Capítulo 3 — Sob o Céu Branco do Norte
O vento do Norte não era apenas frio.
Era invasivo.
Cortava a pele, atravessava tecidos, parecia querer alcançar os ossos. Ainda assim, mantive o queixo erguido enquanto meus pés tocavam o primeiro degrau da imensa escadaria de Blackmoor.
Eu estava subindo.
Entrando.
Invadindo o território do homem mais temido do Norte.
O braço de meu pai permanecia entrelaçado ao meu, mas não havia amparo naquele gesto — apenas exibição. Ele queria que todos vissem. Que todos soubessem.
Montclair estava ali.
E eu era a oferta.
A escadaria era larga, extensa, construída em pedra escura que parecia absorver a própria luz. A neve acumulava-se nas laterais, e soldados posicionavam-se em silêncio absoluto, como estátuas armadas.
Senti antes de ver.
A presença dele.
Ergui os olhos.
No topo da escadaria, diante das grandes portas do castelo, estava Isken Arkwyn Blackmoor.
Imóvel.
O vento agitava levemente seus cabelos brancos, mas ele não parecia afetado pelo frio. Seu manto escuro caía com peso sobre os ombros largos, marcando a estrutura firme de seu corpo. Não era apenas alto.
Era sólido.
A forma como se mantinha parado não era descuido, nem teatralidade.
Era domínio.
Ele não precisava se mover para ser notado.
Cada passo que eu dava parecia ecoar mais alto do que deveria.
Não tropece.
Não hesite.
Não abaixe os olhos.
Quando alcancei os últimos degraus, soltei o braço de meu pai e me posicionei diante dele.
Inclinei-me.
Controlada.
— Arianna Montclair, Vossa Graça.
Mantive o sorriso suave, educado. Não submisso.
— Já sei quem você é.
A voz dele não era alta. Não precisava ser.
— Não é necessário tanto empenho em formalidades.
Ergui o rosto lentamente.
Nossos olhos se encontraram pela primeira vez.
Azul.
Não eram frios como gelo.
Eram profundos como mar aberto sob tempestade.
Ele me observava como quem analisa uma peça rara recém-chegada ao salão.
Não havia hostilidade explícita.
Mas também não havia acolhimento.
Meu pai inclinou-se levemente.
— Perdoe qualquer excesso de minha filha, Vossa Graça.
Franzi a testa de forma quase imperceptível.
Isken sequer olhou para ele.
— Se houver excesso, saberei identificar.
A frase foi direcionada a mim.
As portas do castelo se abriram.
Sem convite verbal.
Sem cerimônia exagerada.
Apenas a expectativa silenciosa de que o seguíssemos.
O interior era amplo, austero, revestido em tons escuros e chamas altas nas lareiras que lutavam contra o frio constante. Tapeçarias pesadas adornavam as paredes, retratando batalhas e invernos rigorosos.
Nada delicado.
Nada ornamental.
Tudo tinha peso.
O salão estava cheio.
Mais cheio do que eu imaginara.
Nobres do Norte, militares, comerciantes influentes.
Então ele não era apenas um nome temido.
Era um centro de poder real.
Senti os olhares se voltarem para mim.
E não fiz questão de diminuí-los.
Meu vestido vermelho flamejante parecia quase um desafio naquele ambiente de cores sóbrias. A seda moldava minha cintura com firmeza, abrindo-se em camadas elegantes que contrastavam com a rigidez da pedra ao redor. Parte de meus cabelos estava presa em um arranjo refinado, enquanto o restante caía em ondas controladas sobre minhas costas.
Eu não estava ali para me misturar.
Estava ali para ser lembrada.
Caminhei pelo salão com passos medidos, analisando rostos, alianças visíveis, distâncias entre grupos.
Até que o encontrei.
Marquês Regis.
Pálido. Tenso. Sempre alerta demais para alguém que afirma não ter nada a esconder.
