ATO 1 - A ENTREGA
A noite ficou para trás. O frio, não.
O veículo tático rasgava a estrada de terra, cuspindo cascalho no escuro. O nevoeiro era tão denso que os faróis batiam na parede branca e voltavam, cegando o vidro por instantes. Na cabine, ninguém falava.
O ar estava pesado de sangue pisado, suor frio e ozônio queimado do galpão.
No banco traseiro, Nami mantinha a mão prensada contra a têmpora de Lyra. A cura oscilava, fraca, sem dar conta. Lyra respirava em espasmos curtos, os dentes travados para não deixar escapar a dor das costelas.
Kael encarava o vidro embaçado sem ver a estrada. Repetia o galpão na cabeça, preso no segundo exato em que hesitou.
Aiden estava escorado no canto oposto, o braço esquerdo preso numa camada fina de gelo já derretendo. Contava a perda nos dedos.
Dante apertava o joelho esquerdo como se pudesse segurar o tremor no osso. A chama sob a pele mal ardia. Recolhida. Humilhada.
No centro de tudo, Lukas olhava para as próprias mãos.
As rachaduras do concreto não estavam ali. Mas o antebraço ainda vibrava no ritmo daquele bloqueio feito sem pensar. O corpo lembrava. A mente queria apagar. Não conseguia.
O portão de ferro da Solarion surgiu do nevoeiro como uma guilhotina.
Alto. Maciço. Sem emendas.
Os feixes vermelhos correram pela lataria, leram as assinaturas biológicas e destravaram os trincos com um estalo seco.
A fortaleza não os recebeu.
Engoliu.
Quando o motor morreu no subnível fortificado, ninguém se mexeu de imediato.
Ali, até respirar parecia um erro.
ATO 2 - A COR DE UM PROTOCOLO
O cheiro de antisséptico industrial e metal quente marcou o fim da linha de frente.
A ala de triagem avançada da Solarion não parecia hospital nem centro de treinamento. Era fria. Branca. Fechada demais. Feita para conter coisas que nenhum manual sabia nomear.
Assim que as portas correram, Lyra foi para a maca. Oxigênio. Pressa. Nami ficou ao lado dela, mão firme na cura, mas sem conseguir dar conta da dor. Maira assumiu o lado oposto, seca, direta, soltando ordens curtas para os enfermeiros. Atrás delas, os monitores rúnicos começaram a apitar fora de ritmo. Lukas não entendia os gráficos. Entendia o perigo.
Sophia sentou numa cadeira de metal presa à parede. As telas não faziam sentido para ela, mas o corpo fazia o resto. Cada alerta fazia sua espinha endurecer. Ela sabia que não pertencia àquele lugar. Mesmo assim, ficou. Precisava ver onde aquilo terminava.
Dois agentes blindados cortaram o corredor com terminais portáteis nas mãos.
— Vocês ficam no perímetro desta ala — disse um deles. — Vamos iniciar a avaliação de exposição.
Kael ergueu o queixo.
— Exposição a quê?
— Ambiente instável de classe quatro.
Dante deu um passo à frente, a bandagem no tórax cedendo.
— Isso não foi exposição. Foi ataque. Invadiram nosso quadrante e arrastaram uma das nossas.
O agente nem olhou para ele. Digitou algo no terminal.
— Registrado como dano colateral no relatório civil.
A resposta encerrou a conversa.
Lukas encostou a nuca na parede fria, os dedos enterrados nos bolsos. Sempre que fechava os olhos, a cena voltava: o punho de Vor'Gath quebrando o chão, Klyrion arrastando Jessica para a sombra, o choque atravessando o próprio braço. O antebraço ainda parecia quente por dentro. O corpo lembrava. A cabeça não queria.
Ele encarou o agente mais próximo.
— Eles podiam ter matado a Lyra — disse, baixo. — A diretoria vai mandar um esquadrão de caça ou vai deixar o resto do time virar parágrafo de relatório?
O homem o mediu por três segundos.
— O comando superior já está operando os protocolos padrão: contenção de perímetro, análise de espectro energético e monitoramento contínuo da área.
