A manhã do dia do noivado amanheceu clara demais, quase cruelmente luminosa. A luz se infiltrava pelas janelas do quarto como se quisesse iluminar cada pensamento, cada ansiedade que carregava comigo.
As criadas corriam de um lado para outro, trazendo jóias, tecidos e penteados como se preparassem uma cerimônia que não celebrava amor, mas poder. No centro da cama, dobrado com perfeição, repousava meu vestido vermelho flamejante. Cada fio parecia capturar a luz e transformá-la em fogo. Um fogo que não aquecia. Um fogo que chamava atenção.
Toquei o tecido. Pesado, luxuoso, magnífico… e esmagador. Não era apenas um vestido. Era um símbolo. Um aviso silencioso ao mundo: ela está aqui, e deve ser notada.
— Senhorita Arianna… — murmurou uma das criadas, ajustando delicadamente meu espartilho. — Suas mãos tremem.
Eu não estava nervosa. Tremia porque sabia exatamente para onde estava sendo levada.
O espelho refletia uma jovem que parecia amadurecida além da idade. Meu cabelo castanho estava preso em partes, mechas caindo suavemente sobre os ombros, e pequenos fios entrelaçados lembrando brasas em brasa, combinando com o vestido. Meus olhos verdes flamejavam por trás da máscara de serenidade que eu sempre usava.
— Perfeita, senhorita. — A criada falou baixo, quase em reverência.
Perfeita. Sempre essa palavra, carregando expectativas silenciosas. Não celebrava beleza ou bondade. Celebrava aliança, poder, domínio.
O Conde Edwin entrou sem fazer alarde. Não havia sorriso. Apenas a avaliação silenciosa que ele fazia de tudo e todos ao seu redor.
— Está adequada. — Ele disse, e não havia emoção em sua voz. Apenas sentença.
Assenti. Não havia necessidade de palavras.
Quando caminhamos até a carruagem, senti o olhar das criadas sobre mim, o mesmo olhar que dizia: “Ela não é como nós. Ela não pertence a este lugar.”
Montclair desapareceu lentamente enquanto avançávamos. Não senti tristeza por deixar o lar, mas uma estranha sensação de inevitabilidade. Cada quilômetro percorrido parecia me aproximar do que sempre foi determinado para mim.
O Norte chegou em forma de vento gélido e paisagens cinzentas. Árvores como torres de gelo, campos cobertos por neve que se estendia até onde a vista alcançava.
Meu pai quebrou o silêncio:
— O Norte é diferente.
— Eu sei. — Respondi, controlando cada nuance de voz.
— Lá, não há espaço para fragilidades.
Olhei para frente, mantendo o semblante calmo:
— Então é conveniente que eu não as tenha.
Ele me avaliou por um instante mais longo que o habitual.
— Lembre-se do que está em jogo: poder, território, influência. — Suas palavras pesavam mais que qualquer gesto.
— Sempre lembro. — Foi tudo o que disse.
O castelo de Blackmoor se ergueu à distância, emergindo da neblina como uma muralha viva. Pedra negra, torres altas, portas imponentes. Nenhuma decoração delicada, nenhum detalhe para suavizar sua severidade. Blackmoor não precisava impressionar; precisava intimidar.
A carruagem parou, e o frio da entrada me cortou até os ossos. A neve sob meus pés produziu um som seco e definitivo. Atravessei o salão principal ao lado de meu pai. Tapeçarias escuras, brasões severos, fogo nas lareiras queimando com intensidade constante.
E então, eu o senti. Antes de vê-lo, antes de saber seu nome.
Uma presença que se impunha. Um olhar que não precisava procurar nada. E quando finalmente ergui meus olhos, lá estava ele. Imóvel no alto da escadaria. Me observando sem se mover. Sem pressa. Sem emoção.
O Duque do Norte.
Mesmo à distância, impossível ignorá-lo. Não pela aparência — embora fosse inegável — mas pela força que emanava de sua postura, pela certeza silenciosa de que nada precisaria provar.
Nossos olhares se cruzaram por segundos que pareceram eternos. Não houve comentários sobre o vestido, sobre o cabelo, sobre o mundo que nos cercava. Apenas reconhecimento. Um reconhecimento que me fez prender a respiração.
O frio que sempre senti, que nunca entendi, parecia finalmente fazer sentido. Não era sobre inverno, nem Montclair, nem expectativas do meu pai. Era sobre ele.
A neve começou a cair novamente, lenta, constante, inevitável, cobrindo o mundo em silêncio. E pela primeira vez desde que deixei Montclair, compreendi:
Se o Norte é inverno… então eu já fui preparada para ele desde o início.