecia devorar a própria linha telefônica. A ligação caiu, deixando Skam diante de uma tela escura que refletia apenas seu próprio pavor.
ATO 2 — A CONVERGÊNCIA DOS DEFENSORES
No mesmo batimento cardíaco, três dispositivos pulsaram com uma luz escarlate.
Kael estancou no meio do corredor da academia, a brisa ao seu redor tornando-se cortante. Dante levou a mão ao peito, sentindo uma centelha negra serpentear sob sua pele. Aiden fechou os olhos, e o ar ao seu redor cristalizou-se instantaneamente.
A voz de Saren chicoteou nos comunicadores, gélida e urgente:
— Setor 4. Rastro de Entropia confirmado. Civil abatido. Padrão de ancoragem ativa. Isso não é um teste.
Maira, Nami e Lyra, em patrulha nos limites do setor, trocaram olhares de aço.
— Estamos a dois quarteirões. Interceptando agora — Maira comandou, sua voz carregada com a autoridade da própria terra.
As três sombras dispararam, rasgando a névoa industrial.
O portão do galpão fora arrombado de dentro para fora. O chão pulsava, rachado em círculos. No centro, o corpo do entregador. E, ao lado dele, a criatura.
Era uma abominação de geometria impossível. Magra, esguia, com articulações que se dobravam em ângulos que desafiavam a anatomia. Sua pele tinha a textura de concreto queimado fundido a restos ósseos. Onde deveria haver um rosto, existia apenas uma fenda vertical pulsando em um brilho violeta doentio.
— Ela está estabilizando uma fenda — sussurrou Lyra, as mãos já brilhando em verde esmeralda. — Está usando a vibração para ancorar algo pior.
Maira cerrou os punhos, sentindo o peso das placas tectônicas sob seus pés.
— Agora! Formação Delta! — Maira ordenou.
Nami empurrou a criatura para a direita com pressão hidráulica. Lyra prendeu as pernas. Maira saltou mirando a fenda no peito.
A criatura ergueu-se, desnorteada, mas Maira já estava no ar. Ela desceu como um meteoro, um chute carregado atingindo o crânio da abominação. O impacto ecoou pelo galpão. A fenda no peito vibrou em frequência contrária, absorvendo a energia de Maira antes que o corpo fosse lançado contra o solo rachado.
Elas tinham a vantagem. Ou assim pensavam.
O som de vidros estourando simultaneamente em todas as janelas altas do galpão mudou o ritmo da música. Mais três silhuetas idênticas saltaram das sombras, invocadas pelo grito silencioso da primeira.
— Maira, cuidado! — Nami gritou, disparando uma lâmina de água que interceptou uma garra a centímetros do ombro da companheira.
Maira invocou o Impacto de Gaia, seus punhos brilhando em bronze. Ela atingiu a primeira fera com um soco que não apenas quebrou ossos, mas a empalou contra a parede em uma explosão de detritos.
A vitória foi um suspiro; do vácuo deixado pela fera morta, quatro novas silhuetas emergiram em um frenesi de garras.
Uma das feras atacou Nami, que desviou do ataque em um movimento ágil, acertando a criatura com um chute.
Nami cruzou os braços, expandindo-os com um rugido: — LÁGRIMAS DO ABISMO! — O jato de água comprimida atravessou o tórax da criatura, atomizando-a contra o concreto.
Lyra girou no centro do conflito, com firmeza preparou a técnica. VEREDITO VERDE. Folhas e lascas de madeira, afiadas como navalhas de plasma, giraram ao seu redor, retalhando duas feras que saltaram simultaneamente.
— Elas estão drenando o solo! — Lyra gritou, sentindo suas plantas murcharem antes mesmo de florescerem. As criaturas estavam consumindo a energia vital do ambiente para se multiplicarem.
Uma fera saltou sobre a barreira de Nami. A garra atravessou a água e fechou-se no pescoço dela. Seus pés saíram do chão. O ar sumiu. Por dois segundos, seus olhos perderam foco. Maira a interceptou com o antebraço, o impacto da força bruta arrastando a guerreira por três metros no concreto. Elas eram poderosas, mas as ondas eram incessantes.
— Precisamos de reforços! Agora! — Nami rugiu no comunicador enquanto uma garra rasgava o tecido de seu uniforme.
ATO 3 — A QUIMERA DE CONCRETO
O joelho de Maira cedeu por meio segundo. As vinhas de Lyra estavam secas. A água de Nami já não respondia com a mesma pressão.
Uma rajada de vento atravessou o galpão, limpando o campo de visão. Três criaturas foram lançadas contra as vigas do teto.
Kael pousou com a leveza de um falcão, seus olhos brilhando com o poder do vento. Ao seu lado, o chão congelou instantaneamente sob os pés de Aiden, que ergueu uma lâmina de gelo translúcida, empalando duas feras em um movimento único e fluido.
Dante fechou a retaguarda, seus olhos fixos na massa de monstros que ainda emergia.