Lukas sentiu o gosto amargo de virar número de protocolo. Para a direção, o sangue deles era só mais um registro.
A porta principal abriu com um clique seco. Astraim entrou.
A sala mudou na hora. Os agentes endireitaram os ombros. Os médicos aceleraram o passo. Não foi voz. Foi presença.
— Prioridade absoluta: estabilização do núcleo rúnico dos sobreviventes — disse Astraim à equipe médica, os olhos cinzentos passando pelas marcas de queimadura nos uniformes. — Depois cuidamos do resto. Vocês estão em área segura.
Seguro.
Ninguém ali comprou essa palavra.
Ryu estava perto da janela de observação do quarto de Lyra. Não havia saído dali desde que chegaram. A mão esquerda cobria o rosto, mas os dedos tremiam. Jessica não estava ali. O espaço vazio que ela deixou parecia maior que o corredor.
Astraim parou a dois metros dele.
— Libere o corredor de acesso, Ryu. Vá descansar.
— Não.
A voz saiu reta. Cansada. Firme.
— O quadro biológico da Lyra estabilizou — insistiu Astraim.
Ryu soltou uma risada curta, seca.
— No idioma de vocês, “estável” quer dizer que ela ainda está respirando enquanto o senhor assina os memorandos da semana.
— Quer dizer que o colapso do núcleo foi contido — Astraim corrigiu. — O que já é mais do que a maioria dos recrutas consegue depois de um choque direto com a elite dos Rivais. Aceite o diagnóstico e saia da linha de passagem.
Ryu virou devagar.
— E a Jessica?
A pergunta caiu pesado.
Astraim demorou uma fração a mais para responder.
— Nossos esquadrões de varredura estão mapeando os quadrantes industriais periféricos.
Ryu fechou os olhos. Tempo perdido. Era isso.
— Ela estava sob minha cobertura — murmurou. — Eu garanti que o perímetro estava limpo.
Astraim não ofereceu conforto.
— Promessas não valem nada quando o tabuleiro muda sem aviso, quarterback. E o mundo deles avançou mais rápido do que a nossa inteligência previu. Aceite a perda e prepare-se para a brifagem.
O silêncio voltou a esmagar o corredor. Ryu não rebateu. Só guardou tudo por dentro.
Atrás deles, Sophia observava cada detalhe. Viu a rigidez no olhar de Ryu. Viu as meias-verdades de Astraim. Viu o grupo inteiro sendo tratado como equipamento que precisa ser recalibrado, não como gente que sobreviveu a um massacre.
E pensou, com um nó na garganta:
Se tivessem me levado no lugar dela… a Solarion estaria movendo tudo isso para me buscar?
A diretoria sabia exatamente quem era o inimigo.
E estava escolhendo a resposta pelo valor de cada peça.
ATO 3 - A REUNIÃO DOS EXPULSOS
Dante olhava para a caneca de metal como se ela ainda devesse algo ao galpão. O café estava frio. Mesmo assim, ele apertava o alumínio com força, como se pudesse arrancar algum calor dali.
Kael girava a colher no copo de plástico. O ruído fino arranhando o acrílico já era quase irritante demais para a sala suportar. Aiden não falava. Só encarava a mesa, fechado, duro.
Lukas entrou por último. Sentou.
Ninguém comentou.
— Então? — Kael perguntou.
— Nada que preste — Dante respondeu.
Aiden soltou o ar pelo nariz.
— Contenção. Reforço de guarda. Setor selado. Nada sobre atravessar a linha pra caçar o Klyrion.
Kael soltou uma risada curta, sem humor.
— Ótimo. Esperam a poeira baixar.
— E se eles estiverem esperando justamente isso? — Lukas perguntou, sem tirar os olhos da mesa. — Quanto mais tempo passa, mais vantagem eles têm.
Dante ergueu a cabeça na hora.
— Enquanto levam a Jessica.
Dante apertou a caneca até o metal estalar.
— Se ninguém sair atrás dela hoje... amanhã pode não existir mais um rastro para seguir.
O silêncio caiu mais pesado.
Lukas apoiou os cotovelos na mesa.
