ATO 1 — O QUE NÃO SE AJUSTA
Os treinos de futebol americano seguiram nos dias seguintes. Nada fora do normal. Só Lukas já não encaixava como antes. Fazia tudo certo: postura firme, reação no tempo, base alinhada.
— Perfeito — Dante disse depois de um bloqueio na linha. — Técnica limpa.
Lukas só assentiu, puxando o ar sem perder a forma.
Na jogada seguinte, repetiu o que o esquema pedia. Leu a abertura, fechou a lacuna interna, ocupou o ponto certo. Mas, quando girou o quadril para fechar o lance, o jogo já tinha andado dois metros à frente.
Na repetição seguinte, o mesmo atraso. Depois, de novo. Lukas não errava a formação. Só chegava fora do tempo deles.
O vento bateu seco no gramado. Ele sentiu o corpo responder um instante depois da cabeça. Como se algo tivesse saído do eixo.
No intervalo, sentou no banco de concreto e tirou o capacete. As mãos estavam firmes. A respiração, controlada. Nada parecia quebrado.
— Você tá bem? — Sophia perguntou, sem tirar os olhos da prancheta digital.
— Tô — respondeu, sem muita força.
Ela olhou por um instante antes de dizer, baixo:
— Eles têm sumido bastante.
Lukas encarou o campo vazio.
— Eu sei.
— Horas inteiras — disse ela. — Às vezes, metade do período.
Ele não respondeu. Era isso que incomodava de verdade. Não era o treino. Não era o desempenho. Era o silêncio.
Lukas apertou o capacete entre os dedos.
— Eu não errei a rota — pensou.
E, pela primeira vez, isso não trouxe alívio.
No treino seguinte, o exercício tático subiu de nível sem aviso.
No pavilhão, Nami tomou a frente.
— Sem travas. Leitura primeiro, reação depois.
Lukas entrou na linha de defesa e fez tudo certo. Leu a abertura, fechou o espaço, chegou no ponto exato.
Só que o campo já tinha andado.
Kael rompeu a linha antes da hora. Dante vinha logo atrás. O ar se dobrou com os dois, pesado, quente, rápido demais.
Lukas chegou no lugar certo.
Mas um instante tarde demais.
Dante passou tão perto de Lyra que ela sentiu o impacto no ar. Ela ergueu uma barreira de natureza por reflexo, mas o glifo rachou no meio e voltou em seguida.
Foi só uma fração.
Mas bastou.
— Interrompe! — Nami gritou.
O treino parou.
Lyra respirava fundo, intacta, mas com o corpo ainda tenso. Dante já estava ao lado dela.
— Tá bem? — ele perguntou, baixo.
— Tô. — Ela ajeitou a farda, sem olhar para ele por muito tempo. — Foi perto demais.
Lukas ficou parado onde estava.
Viu tudo.
Viu o espaço que devia ter fechado.
Viu o segundo que faltou.
Se ele tivesse chegado antes, Lyra não teria sentido o golpe.
Ele sabia disso.
E foi isso que doeu.
— Baixa pra setenta por cento — disse Aiden. — Já deu.
O som da jogada seguinte demorou meio segundo a alcançar Lukas.
Ninguém contestou.
Lukas sentiu a ordem bater no peito como uma confirmação cruel.
Era pior que raiva.
ATO 2 — O QUE FICA PARA TRÁS
A ala oeste da academia estava quieta demais naquela tarde. Não pelo som, mas porque quase ninguém se movia.
As aulas teóricas seguiam nos blocos secundários. No pavilhão principal, os Despertos estavam espalhados em silêncio, cada um lidando com a espera do próprio jeito.
Maira mantinha os pés firmes no chão, como se quisesse sentir o que ele escondia. Lyra estava sentada num banco, os olhos fechados, a respiração controlada demais para parecer natural. Nami observava a água num recipiente de teste; a superfície tremia em pequenos pulsos antes de voltar ao normal.
Kael andava de um lado para o outro sem parar. Dante testava pequenas faíscas na palma da mão. Aiden mantinha o corpo fechado, rígido, como se qualquer movimento a mais pudesse abrir alguma coisa errada.
