PRÓLOGO — TRIBUTO DE UMA EPÍGRAFE
O céu nublado guardava o luto infame que incendiava as mentes da família Moldoveanu. O senhor Mihai havia falecido há quase três noites, quando Alexandru teve que assumir a empresa e migrar para outro continente para reafirmar laços com os parceiros de sua corporação.
Com essa perda, a família estava em expressa melancolia, o silêncio perpetuava mais do que o comum. O voo foi longo, do leste europeu ao sul da América, contendo vinte horas de pura inquietação mental.
Lucian, o filho do meio, teve seu coração partido ao meio naquela manhã, quando foi notificado de que seus pertences já estavam organizados e que partiriam em meia hora.
Estava frio quando chegaram ao aeroporto, naquele domingo, contudo, mesmo no avião, o ambiente congelava, o ar era rarefeito, pouco respirável. Seu avô era um homem íntegro, virtuoso e dedicado aos três aspectos importantes da vida: a religião, a família e o trabalho.
Foi um bom marido, um pai presente e um título de vigor para seus conhecidos. Era respeitado por sua comunidade, era apreciado e era alguém que, sua ausência seria sentida.
Lucian passou a tarde observando do alto a pequena parcela de terra entre os continentes e o excesso de água, daquele oceano que parecia capturar e afundar seu pobre coração.
Recordou brevemente de suas partidas de xadrez, aos fins de semana, sempre perdia para vê-lo com aquele semblante característico dele, como se ganhar em uma partida de um jogo de tabuleiro, fizesse-o retornar à juventude.
E como queria tanto que isso tivesse acontecido, Lucian, como todo o resto de sua família, contiveram suas lágrimas em prol da imagem e da reputação dos Moldoveanu, mas essa atitude amarga como fel, condenava-os a um momento de sóbria solidão.
Mesmo entre os seus, a barreira sólida, firme, era uma estrutura inquebrável, que separava silenciosamente o afeto entre eles.
O funeral ocorreu no dia seguinte ao seu falecimento, um ataque cardiorrespiratório, ele havia chegado perto dos oitenta e seis anos, mas não alcançou, por apenas um dia não conseguiu.
Mihai havia desaparecido por uma noite e quando retornou, surpreendeu a sua família rígida com uma embriaguez lúcida, confessava a distimia de décadas e lastimava a distância que toda aquela armadura que vestiam havia criado entre eles.
Ignoraram-o completamente, Mihai havia quebrado o voto antes de morrer, de jamais beber, de jamais revelar seus verdadeiros pensamentos.
Lucian seguiu arrasado com os comentários francos e desregrados de seu avô naquele dia, mas descobrir seu falecimento no dia seguinte, vê-lo curvado sobre sua escrivaninha, em seu escritório, com um copo e cartelas demais para se pensar em contar, foi realmente um choque que alterou seu estado comum de passividade.
Quando teve que declarar aos próximos, o falecimento de seu avô e sua causa, com certeza sentiu seu chão cair, como se nunca tivesse existido a princípio.
O velório foi depressa, sem muitos detalhes, a família não revelaria como ele realmente partiu, não poderiam trair os dogmas que carregavam como mandamento.
As declarações e lembranças no púlpito carregavam um ar falso, desequilibrado e dissimulado, criaram uma sobre-imagem a respeito de Mihai Moldoveanu para os sujeitos de fora daquele círculo vicioso e devoto.
Lucian não era diferente, cresceu naquele ambiente e logo era fruto daquele estado de omissões e pior; não tinha contado tudo, de fato, seu avô havia deixado uma carta, uma despedida, um algo antes de partir.
Porém, não a leu, com que coragem leria, além de escondê-la, era a prova de que não haveria um amanhã mais leve com a graça da alma jovem de seu avô.
Ele era as extremidades, ele era as pontas, ele era quem segurava a mortalidade real, o que tange o significado de ser humano naquela família, mas agora, ele havia partido, e mesmo com aquela carta de despedida, era como se ele tivesse ido sem se despedir.
Por um breve momento, deixou-se relaxar demais em seu protesto, de sua persistência em observar o exterior daquele avião, como penitência, e dormiu.
Quando despertou, a viagem carregava a sensação de estar à espreita, o recomeço, uma distância ainda maior de sua terra, de sua história. Assim que desembarcou, seus sentidos foram tomados pelo contraste cultural e ambiental, daquela segunda-feira em outro continente.