— Se eles já sabem quem fez aquilo, por que a gente ainda tá aqui dentro?
Kael abriu a boca, fechou. Olhou para Dante antes de responder.
— Porque talvez não tenha sido só um sequestro.
— Não fala isso como se fosse dúvida — Dante cortou.
Kael sustentou o olhar dele.
— Invadiram o território, mediram a reação e arrancaram uma civil da formação. Isso é ataque.
— Eles podiam ter matado a Lyra e o Ryu — disse Aiden. — Não mataram. O gigante parou quando o Korran mandou. Eles vieram medir a gente. Levar a Jessica foi escolha.
Dante ficou imóvel por um segundo.
Depois empurrou a caneca de volta para a mesa.
— E a nossa função agora é o quê? Esperar?
Aiden respondeu.
— A nossa função agora é cooperar com a investigação. Se a gente sair agora, faz exatamente o jogo deles.
— Então a gente simplesmente aceita? — Dante rebateu.
Kael passou a mão pelo rosto antes de responder.
— Não.
— Mas sair correndo sem saber para onde é entregar mais um corpo para eles.
A palavra bateu errado.
Lukas sentiu isso no mesmo instante. Não era estratégia. Era contenção. Era alguém mandando eles engolirem a própria raiva.
— O problema não é esperar.
— É perceber que ninguém aqui acredita que ainda dá para trazer a Jessica de volta.
Ninguém respondeu.
Não porque discordasse.
Porque ninguém tinha coragem de dizer que ele talvez estivesse certo.
Dante tentou se levantar. Parou no meio do movimento. O peito ainda doía do soco de Korran.
— Ninguém foi — disse, entre os dentes. — Mas é o que temos.
A porta abriu com um estalo seco de trava magnética.
Saren apareceu.
Sem expressão. Sem demora.
— O tempo de triagem acabou. Sala de brifagem central. O diretor está esperando.
Ninguém respondeu.
Ninguém discutiu.
Só se levantaram.
Porque ficar ali, naquele silêncio, parecia pior do que ouvir qualquer resposta.
ATO 4 - PORTAS QUE NÃO ABREM
Mais tarde, na virada do turno, o corredor do subnível três estava quase vazio.
Lukas andava devagar. Os passos sumiam no piso emborrachado. Ele seguia as linhas táticas na parede sem ver nada de fato. Precisava se mover. Parado, o antebraço esquerdo voltava a queimar.
Ele parou diante de uma porta blindada.
Sem placa. Sem visor. Sem terminal.
Só aço escuro encaixado no concreto.
Alguma coisa reagiu no peito dele. Fraca. Quase memória. Um arrepio subiu pela nuca.
Lukas encostou os dedos na chapa.
Frio artificial.
Não era o frio do corredor. Era o frio de máquina fechada. De coisa viva lá dentro.
Ele prendeu a respiração.
Não veio som. Não veio luz.
Só uma pulsação.
Baixa. Regular. Como um coração batendo atrás de metros de blindagem.
A frequência bateu de frente com a estática que ainda corria nas veias dele desde Vor'Gath.
Lukas recuou um passo.
Sem prova. Sem explicação. Só a certeza de que alguma coisa ali guardava a verdade sobre ele.
— Você devia estar no alojamento médico — disse Sophia, atrás dele.
Lukas virou o rosto devagar. Ela estava a poucos passos, braços cruzados.
— Todo mundo devia estar em algum lugar seguro agora — respondeu. — Mas ninguém sabe onde isso fica.
Sophia chegou ao lado dele e olhou a porta.
— Você acha mesmo que vão trazer a Jessica de volta?
Lukas demorou.
— Acho que vão calcular o custo do resgate — disse. — E fazer só o que for conveniente para a direção.
Sophia engoliu seco.
Era isso.
Ali dentro, pessoas viravam ativos. E ativo perdido só voltava se desse lucro.
O corredor voltou ao silêncio.
Então a porta blindada respondeu.
Um pulso curto. Quase nada. Mas veio de dentro.
Lukas não percebeu.
Lá embaixo, o sistema registrou a assinatura dele.
E aceitou o sinal.