A primavera havia chegado ao Condado de Montclair. Pelo menos era o que todos diziam. As empregadas andavam em círculos sem parar, carregando pilhas de tarefas. Tudo acontecia de forma corrida nas manhãs. Abriram as janelas do meu quarto, deixando que o doce aroma das flores invadisse o ambiente. Inspiro e expiro algumas vezes, tentando manter a calma.
O que acabara de acontecer?
Com certeza foi um pesadelo. Mas… parecia tão real. Quem era aquele por quem eu chorava? Sinto uma estranha sensação ao pensar nisso, como se eu fosse vê-lo… novamente. De repente, um calafrio percorreu meu corpo. Não era um frio comum, daqueles que desaparecem quando nos aquecemos. Não. Aquele frio começava no peito, profundo, como se pudesse congelar meu coração.
Por um segundo, lembrei-me de algo no suposto pesadelo. Sentei-me na beira da cama, olhando fixamente para minhas mãos. Elas pareciam tão… pequenas. Girei meus pulsos algumas vezes, como se esperasse que crescessem magicamente. Levantei-me e fui até o grande espelho no centro do quarto.
Meu corpo paralisou por um instante. Oito anos? Eu realmente era tão pequena? Olhei para meus longos cabelos castanhos caindo sobre meus ombros e meus olhos verdes esmeralda, intensos e avassaladores, capazes de prender qualquer olhar. Mas, por algum motivo, parecia… errado.
— Isso não pode ser real… — murmurei.
Mas uma voz dentro da minha alma insistia: isso é real. Como se fosse algo que eu já soubesse, mesmo que parecesse errado. Não era um sonho comum. Sonhos mudam de forma e lógica. Aquilo parecia sólido demais para ser apenas imaginação.
A porta se abriu sem aviso.
— Senhorita Arianna, o Conde Edwin a aguarda. — disse a empregada.
Ela me observava como se eu fosse um intruso, uma criatura deslocada, estranha ao lugar. Assenti e a segui em silêncio pelos corredores do palácio. O mármore frio sob meus pés não me incomodava. Era quase… familiar. Sabia onde virar antes de olhar. Sabia quais tábuas rangiam levemente. Sabia onde o eco mudava de tom. Como se já tivesse caminhado ali muitas vezes. Mais vezes do que deveria. Uma sensação constante de que algo estava errado me perseguia.
Enfim, cheguei ao salão principal. O Conde Edwin, meu pai, estava em pé, impecável e distante, como sempre. Nem sequer esboçou um sorriso. Logo se voltou para mim, me fitando por um instante, como se ponderasse algo.
— Arianna — disse, sem qualquer inflexão de afeto. — Sua irmã tem se destacado nas lições. Lily tem se dedicado a atividades extracurriculares e encanta muitos nobres em eventos e bailes imperiais com sua etiqueta. Creio que logo encontrará um pretendente à sua altura. Por que não a toma como exemplo e já começa seus preparativos?
Meu maxilar endureceu. Lily. Sempre Lily. Minha irmã mais velha era tudo o que esperavam de uma filha nobre: gentil, graciosa, perfeita para salões iluminados. A galinha de ovos de ouro do conde. Permaneci em silêncio por um instante e, então, ergui o queixo.
— Talvez Lily também devesse estar a par dos assuntos do condado. Além disso, não acha que é muito cedo para que eu pense em casamento?
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Assuntos do condado não são apropriados para jovens da sua idade.
— Então talvez eu não seja tão infantil quanto pensam.
As palavras saíram antes que eu pudesse contê-las. Seus olhos me analisaram, não com raiva, mas com curiosidade. E aquilo me incomodou mais do que qualquer repreensão.
— Sua língua ainda será um problema, Arianna.
— Ou poderá ser útil. Mais útil que Lily.
Não sei por que disse aquilo. Saiu de forma natural, sem perceber. Mas, no fundo, eu sabia. Sabia que não estavam me moldando para brilhar em salões como minha irmã. Estavam me preparando para algo maior… ou mais perigoso. Afinal, não é como se o conde não desejasse mais poder. Suas filhas eram apenas peças em seu jogo.
Naquela noite, após a longa conversa, sonhei. Neve. Branca. Silenciosa. Infinita. Uma presença estranha, quase desconfortável, ao meu lado. Não via o rosto, mas ouvi uma voz familiar, baixa, cansada, quase como um suspiro lento:
“Ari.”
Acordei de repente, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Como na noite anterior… e na anterior também. Todos os dias, aquela voz parecia chamar-me para um abismo profundo. Aquele apelido me irritava… mas também… doía.
Os anos passaram rápido. Cada dia naquela casa parecia um inferno. Eu até tentei escapar uma ou duas vezes. Mas era como se meu destino já estivesse escrito, porque sempre que eu estava quase lá, algo acontecia. E minha adorável irmã era a principal culpada disso. Ela andava sempre em minha cola, como uma espiã procurando meus erros para me denunciar. E assim minha vida se passou.
Aos dez anos, comecei a ouvir conversas atrás de portas fechadas. Aos doze, compreendia acordos e disputas melhor do que muitos adultos. Aos quatorze, ouvi pela primeira vez o nome Blackmoor sendo mencionado em tom cuidadoso. Cada vez que ouvia, sentia frio e um aperto inexplicável no peito.
Lily florescia. Recebia elogios, convites, flores. Propostas de casamento surgiam. Mas nada disso saciava a sede de poder do nosso pai. Ele queria mais e mais, e eu podia ver que até a galinha dos ovos de ouro estava cansada de tentar corresponder às suas expectativas incansavelmente.
Já eu recebia olhares avaliadores, livros, mapas e silêncios. Os nobres me viam mais como uma peça política do que como uma dama. O oposto total da minha irmã.
Na primavera do meu décimo sexto aniversário, o Conde Edwin me chamou novamente ao salão principal. Naquele mesmo salão de oito anos atrás, onde tivemos a conversa que definiu meu destino. Uma conversa que selou que eu só estaria livre quando ele conseguisse o que tanto almejava. Poder. E eu já sabia o que significava quando ele usava aquele tom formal e definitivo.
— Está na hora, Arianna.
Meu coração não acelerou. Não houve surpresa, eu já esperava por isso. Estava na “flor da idade”. Apenas aquela sensação estranha me atormentava… como se eu já tivesse vivido aquele momento antes.
— Seu noivado foi decidido, minha filha. Depois de analisar as melhores opções e receber algumas propostas, finalmente encontramos o prometido ideal para você.
Respirei fundo. — Com quem?
Ele sustentou meu olhar.
— Com o Duque do Norte. Isken Arkwyn Blackmoor.
O nome ecoou dentro de mim. Meu estômago se revirou. Blackmoor. O impiedoso duque do Norte. Aquele que todos temem só de olhar. E, pela primeira vez desde que acordei aos oito anos… eu soube. O frio não era sobre o inverno. Era sobre ele.