Aproximei-me com meu melhor sorriso.
— Marquês Regis. O Norte parece lhe favorecer.
Ele sorriu, mas os olhos denunciaram inquietação.
— Senhorita Montclair… a presença da senhorita é o verdadeiro destaque desta noite.
— Exagera.
— De forma alguma. O Duque é um homem afortunado.
Inclinei levemente a cabeça.
— Fortuna é um conceito que depende de perspectiva, Marquês.
Ele riu, mas foi breve.
— Permita-me uma dança?
Aceitei.
No centro do salão, as mãos dele estavam ligeiramente úmidas.
Aproximei-me o suficiente para que apenas ele ouvisse.
— O Norte exige estabilidade, não é mesmo?
— S-sim, certamente.
— E estabilidade não combina com surpresas desagradáveis.
Ele endureceu.
Continuei:
— Documentos mal guardados. Negócios paralelos. Acusações que atravessam fronteiras.
Girei sob seu braço.
Sorri.
— Meu pai valoriza aliados confiáveis. Eu também.
Ele engoliu seco.
— Nunca cogitei deslealdade.
— Fico satisfeita em ouvir.
Quando a música desacelerou, senti novamente.
Aquele olhar.
Ergui os olhos.
Isken estava parado próximo a uma das colunas, conversando com um general — mas seus olhos estavam em mim.
Não parecia irritado.
Não parecia surpreso.
Parecia… atento.
Como se estivesse ajustando uma percepção inicial.
Antes que pudesse dizer mais algo ao Marquês, uma mão firme pousou no ombro dele.
— Marquês.
Regis quase saltou.
— Vossa Graça.
— Acredito que seja minha vez.
Não era um pedido.
Ele se afastou imediatamente.
Isken estendeu a mão para mim.
Por um instante, hesitei — não por medo, mas para deixá-lo esperar meio segundo.
Então aceitei.
A dança começou.
Ele conduzia com segurança absoluta, sem movimentos desnecessários. Sua mão em minha cintura era firme, mas controlada.
— O Norte aprecia discrição — disse ele, sem me olhar diretamente.
— E Montclair aprecia lealdade.
— Ameaças em meu salão não são discretas.
— Não eram ameaças. Eram lembretes.
Ele finalmente fixou os olhos nos meus.
— Você não parece alguém criada apenas para bordar e sorrir.
— E o senhor não parece alguém que aprecia ser subestimado.
A música nos fez girar.
Senti o salão desaparecer por um segundo.
— Disseram-me que era bela — ele murmurou.
Não havia elogio na frase.
— E?
— Não mencionaram que interfere nos assuntos de homens mais velhos com tanta naturalidade.
— Talvez eu não veja motivo para fingir ignorância.
A mão dele pressionou levemente minha cintura.
— O Norte não tolera jogos arriscados.
— Então espero que tolere mulheres que saibam jogar.
Silêncio.
Por um instante, seus olhos mudaram.
Não foi reconhecimento.
Não foi memória.
Mas foi algo.
Interesse contido.
Logo desapareceu.
— Cuidado, senhorita Montclair.
Sua voz desceu meio tom.
— Aqui, ousadia tem consequências.
Inclinei-me levemente mais perto.
— Em Montclair, também.
A música terminou.
Ele soltou minha mão primeiro.
Sem reverência.
Sem sorriso.
Apenas se afastou.
Como se aquela dança tivesse servido para medir limites.
Respirei fundo.
Ele não me reconhecia.
Não havia sinal algum disso.
Apenas avaliação fria e curiosidade moderada.
E ainda assim…
Aquela sensação no peito persistia.
Não era medo.
Não era raiva.
Era a estranha impressão de que aquele homem — mesmo sem saber — já ocupava um espaço perigoso em meu destino.
Ergui o queixo.
Se o Norte esperava uma noiva silenciosa…
Teriam uma tempestade vestida de vermelho.