Ryu estava encostado na parede, quieto. Olhando tudo. Mapeando cada um.
O silêncio se estendeu.
Até que Lukas falou:
— Vocês sempre fazem isso, né?
Os outros olharam para ele.
— Isso o quê? — Kael perguntou.
Lukas ergueu o queixo, sem perder a calma.
— Sumir. Ficar horas fora. Voltar diferente. Sem explicar nada. Sem dizer onde foram. Sem dizer o que estavam fazendo.
Ninguém respondeu.
Lukas deu um passo à frente.
— Eu treino no mesmo horário. Faço tudo certo. Não falho com ninguém. E mesmo assim sempre fico de fora. Sempre recebo a última parte da história.
Maira abriu a boca, mas ele ergueu a mão antes que ela falasse.
— Não me venham com resposta pronta. Eu tô vendo o que vocês fazem. Saem da malha. Voltam mais fortes, mais rápidos. Como se estivessem sempre um passo à frente do resto da academia. E eu fico aqui, tentando encaixar peça que ninguém quer mostrar.
Ele respirou fundo.
— Eu não vou mais esperar o Conselho nem vocês me darem as respostas. Vou descobrir sozinho.
Ninguém respondeu.
Nem Ryu.
Nem Dante.
Nem mesmo Lyra.
Maira abaixou os olhos antes de terminar a frase que nunca chegou a dizer.
Lukas esperou.
Um segundo.
Dois.
Quando percebeu que o silêncio era a única resposta, virou as costas e saiu do pavilhão.
ATO 3 — A PRESSÃO QUE SE ORGANIZA
Reno observava o pátio central de Solarion em silêncio.
Ao redor dele, os Sete ocupavam o espaço com a naturalidade de quem já havia se acostumado à nova posição.
Violet analisava dados no terminal portátil.
Craven ajustava a braçadeira.
Nirse observava o movimento dos estudantes.
Daryl mantinha um sorriso discreto.
Ilia parecia entediado.
Só Skam permanecia inquieto.
O olhar dele não acompanhava o campus. Permanecia preso aos corredores do bloco cirúrgico, como se esperasse alguma coisa.
— Teve uma oscilação térmica ontem à noite — murmurou.
Reno nem desviou os olhos.
— Você anda vendo coisa demais.
Na mesma hora, a iluminação do pátio oscilou.
Uma vez.
Depois outra.
Skam apenas observou.
Guardou o detalhe.
Do outro lado da avenida perimetral, dois homens acompanhavam a academia sem chamar atenção.
Roupas comuns.
Postura comum.
Olhares atentos demais.
Korran estava encostado em um carro cinza.
Klyrion analisava um aparelho portátil.
— O grupo já sentiu o vazio — disse Korran.
Klyrion deslizou o dedo pela tela.
— O aluno número treze voltou às atividades.
— Melhor.
Korran sorriu discretamente.
— Então já podemos mover a próxima peça.
Os dois atravessaram a avenida sem pressa.
Interceptaram os Sete Rivais perto do estacionamento do Bloco D, onde o ruído da avenida abafava qualquer conversa.
— Vocês são os líderes desse grupo? — perguntou Korran.
Reno mediu os dois por alguns segundos.
— Depende da pergunta.
— Chegou até nós a notícia de que o número treze voltou.
Skam deu um passo à frente.
— De onde vocês tiraram essa informação?
— Da rede da área médica.
Korran respondeu sem hesitar.
— Informação interessante... principalmente para quem pretende descobrir qual grupo realmente merece ocupar o topo da academia.
Reno cruzou os braços.
— Qual é o objetivo?
Korran sorriu de leve.
— Existe uma área industrial desativada no quadrante sul. Fora do alcance do Conselho. Sem monitoramento. Sem interferência.
Fez uma breve pausa.
— Um lugar perfeito para resolver uma disputa que a academia inteira já começou a comentar.
Skam olhou para Reno.
— Você quer que a gente desafie os Dez.
— Eu? — Korran arqueou uma sobrancelha. — Achei que vocês já estivessem pensando nisso.
O silêncio caiu entre os Sete.
Nirse cruzou os braços.
— Isso está parecendo armadilha.
Violet ampliou um mapa na tela.
