CAPÍTULO 03: TODAVIA
Em perspectiva, seu dia completou-se com as mais variadas formas de cumprimentos, contando com os elogios e apelidos caricatos de sua turma. Kael era uma bandeira ambulante, ele próprio era o mastro, se conduzia como se uma nação inteira morasse em seu coração, flertava com as palavras e brincava de conversar, sua postura leve carregava uma confiança, daquelas típicas de quem sabe bem o que faz.
Assim que concluída a sua tarefa, partia em busca dos confusos e ajudava-os, de certo, era de sua natureza colaborar em qualquer meio que estivesse inserido. A apresentação inicial de Lucian aos professores que tinham aula com aquela turma, beirava o que há de simbólico em ser estranho. Belo e sublime, no entanto, a austeridade de sua vida permeia as aparências que se revelam naturalmente para aquele povo.
Talvez, não fosse Kael que é extremamente perceptivo e um grandíssimo auxiliar, podia ser que ele, Lucian, fosse transparente demais para todo aquele território, pois não teve um quem que não afirmou baixo o provável desconforto dele em ter que se apresentar algumas vezes. Então, sabendo disso, podia muito bem ser instinto do representante da turma ter que ajudá-lo a não ser uma porta.
Na Romênia, já lhe haviam dito diretamente, “Vorbesc cu um perete⁴”, mas ser lido e perceber que eles sabem exatamente o porquê você é designado com este termo, soa diferente, ressoa como ameaça à própria dignidade.
Sua turma inteira respirava a sutileza da percepção, sabiam que ele jamais seria o dito cujo, o bicho social, de nada serviria sua mera tentativa, porque já sabiam e sentiam, propagaram aquela verdade, que era absoluta.
E apesar de Kael seguir normalmente, como se fosse mais um dia, sentia que ele não se queixava com a sua austeridade, ele era um asterisco naquele meio, a entrelinha quase soberba de tanta desconversa, mas o raio de sol brilhava porque ainda era dia, não porque precisava aquecer os congelados.
Gradualmente, às aulas, deixou-se de queixar internamente, no intervalo os alunos tinham permissão para sair, e seguiu com Kael e Diego. Retumbava como um fantasma à espreita, seguindo o rastro da última coisa que viu antes de morrer, cegamente.
O assunto nascia e transitava por outros, jamais caindo por terra, se ressuscitando ao complementar outro, criando tangentes sem fim. Um momento bem agradável, do qual não fez parte, sua mente estava andarilha naquele dia, e se alguma vez foi de falar, aquele não seria o instante para tal passatempo.
Repetiu-se a dinâmica de apresentar-se por mais um tempo até o dia terminar, finalmente, pensou. Não que o dia seguinte não fosse a mesma coisa, duraria por pelo menos mais uma semana essa repetição. O grupo de Placa não era implacável, que novidade, eram bem doces e sentiam a mesma necessidade de ajudar na adaptação de Lucian.
O pouco que ouviu nas conversas e entendeu, beiravam ao sadismo linguístico e existencial, às vezes pareciam que haviam pulado no abismo e se rendido a lá. Em outros momentos, a risada era tão contagiante e simplória, que mesmo não entendendo como e porquê, ria junto, acompanhava o ritmo de algumas palavras e durante as aulas entendia a piada dita há horas. Mas se continha, com um sorriso de canto.
No fim da quinta-feira, conseguiu se despedir a tempo, antes de cada um partir para seu respectivo lado, não precisou pensar em quais as palavras certas, só repetiu o mesmo que lhe fora gritado, complementando com o nome. Por incrível que se sentia por ter conseguido, sabia que demoraria a mudar a primeira impressão que tinham a seu respeito, no entanto, não tinha porquê se importar.
Não era como se quisesse ser aprovado por um grupo rebelde, apesar da intelectualidade deles, não eram religiosos, se conseguisse a confiança e a amizade deles, não mudaria nada. Seus pais não poderiam conhecê-los, portanto, não existia uma razão tangível para conquistar qualquer coisa a respeito deles, então, o que exatamente estava fazendo, e o mais importante, por quê?
O restante do dia, focou-se nas tarefas inexistentes, não existiam tarefas para casa, mas inventou mesmo assim o que fazer. Coletou os termos diferentes dos livros, os títulos que lhe chamaram atenção e os nomes em destaque, realizou pesquisas de todos os pontos a ponto de nada mais haver. Ele não queria estar de mente vazia, não queria fazer dela a oficina do diabo.
Quando decidiu olhar novamente os nomes da lista, lembrou-se de Kael e o desmembramento de seu nome. Talvez ele fosse o Diabo no final das contas, era dedicado às atividades mundanas, começou a listar mentalmente, sabia dissertar sobre tudo como se existisse há séculos, ele era curioso, perguntava bastante e não eram vagas as perguntas.
Era porta-voz das almas perdidas, não que isso fosse totalmente relevante nessa lista; ele parecia mau, mas era doce, o diabo veste prada, pois é elegante, não era seu caso, mas era elegante na postura. A confiança era palpável, não havia definição diferente do que a encarnação de um raio de sol.
Era belo, angelical, essa lista estava começando a soar estranha. Dono de um charme natural, mas era do estereótipo daquela terra conter beldades. A lista precisava parar por aqui. Pensava sobre isso mesmo evitando e desviando o olhar do papel pardo, deslocou-se de sua escrivaninha para a varanda, a vista panorâmica dava espaço suficiente para ver o pôr do sol.
Em síntese, declarava que de fato, com mente vazia o diabo fazia oficina, porém, em seu caso, seu diabo era diferente. Mais humano, com nome de anjo e de cortejos sutis, ele poderia não ser francês, mas era fruto do ar romântico e cômico.
— El este un cinic, asta-i!⁵
Percebeu ter falado em voz alta seus pensamentos, referente a lista de seu diabo e riu-se muito, uma gargalhada que há muito tempo não tinha. Quando as lágrimas caíram não sabia se era porque ria ou chorava, mas não importava muito.
Aquele sol refletia a visão daquele filho da anarquia, mas era um sol muito bonito em um céu mais lindo ainda, e assim que percebeu a beira da escuridão da noite em seu percalço, as estrelas apareciam.
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⁴ Em português, “Estou conversando com uma parede”.
⁵ Em português, “— Ele é um cínico, isso sim.”.
Espero que tenha gostado do capítulo de hoje, até a próxima!!!