O calor era evidente, com uma brisa quente e um aroma diverso, em cada canto, havia algo para surpreendê-lo. As vestimentas eram mais curtas e justas do que o costume de seu país, as cores e formas também variaram, nada era muito igual ou nostálgico, muito único e distinto de tudo o que conhecia.
Sabia o básico do idioma local, mas o pouco que entendia, não parecia suficiente para uma escuta ativa que se perdeu na rapidez coloquial dos nativos. Sentiu-se deslocado, no entanto, deveria se encontrar o mais breve possível, pois naquele labirinto de estrangeirismo, poderia se perder de vez.
Felizmente, para o acaso de Lucian, o destino não fez que esperassem muito para o responsável por buscar a família Moldoveanu chegar ao aeroporto e levá-los à cidade que de fato iriam morar, indefinidamente.
A burocracia exacerbada havia sido resolvida em grande parte por Alexandru, mas ainda existiam algumas linhas soltas a serem atadas.
Como no caso de Vlad, que conseguiu uma transferência como intercambista na universidade local, além de garantir um ajuste na grade que o adiciona a um curso de extensão para estrangeiros, para aprender português.
Mas não foi só o irmão de Lucian que conseguiu esse ajuste na grade, Anya também conseguiu, as suas aulas de língua portuguesa e literatura seriam adaptadas, faria parte de uma turma "exclusiva" de apenas estrangeiros, porém ainda seria na própria escola.
Já Lucian, não tinha tanta sorte. Seu pai, após revelar a mudança abrupta de continente, comentou sobre a escola que havia o matriculado, e que diferente das instituições de seus irmãos, ele deveria escolher algum monitor voluntário da escola para executar essa tarefa ao longo do ano letivo, em sua casa.
Apesar disso, Alexandru apenas frisou que como seria em seu quarto, as aulas com o monitor, não queria que fosse alguém leviano e/ou desrespeitoso com os valores da família.
Lucian assentiu em silêncio, no entanto, entendia bem as entrelinhas daquela minuta verbal, as leis universais e inquebráveis do não dito familiar, compreendia bem qual o tipo de pessoa que ele, seu pai, não queria em sua casa, em sua vida.
Jamais seria de seu feitio realizar qualquer ação daquele tipo, mas o destino tinha seus meios de brincar com a sina das pessoas, e não era naquela etapa que seria diferente.
O Sol pendia nas árvores com o breve soprar daquela brisa fresca que anunciava a noite que aquela seria, Lucian sentia em seu imo a crua ansiedade pelo desconhecido, por estar em uma terra da qual se é estrangeiro.
Um estranho era para a fauna que rondava o bosque do qual avistava, quando a placa iluminou-se pressentiu algo de um futuro próximo; as ruas largas guardavam um mar de coisas indizíveis.
Conseguiu ver pouco naquela estrada, em contrapartida, o condomínio era bem visível, apesar de ascender-se tal como uma estrela, assim que avistou o ponto de chegada, sentiu que continha um ar austero a mansão da qual moraria, e previu no que isso implicaria.
Era mais do que exagerado, a ostentação gritava com um escárnio sagrado aquelas leis que a família vestia, tinha um quê de conforto em certas posições, mas beirando a nostalgia somente, pois o restante da decoração intimidava com a rústica e febril mobília.
Seu quarto era uma suíte planejada, o que parecia, bem, que eles aguardavam por isso. O casarão, apesar de tudo, era novo, quase como se em uma semana houvesse a colocado em pé, e não duvidava disso.
"Haviam planejado, possivelmente, a possível queda de Mihai? Talvez esperassem que a pressão o consumisse em breve e então, planejaram a estratégia do que fazer; em um papel pardo a to do list estava preenchida, com uma mansão Moldoveanu, para seguir potente contra os adversários e fortaleza a favor de seus aliados."
Lucian pensava enquanto andava por seu quarto, balbuciando e decorando a ordem dos fatores, a frequência do ar e avaliando a resistência da energia que emergia de sua alma.
Sua cama estava em oposição à janela, que era indevidamente grande, servindo de porta para uma varanda suspensa, como se simulasse uma rota de fuga daquele ambiente claustrofóbico.
Em oposição à porta de entrada ao quarto, havia prateleiras embutidas com os seus livros, mas tinham muitos espaços pedindo por mais, como se carecessem da vida que aquele lugar não poderia entregar.
