Capítulo 4 — O Quarto do Norte
A música ainda ecoava distante quando deixei o salão, mas cada passo que eu dava parecia dissolver aquele som até que restasse apenas o silêncio. O calor das lareiras ficou para trás, substituído pelo ar frio dos corredores internos, onde as paredes de pedra absorviam qualquer traço de acolhimento. Meu vestido vermelho — escolhido para incendiar olhares — agora parecia excessivo naquele ambiente austero. Era como se eu tivesse trazido uma chama indevida para dentro de um mausoléu de inverno.
A criada que me conduzia não falava. Não errava o passo. Não demonstrava cansaço. Sua postura era ereta demais, disciplinada demais, como alguém que já havia sido instruída não apenas a me servir, mas a me avaliar. Percebi isso na maneira como seus olhos, vez ou outra, pousavam em mim pelo reflexo das janelas — rápidos, mas atentos. Não havia hostilidade aberta. Havia algo pior: frieza treinada.
Quando paramos diante da grande porta entalhada com o brasão dos Blackmoor, senti uma estranha antecipação. O lobo esculpido na madeira parecia observar-me com presas discretamente expostas, como se aguardasse que eu cometesse algum erro.
O quarto era amplo. Amplo demais.
Não era luxuoso de forma delicada, como os aposentos destinados a jovens nobres na capital. Era imponente. Frio. Organizado com precisão quase rígida. A lareira queimava, mas o calor não alcançava os cantos do ambiente. As janelas altas permitiam que a noite se infiltrasse em lâminas pálidas sobre o chão de pedra. Tudo ali parecia ter sido preparado com antecedência, mas não para me agradar — e sim para me acomodar sob vigilância.
A criada começou a organizar meus pertences sem que eu precisasse orientá-la. Sabia onde colocar cada peça. Sabia até mesmo onde posicionar minha caixa de joias. Aquilo não era improviso. Era familiaridade.
— Este aposento foi escolhido especialmente para a senhorita — disse ela, por fim.
Seu tom era correto, mas algo em sua inflexão soou como se eu fosse apenas mais um elemento reposicionado dentro da estrutura do castelo.
— Especialmente? — perguntei.
Ela sustentou meu olhar por um segundo longo demais.
— É o mais adequado.
Adequado.
Não confortável.
Não honroso.
Adequado.
Observei-a enquanto ela alisava o tecido da colcha, e por um breve instante seus dedos hesitaram ao tocar o vermelho do meu vestido repousado sobre a cadeira. Foi quase imperceptível. Um leve tensionar. Um mínimo enrijecer dos ombros. Não era aprovação que vi ali. Tampouco submissão. Era contenção.
Quando finalmente a dispensei, ela se curvou corretamente. Contudo, ao se dirigir à porta, demorou-se o suficiente para lançar um último olhar ao quarto — ou a mim — como se registrasse mentalmente cada detalhe antes de sair.
Esperei alguns segundos após o som da porta se fechar.
Então caminhei até ela.
A maçaneta girou com facilidade, revelando o corredor vazio. Inclinei o corpo levemente para fora, observando as sombras projetadas pelas tochas. Nada se movia.
Foi então que percebi a pequena tranca do lado externo.
Discreta.
Quase elegante.
Mas posicionada ali com propósito.
Fechei a porta sem fazer ruído.
Voltei-me para o quarto e senti, pela primeira vez naquela noite, que o silêncio tinha peso. Não era ausência de som. Era presença de algo invisível.
Aproximei-me da janela.
A neve caía com constância, cobrindo o pátio interno com uma camada uniforme que apagava rastros. O Norte parecia gostar de esconder suas próprias marcas.
Foi quando o vi.
Uma figura imóvel sob as arcadas do pátio, parcialmente envolta na penumbra. Não era apenas um guarda. A postura era firme demais. Controlada demais. Ele não caminhava. Não patrulhava. Permanecia ali.
Observando.
Senti o frio começar no peito — não o frio da noite, mas aquele outro, mais interno, mais profundo.
Mantive-me ereta.
Se ele me observava, eu também o observava.
Os segundos se alongaram. A neve acumulava-se em seus ombros, mas ele não se movia. Como se o desconforto fosse irrelevante diante da tarefa que lhe fora atribuída.
Vigiar-me.
Uma noiva prometida não deveria ser tratada como ameaça.
A menos que fosse considerada uma.
Afastei-me da janela apenas quando a figura finalmente se deslocou, desaparecendo sob as arcadas. Não houve pressa. Não houve disfarce. Ele sabia que eu o vira.
E queria que eu soubesse.
Caminhei lentamente pelo quarto, tocando as superfícies, memorizando distâncias. A posição da cama. A proximidade da lareira. A largura das janelas. A altura das cortinas. Não era paranoia. Era necessidade.
Nada ali era casual.
Cada detalhe parecia ter sido decidido antes mesmo que eu cruzasse os portões do castelo. O aposento não me acolhia. Ele me continha.
Sentei-me na beira da cama, permitindo que o peso do vestido vermelho se acumulasse ao redor de mim. Pela primeira vez desde que chegara ao Norte, senti a exaustão atravessar minha postura rígida.
Meu pai acreditava estar firmando uma aliança.
Eu começava a suspeitar que havia sido posicionada em um tabuleiro muito mais complexo do que imaginava.
A lareira crepitava suavemente, mas não aquecia o suficiente para dissipar a sensação constante de que algo — ou alguém — permanecia atento além daquelas paredes.
Levantei-me e caminhei até o espelho.
Soltei alguns grampos, permitindo que parte do cabelo caísse sobre meus ombros. A imagem refletida parecia diferente ali. Não menor. Não frágil.
Mas deslocada.
Uma chama inserida em território de gelo.
Fechei as cortinas com firmeza.
Se pretendiam me observar, que ao menos tivessem de se esforçar.
Deitei-me sem trocar completamente de traje. Não por descuido, mas por escolha. A noite no Norte parecia longa demais para confiar em portas.
E enquanto o silêncio se acomodava ao redor da cama ampla, compreendi algo com clareza inquietante:
O Norte não era apenas frio.
Ele era atento.
E eu precisava aprender a ser ainda mais.