A carruagem avançava lentamente pela estrada de terra batida, o ranger das rodas misturando-se ao canto distante dos pássaros. Selene descansava o cotovelo na janela, deixando o vento brincar com alguns fios soltos de seu rabo de cavalo. O sol de fim de manhã aquecia o rosto e iluminava o caminho.
À frente, o condutor mantinha as rédeas firmes, seguindo um ritmo tranquilo que permitia apreciar a paisagem.
Darius Voss estava ao lado dela, encostado no assento com a serenidade de quem já havia feito aquela jornada muitas vezes. Sob um manto pesado e um capuz que projetava sombras sobre o rosto, ele mantinha as feições parcialmente cobertas. Para quem não o conhecia, parecia apenas mais um investigador contratado pelo reino — nada em sua postura ou aparência revelava o peso real de seu nome.
Quando a estrada se abriu para um lago de águas límpidas, Selene inclinou o corpo para ver melhor. O sol dançava sobre a superfície, criando reflexos quase hipnotizantes. Perto da margem, um rapaz pescava sentado num tronco caído. Vara simples, postura relaxada, olhar tranquilo. Mesmo à distância, chamava atenção: cabelos e olhos brancos como neve contrastando com a pele morena-clara e um porte firme atlético.
— Não é todo dia que se vê alguém assim pescando — comentou Selene, com um leve sorriso.
— Estamos perto da cidade — respondeu Darius, voz neutra. Seus olhos, porém, demoraram um segundo a mais no jovem, como quem guarda um detalhe para mais tarde.
A carruagem seguiu, deixando o lago e o pescador para trás.
A entrada da cidade surgiu adiante, protegida por portões modestos e duas torres baixas. Guardas se aproximaram assim que a carruagem parou.
— São os enviados? — perguntou um deles. — O chefe da guarda pediu que viessem direto.
Nenhum dos guardas parecia reconhecer Darius, e Selene manteve para si o fato de que aquilo era exatamente como o mestre queria.
Sem perder tempo, foram conduzidos pelo chefe da guarda até o topo de uma colina, onde o casarão da família governante se erguia… ou melhor, o que restava dele.
O ar mudou no instante em que entraram.
O cenário era um retrato do caos: portas arrebentadas, paredes cortadas como manteiga, móveis destruídos e espalhados. E gelo. Muito gelo. Cobria o chão, subia pelas paredes, trepava pelas colunas e se prendia ao teto em estalactites cristalinas. Alguns corpos de guardas jaziam presos em blocos translúcidos, as expressões congeladas em terror. Era como se o inverno tivesse tomado aquele lugar à força.
Selene respirou fundo, controlando o desconforto. Magia de gelo não era rara no continente; qualquer mago poderia aprendê-la. Mas Darius sabia a diferença. A densidade, a estabilidade, a forma como o frio se mantinha… aquilo não era trabalho de um conjurador comum. Era magia refinada, de alto nível — o tipo que poucos no mundo poderiam produzir.
E ele manteve essa percepção para si.
Durante horas, ouviram testemunhas, recolheram relatos e anotaram detalhes. Mas cada resposta era vaga, cada olhar, evasivo. Não havia acusação direta, apenas medo. Um medo silencioso que parecia grudar na pele.
Quando deixaram o casarão, o sol já havia inclinado no céu.
— Vamos ver o mercado — sugeriu Darius, como se quisesse trocar o ar pesado por algo mais vivo.
A rua principal estava cheia de vida: vozes, cheiros e cores misturavam-se num caos familiar. Selene observava as bancas de frutas, tecidos e utensílios mágicos simples, mas seus olhos acabaram captando algo que destoava no final da rua.
Uma barraca improvisada, feita de tábuas tortas e mal pregadas, com um balcão igualmente instável. No centro, um enorme cubo de gelo com cinco peixes perfeitos dentro. Uma placa escrita à mão dizia: “1 cobre por peixe”.
Atrás do balcão, o rapaz do lago. Mesma postura relaxada, mesmo olhar tranquilo. As pessoas passavam rápidas, evitando encarar, como se a simples presença dele fosse desconfortável.
— Quem é ele? — Selene perguntou a um passante.
— Fique longe. Perigoso. — E o homem seguiu andando.
Selene franziu o cenho e avançou, sem se intimidar. Darius a acompanhou em silêncio.
O rapaz, percebendo a aproximação, abriu um sorriso largo e levantou a mão como um comerciante entusiasmado:
— Sejam bem-vindos, caros clientes! Venham, venham, não tenham vergonha. Peixes fresquinhos pescados esta manhã! Por apenas uma moeda de cobre, você leva um belo peixe grande e suculento!
Selene ergueu uma sobrancelha.
— E como exatamente eu vou levar um peixe… preso aí dentro?
Ele apoiou o queixo na mão, fingindo pensar profundamente, e então bateu no balcão com entusiasmo:
— Ora, ora! Vejo que estou diante de uma cliente exigente. Muito bem, tenho uma oferta especial: todos esses cinco peixes… por apenas cinco moedas de cobre!
— Isso é sua oferta especial? — Selene arqueou o olhar. — Você tá me zoando.
Ele colocou a mão no peito, teatral:
— Você joga duro, hein? Mas… essa é minha última oferta.
Foi quando Darius deu um passo à frente, voz calma:
— Meu jovem… por acaso foi você quem congelou esses peixes?
O silêncio se espalhou pelo mercado como uma onda. Conversas pararam. Olhares se voltaram, carregados de algo não dito. Selene estranhou.
— O que foi? Querem dizer alguma coisa? — perguntou, achando que era com ela e Darius.
Mas logo percebeu que os olhares eram todos para o rapaz.
Ele encarou Selene com um breve ar sério.
— Eu sei por que me olham assim…
Darius estreitou os olhos, atento.
— …Querem um desconto.
O peso no ar se desfez em um segundo. Ele voltou a sorrir.
— Mas lamento: minha oferta final continua sendo cinco peixes por cinco moedas de cobre.
Darius soltou um leve suspiro divertido e colocou as moedas no balcão.
— Pois bem… é uma boa oferta.
— Muito obrigado, senhor! Tenho certeza que vai aproveitar! — disse o garoto.
Darius pegou o cubo inteiro com as mãos nuas e caminhou como se não sentisse o frio.
— Qual o seu nome? — perguntou Selene.
— Eliot.
À noite, na hospedaria, o cubo estava sobre a mesa, intocado. Selene lia um livro emprestado, enquanto Darius observava o gelo.
— Por que está olhando tanto assim? — ela perguntou. — O jantar já passou… tá pensando em preparar isso pro café?
— Não derreteu — respondeu ele, sem tirar os olhos. — Desde que compramos, não derreteu nem um milímetro.
Selene passou a mão pela superfície fria.
— Então, qual é o truque?
Darius manteve o olhar sério:
— O único truque… é que foi feito por alguém muito talentoso.
Lá fora, uma sineta tocou três vezes. Passos apressados ecoaram na rua. Selene levantou o olhar, mas Darius permaneceu focado no gelo.
— Amanhã, começamos cedo. Hoje, guardamos duas coisas: o nome… e o gelo.
Selene murmurou para si:
— Eliot.