A escrivaninha de canto, se localizava em parte na parede com a janela, e outra na parede restante que dividia com as prateleiras, haviam duas cadeiras, tinha certeza que era para comportar o voluntário quando viesse.
Aos poucos, os pensamentos diminuíram e a noite o acolheu, sua irmã bateu à porta em seguida, apenas para avisar que seus pais fizeram um pedido virtual em algum restaurante local, que em breve chegaria.
E pareceu tão pouco tempo quando teve que descer para jantar, foi assim que percebeu estar absorto e a sua própria automaticidade, respirando fundo, tomou notas de viver o presente e tentar aproveitar a experiência.
Após um banho prolongado, acostumando-se ao novo clima do lugar, deitou-se e imaginou mundos e fins destes em sequência de primeiros dias de aula, porém, deixou-se dormir, mesmo sem sono, precisava se acostumar com aquele território.
Às seis da manhã, em uma terça-feira, acordou com o Sol em sua grande janela, refletindo em seu rosto, despertando-o de um sono tão necessário. Fez de sua rotina semelhante à costumeira, organizando-se para a visita agendada na escola, precisava conhecê-la e escolher o dito cujo que o acompanharia naquele ano.
Tentou fingir costume àquela dinâmica, de vestir-se como se pertencesse àquele mundo, tão calor em plena hora matutina.
Os funcionários que Alexandru contratou no meio tempo que ficaram no avião, já se apresentavam ao emprego na mansão, e com isso em vista, o motorista levou-o para a instituição que estudaria por indeterminado tempo.
A viagem pareceu mais lenta, como se por estar longe daquele ambiente, a pedra de Sísifo permanecesse no topo sem tê-la que segurar. O caminho até o seu destino era agradável, as árvores pareciam brilhar sob aquele raiar aquecido, a fauna era bem viva e vagava tanto naquele céu de cores múltiplas, quanto na terra como andarilhos.
Quando chegou àquele novo âmbito de sua trajetória, rezou mentalmente por algo que o acolhesse naquele continente, que o fizesse não se sentir só, algo que não só conseguisse tirá-lo do não pertencimento, mas também como um alguém, que reconhecesse uma pessoa em si, não somente um estrangeiro.
Desceu do carro, atravessou o portão menos austero que o de sua casa, e dirigiu-se, considerando as placas sinalizadoras, até a diretoria. Bateu à porta e um senhor de semblante ganancioso o cumprimentou, mandando-o entrar.
Não conhecia bem o idioma, mas o diretor não se importou, parecia dizer a história da escola em passos largos, talvez tivesse compreendido que tinha quase um século de existência, que era campeã nata nos vestibulares devido aos ótimos professores, que seus alunos eram excepcionais, mas não tinha certeza.
Estava sentado em silêncio observando o diretor falar mil e uma coisas, quando ele de repente parou e entregou uma folha, parecia uma grade de horários, talvez um mapa da escola?
Embora confuso, o diretor se levantou, dizendo as palavras rápido demais, mas entendeu bem o "voluntário" e "chegou". Ele abriu a porta e viu um garoto, o diretor disse:
— Este é Miguel, um dos monitores que é voluntário no Projeto de Língua Portuguesa para Estrangeiros — e continuou falando coisas a mais, incompreensíveis e rápidas.
O diretor seguiu tagarelando e tocou no ombro de Lucian, empurrando-o para fora:
— Vá, siga ele e aproveite o tour.
A porta atrás de si fechou-se em alto som, sendo expulso pelo próprio diretor. Provavelmente, não faria amigos nesse continente também, se nem em sua terra natal ele era bem quisto, quem diria como estranho seria desejado.
O rapaz que o guiaria era um pouco mais alto, de cabelo loiro escuro e curto com pontas rosas e com os espinhos da liberdade¹ nele, de olhos verdes acinzentados.
Com dez piercings bem expostos, e mesmo estando de uniforme, o qual era bem formal, considerando o ambiente escolar, era bem evidente seu comportamento despojado, tal qual um punk, talvez seja um bolsista.
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Seja bem vinda/o ao prólogo, ao contexto dessa nova trajetória, com pouco mais do que duas mil palavras. Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
¹ "espinhos da liberdade" é uma tradução muito direta de um estilo de cabelo comum na subcultura punk, porém é conhecido também por "picos de liberdade"; liberty spikes.
Enfim, o prólogo cessa por aqui, espero que tenha gostado. Até a próxima!