As criaturas não recuaram. Pararam — e começaram a colapsar umas sobre as outras. Carne de concreto e ossos de obsidiana fundiram-se em uma massa disforme que começou a crescer.
Uma abominação de 2,5 metros ergueu-se. Densa, rápida demais para o tamanho, com placas ósseas sobre concreto pulsante e a fenda violeta ardendo no peito.
Dante avançou primeiro. Ele tentou invocar suas chamas habituais, mas o fogo se apagou como uma vela ao vento. Frustrado e movido pelo instinto, ele agarrou um cano de aço reforçado e desferiu um golpe descendente.
A Quimera nem se esquivou. Ela agarrou o cano com uma mão, esmagando o metal como se fosse papel crepom, e desferiu um soco no plexo solar de Dante, lançando-o através de três paredes de drywall.
— Kael, agora! — Aiden gritou, erguendo uma barreira de gelo para proteger o grupo de uma rajada de energia pura que a criatura disparou pela fenda em seu rosto.
Kael conjurou um tufão para desviar o ataque, mas foi atingido de raspão pela onda de choque, sendo arremessado contra as máquinas pesadas. No desespero para deter o avanço, o gelo de Aiden alastrou-se rápido demais, lacrando a bota de Kael ao solo no exato momento do seu salto.
A Quimera percebeu a vulnerabilidade. Ela saltou com as garras estendidas. Kael quebrou o gelo com uma explosão de ar, mas o movimento foi atrasado por frações de segundo. As garras da fera rasgaram seu abdômen lateral, tingindo o uniforme de escarlate antes de lançá-lo longe. O corte não fechou. O vento ao redor dele falhou por um instante.
ATO 4 — AS CHAMAS DO ABISMO
Ao ver o irmão de armas cair, algo em Dante quebrou.
Ele se levantou dos escombros, Maira deu um passo atrás. Aquilo não parecia apenas poder. Parecia ruptura. As chamas que começaram a serpentear por seus braços não eram laranjas ou vermelhas. Eram negras, densas, com uma borda de luz branca fria.
A Quimera estancou. Pela primeira vez, a abominação hesitou. Ela não via mais uma presa; via um predador maior.
A criatura atacou com desespero, mas as chamas negras o defenderam antes mesmo que ele pensasse. Maira, percebendo a brecha, invocou um pedregulho do tamanho de um carro e o arremessou, esmagando o ombro da fera. Lyra e Nami saltaram em um ataque combinado, um chute lateral e uma voadora que fizeram a Quimera dobrar os joelhos sob a força do impacto.
Dante estendeu a mão.
— LANÇA ESTELAR!
O feixe de fogo negro atravessou o galpão, atingindo a Quimera em cheio. A explosão de energia foi tão violenta que o recuo lançou Lyra e Nami para trás, ferindo-as no processo. Lyra caiu de joelhos, cuspindo sangue, o corpo sobrecarregado pela radiação daquele fogo estranho.
Dante tentou conter o poder, mas as chamas negras lamberam o ar de forma descontrolada, forçando Aiden e Maira a erguerem barreiras de gelo e pedra para não serem consumidos pelo próprio aliado. Quando o fogo finalmente se extinguiu, Dante colapsou, inconsciente. O concreto sob ele ainda fumegava.
ATO 5 — O ÚLTIMO SUSPIRO DA TERRA
O silêncio durou apenas um segundo.
Dos destroços fumegantes da Lança Estelar, a Quimera ergueu-se novamente. Estava mutilada, com metade do corpo carbonizada, mas sua fúria era agora absoluta. Com Dante fora e Lyra ferida, o fardo caiu sobre os ombros dos restantes.
A fera saltou para o golpe final, mas Nami a interceptou com um jato de água tão potente que desviou sua trajetória no ar. Maira golpeou o solo, criando um pilar de pedra que atingiu o estômago da criatura, lançando-a para cima.
Kael, segurando o ferimento no flanco com uma mão e canalizando o poder com a outra, rugiu:
— TUFÃO ASCENDENTE!
Um tornado poderoso lançou a Quimera contra a parede de concreto armado, prendendo-a pela pressão atmosférica. Maira ancorou o solo. Nami reduziu o atrito com água sob pressão.
Aiden usou a trajetória criada por eles, saltou, concentrando cada grama de sua energia em um único ponto.
— ESFERA GLACIAL!
A orbe atingiu o núcleo. O gelo expandiu-se em um domo absoluto. O corpo da Quimera começou a se fragmentar sob o gelo. No centro de seu peito, o núcleo carmesim pulsou uma última vez.
Tum.
O solo do setor industrial inteiro vibrou em agonia. Sirenes começaram a ecoar ao longe. Transformadores explodiram. Três quarteirões ficaram sem energia. O núcleo não quebrou; ele afundou na fenda do chão, desaparecendo na escuridão profunda antes que pudessem contê-lo.
O galpão ficou em silêncio, exceto pelo som da respiração pesada dos seis guerreiros. Eles estavam vivos. Por enquanto.
Maira olhou para suas mãos trêmulas. O silêncio que se seguiu não era de paz. O chão havia parado de tremer. O mundo, não.