Após a longa conversa com Yujin, Ycarus decide pegar seu celular e começar a ligar para seus contatos em busca de armas. Comprar armamentos legalmente estava fora de cogitação. Então, ele se lembra da época em que serviu no grande exército de Kinyan e decide ligar para seu antigo coronel, que, naquela época, também era seu melhor amigo.
Após duas tentativas de contato, o coronel finalmente atende.
— Alô? Coronel Vegas? Sou eu, Ycarus!
Vegas, espantado com a ligação repentina, responde:
— Ycarus? Quanto tempo, meu velho amigo! Qual o motivo da ligação? Você só liga quando precisa de alguma coisa.
Diz Vegas, rindo de seu antigo colega.
— O quê? Um amigo não pode ligar para saber como o outro está? Hahaha! Mas sim, minha ligação tem um motivo. Você ainda está envolvido com aquele esquema?
Vegas então se levanta da mesa onde estava e tranca a porta de sua sala no quartel-general.
— Claro que sim. Jamais abandonaria minha máquina de dinheiro. Mas por que a pergunta? Está interessado em algum tipo de armamento? Arrumou algum problema? Como pode um homem da sua idade arrumar algum tipo de problema em que precise usar uma arma?
Ycarus então fala:
— Vou precisar de bastante arma e munição. As melhores que você tiver, e em grande quantidade. Eu já fiz uma lista aqui. Vou encaminhar para o seu e-mail, junto com o endereço de entrega. E mais uma coisa: vou te avisar sobre algo em respeito à nossa amizade. Leve sua família toda para o quartel e mantenha todos em segurança. Não posso dizer mais nada sobre isso, mas confie no seu amigo aqui.
Vegas, sem entender muito bem a situação, mas lembrando que Ycarus havia sido seu melhor soldado, decide considerar o conselho do amigo e encerra a ligação:
— Ok, meu amigo. A conta para transferência e os detalhes vou te encaminhar pelo e-mail. Até outra hora.
— Até, Vegas.
Ycarus então começa a cuidar dos suprimentos de comida e remédios.
Enquanto isso, Alice estava em seu quarto, olhando um antigo álbum de fotografias. Havia fotos dela com seu irmão, seu pai e sua mãe.
"Que saudade da família toda reunida... Se eu tivesse ido com eles naquela viagem, eu não estaria aqui para cuidar do meu irmão. Ainda bem que não fui. Porém, dói meu coração não ter vocês por perto, pai e mãe."
Uma lágrima então escorre pelo rosto de Alice, enquanto ela se lembra de que seus pais haviam morrido em um acidente de carro, três anos atrás.
Enquanto isso, Yujin, após passar longas horas estudando a planta do metrô, percebe que seu corpo está muito fraco quando comparado ao corpo que possuía durante o Apocalipse.
Ele então decide começar a treinar.
Yujin monta um plano de treinamento que havia aprendido com o homem que cuidou dele durante aqueles dias.
— Bom, acho que posso seguir o treinamento do Raji agora. Tenho alguns meses até a explosão acontecer. Se eu começar agora, talvez meu corpo já consiga acompanhar meus reflexos e minhas técnicas. Eu ainda lembro de tudo.
Diz o garoto, já começando a se aquecer para o treino.
Então, começa a treinar incansavelmente enquanto os dias vão se passando.
Ycarus também já estava cuidando de tudo. Caminhões e mais caminhões de suprimentos começaram a chegar, trazendo alimentos, remédios e, junto deles, as armas.
Depois de algum tempo, Ycarus decide chamar Alice e Yujin para verificar o armamento e ensiná-los a atirar.
Quando os dois descem as escadas e vão em direção à porta, Alice tropeça em um dos degraus e vai em direção ao chão. Yujin, ao ver aquilo, reage por puro reflexo, pula em sua direção e a segura antes que ela toque o chão.
— Yujin? Como você chegou aqui tão rápido?
Pergunta a garota, respirando fundo, aliviada por não ter caído.
— Na minha vida pa...
Yujin para no meio da frase.
Ele se lembra da dor que sentiu quando tentou falar sobre a viagem no tempo e imediatamente interrompe sua fala.
— Foi apenas reflexo. Eu andei treinando esses dias. Acho que está dando resultado.
Fala, rindo e tentando disfarçar.
Então, os dois chegam à parte de fora da casa. Ycarus já estava lá, esperando por eles com dois fuzis de assalto nas mãos.