— Se eles souberem do lugar antes da gente, chegam preparados.
Ilia soltou um riso curto.
— E, se não souberem, talvez nem apareçam.
Klyrion falou pela primeira vez.
— Então façam parecer que a ideia foi deles.
Todos olharam para ele.
— Vocês conhecem os Dez melhor do que nós.
Korran completou:
— Façam um convite que eles não consigam recusar.
Reno permaneceu em silêncio.
Os olhos passaram lentamente pelos próprios companheiros.
Depois voltaram para Korran.
— E o que vocês ganham com isso?
O sorriso de Korran quase desapareceu.
— Nada.
Uma pausa.
— Além da resposta para uma curiosidade.
Reno sustentou o olhar por alguns segundos.
— Se isso for uma armadilha...
— Então vocês terão a oportunidade de provar que realmente merecem o lugar que ocupam.
Reno demorou três segundos para responder.
— Vamos marcar o encontro.
ATO 4 — A OFENSIVA COMEÇA
O galpão estava quieto demais.
Ferrugem. Vidros quebrados. Eco.
Os Dez entraram em formação.
Ryu à frente.
Recuperado quase por completo. Firme. Alerta. Sem sinal de fragilidade.
— Isso é armadilha — murmurou Aiden.
— Sempre é — respondeu Dante, com o fogo já subindo.
O ar mudou.
Korran saiu primeiro das sombras, como se aquilo fosse uma recepção marcada.
— Bom ver vocês de novo — disse. — Principalmente você, Ryu.
Ryu avançou um passo.
— A gente se conhece?
— Ainda não do jeito certo — disse Korran. — Mas vai.
Klyrion surgiu pelo flanco. A aura dele pesou no ambiente. O chão estalou.
— Vocês cresceram — disse ele. — Ótimo.
Kael sentiu o vento travar.
Nami sentiu a água resistir.
Lukas estreitou os olhos.
— Tem mais — murmurou.
Korran sorriu.
— Tem.
Ergueu a mão.
— Trouxemos um velho conhecido.
O chão tremeu.
Rachaduras se abriram.
Calor explodiu.
Do centro da fissura, o Guerreiro de Lava emergiu.
O metal do galpão gemeu sob o peso da criatura. O ar ficou sufocante.
Dante sentiu o fogo reagir.
Não em obediência.
Em reconhecimento.
— Não… — ele murmurou.
O Guerreiro inclinou a cabeça.
— Finalmente — disse, com voz de pedra derretida. — Um campo digno.
ATO FINAL — PUNHO DE AÇO
As três armaduras subiram quase ao mesmo tempo.
O metal espiritual cobriu Korran.
A armadura de Klyrion fechou o corpo em linhas cortantes.
A do Guerreiro de Lava queimou em camadas incandescentes.
Korran fechou o punho direito.
O metal girou.
As engrenagens travaram.
A pressão foi toda para um ponto só.
Lukas viu antes.
Não o golpe. O fim.
O impacto já estava pronto, como se o mundo tivesse adiantado um passo.
Ele se moveu.
Perfeito. Preciso.
Tarde.
Ele soube antes de olhar quem não ia conseguir acompanhar.
O mundo já tinha esmagado a janela.
Ele reconheceu o padrão antes de admitir o nome.
— Desta vez — disse Korran — não viemos testar.
O Punho de Aço girou mais uma vez.
Os ecos dos Despertos vieram juntos.
Tarde demais.
O chão respondeu errado.
Não cedeu. Travou. O som veio depois.
O impacto bateu num vazio da fundação.
Não era para acontecer assim.
Lyra perdeu o equilíbrio meio passo para trás. A bota raspou na pedra.
— Lyra!
A barreira subiu torta. Quebrou antes de nascer.
— Não deu tempo.
O glifo de contenção saiu desalinhado.
Tremeu. Quebrou o eixo. Falhou.
— Vamos quebrar.
O punho desceu como sentença.
Os refletores estouraram juntos.
O ar partiu primeiro.
A luz rachou.
Desta vez, não havia correção.
Porque o erro não estava mais neles.
Ele não queria estar certo. Mas estava mesmo assim.
Lukas sabia quem ia cair.