— Crianças, hoje vou ensinar vocês a usarem isso aqui. Finalmente nossos brinquedos chegaram! Hahaha!
Yujin, que já sabia atirar devido às suas experiências passadas, pega um dos fuzis da mão de Ycarus. Ele mira em um dos alvos que o mordomo havia montado ali e começa a atirar.
Yujin erra alguns tiros de propósito, mas também acerta alguns.
— Garoto, você é bom nisso. Se praticar um pouco mais, não vai mais errar nenhum.
Diz o mordomo, espantado com a habilidade de Yujin, principalmente por ser sua primeira vez atirando, pelo menos aos olhos dele.
Então Alice pega uma das armas, mira e atira. Porém, apenas com o recuo dos disparos, ela acaba caindo para trás.
Ao notar isso, Ycarus entrega uma pistola Desert Eagle para ela.
Alice então mira e atira. Ela erra a maioria dos disparos, mas consegue acertar dois deles no peito do alvo.
— Muito bom. Basta apenas praticar. Mas foi muito bom, Alice.
Diz Ycarus, em uma tentativa de motivar a garota.
Os dias continuam passando.
Enfim, seis meses se passam.
A casa agora está mais parecida com um bunker militar. As paredes, portas e janelas, reforçadas com aço puro, tornam o interior da mansão ainda mais escuro. Estoques lotados de armas, alimentos e remédios estão espalhados pela casa, enquanto uma grande quantidade de geradores de energia e combustível ocupa o porão da mansão.
Ycarus vai até a biblioteca para avisar Yujin que está tudo finalmente pronto.
Ao entrar, encontra o garoto deitado no chão, completamente suado e cansado depois de tanto treinar.
— Enfim, tudo está pronto, jovem mestre. Mas você não acha que está exagerando no treino, não?
Diz Ycarus ao garoto, ajudando-o a se levantar.
— Nenhum esforço é pouco. O que vamos enfrentar não vai pegar leve com a gente, velhote.
Então, os dois começam a ouvir barulhos de tiros vindos do lado de fora da mansão.
Quando olham por uma fresta na janela, eles se deparam com Alice acertando todos os alvos que estavam à sua frente, sem errar um único tiro.
Yujin observa a cena e sorri.
— Ela realmente se esforçou, né, velhote? Você criou um monstro.
Ycarus, orgulhoso do que havia feito, responde:
— Claro que sim! Afinal, ela teve aulas particulares com o melhor atirador do vigésimo sétimo batalhão de Kinyan.
Ele faz uma pausa, antes de completar, rindo:
— Eu! Hahahaha!
Os dois então se sentam à mesa que ficava no centro da biblioteca.
Yujin olha para Ycarus e fala:
— Bom, se tudo ocorrer como eu sei, daqui a três meses finalmente a grande explosão vai acontecer. Já estamos bem preparados. Semana que vem, Marcos e sua mãe vão se mudar para cá. Eu conversei com ele, e ele decidiu acreditar em mim. Quero salvar ele. Afinal, é meu melhor amigo.
Ycarus concorda com a cabeça.
— Sim, é o certo a se fazer, jovem mestre. E vou ter um tempo para ensinar ele a atirar também.
Ycarus parecia animado com a ideia de ter mais um aluno em suas mãos.
Então, a noite cai.
Yujin vai em direção ao seu quarto e se deita. Em poucos instantes, pega no sono.
Durante seu sono, um sonho se inicia.
Ele se vê em uma sala completamente escura. No centro dela, uma luz roxa extremamente forte ilumina o ambiente.
Então, uma voz começa a chamar por seu nome.
Era a voz fina e suave de uma mulher.
— Yujin... Yujin... meu amado Yujin. Espero que você me deixe orgulhosa...
Sem saber quem era aquela mulher, ele pergunta:
— Quem está aí? Orgulhosa de quê?
A voz então responde:
— Apenas me orgulhe. Não faça eu me arrepender de ter te mandado de volta...
Então, o garoto acorda no meio da noite, completamente desnorteado.
Ele olha ao redor do quarto, tentando entender o que havia acabado de acontecer.
Yujin permanece em silêncio por alguns segundos.
Ele não fazia ideia de quem era aquela mulher.
E muito menos do motivo pelo qual ela havia dito que foi ela quem o mandou de volta.